14maio
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O tema de hoje é: o livramento da Stefs diante do FOMO de séries, livros e etc.. E eu usarei FOMO pela ausência de uma palavra melhor que expresse a verdade de que não dá mais para ser acumuladora aos 33 anos.

 

Não que idade seja um dilema, mas eu gosto de ter tempo de ir comer lanches sem me preocupar com a resenha do dia. Entendem? Não? Tudo bem. Eu explico.

 

Ser acumuladora, em um nível que considero básico, ocupou vários anos da minha vida. Espaços mais precisamente. Um comportamento inocente que começou com pastas e mais pastas de ídolos, cuja fórmula era básica. Bastava eu curtir alguém demais para começar a comprar tudo que envolvia esse alguém. Backstreet Boys, Leo DiCaprio, Britney Spears, Harry Potter. Tempos de ouro que, quando parei para refletir mais tarde, não foram rememorados com frequência. O que culminou no outro feito comum: socar tudo no fundo do guarda-roupa. Ato que também foi aplicado com cartas e outras memórias.

 

Quando digo rememorar, não menciono só a mente. Também incluo os sentidos. Um misto que gera o instante de tirar algo do guarda-roupa e explorá-lo com preciosidade. Como rever um álbum de fotografias. Situação que deixou de acontecer comigo conforme crescia. Porém, nada disso apagou os acúmulos sem acesso no fundo do guarda-roupa. Algumas partes caíram no esquecimento. Outras não me inspiravam o pique de pegar a escada e revisitá-las.

 

Mais tempo se passou. Tudo no mesmo lugar. Intocável. Ocupando espaço.

 

Foi em 2018 que notei o quanto eu precisava mudar isso. Justamente porque o quarto se tornou outra fonte que disparava minha ansiedade. Sua bagunça deixou de ser uma “razão de orgulho” ou de um reflexo de falta de tempo para representar um misto de estresse e de inquietação. Algo que eu achava muito normal, afinal, uma hora todo mundo tem os 10 segundos de ímpeto para arrumar algum canto da casa. O problema é quando você se vê vários dias assim e não sossega até ver tudo no lugar. Simplesmente porque esse canto parece inabitável.

 

Impressão que vem quase sempre de mão dada com a minha recém-descoberta ansiedade.

 

Livros no canto do computador. Bolsas penduradas. Roupas não muito bem dobradas ou que não são mais usadas. Pastas que ocupam espaço sem ter o menor sentido de ainda existirem… Eu precisava me livrar desse ambiente que não era uma muvuca completa. Na verdade, o problema era informação visual. Eu não tinha ponto de foco. Nem onde enfiar as coisas que fui comprando ao longo da vida.

 

Os 10 segundos aqui: eu precisava dar fim ao que não me agregava mais. Ação que afetou também meu modo de consumir entretenimento e roupas.

 

Lista de lançamentos. Fall season das séries. Filmes enfileirados no Torrent. Roupas que prometi que este ano usaria. Caminhos que sempre elevaram minha ansiedade. Como? O excesso de informação acumulada/empacada. Há dias que eu ignoro. Há outros que os 10 segundos vêm e preciso da limpa.

 

Tal processo de limpeza profunda não brotou do nada. Essa saga começou depois que eu assisti ao documentário Minimalism: A Documentary About the Important Things. Foi aí que eu comecei a questionar sobre esse montaréu de coisas. Sobre como eu queria melhorar meu espaço. Sobre o conteúdo que consumo. Tudo embasado no lema do minimalismo, o famoso menos é mais. Lema que tento manter ao meu redor na medida do possível.

 

Da mesma forma que o quarto bagunçado me deixa ansiosa, o mesmo vale para a quantidade de livros parados e de séries atrasadas. A desculpa do famoso arrumo, leio e vejo depois deixou de ser efetiva para mim. Eu passei a notar o problema de eu não funcionar com tanto ponto de acúmulo. Daí, como diria uma miga do job: algo de errado não estava certo.

 

Explicando melhor: quando eu olhava para a grade atrasada/livros empacados, lá vinham os ímpetos de deixar tudo em ordem. Tudo para acalmar a minha mente imersa no turbilhão ansioso. O prazer de marcar um episódio assistido não tinha muito a ver com alegria, mas com a sensação de que finalmente as coisas poderiam se acertar. Claro que não se acertavam, pois existia outros pontos de acúmulo para dar atenção. Outros, inclusive, invisíveis, pois estavam, logicamente, enfurnados na parte mais alta do guarda-roupa.

