19maio
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Lembro-me como se fosse ontem do meu encantamento pelo universo online. Eu não sabia muito bem para o que ele servia, a não ser para abrir janelas rumo a outros universos.

 

Sites sobre Dawson’s Creek. Um GeoCities sobre Wicca. Um grupo do Yahoo! sobre os Backstreet Boys. Um início de relacionamento experimental que não demorou a se tornar viciante. Uma pena que, nesse início, eu só conseguia ter acesso no colégio. E me divertia imprimindo páginas que nada tinham a ver com o trabalho de Geografia – e a tática era sempre misturar a ordem das impressões para sair ganhando.

 

Não lembro exatamente do ano em que ganhei meu primeiro computador, mas creio que foi em 2002. Ele era bem bonitinho. Todo branco. Com teclado azul. Apaixonei-me à primeira vista ainda sem ter ideia de como aquele aparelho me abriria para novos universos dentro de casa. Então, tateei. Jogos. Ferramentas. CDs que vinham com a tarja Enhanced, ou seja, com conteúdo extra que nem precisava de acesso à internet.

 

Meu …Baby One More Time vivia quente de tanto que eu o colocava nessa máquina.

 

Tinha até um Karaokê instalado que vira e mexe eu usava para cantar no quarto sozinha.

 

Depois dos itens offline básicos, eu descobri os famosos CDs da AOL. Aí veio a internet juntamente com o Discador do IG. Daí veio o bate-papo da própria AOL. O bate-papo do UOL. O ICQ. O e-mail. Não exatamente nessa ordem.

 

Nesse mesmo 2002, eu me vi em um processo de mudança inesperado. Mudei de colégio. E esse colégio não era como meu colégio antigo. Lá, tinha esse negócio de curso técnico. Informática. Administração. Não lembro dos demais, mas, pela dica da minha mãe, escolhi informática.

 

Não me pareceu uma boa ideia, porque eu perderia matérias no processo. Mas fui lidar com computadores. Com a casca dessa máquina.

 

Criar cabo de rede. Mexer no Microsoft Access. Não tinha nenhum laboratório para eu imprimir imagens dos meus crushes da internet. Internet que sempre gerava bronca lá em casa, porque eu só podia usar na madrugada. Meramente porque era mais barato.

 

Mesmo com a chave para outros universos, não criei nenhum para mim. Honestamente, eu nem me lembro sobre o quê acessava visto que, nessa época, ainda se prezava o contato pessoalmente. Ainda existia CDs antes do MP3 bombar. VHS antes de filmes e séries em .MKV. Havia muito entretenimento do lado de fora e o computador acabou sendo essencialmente uma ferramenta de trabalho. Fosse escolar ou não.

 

Esse viés ganhou uma mudança quando Harry Potter entrou na minha vida. Em alguma parte de 2004. Timeline em que comecei a usar desse universo online fervorosamente. De um jeito que a conta de telefone vinha praticamente no teto. Sinais do meu tempo de escape.

 

Os blogs se tornaram companhia em alguma parte desse mesmo ano. Participei de fóruns de discussão também, o lugar em que comecei a publicar fanfics de Harry Potter. Não posso me esquecer dos próprios sites de fanfics que garantiam certo anonimato por meio de nicknames relacionados a algum personagem da saga. Mais experiências, cujo objetivo era me sentir pertencente e ativa. Menos sozinha.

 

Quando paro para pensar, eu nunca tive um diário pessoal na internet. Na verdade, eu jogava RPG, o que tornava minha escrita uma função para encarnar um tipo de personagem.

 

A internet me propiciou afazeres também. Brinquei com HTML. Com imagem, GIF e etc.. Fiz curso de HTML, Flash, Dreamweaver em influência do meu técnico em informática (e também porque eram os ditos meios para arrumar um job legal). De um jeito ou de outro, esse mundo online sempre esteve comigo. Muito antes da ideia de fazer jornalismo e não sei até hoje se uma coisa se entrelaça na outra.

 

O máximo de aproximação que tive com a área jornalística foi por meio de revistas. Eu fui totalmente ausente em Rádio e TV, embora visse novelas. Naquela época, rádio e TV eram só aparelhos. Em um eu escutava CDs. No outro eu via meus filmes VHS. Fim.

