07jun
Arquivado em: Filmes

Era fevereiro quando eu vi pela primeira vez o trailer de Suprema. Foi em uma sessão de Se a Rua Beale Falasse, marcando a fase Oscar em que eu só dei bola para filme com diversidade e/ou que não tivesse nenhum engajamento problemático. Por estar tão fora do que condizia a Sétima Arte, saber que haveria um filme com um contexto, por assim dizer, de empoderamento feminino, me deixou bastante emocionada. Além de me perguntar em que planeta me enfiei.

 

Assim, quando eu contei para vocês que me ausentei de tudo, eu me ausentei de tudo em 2018.

 

Suprema (On the Basis of Sex) estreou no Brasil em março. Mês que me poupa de explicações. Porém, posso frisar que o lançamento foi muito bem pensado, embora não tenha rolado tanta divulgação. Capaz que soubessem que o filme não duraria muito nos cinemas visto que Capitã Marvel ocupou a grande maioria das salas e da atenção pública. Algo que eu particularmente senti, pois, por muito pouco, eu não consegui ver Felicity Jones em tela enorme.

 

Ao ver o trailer, meus olhos deram aquela breve suadinha e eu fiquei toda arrepiada. Nasceu uma angústia apesar de imaginar que a premissa poderia ser nada além de mais uma história de empoderamento com frase de impacto. Por causa dessas sensações, esse filme, que marcou o retorno de Mimi Leder para a cadeira de direção, criou uma risca mental. Eu precisava vê-lo e não sossegaria até ter esse desejo atendido (e quase desisti pela falta de sessão).

 

Pois então que eu fui e não me decepcionei. Está aí um filme que eu veria 100 vezes. Apesar de alguns momentos , o longa, assinado por Daniel Stiepleman, próprio sobrinho de RBG, me conquistou completamente.

 

Suprema - Resenha

 

O filme abre em 1956. Em um montaréu de homens, acompanhamos a jovem Ruth Bader Ginsburg, ou Ruthie na intimidade, em um tipo de caminhada da vitória. Afinal, a pequena mulher, interpretada por Felicity Jones, ingressa em seu primeiro dia em Harvard com o desejo de se tornar uma advogada. Um evento que não é surpresa nos tempos atuais, mas, nesse período, as mulheres contavam com limite de vagas. Aqui, somente 9 podiam ingressar nesse curso e Ruth foi uma delas. Conquista que não foi vista com alegria por eles, mas sim como petulância da parte dela.

 

Essa primeira cena de Suprema me tocou profundamente, pois retornei à minha época no curso de jornalismo e que tenho pensado muito ultimamente. A caminhada de Ruth para dentro da universidade, entre homens altos, brancos, possivelmente todos heterossexuais, endossa o antigo motto de que o mundo é masculino e que só os homens estão autorizados a ter sucesso. Isso me fez refletir sobre as linhas que me encolheram ao longo do meu curso, pois tem horas que bato de frente com a ideia de jerico de que homem tem um espaço para se expressar já pronto. Daí me recordo da sensação correspondente ao “fato” de que não existia lugar para mulheres nessa área a não ser que se aspirasse a ser a “garota o tempo”.  Era um inferno, real e oficial!

 

Na época de Ruth era dito que só os homens poderiam exercer a advocacia justamente por ser uma profissão “que precisa de um caráter firme”. Ou seja, de um caráter masculino. A “figura de autoridade”. Supostamente, mulheres são incapazes de se posicionar dessa forma devido às suas emoções. Uma nuance que Suprema trisca ao longo da trajetória de sua protagonista por meio da relação dela com o marido. E isso arde no âmago!

 

Ruth se mostra consciente de que ser mulher em Harvard é um impasse. Contudo, o choque vem na rotina. Um tipo de choque que não a encolhe. Na verdade, torna tudo mais desafiador. É lá que ela vê como ser mulher é realmente um problema, porque qualquer um preferiria vê-la em casa. Obviamente, cuidando do marido, dos filhos e afins. Mesmo consciente do que quer e da sua inteligência, a personagem passa pela experiência universitária acompanhada pela discriminação de gênero.