 

De algum modo, eu sempre tive a singela consciência de que consumir mais dentro de um tempo curto não me ajudava. E aí entra o FOMO. O medo de ficar de fora que, por muito tempo, falou mais alto na minha mente. É aqui que essa história se cruza, pois os pontos de acúmulo aumentaram também porque eu queria ter em mãos muito do que geral comentava ou compartilhava online. Tudo para não me sentir deslocada. O mesmo se aplicou para informações simples, que geravam o cretino “ah já sei” – e lá no fundo nem sabia nada.

 

O documentário me trouxe a verdade de que muito do que eu consumia não era uma decisão minha. Parecia que sim, mas não era. A propaganda comprova isso. Tão quanto as modas do momento. Muito pouco desses entretempos ficaram comigo e eu comprovei isso pela facilidade de doar meus livros. Alguns tinham ainda o plástico da compra. A denúncia do FOMO.

 

No quesito livros, por exemplo, os gastos eram desnecessários. Mas eu gastei para correr junto com o fluxo de novidades e isso aumentou o acúmulo de coisas paradas ao meu redor. E muitas dessas coisas se saíram como tapa buracos temporários que, mais adiante, perderam o sentido.

 

Esse foi o primeiro acúmulo que me incomodou por ser o ponto de foco assim que entro no quarto. Havia uma pilha para cada canto e isso deixou de ser uma visão agradável. Principalmente nos dias de faxina que se tornavam mais trabalhosos (e eu ficava com raiva porque o negócio parecia que nunca terminaria e eu só queria lanches).

 

Um tempinho depois de ver o mencionado documentário, me peguei para ter uma conversa séria. Eu precisava aceitar que eu não leria aqueles livros. Que não veria aquelas séries. Que o guarda-roupa era para roupas e não para outras coisas que não fossem pertinentes (e esse é meu pecado, porque eu preciso comprar um novo urgentemente).

 

Eu precisava deixar tudo e mais um pouco partir.

 

Livros. Séries. Roupas. Roupas íntimas. Pastas. Revistas. Materiais. Cartas de gente que nem sei onde está. Coisas de ex.

 

A outra conclusão? Eu notei que cada item que mandei embora não possuía mais preciosidade. Era impressão. Talvez, a necessidade de não deixar um momento ir. Principalmente quando repassei mentalmente a questão de validação e que combina bastante com o FOMO.

 

O que me faz cair brevemente no papo de energia do lugar e que eu acredito muito. Tirar tudo que não me agregava serviu para determinar alguns pontos finais. Inclusive, diminuiu bastante o peso que eu sentia de estar no meu próprio quarto. Fez-me até levar novas questões para a terapia. Meu fim de 2018 foi de pura expurgação e a melhor parte foi perceber que o ambiente que mais ocupo no apartamento parecia finalmente respirar.

 

Revendo meu consumo diário

 

Livros Doados - Arquivo Pessoal

Parte da pilha de livros doados para um sebo (Foto: arquivo pessoal)

 

Além da ansiedade, esses pontos de acúmulo entregavam uma mentira: eu não estava dando conta.

 

Conta do quê? 1. De ler um livro em uma semana. 2. De matar uma série no final de semana. 3. de não doar as roupas que, lá no fundo, eu sabia que nunca usaria, mas persistia. As cobranças que, definitivamente, eu não precisava. Não quando atingi meu auge de que o melhor da vida está em uma padaria comendo croissant na chapa com requeijão.

 

Quem não tem ansiedade com certeza tira isso de letra. Aliás, é bem capaz que alguém chame isso de falta de organização ou sei lá o quê. Bem, não é. O relacionamento com entretenimento, por exemplo, é de cada um sim. Porém, o que o status ansioso bota na mente diante desses conteúdos pode pedir uma ação da pessoa a fim de reverter o pensamento. De rever a situação como ela é. E, se a gente não se ajuda, compreendendo que o pouco que fazemos, por exemplo, é o suficiente para aquele dia, o quadro se repete e se alastra.