 

Foi em 2011 (ao menos no que consigo recordar) que eu, Stefs Lima, entrei na internet. Friso assim porque eu existi nesse universo com nicknames e/ou em função de outros universos (tipo Twilight). Depois de muitas tentativas de blog, este nenê nasceu batizado de Bipolar Taste. Um nome problemático e que me incomodou dias depois.

 

Incômodo que fez nascer o que hoje se chama Hey! Random Girl.

 

Era 2012 quando comecei efetivamente com o Hey! Random Girl e a minha situação pessoal refletia extrema confusão e exaustão que se dividiu em dois entretempos. 1. último semestre. 2. a vida após a formatura. Creio que o meu acúmulo de problemas emocionais se deu nessa fase, mas, de todo modo, criar este site me serviu para tapar outros novos buracos.

 

Como em 2004, eu não pensava no que se desdobrava ao meu redor. Eu não sabia bem o que fazia, mas segui a cartilha raiz que eu conhecia desde as aventuras com Harry Potter.

 

Crie um blog. Escolha o layout. Escreva sobre qualquer coisa.

 

Claro que eu tive uma inspiração extra e pouco comentada: o professor de Web da faculdade. Ele era tão apaixonado por internet e por criar conteúdo nessa área. Isso me contagiou bastante na época. Não é à toa que eu assumi a responsabilidade desse produto jornalístico e a nota extremamente positiva me animou ainda mais.

 

Eu escrevia aqui em meio a essas intersecções universitárias que logo incluíram o TCC. Muita coisa acontecendo e eu não pensei no objetivo de ter um blog visto que eu apenas seguira o conselho do professor de Rádio. Conselho que, para clarear as mentes que leem este texto, me direcionou para o que eu gostaria de desenvolver como jornalista.

 

Ao menos, é o que eu acredito, porque funcionou rápida e efetivamente.

 

Foi um momento-marco, porque eu estava decidida a trancar o curso. Sem contar que me sentia incompetente já que eu “não conseguia” me envolver com Rádio – e consequentemente com TV. Quando me encontrei no curso, já era o último semestre. E, depois, só patinei. Não caí, ao menos não na produção, pois o Hey! Random Girl se tornou uma âncora.

 

É bem verdade que o universo online passou a ter sentido para mim quando tive aula sobre e pratiquei na faculdade. Um sentido que se fortaleceu mais quando eu descobri que sou introvertida. Um feito de 2016. A ação de estar atrás de um computador/celular, botando pra quebrar, sempre me apeteceu. Tão quanto sentar para escrever e esquecer que duvido um pouco de mim.

 

Em suma, ter este universo me deu, e ainda dá, a chance para que eu seja apenas eu.

 

Eu não sabia que criar meu próprio universo online daria certo. E por tanto tempo! Não por questão de grana (eu não monetizo), mas porque eu vi que sou capaz de fazer outra coisa que nada tinha a ver com os 10 mandamentos do jornalismo. Inclusive, pouco a pouco eu consegui me encontrar.

 

Este site representa uma resposta que, às vezes, eu ignoro. No caso, de ser boa em algo.

 

A vida dupla

 

conexão via internet da AOL

 

Assim que saí da faculdade, ganhei novas responsabilidades. Com isso, o tempo para me dedicar a este site encolheu. Por outro lado, me dediquei. Dormia tarde para dar conta das resenhas. Tirava um bloco de horas no domingo para escrever. Meu encantamento me movia e a inspiração vinha a torto e a direito. E, parte disso, veio em efeito do meu primeiro trabalho depois de formada, que me ajudou a manter um ritmo positivo para criar um universo online cada vez melhor.

 

Porém, e como tudo na vida, esses picos de inspiração foram embora. Com isso, se abriu o momento que corresponde ao questionamento: devo parar ou continuar?

 

Eu mantive a ordem na casa. Mesmo trabalhando. Mesmo duvidando do processo. De certo modo, e com todos meus pensamentos sabotadores, eu encaixei meu cronograma e foi reconfortante. 2013 foi um ano ótimo. 2014 se saiu como o ano em que me firmei tanto no site quanto na escrita. As coisas mudaram em 2015, com grandes novidades, mas 2016 foi a queda brusca.

 

Até que o universo ao meu redor parou.