 

Suprema - Resenha

 

Há um tremendo esforço, especialmente da parte do reitor, de fazê-la se sentir desconfortável por ocupar um lugar de outro homem. Um desconforto que reflete nas tentativas de inspirá-la, junto com as poucas colegas de classe (que não trocam ideia entre si), a desistir de estudar. Há várias cenas significativas ao longo de Suprema para expressar que elas não são bem-vindas e destaco o jantar dos alunos de Direito. Inclusive, o instante em que ela é rudemente interrompida em sala de aula.

 

O bacana é que Ruth tem muitas camadas que contribuem para os conflitos do filme. Conflitos esses que transitam dentro do tema de discriminação de gênero. Ela é esposa e mãe, mas isso não a limita do desejo de ter uma formação. Martin, ou Marty, seu marido, interpretado por Armie Hammer, a apoia a todo instante, muito embora exista um momento em que ela segura toda a bronca visto que ele fica muito doente. Com isso, tomando a responsabilidade dos deveres universitários dele (porque assim quis).

 

Mesmo com seus claros esforços e com sua sagacidade, os professores a ignoram. O reitor é um pé no saco. As mulheres ainda não possuíam aquele senso de que poderiam se unir contra isso. Literalmente, cada uma está por si e Ruth entrega autoconsciência de causa. Ela rebate o que vem em sua direção com graciosa ironia. Em nenhum instante a personagem abaixa a cabeça, pois seu passo é firme, como no primeiro dia em que adentra na universidade. Porém, não quer dizer que ela é inumana e eis aqui o ponto forte da caracterização de Jones: Ruth não é imbatível.

 

Suprema traz um caminho em que a protagonista, apesar da destreza e do conhecimento, não é absoluta. Foi muito legal acompanhar uma personagem que tem receio, treme, se irrita. Foi fácil me relacionar, especialmente quando ela dá de cara com um caso que toca seu nervo. Um nervo que, com a transição do filme, age em picos junto ao desenvolvimento. Foi importantíssima essa parte da caracterização, pois, apesar de RBG ser absoluta atualmente, não se poderia esquecer de que houve um antes a tudo isso.

 

Suprema - Resenha

 

A trama salta para 1959. O ínterim do roteiro que passa um tanto mais rápido para situar o casal depois da formação. Enquanto Marty tem um job, Ruth capenga de escritório em escritório. Há uma cena de assédio (que fica implícita) que é muito enojante. Sem poder algum de ser a advogada que almeja, em uma grande firma e com grandes casos enfiados dentro da maleta de trabalho, ela decide pelo ensino acadêmico. Lugar que soa como o único para qualquer mulher atuar. E, no caso da protagonista, realizar um tipo de diferença que tanto deseja desde que se livrou da faculdade.

 

O contraste da vulnerabilidade de Ruth vem ao longo das interações com o marido. Interações bem proporcionais e dinâmicas, vale dizer. Ele também faz Direito e, ao contrário dela, é visto como o Deus da advocacia. Ah, mas ele fez algo de especial para esse rótulo? Não. Ele é o Deus da advocacia justamente por ser apenas homem. Com isso, a imagem da força e da segurança.

 

Conforme se compara a trajetória de ambos, parece que Marty nunca ficou doente. Por ser homem, ele consegue ter uma carreira sólida. Ruth nem chega perto e isso é visto quando o roteiro salta para 1959. Já formada, ela surge frustrada visto que não acha jobs. Justamente por ser mulher.

 

Vê-se no transcorrer do filme que a diferença de altura entre os atores não pareceu nem um pouco ilustrativa. Durante as interações do casal, chega a ser cômico (e fofo) notar que Ruth é bem mais baixa que Martin. Os ângulos das filmagens destacam esse ponto e reforçam a mensagem de que, independentemente deles se gostarem e se respeitarem, há a sombra da diferença de gênero. Ele a vê como a Deusa do Direito e por onde quer que ela passe. Ela é tudo para ele! Contudo, o mundo lá fora não a vê sob seus olhos. O que o torna a maior âncora do progresso dela na carreira.

 

O que pode soar negativo, mas vamos lembrar da época. E mesmo com a época, o filme traz equiparidade entre os personagens. Marty e Ruth conversam muito de igual para igual, dividem as tarefas domésticas, e é apaixonante. Por meio de uma briga-chave, ele toma consciência de que há um problema de gênero no Direito (e em tudo). Que a frustração da esposa não encaixa no famoso não precisa ficar triste, porque uma hora as coisas dão certo. Ele enxerga a diferença de relevância entre ambos que diz que a mulher não atingirá uma consolidação na carreira em um mundo (dito) dos homens.