 

Isso é só uma camada desse assunto. Dizendo por mim, eu acreditei que minhas sensações de incômodo e essas cobranças sem fundamento eram meramente ilustrativas. Principalmente porque eu tenho este site e quis crer que organização me ajudaria. Ajudar, ajudou, até a perda de controle.

 

Em outras palavras, passar uma coisa em cima da outra. Querer postar todo dia quando não existe tal necessidade. É provável que quem lida diretamente com conteúdo entenda bem o que eu quero dizer. É muita série por segundo, por exemplo, e se você não tem uma equipe para te ajudar, bem…

 

O trato do menos é mais se deu também em um ponto da minha vida que eu não via claramente graças à sua aparente normalidade: comprar para preencher vazio. As minhas visitas a papelarias serviram de wake up call visto que eu sempre saía com um caderno novo. Presa à ideia de que “dessa vez eu daria um jeito nos meus projetos e etc.”. Obviamente que não. Assim como a comida, as compras intentavam tapar buracos. Buracos que não se fechavam. Eu tive que parar, pois dinheiro desperdiçado. De quebra, se exigia um espaço que não existia no cafofo.

 

Um cafofo que, inclusive, divido com a minha sis. Ele não é grande, o que rendeu mais dificuldades de encontrar a solução para tanto ponto de acúmulo. Nisso, veio o documentário que me inspirou a rever o que existia de escorado. E, como disse, esse processo começou com os livros. Muitos foram embora no ano passado e a parte positiva foi ver meus novos livros em um lugar decente. Sem ser espremidos.

 

Fato que me fez tomar a decisão de comprar e-book daqui por diante. Algo que já falhei por motivos de “preciso arrumar minha vida”. A “desculpite” de compra para preencher o vazio. Estou mais vigilante, mas tem horas que…

 

Ao terminar a expurgação, o FOMO se revelou com outro peso na minha vida. Para mim, essa palavra funciona mais no sentido da falsa necessidade de ver/ler tudo que está em alta. Eu nunca tive essa necessidade, mas me tornei um tipo de receptáculo dos excessos. Razão de impulso ao pensamento ansioso de preciso ver, preciso ler, preciso, preciso, preciso. Para chegar no fim e perguntar o que geral bebeu ao achar conteúdo X bom.

 

E eu poderia dar exemplos ao vivo, mas perderia amizades. Gosto é gosto, né?

 

Dessa forma, o denominador negativo do FOMO + pontos de acúmulo foi: exaustão da minha saúde mental. Parecia que eu sempre tinha que trabalhar/me atentar o dobro do dobro. Justamente porque o FOMO traz o princípio da cobrança de que você tem que ler, ver, comprar, estar. Se você não acompanha a maré, você automaticamente é uma alienígena. O FOMO traz essa energia de participação excessiva sendo que, na moral, ninguém é HD externo.

 

Na moral², a mente não reterá tudo de uma vez. Você só acumulará coisa sem sentido aí no seu cérebro bonitinho.

 

Ou, na pior das hipóteses, perderá tempo quando poderia ter escolhido algo melhor.

 

Como tomar sorvete na praça.

 

Hoje, eu tenho mais discernimento de que não ver a série da moda não me torna deslocada. Ou, caso perguntem, menos jornalista. Ao aderir o menos é mais, nas partes possíveis da minha rotina, eu recuperei meu poder de escolha. Além disso, eu retomei a noção do que eu gosto de verdade e do que me interessa pra valer em determinado instante.

 

Vale dizer que há pessoas que contribuem para o FOMO graças ao famoso mas nossa você não assiste Game of Thrones que tipo de pessoa você é??? Eu saí desse questionamento, pois não ajuda ninguém, nem me ajuda e não torna ninguém especial. É uma cobrança 100% desnecessária até porque vem com a pitada de chacota e de inferiorização por idiotice da parte de quem pergunta.

 

Ai, eu me exaltei!

 

Essa atitude de menos é mais também caiu como uma luva para reconhecer o que me levava a cobrir os dias da bad. A ansiedade tem o talento de provocar uma espiral mental que, por vezes, me faz procrastinar em um sentido nada positivo. Há o adiamento e aí eu extrapolo no consumo de TV. Uma vez que saio dessa bolha de consumo, sinto culpa por não ter feito algo de útil.

