13maio
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E um escadão pra que a gente se conheça e nos estimule para cima.

 

 

Em um belo fim de expediente, lá estava eu encarando a vista do mais temido e mais comentado objeto de desprezo de todos que trabalham comigo e que precisam enfrentar o mesmo empecilho todos os dias: o escadão da Vila Madalena. A primeira coisa que pensei, quando o encarei, bem como os seus arredores, com doses altíssimas de ineditismo, foi: esse lugar não presta, deve dar os maiores BOs aka assaltos. Uma pessoa que já foi assaltada parece reconhecer com um pouco mais de latência esses lugares, mas, como todos os humanos, podemos acertar ou errar. E a vida segue.

 

Para vocês visualizarem melhor: o escadão da Vila Madalena também pode ser dito como um lugar de pura magia ou de cenas dignas de um filme de terror — a dica de locação para os amigos filmmakers.

 

Nem havia se passado uma semana da mudança de localização da agência em que trabalho quando o aviso de perigo sobre o escadão aconteceu. Após o expediente, subindo-o acompanhada, rola o chamado de uma mulher que alerta sobre os muitos assaltos, que ali não é um bom lugar para se subir solitariamente e afins. Mensagem dada com sucesso. Se havia magia ali, graças às árvores e aos prédios residenciais, ela morreu rapidamente.

 

Essa mulher foi o que chamo de aparição do Mestre dos Magos. Ela simplesmente deu o aviso e zarpou da nossa vista.

 

E teve algumas vezes em que a vi e recebi o olhar do tipo: garota, você insiste?

 

{e desde então nunca mais a vi, vale mencionar}.

 

A título de informação: não há escapatória do escadão. Além dele, há a estação de metrô e o terminal de ônibus. A opção contrária é uma subida inclinadíssima — quem arquitetou a Vila Madalena não tem meu amor!

 

Sei que tem os perigos no escadão, mas há alguns instantes testemunhados que compensam o sufoco. E é sobre um deles que contarei hoje.

 

Em dias de chuva, o escadão tende a ser meio vazio. Tanto de manhã quanto no começo de noite. Independentemente do clima, o padrão é o mesmo: as pessoas descem no maior gás, mas o mesmo não é aplicável na subida. Como dizem lá na agência, fugir é fácil na descida, pois na subida você só se rende e é isso aí. E são esses dias que temo mais pela minha segurança.

 

O céu era cinza no dia de garoa em que não abri meu guarda-chuva — porque nada me faz abrir esse negócio a não ser que seja sob uma tempestade. Olhei para os lados, orando para que houvesse uma companhia, nem que fosse atrás de mim, mas não havia. Não tinha o que temer porque era horário de verão, mas não consigo me desligar quando algum pensamento intrusivo pipoca — e ele tende a ser permanente. Apertei o passo no primeiro lance, o que é um erro porque você começa a morrer sem ar, sem nem estar na metade do trajeto, e a chuva deu uma engrossadinha. Quando atingi o meio do caminho, sempre separada por ruas a se atravessar, o que dá chance de respiro, uma mulher surgiu ao meu lado com seu belíssimo guarda-chuva vermelho.

 

Ela sorriu para mim. Eu sorri de volta. Ela comentou uma coisa e outra sobre o escadão ser matador. Continuamos subindo, lado a lado, trocando amenidades até ela me oferecer uma carona em seu guarda-chuva.

 

A essa altura, a garoa deu outra engrossada e foi então que cedi ao meu guarda-chuva. Tirei-o da bolsa, agradecendo a gentileza da mulher de guarda-chuva vermelho. Trocamos mais algumas palavras até ela disparar na frente. O tempo ia ficando cada vez mais feio, mas eu não me importava. Afinal, eu fiquei realmente tocada pela gentileza dela em me fazer companhia para subir e, depois, me oferecer carona em seu guarda-chuva.

 

Nunca isso havia rolado comigo. Ainda mais em dias de chuva em que as pessoas simplesmente têm o dom de perderem a educação e o senso.

 

{como nem erguer o guarda-chuva, como se a obrigação fosse só sua}.

 

Esse ato de gentileza da mulher do guarda-chuva vermelho passou adiante. Testemunhei, antes mesmo do escadão finalizar, a poucos passos de distância de mim, a mesma mulher do guarda-chuva vermelho puxar papo com outra mulher, bem mais velha que eu. Trocaram amenidades e a carona foi ofertada. A mulher abordada aceitou porque ela estava claramente sem guarda-chuva.

 

Fiquei ali atrás, a passos lentos, absorvendo o ato de gentileza que me fez inseri-lo no meu pote da felicidade. Em dois atos. Tanto pelo que houve comigo quanto pelo que houve depois. É por cenas como aquela que vivo.

 

E a cena me lembrou do gif abaixo.

 

sisterhood

Gif de: Libby Vander Ploeg

 

Por ter pensado nesse gif, eu me senti verdadeiramente poderosa. Imbatível em subir aquele escadão. Não apenas mais que uma pessoa, mas uma mulher incrível na companhia de outras mulheres incríveis. Juntas rumo ao topo.

 

Mesmo de longe, me senti parte da carona entre as duas mulheres à minha frente e entreouvi a conversa que se seguiu dali em diante. Ambas foram juntas até o final e se separaram. Eu segui a linha reta, já sentindo a saudade do momento de sororidade.

 

E momentos como esse são capazes de colorir o dia mais cinza da minha vida.

 

O episódio foi tão marcante que, às vezes, me pego procurando a mulher do guarda-chuva vermelho. Várias chuvas abalaram o escadão da Vila Madalena, ao menos no horário que saio, mas nunca mais a vi. Tudo que sei é que esse momento trouxe gratidão. Fez-me relembrar que gentilezas podem ocorrer até em momentos que você precisa subir três lances de escada (isso sendo muito modesta) interruptívelmente.

 

Foi um instante de inspiração e que me ensinou algo que jamais tinha passado pela minha cabeça por eu simplesmente odiar o guarda-chuva: ao avistar uma mulher que precisa de cobertura, seja a cobertura dela. Você não sabe que magia pode haver entre duas mulheres compartilhando o artefato mais detestado de todos os tempos — e isso inclui até os mais estilosos, ok?

 

Foi um ato único e que moveu uma energia extremamente positiva no meu universo. Fez-me sorrir que nem uma idiota. Se eu tivesse mais cara de pau, com certeza abraçaria as duas e faria o giro idêntico que ocorre entre os vencedores de alguma brincadeira do Gugu. O que me restou foi guardar o momento no coração e esperar que um reencontro ocorra.

 

Ou que eu seja a mulher a estrelar de novo em: o guarda-chuva para duas mulheres.

 

Imagem de Destaque: Pixabay via Pexels

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Stefs
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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