 

A trajetória de Ruth é o cerne desta história. Entretanto, Marty é a chave da porta que parece impossível para Ruth alcançar e abrir. A força motriz da personagem é a família e é aí que vemos que ela não é uma máquina. Que ela não é absoluta. De 1956 a 1970, ela amadurece a consciência de discriminação de gênero. Ela mesma passa por isso e vê que “não há chances de se conquistar algo por mérito”. Não nesse entretempo. O que traz aquele momento de conformismo.

 

Suprema tem um ponto de vista que reforça a questão de que o homem precisa sair e abrir espaço para a mulher passar. E para o homem sair do meio é preciso da realização de que mulher não é inanimada. De que ela não está ali só de enfeite. Outra dificuldade que Ruth enfrenta e Martin vem como seu mais leal aliado.

 

Suprema - Resenha

 

Vamos para 1970 em outro salto do roteiro. Período em que a protagonista caminha para mais uma transição: dentro de outra universidade como professora. Em segundos, se vê que ela não tem problema com a expressão política da época (as manifestações contra a guerra do Vietnã). Uma época que também foi marco para o feminismo emergente e que trouxe nomes como Gloria Steinem – que é mencionada no filme e que Jane, a filha, é admiradora.

 

Ela dá aula de discriminação sexual e gênero. Na única cena trazida pelo filme, se vê que, por ter passado por isso, há uma emoção, quase uma raiva internalizada, que a abate conforme discute sobre o fato de que a discriminação com base no sexo era legal naquela época (e em outras épocas). Menção suficiente para sabermos como se desenvolveu sua carreira com o passar dos anos. Tudo lindo, se não fosse outra sutil abordagem do roteiro que encaixa o famoso (e necessário) conflito de gerações entre mãe e filha. Um eixo importantíssimo para o desenvolvimento rumo ao final. Além da diferença entre gênero, o tempo também é tema visto que somente a partir da compreensão do choque entre épocas que a protagonista conseguirá a mudança que abre para sua carreira como a vemos hoje.

 

Para tensionar mais, essa é a década que se vê novos atritos entre Martin e ela. As lembranças do passado também. Ambos colidem até mesmo por intermédio de personagens secundários. De novo, atritos que não se esquecem de frisar a questão de gênero. Maus bocados que iluminam mais a presença dele. Estresse que a deixa impotente. Definitivamente, a carreira do personagem de Armie é o agente provocador. Fato que entra embaixo da pele de Ruth, que segue sedenta por mais.

 

Além do sucesso de Martin, a autoconsciência dela, que se fortalece entre os anos, em querer uma carreira como a dele (ou melhor) também é uma ponte inimiga. Ano a ano, ela não se conforma com os padrões da época, mas se estabelece nele – e isso se torna forte crítica da filha. Justamente porque a época não lhe deu abertura e daí o marido entra como impulso dentro do meu mencionado pensamento de que ele foi a chave do início de seu futuro.

 

Mesmo sendo professora, ainda se vê aquela nuance de não querer estar ali. Mesmo em um lugar quentinho, que lhe dá a falsa sensação de que exerce sua formação, ela não engole esse “fim de carreira”. E ela é alfinetada de todo canto e não tem como segurar determinadas estribeiras.

 

Sorria mais, eles disseram

 

Resenha - Suprema

 

Os anos 70 vem queimando e isso se reflete no lar de Ruth. Nada como sentir a diferença de época na própria convivência e o filme vai dando densidade a esse quesito. A treta-chave entre Jane e ela serve para alimentar um pensamento que fará toda a diferença na conclusão da trama. O fio mental que inspirará ainda mais a protagonista a moldar sua jornada do jeito que sempre quis.

 

Entendido de que a esposa não “reclama” só pela necessidade de “reclamar” sobre a carreira ser um fiasco, Martin repassa, em crise de consciência, um caso de tribunal fiscal (que é da firma onde ele trabalha). Não qualquer caso, mas um que envolve discriminação de gênero. De início, ela não tem interesse até compreender as entrelinhas. É quando a luz retorna aos seus olhos tão quanto o desejo de realizar uma diferença no tribunal. Algo muito incerto, pois, de novo, como confiar em uma mulher? Ainda mais advogada? Ainda mais que nunca exerceu a profissão do “jeito que um homem faria”?