 

Teve um fim de semana bem recente que eu vi 6 filmes. Uma atitude aparentemente inocente, mas, lá no fundo, eu tentava fugir da minha cabeça. Reflexo de uma semana inteira com picos de ansiedade e, ao contrário do passado, em que eu deixava tudo acumular, levei o caso para a terapia.

 

O binge-watching tem essa de tapar vazios sendo que o que precisamos fazer é endereçar o vazio. Perguntar de onde isso vem. Às vezes, isso falha. Vejam bem, eu consumi 6 filmes na virada de um final de semana. O que pode soar pouco, mas, para quem se limita a 2, o quadro foi de perda de controle.

 

Depois que rolou tudo isso (e mais um pouco), questionar me ajuda a rever o que quero consumir. Vale a pena? Eu preciso? É isso que eu quero? Ou é só para ocupar espaço e que espaço? Qual é a utilidade?

 

Essas são minhas perguntas diante do catálogo atualizado da Netflix, por exemplo. Ação que parou uma vez que eu me habituei a ignorar o FOMO. Hoje, eu quero atender ao que eu sinto no momento. Ao que acredito ser adequado. O que entra no papo de intuição que ninguém quer saber, mas eu a escuto, ok? Essa vozinha tem me rendido bons frutos desde que mudei minha forma de consumo (dentro dos tópicos mencionados neste post).

 

Revendo o sentimento

 

Anna Kendrick em "Um Pequeno Favor"

 

FOMO: sigla de autoria de Patrick J. McGinnis que significa “fear of missing out”.

 

A era da Peak TV veio para facilitar, mas é margem ao FOMO. Há a falsa sensação de que você escolhe o que assistir e não é bem assim. Afinal, a propaganda entrega o que é hot para ver no final de semana. A página inicial dos streamings normalmente não inspira a ir além dela. E os próprios streamings não dão folga nos lançamentos.

 

Você acha que escolhe, mas é quase certo que a newsletter é o suficiente para furar a fila do que já está acumulado. Crente de que o depois chegará para tudo ficar em dia.

 

Eu fui essa pessoa e cansei do ciclo repetitivo chamado depois eu vejo. Esse depois já virou nunca a partir do momento que eu deixei para depois.

 

Bem redundante assim mesmo.

 

depois tem um efeito muro entre você e o que você curte de verdade. Outro ponto que eu tinha me esquecido já que eu estava ocupada com o que era trend.

 

Claro que nada disso impede de você curtir a série ou o livro hot do momento. Mas, dizendo por mim, depois desses meses no menos é mais, eu percebi que me tornei ausente da emoção básica que me move: o sentimento.

 

Antes, eu me atropelava para ser participante. Agora, eu dou amém por me sentir isolada (#JOMO). Essa foi uma das melhores coisas que comecei a fazer no ano passado por mim e isso me trouxe alguns presentes:

 

❣ Eu escolho mais atentamente o que quero ver;

❣ Eu passo mais tempo com a série/livro (e confesso que, às vezes, é irritante);

❣ Eu acompanho no meu tempo tudo o que rolou nos bastidores;

❣ Eu não me preocupo com o acúmulo de outras séries/livros em stand-by (eu ganho do TV Time agora e não ele de mim. Até porque eu tirei tudo que não queria mais ver da grade);

❣ Eu passo mais tempo refletindo sobre o que vi/li sem colocar mais coisa em cima;

❣ Criei a regra de compra: se uma roupa/sapato entra, alguma coisa tem que sair e ser doada;

❣ Minha ansiedade agradece a todos esses itens.

 

Obviamente que essas regras não se aplicam a quem trabalha e depende do consumo de séries e livros para ter seu negócio funcionando. Como não é meu caso, bem, eis o resultado: uma ilha de paz. Eu mudei de comportamento e tenho reaprendido a ocupar os espaços sem acúmulo. Para alguns, isso se chama Marie Kondo – e eu tenho medo do que essa série pode me causar, porque eu não ando pensando muito na hora de despachar coisas da minha vida. O mesmo para as pessoas, não mentirei.

 

Mas, pelo que ouvi sobre a Kondo, tenho que concordar sobre a questão do sentimento. O que me faz mencionar outro ponto do documentário sobre minimalismo: para que juntar coisas que não têm mais função ou sentido na sua vida? Para que acumular se isso fecha o cerco para o novo entrar? E isso também vale para as pessoas.

