02jul
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Eu não sou aficionada (ainda) pelo universo de heroínas e afins. Meu conhecimento é para além do baixo, mas se pode dizer que o meu envolvimento nessa área se deu justamente por meio daquelas que “ninguém lembra”. A mais popular seria Jessica Jones e, mais atualmente, Peggy Carter. Do lado não tão popular está a Garota Esquilo e os mutantes dos quadrinhos NYX. Histórias que eu escolhi conhecer em algum momento da minha vida – e que, de certo modo, se encaixaram perfeitamente. Há os X-Men também, mas meu discernimento ainda é meio a desejar.

 

A real é que eu não me envolvo com heróis de uniforme. Ah, mas todos têm uniformes!!! Mas eu não gosto do endeusamento que vem embutido aos trajes (e eu me vejo sempre desconfortável com determinados uniformes femininos, não mentirei). Do jeito em que a roupagem chega primeiro e não o personagem. Algo que sinto demais com a DC e eu fico 100% meh!

 

O que não é muito diferente quando o assunto é Marvel (mas em um nível de 2% visto que eu me identifico mais com essa empresa). A própria Capitã Marvel, aka Carol Danvers, é um tipo de heroína que jamais cairia no meu radar. Não por conta própria. Mas ela caiu, como podem notar. Porém, demorou. Primeiramente porque eu me distanciei de todo o hype. De quebra, revirei os olhos dezenas de vezes com a firula de quem era melhor que quem e etc.. Preguiça!

 

Obviamente que Carol Danvers reuniu muitos motivos para eu tê-la negado de primeira. Além do uniforme e do hype, a personagem reacendeu o papo de representatividade feminina no cinema. Ainda tenho minhas questões sobre isso, mas não é o tema deste post.

 

Por mais que eu curtisse a Brie, eu sabia que a Brie não me levaria ao cinema por meio dessa personagem. Fui tapeada e o tapeamento começou quando eu li os quadrinhos da Jessica Jones. Ao descobrir que Carol e ela têm uma ligação, o benefício da dúvida nasceu. Com isso, naveguei em um volume do quadrinho da Capitã Marvel (disponível gratuitamente no Kindle). Foi uma experiência bacana, mas não houve apelo emocional. Quem me conhece, sabe que eu só trabalho assim.

 

Normalmente, eu não ligo para os superpoderes. Eu mesma não me lembro de todos os poderes dos super-heróis, porque eu fico focada na mensagem que esses personagens têm a transmitir. Por essas e outras que ninguém toca em Jessica Jones, por exemplo, porque eu vejo verossimilhanças.

 

(e não me lembro perfeitamente dos poderes dela a não ser a extrema força, vejam bem).

 

Capitã Marvel é puro sci-fi visto que a história não ocorre só na Terra. Não há nada de soft e essa informação é o bastante para me distanciar também. Pode ser que o Volume que li sobre essa heroína não faça jus ao que ela oferece, mas não me vi inspirada a continuar. O que entrega que meu gosto tem risca. Eu sou 100% sci-fi soft.

 

Ah, mas você não é fã de Doctor Who? Bastante, mas é fato que me envolvo com as storylines que emanam sci-fi soft (justamente aquelas que os fãs mais chatos menosprezam e eu defendo sim).

 

A experiência com o quadrinho que li da Capitã Marvel me deu a dosagem de conhecimento que eu precisava para encarar o filme. Apesar de não ter rolado um engajamento emocional, eu ri várias vezes ao longo da leitura. Amei o humor dela. Curti a maneira como ela entra em ação por conta própria e  como ela faz tudo ao seu redor ser relevante. Detalhes que eu capturei no texto e vi no cinema, em um belo sábado em que eu me sentia uma completa zero à esquerda.

 

Algo me chamava para ver esse filme e assim eu fui. Vestindo meu coração de Jessica Jones.