 

Quando tudo voltou a funcionar, lá no entretempo 2017-2018, veio outro questionamento: insistir neste site não é perda de tempo? Insight da manutenção de uma nova vida dupla. Eu não conseguia mais me dividir em duas. Não como antes e isso me frustrou. Era bizarro eu ter conseguido equilibrar tudo no passado e ser incapaz de repetir no presente.

 

Eu gosto de ter tempo para tudo e deixar minhas coisas à mercê do nada se tornou uma grande fonte de estresse. Tal falta de tempo contribuiu para que eu deletasse minhas ideias. Para que eu publicasse o que dava. Sendo que este site é muito mais que um universo. Aqui também é a vitrine em que mostro do que sou capaz visto que os trabalhos em agência não me dão portfólio em texto.

 

O que, podem acreditar, não é tão importante para mim. Não tanto quanto o fato de que cada ano do Hey! Random Girl é um entretempo em que muitas coisas aconteceram e se alteraram. Ver o quanto você mudou por meio de um universo online é bem mágico.

 

Independentemente das intempéries, cada ano me mostrou o quanto eu gosto de criar conteúdo online. Mesmo sendo, às vezes, exaustivo. Mesmo sendo, às vezes, um grande inimigo da ansiedade. Ano a ano, este universo me mostrou que existe por um motivo. E esse motivo foi me permitir a ser em dias bons e ruins – e essa última parte eu credito ao Neil Gaiman.

 

De quebra, me ajudou a encontrar a minha voz. Uma voz que não nasceu na turma de jornalismo. Nasceu aqui junto com outros eventos.

 

Hoje, há um misto de válvula de escape e de lar nesta casinha. Eu sempre me senti muito à parte. Sempre achei que, para existir, eu precisava ou ser puxa-saco, sanguessuga, escorada ou dependente. Sem saber, eu fui me reconstruindo. Eu criei um espelho que me inspira a tirar galáxias e perturbações de mim para expô-las em palavras. Como antes. A diferença é que quem fala dessa vez sou eu. Não há nenhum nickname que me proteja como antigamente.

 

É difícil manter o que você curte junto ao que você não curte tanto assim. É muito desagradável, mas, pelo menos, há dias bons. Aqueles dias de chegar em casa e pensar vamos produzir. Vamos criar algo novo em um canto que é uma extensão do nosso ser. Um canto, cuja função predominante é nos fazer lembrar de quem somos na medida do possível. Afinal, tocamos de novo a nossa pessoalidade.

 

De fato, muito do que vivi na faculdade não me desanimou. Na verdade, me estimulou a estar aqui. Isso que chamo de paradoxo.

 

O mesmo sobre o primeiro job que eu tive depois de formada.

 

O barato mais legal de ainda escrever conteúdo online é que há registros do seu crescimento. Como o próprio portfólio, que pode ser unicamente a vitrine sobre sua vida aqui.

 

Desbravar vs. desistir

 

Lisa (Os Simpsons) navegando na internet

 

Este é um universo que, apesar de tudo, eu tento ser verdadeira com o que sinto. Eu gosto de dar atenção ao que eu sinto. No como eu vejo o mundo. Como tal situação ou conteúdo cultural moveu minhas estribeiras. Ponto de vista que está atrelado a muitos universos, não somente aos encontrados online. Há vídeos e podcasts inspiradores por aí.

 

Eu me botei tantos bloqueios e a vida me deu tantos outros. Combo que tornou facílimo o abandono da essência dos meus projetos. A essência de ter um espaço para ser de verdade. Para entregar parte do meu mundo na torcida de que alguém o divida comigo.

 

E essa é uma das maiores graças de estar online. Sempre tem alguém à espera de um mundo para chamar de seu. Ou muito interessado em criar seu próprio mundo – que foi o meu caso.

 

Revisitar meus projetos deu parte das razões de eu ainda “blogar”. E parto do que pode soar clichê: deixar alguma marca neste mundo cada vez mais confuso e inseguro. Essa é a real razão para eu ainda insistir neste e no meu outro universo (Contra as Feras). Eu tenho essa coisa de querer que minhas palavras atinjam várias pessoas. Não precisa ser milhões. Duas já me são o bastante.

 

E meu maior ganho pessoal tem sido reciprocidade. As webnamoradas e os webnamorados.

 

Os comentários quilométricos.