 

Quando ela saca isso, o jogo de câmera se faz crucial. O movimento cresce com ela, tornando-a a única voz pertinente da sala. E Martin ri, por já saber dessa entrelinha do caso que largou na mão da esposa sem muitas explicações.

 

Um caso que envolve Charlie que não consegue ser enfermeiro da sua mãe por ser homem. Por lei, isso não é possível e não foi por falta dele tentar. O que se traduz em: homens não são sujeitos a prestar esse papel por ele ser exclusivamente feminino. Preferencialmente de uma mulher solteira. Uma clara discriminação de gênero contra um homem, mas que afeta a intenção de mulheres a terem outras carreiras que não seja de somente cuidadora.

 

A partir daí, o filme realça essa discrepância por meio do preparo de Ruth para entrar em tribunal pela primeira vez. O que fortalece ainda mais a nuance que pesou para Suprema se tornar meu mais novo querido: a vulnerabilidade.

 

Sabemos que, atualmente, a verdadeira Ruth é popstar. Porém, esta cinebiografia retrata uma história de Origem inspirada em um caso que fatidicamente ocorreu. Por ser uma história de Origem, volto no que disse sobre a protagonista ser humana. Ela entrega seu despreparo diante de uma responsabilidade enorme. Da qual realmente não tem experiência e seria surreal se ela já soubesse o que fazer.

 

Claro que o despreparo é um ponto usado contra a protagonista. Suas oscilações emocionais e sua demasiada paixão em defender o que acredita faz Mel, interpretado por Justin Theroux, querer trocá-la por Martin (ou por qualquer outro homem). Ele foi o primeiro a dizer que seria melhor outro alguém para endereçar o caso e isso provoca a ira de Ruth que segue rumo à total queda dos ânimos.

 

Logicamente que nessa sinuca de bico está Martin. O homem. Presença forte. Tem segurança. Sem nesga emocional. Criando oposição em presença com Ruth, a mulher. Insegura. Emocional. Muito apaixonada. Não sorri tanto. É inquieta, tensa e sem firmeza. Quem a ouviria? Não tem como levá-la a sério.

 

Suprema - Resenha

 

Daí se tem a ironia. Ruth atua em um caso de discriminação com base no gênero e ela é reduzida por isso o tempo inteiro. Logo, se vê que o primeiro degrau da trajetória da real Ruth foi complexo. O filme resvala nessa complexidade, mas, entrega que, para além de um caso, ela tinha que se provar. 100 vezes mais que um homem, hétero, branco – o perfil do marido.

 

Antes de se tocar disso, ela ouve que precisa mudar seus trejeitos. Sorrir um tantinho mais. Ser mais agradável. Não assumir tanta rigidez, porque essa característica é do homem e só no homem cai bem. Ou muita proximidade. Ou expressar que tem vontade de subir na mesa da Corte e botar fogo. Mesmo que o caso tenha sido dado a ela, com o apoio do marido que se torna sua sombra, Ruth é sabotada pelo seu gênero.

 

A mulher tem que ser sempre amável para ser levada a sério. Enquanto isso, tudo bem o homem criar caos dentro de um Senado, por exemplo. É sinal de que eles trabalham e se importam enquanto elas são apenas umas “emocionalmente desvairadas”. Não foi fácil para Ruth seguir como seguiu em uma época que não dava tanta voz para as mulheres. Mas ela foi lá e fez.

 

Ao longo do filme, ela lidou, inclusive, com o retorno das sombras da universidade. Dos homens que repetem o processo de provocar sua desistência. É quando o roteiro atinge a queda e Ruth é indagada pelo seu cliente sobre todas as pessoas que ela deixaria de ajudar se não fosse adiante. Nisso, o que move sua paixão é inflamado e a personagem volta a assumir o que batalhou tanto para alcançar em um tribunal.

 

Ruth usa a chave que Martin lhe deu e abre a porta. Passa por ela dentro da sua própria essência. Essência que se tornou devota aos assuntos que envolvem gênero. Mesmo que o marido fosse o dito (teoricamente) importante, ao ponto de ser inserido para apresentar o caso ao júri, a fim de refletir que nada nesse quesito muda de uma hora para a outra, é ela quem comanda. É ela quem traz o fim satisfatório que, como sabemos, foi o primeiro passo para a notoriedade profissional da real RBG.