 

 

Recorrentemente, eu sou abordada e dominada por alguma ideia fixa. Ou por uma sensação fixa. De modo que vira e mexe essa ideia/sensação retorna para avisar que eu preciso responder à ideia/sensação. Normalmente, eu encaro isso como um sinal do universo e sei que o universo não me deixará em paz até eu fazer o que eu tenho que fazer. Justamente porque sou norteada a obter algum tipo de lição que poderá me ajudar a atravessar algum período difícil. E, este ano, os períodos difíceis seguem muito firmes e ir ao cinema (sempre que posso) tem me dado forças.

 

Seja lá o que isso signifique é algo como: sabe aquele livro? Que tal você lê-lo agora?

 

Podem chamar isso de poder da intuição.

 

Eu atravessei março ignorando Capitã Marvel, mas o sentimento de que eu tinha que assisti-lo me acompanhou. Eu cheguei a ver Suprema na frente, um filme que foi lançado depois do início da saga de Carol Danvers nos cinemas. Exemplo em que eu não sosseguei até comprar meu ingresso.

 

Com Capitã Marvel foi a mesma coisa. A questão foi encontrar sessão, porque a pessoa aqui resolveu ver este filme perto de abril aka perto das vendas para Vingadores: Ultimato. Para piorar, eu fui ao cinema no pior dia que é sábado. Eu gosto de curtir essa experiência na semana, mas a Marvel me ouviu e deixou uma fileira só para mim. Nisso, consegui liberdade para chorar em paz.

 

Algo que eu não esperava que acontecesse, pois, como disse, Carol passou por mim bem suave na nave.

 

Carol Danvers: a emparedada

 

 

Jessica me levou à Carol Danvers que, ao longo do seu filme, é chamada de Vers. Fato que a tornou um tanto estranha para mim, pois não bateu com o que eu li no quadrinho. E tudo bem até aí, porque tal dado fez parte do plot. Um dado, de muitos outros, que eu não estava a par. Eu cheguei ao cinema sem ter lido notícia ou visto entrevista sobre o processo de produção de Capitã Marvel. Eu simplesmente paguei pelo ingresso sem saber o que eu veria por duas horas.

 

Eu gosto muito de histórias de Origem. Principalmente quando elas entregam elementos que passam a compor/ou compuseram a minha vida. Neste caso, o único dado 100% que eu tinha é que o roteiro de Capitã Marvel transcorreria nos anos 90 e ver isso de perto aqueceu meu coração. Afinal, essa foi a década em que eu cresci e eu chorei inside várias vezes. A Blockbuster, o bipe do Fury, a trilha sonora, a internet discada, o figurino humano da Carol e da Maria. Mesmo sem esperar um soco emocional, eu recebi esse soco e me senti em casa. Ai, Gabi, só quem viveu sabe!

 

A trajetória de Vers foi verossímil para mim não somente pela época que ela caiu de balão. A minha relação também veio com a questão da privação de emoções. Viés que se saiu como principal tema do roteiro de Capitã Marvel. Um tema que tem sido recorrente em vários filmes com personagens femininas em destaque, inclusive, como o mencionado Suprema. Aqui, a influência de Yon‑Rogg, personagem de Jude Law, me fez ranger os dentes nos primeiros minutos (e eu nem imaginava quem seria esse cretino na fila do café). Quando saí do cinema, notei que esse foi o ponto que mais me marcou, porque eu sempre fui a jovem de “cara feia”. A jovem do “coração de pedra”.

 

A jovem que chorava escondido e, com isso, compartimentalizava suas emoções. Mal sabiam que tudo estava dentro do meu ser, internalizado e reprimido. Como aconteceu com Vers, sempre tendo sua atenção chamada para a importância de não ser vulnerável. De deixar o que sente de fora pelo pressuposto de que sentir é uma reação exclusivamente feminina. De que ela devia ser mais como ele, controlado. Assertivo. Lógico. Dona da consciência de quando e como fazer sem influência mental, pois somente assim seria possível controlar seus superpoderes. De quebra, manter a segurança de quem considerou um bom amigo que a manteve enjaulada por ter o que ele não tinha.

 

Ou seja: os superpoderes.