 

Ao menos, é o que acredito.

 

Esse processo me deu outro mimo pessoal: me atentar a necessidade do meu momento. Eu tinha me esquecido como é isso por causa do FOMO, sério. Ao diminuir a quantidade de coisas, eu abri um vão em que tenho mais liberdade de escolha. Mais tempo também. Tudo porque eu tenho me escutado antes de apertar o play.

 

O que me faz entrar no item de passar mais tempo com o conteúdo. Pela pressa, eu não curtia o momento. Nem me dava o direito a uma reprise e fazia tempo que eu não reprisava as coisas. Afinal, eu tinha que ver o outro filme logo. Por quais motivos eu perderia tempo vendo o mesmo filme de novo?

 

Um Pequeno Favor que o diga sobre reprises.

 

E Taylor Swift também.

 

★ Uns empecilhos que a gente coloca e que não possuem o menor cabimento. Parece até besta quando você tira a viseira e encara o quadro geral. ★

 

Não sou mais tão urgente como antes. Não nesses aspectos. Meu sonho de princesa é adotar o minimalismo totalmente, mas eu precisarei da minha Casa nº5. Mas eu posso me contentar em estar mais perto de ser JOMO. A pessoa que tem um imenso prazer em estar de fora.

 

Fato que só tem tido uma regra de exceção: o (des)governo.

 

Ouvir a minha necessidade interior, ou o como me sinto propriamente falando, me deixou mais cuidadosa. Esse negócio de binge-watching é tiro no meu pé. As poucas vezes em que me aventurei dessa forma deixou o questionamento sobre o motivo de fazê-lo. Não fez sentido para mim, especialmente porque eu saio exausta. De quebra, não faço mais nada no respectivo dia – o que entra no lance da ansiosa que se sente culpada. Ok que minha introversão ama hibernação, mas, como tudo na vida, há alguns limites. E menciono isso também porque é importante.

 

Esse modo de comportamento também vale para os famosos gatilhos. É ótimo todo mundo ver algo na minha frente, porque, se tiver algo que não presta, eu sei de antemão. Não sei vocês, mas isso se configura em um auxílio normalmente negligenciado: autocuidado. O que você transfere para dentro de si tem um efeito e é preciso mensurá-lo. Seja antes ou depois.

 

Eu tenho refletido mil vezes sobre seguir com um conteúdo que aborda estupro, por exemplo. Game of Thrones eu deixei passar e me pergunto sempre o motivo. Por outro lado, o resultado desse questionamento me fez abandonar Outlander. A autora não abriu mão de adaptar os estupros de seus livros e, me usando do ditado popular, não sou obrigada, sabem?

 

Eu sei que muitas pessoas ficam bem consumindo muito. Tão quanto sei que há sites que precisam estar atentos para produzir conteúdo. E está tudo bem! Desde que não seja tão nocivo.

 

No fim, eu vi que muito do meu consumo era dominado pelo FOMO. E foi bastante libertador doar vários livros tão quanto abandonar séries atrasadas.

 

Eu tive que desacelerar para o meu próprio bem e tem sido bom me indagar sobre querer e precisar. Nisso, eu estou reaprendendo a preencher meu tempo, cuja primeira lei é: o que eu preciso? 

 

Há falhas nesse plano. Como em qualquer outro. Uma hora o equilíbrio se perde, mas eu não desisto de ser mais responsável nesses quesitos. Ainda mais quando eu recebi o bilhete da ansiedade.

 

Entretenimento está aí para ser curtido. Como todos os lugares de um quarto. Nada disso tem que ser gancho para piorar o bem-estar.

 

Ansiedade e efeito +30

 

Anna Kendrick em "Um Pequeno Favor"

 

Parece até que tudo isso veio do nada, ou somente pela influência do documentário, mas há outra verdade embutida: completei 33 anos. Por meio das reviravoltas da vida, eu vi que algumas coisas deixaram de ornar com boa parte da minha personalidade. Roupas e livros, mais precisamente. Juntando com os pontos de acúmulo, bem, pensem na quantidade de saco que usei para botar ordem na zona.