 

O fim vem com as frases de efeito vistos no trailer, mas não deixa de ser gratificante. Em vez de torná-la uma mulher irredutível, ou a famosa mulher que só vê o dela e que é ovacionada por praticamente nada, ou a megera, Felicity e sua Ruth entregam firmeza e sensibilidade em cada linha do roteiro. A atriz entrega uma atuação extremamente sólida e só posso dizer que esse mérito veio, porque escreveram uma mulher real. Com defeitos e inseguranças.

 

Uma mulher que simplesmente achou que não teria espaço e o encontrou. Em um famoso clima que muitos chamariam de salto de fé.

 

Mimos e incômodos

 

Suprema - Resenha

 

Apesar do feminismo tocado pelo filme no arco de 1970, o tocante em Ruth é sua determinação de fazer o que é certo em nome de um futuro melhor. Parte da sua inspiração vem da filha, que é um dos pontos fracos da trama justamente por conta dos seus diálogos que não ornam tanto assim com o período de Suprema.

 

As falas de Jane pareciam quotes de empoderamento de Instagram. O mesmo para a classe de Ruth que, pelo trailer, acreditei que seria de grande influência na trama. Principalmente por ter algumas mulheres negras. Infelizmente, esse bloco de personagens não agregou muito ao roteiro e eu esperava que sim. Ainda mais por esse viés pertencer à sequência de Suprema nos anos 70.

 

Li em uma resenha que esse grupo de personagens parecia a Geração Z e concordo. Esse foi o único ponto de estranheza, porque Jane não parecia muito caracterizada dentro do discurso de empoderamento do seu tempo. Pode ser apenas impressão minha, mas, de certo modo, o filme intentou enlaçar uma conversa mais jovem e tudo bem. Só poderia ter sido mais verossímil com a época.

 

Houve outro ponto de incômodo que foi com relação à crítica de Jane sobre a forma de exercer ativismo dentro do feminismo. Mãe e filha se desentendem em boa parte do filme, justamente por questões da diferença do pensamento da época. Ruth dá a impressão de que segue subordinada ao marido, de que é muito rígida (o que não é uma mentira) e dona da razão enquanto Jane é fã de Gloria Steinem. Em um rompante de briga, a adolescente afirma que ficar em uma sala conversando não é ação, mas terapia (e nem é isso que a protagonista faz). Daí, minutos depois, ela menciona os grupos de conscientização que foram uma das mais importantes expressões do feminismo daquela época (#bellhooks).

 

Há várias formas de exercer ativismo ou fala política. Muito se diz sobre ir para a rua, mas nem todos se identificam com esse tipo de expressão. Eu digo isso por mim, cujos chamados me deixavam culpada até eu me convencer de que atos não são para mim. É desonesto “cobrar” e pedir ação na rua como prova do que você acredita. Just saying…

 

Também vale dizer que eu fiquei com a impressão de que Jane criticava Ruth por ser casada. Ou pelo fato de que a mãe simplesmente “desistiu” de ir adiante na carreira. Questões que não ficaram muito claras, mas passam totalmente batidas.

 

De resto, Suprema foi puro mimo.

 

Concluindo

 

Suprema - Resenha

 

Apesar de muitos terem esperado que Suprema fosse impecável como o documentário RBG, o ângulo que o roteiro deste filme trouxe foi o de como tudo começou. É uma abordagem simples, que trouxe uma história simples, mas que mostra por meio de sua protagonista que ninguém nasce 100% pronta. Ruth para ser a Ruth de agora teve que passar por isso. Teve que enfrentar seus próprios fantasmas e os conflitos diante da “verdade” de que seu marido “sempre seria a melhor opção”. Tudo sem ter ideia de que esse caso a tornaria uma mulher tão influente hoje em dia.

 

Podemos ter noção do que queremos em algum ponto da vida, mas é na prática que vem o tudo ou nada. Ruth só queria uma diferença e foi o tribunal que a desafiou. Ela entrou para provar a discriminação (ainda) persistente de gênero. Ela quis vencer diante dos homens machistas que não atualizam as leis para segurar seu teto de vidro.