 

O julgamento de que Vers precisava segurar as emoções porque as emoções a deixavam “mais fraca” mexeu com um dos meus nervos mais sensíveis. Ficou evidente, durante a dança entre esses dois personagens, de que a meta era projetar a protagonista aos comportamentos masculinos para ser levada a sério. Yon‑Rogg fez várias referências machistas sobre ser mulher e não ter controle. Algo que pelo menos uma mulher já ouviu em sua vida, o que tornou o discurso desse cidadão palpável, conveniente e manipulativo. Gerador de culpa a quem controlava – uma mulher que queria acessar o passado e ter mais liberdade na hora de agir em determinadas missões.

 

Yon-Rogg reflete manipulação em todos os sentidos possíveis e inimagináveis. Justamente porque ele queria mantê-la à sua imagem e ausente das suas origens. Tiros que saem pela culatra durante a falha de uma missão e os passos conseguintes. Entre altos e baixos, que a aproximam de seus superpoderes, Vers para na Terra. Lugar que não tem ideia de como funciona, mas que chama sua atenção. E fica ainda mais interessante quando seu caminho se entrecruza com o de Fury. O verdadeiro alicerce da heroína que ainda não se reconhece como Capitã Marvel.

 

Conforme cada empecilho, que caminha ao lado das tentativas de resgatá-la da Terra, fica claro que a missão da protagonista não é apenas retornar para a aba de Yon-Rogg ou somente fazê-la descobrir a verdade por detrás da conquista de seus superpoderes. A meta é inspirá-la a refazer o percurso para se reconectar com sua origem e descortinar sua verdadeira identidade que não tem nada de Vers. Só assim para ela sentir o peso das medidas de um cara que via como exemplo. Um cara que só queria controlá-la e que encontrou nas emoções o melhor suporte para mantê-la alinhada com o presente.

 

Um presente que é ele. A artimanha do homem em fazer a mulher se esquecer do passado visto que ele é o centro do universo que pode mantê-la a salvo. Ata!

 

Vivemos em um mundo que ainda veta o sentir. Que ainda nos faz engolir o que sentimos em vez de batermos um papo sério para aliviar o nosso fardo. Mulheres e mais mulheres se calam por achar que suas necessidades emocionais não são importantes, pois, desde muito cedo, a atenção feminina é desviada. Seja para que ela não acesse seu poder interior. Seja para crer que ter um homem basta para tudo. Ao longo de Capitã Marvel, o trabalho de Yon‑Rogg é convencer que Vers não precisa de outro alguém a não ser dele. Ato que resultou no isolamento que a tornou alienada de si mesma.

 

Yon‑Rogg está ali para cortar qualquer conexão dela com o passado. Afinal, ele é o presente e ele basta. O personagem a vigia para mantê-la distante de um mundo que vive em seu interior e que seu inconsciente manda sinais. Um mundo que pede uma reivindicação, porque só assim para Vers preencher a brecha mental da sua amnésia. Sem saber, ela precisava se reconstruir e, assim como na vida real, o aparente cuidado do personagem de Law não era ato de fraternidade. Ele não cuidava. Na verdade, ele a emparedava, com direito ao que chamo de “coleira” no pescoço dela.

 

Uma tecnologia que reforçou o senso de controle de Yon‑Rogg.

 

Vers foi repreendida “carinhosamente” por Yon-Rogg quando tentava compreender suas memórias – sendo que as memórias a tornariam inteira. Inclusive, quando ela não controlava os poderes que a transformaram – e que ele usou para reforçar sua falta de “humanidade”. Mantê-la livre para ser e estar em contato com seu poder interior/exterior estava fora de cogitação visto que, de qualquer ângulo, ela era uma ameaça ao homem por ser mais forte.

 

O que abre para a contradição do controle de emoções. De certo modo, Yon-Rogg também a cutucava para vê-la perder o controle. Outra brecha para “aconselhá-la” a ficar quietinha e “não acarretar outros danos”. Ele reforça a alienação dela sobre si mesma, tornando-a mais inanimada. Quando ela se vê livre pela primeira vez, o que vemos é uma super-heroína 100% tangível.

 

Ao açoitá-la pelo emocional, Yon‑Rogg criava uma Vers meio que dependente. Descaracterizada. Quando ela se vê livre, mesmo que momentaneamente, outros ares a conduz. Outra mulher vem à tona. E ela se vê de verdade.