 

Do ano passado pra cá, notei que meus gostos mudaram. Notei também que os conteúdos que eu acompanhava não me interessam mais (como as séries em andamento que eu assistia e dei adeus para todas). De certo modo, eu tinha que tirar esse “peso na consciência” de não ter a série em dia, porque, visto minha rotina, era exigir demais. E isso se refletiu no Hey, Random Girl!. Eu transmutei para uma nova linha do tempo e pretendo descobrir qualé que é.

 

Um descobrir que já me deu alguns sinais. Como a facilidade de reconhecer o que não mais me serve. Pouco a pouco, eu fui saindo de uma zona que me estressava e ver o processo foi bom. Quebrei várias amarras invisíveis.

 

O outro lado da moeda é que eu tenho este site e quem trabalha com conteúdo precisa de conteúdo para se atualizar. Isso dificultou bastante meu retorno ao Hey, Random Girl!. Voltei a me questionar os motivos de ainda blogar visto que meu consumo de entretenimento diminuiu consideravelmente. Faria resenhas? Veria tudo que tem buzz? Voltaria a ver premiações?

 

Let it go.

 

Vocês não sabem o desespero que rolou quando me perguntei o que diabos continuaria escrevendo aqui. Por isso que esse vão sem acúmulos tem se tornado importante. Além de interessante. Só assim para eu me consultar antes de consumir alguma coisa. E isso vem da inspiração e da intuição.

 

É uma experiência magnífica você sentar e pensar que gostaria de ver coisa tal porque você acha que precisa. Algo que rolou comigo durante a maratona de Jessica Jones. Ação que eu tomei como negativa, pois, no frame seguinte da vida, eu lidei com o reavivar de um trauma. E essa série me ajudou a passar por isso.

 

O que me faz comentar que tudo que assisti do ano passado pra cá teve um motivo. Com o motivo, eu ganhei o marco. Jessica Jones, Sweet/Vicious, The Bold Type… Até ver Reign partiu de um propósito que coincidiu com a época em que eu estava no meu curso de jornalismo de moda para revistas. Foi nesse entretempo que me toquei sobre o quanto de tempo eu fique distante desse tipo de drama histórico que é, sem dúvidas, um dos meus gêneros favoritos.

 

Em conversa com uma amiga, ela corroborou com o que descobri ser importante: olhar bem para o que você bota dentro de si. Como disse, é autocuidado também, ainda mais para quem tem ansiedade. Não é muito saudável já ter a ansiedade e ainda ter que correr contra o FOMO. É nocivo!

 

E nocivo não é a palavra que eu quero na linha do tempo dos 33 anos.

 

Hoje, eu acredito que temos que ser nosso próprio crítico diante do que consumimos. Não somente sobre séries e afins, mas sobre tudo. Porque afeta tudo. Você. O meio (e podem incluir o meio ambiente). Sei que rola preguiça em fugir do buzz porque o buzz dá tudo pronto. Mas é bom refletir sobre onde vai seu dinheiro e seu tempo. Tem muita porcaria sendo produzida e que esconde, por exemplo, o que há além dos lançamentos.

 

Enfim. É realmente uma questão de escolha e escolher mais tem me ajudado.

 

Deixo meu conselho aprendido no documentário (que logo menos postarei a resenha): se você percebe que séries, livros ou todo um espaço te afeta negativamente, questione. Questione se isso ou aquilo ainda agrega na sua vida. Perceba se não tem algo empacado, como o livro que te impede de avançar para outro quando é óbvio que você quer largar a leitura.

 

Aos ansiosos, prestem atenção no como você sente. No meu caso, é uma ansiedade “leve”, mas influente o suficiente para engatilhar culpa e cobrança sobre o que não existe.

 

Lembrando que essa é minha experiência. De uma mulher de 33 anos que deixou o YA para trás (e imagino que não totalmente, mas não é prioridade, se é que um dia foi). Que reconheceu que não dá para manter o mesmo pique de consumo. Que precisava abrir espaço para o novo eu entrar. Um eu que sente saudade sim da era do fandom, mas escolheu deixar tudo na memória em vez de pastas e mais pastas que impediam o novo de ocupar tais ambientes.

 

É isso, preciosos! Encerro o tema de hoje já pensando no que mais tirar do quarto. ❤

 

E deixo um texto para vocês compreenderem o que é FOMO resumidamente.

 

Imagens: “Um Pequeno Favor” via KissThemGoodbye

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Stefs
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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