 

No fim de tudo, Ruth se encontrou na ação. Com todos seus sentimentos. Com toda sua paixão.

 

Jones entrega uma mulher com medo de não cumprir o prometido. Quem nunca lidou com isso, né? Passo a passo desse caso, ela engole sapo e ouve que é fraca demais para isso. Ela escuta que suas emoções precisam ser substituídas por assertividade. Em suma, foi-lhe exigido postura masculina. Por essas e outras, há o instante de desistência. Porém, o salto para o voo retorna e ela de novo caminha em direção ao seu desejo, sem hesitar.

 

É sua persistência e vulnerabilidade que a tornam especial. O mix que gera a aproximação por uma mulher que decide assumir uma responsabilidade enorme em um tempo não correspondente. Ela sempre soube onde queria chegar. Contudo, não havia espaço. Até ela mesma criar um.

 

Daí voltamos à frase-chave de Suprema: se a lei não mudar junto com a manifestação da época, não há mudança. Fiquei refletindo sobre isso e até que concordo. Hoje, muitos grupos vão às ruas para defender direitos em meio a um governo conservador e que aponta para os tempos da jovem Ruth (só que pior). Mulher tem que ficar em casa. Manifestação é balbúrdia. De novo, estamos nas mãos de homens que formalizam leis conforme o tempo de suas mentes enquanto o que precisamos é de avanço. Por de novo esses tipos de homens tomarem o poder, em um tempo que não se quer retrocesso, se perde as chances de um futuro mais justo e seguro para todos.

 

Nisso, eu entro na maior mensagem que tirei de Suprema. Ruth tem um desejo comum de muitas mulheres que é abrir espaço. Mesmo que o cliente fosse homem, ela pensou nas mulheres. E graças a mulheres como Ruth que eu tenho vários direitos nos tempos atuais. Direitos que o governo atual quer tirar. Um governo que é branco e masculino. Como no filme, um teto de vidro que resiste em dizer que o mundo é dos homens.

 

Felizmente temos Ruth que comandam com graciosidade e sensibilidade. Que comandam como mulheres.

 

Apesar do martelo que decide sobre questões de gênero ainda ser masculino, especialmente no que condiz ao corpo feminino e seus direitos reprodutivos, mulheres como Ruth são desafiadas o tempo inteiro visto que suas competências “não importam” ou “são duvidosas”. Ainda mais quando se navega na emoção, pois emoção não faz parte de uma Corte. Uma Corte que tem que se manter masculina. Como, teoricamente, praticamente tudo!

 

Suprema instigou muitas emoções dentro de mim. Há a entrega da prova de que há construções sociais embasadas em gênero ainda hoje e que precisam ser diluídas não só no mundo do Direito. Há a inspiração de conhecer mais uma história feminina e ir mais além do que já existe por aí.

 

Por ser uma história de Origem, Suprema incita esse sentimento de que você também pode. Tudo bem que a protagonista é branca, mas a mensagem é importante. O texto inspira a ser melhor dentro do que você pode oferecer ao mundo. A não desistir, mesmo que o mundo lá fora diga que você é absolutamente incapaz ou que só um homem pode realizar o seu trabalho.

 

E a música da Kesha dá uma legitimada nesse resultado.

 

Apesar de Martin ter sido a chave do início da carreira de Ruth, ela quem abriu a porta e foi além. Ele foi o início do trajeto nesta cinebiografia e ela o cimentou de acordo com sua vibração interior. Além do mais, tendo como inspiração outras mulheres do passado que lutaram e fracassaram na mesma causa. Foram elas que impulsionaram a mudança no seu presente. O que calha na curta participação de Kathy Bates.

 

Aqui temos uma história de ascensão, o que a tornou de certa forma intimista para mim. A trama conversou comigo o tempo todo e meus olhos não se desprenderam um segundo da protagonista. Jones está maravilhosa nesse início de saga que abriu caminho para uma verdadeira rockstar. Que, inclusive, aparece no final do filme.

 

Eu superrecomendo Suprema. Sem dúvidas, um dos melhores filmes até então do meu 2019. Ele me ensinou que todas as qualidades que você pode considerar uma (dita) fraqueza são, na verdade, seus pontos fortes. E que você precisa seguir sua intuição, mesmo com uma arquibancada do contra.

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Stefs
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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