 

As experiências que botei aqui.

 

O universo online é a ferramenta que desbravei (e desbravo) quando acreditei que não tinha referência jornalística. Quando acreditei que estava sozinha. Quando acreditei que não teria uma carreira. Sei que este mesmo universo está longe de ser seguro e saudável hoje em dia, mas são nessas horas que penso no quanto ele é essencial. Tanto para jornalistas desempregados quanto para quem quer ser ativista e não sabe por onde começar. A internet pode ser o bad place, mas também pode ser o good place se usada corretamente. Para gerar algum bem.

 

O Hey! Random Girl nasceu de uma insatisfação pessoal e profissional. A história que todo mundo já conhece. De um sentimento conturbado, eu criei uma casa online, cuja meta sempre foi me expressar do jeito que a faculdade não me permitiu. Expressar-me com sentimento e profundidade. O conselho que recebi do profº de Rádio pode ter sido o 1º estopim para este universo nascer, mas, quando analiso toda a timeline, aqui reflete uma questão de sobrevivência. O movimento para balancear a gravidade das coisas.

 

Escrever conteúdo online é o meio que ainda tenho de me expressar. Com job ou não. Com bloqueio ou sem bloqueio. Talvez, como jornalista. Eu posso ter sido destronada todas as vezes que me disseram que escrever não era o suficiente para o jornalismo, mas escrever é minha ferramenta. Reconhecer e aceitar isso foi muito importante para o meu retorno. Eu tive que confrontar o ditado de mãe: você não é todo mundo. E todo mundo não é você.

 

Nada disso me blindou contra o desânimo que a vida dupla me criou. Com isso, novos conceitos de desistência. Lá em 2011/2012, eu desistia por não me sentir segura. Por achar tudo ruim. Por temer julgamentos. Não que isso tenha mudado, mas, anos depois, eu me debati com a dita falta de tempo. É excruciante e prometi não pensar mais assim em 2019. A sensação que isso dá é de estar em um espaço apertadíssimo sem possibilidade de sair. Literalmente, você se debate.

 

E toda essa trajetória de anos completos ou truncados me entregou uma única verdade. Eu dei todas as chances ao Hey! Random Girl. Contudo, eu não me dei uma chance de verdade para apenas ser, pois chegara um instante em que comecei a me cobrar demais. Além disso, chegou o instante em que me posicionei no ponto X sem saber quem me tornei e para onde ir.

 

Apesar de contraditório, eu sinto que nunca dei a atenção que este, e outros projetos, merecem. Pode ser porque não estava pronta. Pode ser porque eu precisava amadurecer. Enfim. Pode ser por N coisas.

 

Mas, quando vejo o agora, as mudanças ecoam ao meu redor e pedem para que sejam abraçadas. Não há o que temer. Não como antes.

 

Às vezes, eu negligencio o momento de sentir orgulho de mim e dos meus feitos. Este é um lugar que tenho muito orgulho. Tanto pela existência quanto por eu ter levantado esta casa sozinha. O que traduz o fato de que, de todos os investimentos que eu fiz para manter este site, eu esquecia do essencial: eu mesma.

 

E não existe universo sem sua presença na jornada.

 

Eu poderia dizer que ainda insisto no universo online porque sou jornalista. Talvez sim. Talvez não. Algo sempre me faz voltar para esse entretempo universitário, como para me reconciliar. Revisitando materiais antigos do curso, vi ecos de quem eu me tornaria. Ao menos uma parte corresponde, juro! Mas tal evento pode ter começado muito antes. Naquele dia em que minha mãe disse para eu fazer curso técnico em informática.

 

Isso quer dizer que tudo se transformou em um mar de maravilhas? Depende do ponto de vista. Não ganho dinheiro por aqui, caso perguntem. Penso que seria o menor dos impasses, considerando que ainda lido com meus bloqueios e receios. Com o complexo de inferioridade. Mas, também de algum modo, isso e mais um pouco me serviram para continuar. Mesmo quando eu queria que tudo parasse.

 

E, mesmo que pare, outros universos continuam. De qualquer jeito, fica nas minhas mãos o silêncio ou a vontade de continuar escrevendo a minha própria história neste universo online.

 

Seja em tempo bom ou ruim.

 

Imagem: Rawpixel

Gifs via Gyphy

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Stefs
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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