 

Embora ela tomasse algumas decisões, havia um laço invisível que a impulsionava a retornar para ele. Tudo em nome da lealdade e da camaradagem que existiam de um único lado – o lado dela. Ele vendia essas impressões enquanto explorava com maestria a área do sentimento. Ao fazê-la sentir culpa em cima do fato de que ele a “salvara” e a “tornara especial”.

 

Conforme Vers caminha, conhecemos seu mundo de normalidade. Um mundo que a inspira a se ancorar dentro dela mesma. Longe da lupa de Yon‑Rogg, ela volta para suas origens e redescobre quem foi antes dos poderes. Ela descobre que é uma piloto. Recorda da melhor amiga. Ela vê fotografias que refletem uma mulher que nunca hesitou em se expressar do jeito que lhe convinha.

 

Ela vê como obteve os superpoderes. Instante que entrega as true colors de Yon-Rogg e que aniquila a ideia de que tudo que ela é e quem se tornou foi por causa dele. Ele criou o agridoce de uma vida em eterna dívida que não existia. A tática do manipulador de tornar a mulher “grata” por existir graças a mãos masculinas.

 

Fato que não rola em Capitã Marvel. O roteiro chuta esse maldito trope!

 

Supostamente, a existência de Vers dependia do grande salvador. E essa sobrevivência “gloriosa” gerou silenciamento. Mesmo dentro de uma rotina, participando de combates e tudo mais, ela não estava livre para ser e para agir dentro de suas crenças e de seus valores. A personagem estava à mercê de quem acreditou que queria seu bem e que queria vê-la progredir.

 

Vers acabou caçada na Terra dentro da meta de ser posta em seu lugar. Justamente porque o intento real era mantê-la fora de suas origens. Das verdadeiras origens visto que ela foi “recriada” dentro do imaginário de Yon‑Rogg que ditou quem ela supostamente era e como seu passado se sucedera. De todos os lados, a personagem estava aprisionada a um falso mentor e o objetivo do filme foi empurrá-la para sua própria libertação.

 

De modo que ela descobrisse sobre a existência de um herói nesta história.

 

Melhor: de uma heroína.

 

Em busca da liberdade

 

 

A prisão explorada por Capitã Marvel e que consumiu a identidade de sua personagem principal me fez recordar de Orphan Black. Em que todas as clones nada mais eram que uma propriedade com direito a código de barras. Tudo que elas eram não eram, pois havia uma instituição maior que controlava a existência de cada uma. Tudo na desculpa de que formavam um grupo promissor para o futuro da genética. A batalha da série foi pela libertação de cada uma e não foi bonito de se acompanhar. Um enredo que se aproxima demais da saga de Vers, pois, uma vez consciente de como sua trajetória mudou, nada mesmo poderia mantê-la embaixo da aba de um manipulador.

 

O que traz a certeza de que o personagem de Law é a mais pura representação do patriarcado. Como a Dyad Institute em Orphan Black. Ambos os lados sequer pediram permissão para controlar o corpo feminino. Simplesmente controlaram em nome de seus próprios egos.

 

Fato que se amarra ao instante em que Yon‑Rogg declara que é seu sangue que corre pelas veias de Vers. Praticamente, ele entoa que ela pertence a ele e que ela não pode ir a canto algum sem levá-lo. Ato que denuncia seu pensamento de que ela não existe/existiria sem ele e isso me deixou de testa quente, pois se retornou à questão de propriedade. Da mulher como objeto a ser dominado de modo que todo seu ser pertence unicamente ao homem. Ver a protagonista quebrar suas próprias amarras foi o instante mais impactante para mim, pois, tão quanto o amor-próprio pode ser revolucionário, o mesmo vale para a mulher que reencontra seu poder interior e se liberta.

 

A mudança na storyline de Vers veio no instante de reconhecimento sobre o tal amigo e mentor ser nada mais que um vilão. Um embuste que a vê como uma coisa visto que tratá-la como pessoa seria considerá-la humana também. O que não era o caso. Afinal, reconhecer é o mesmo que dar voz.

 

Como mencionei, Vers passou pelo filme como uma “criatura inanimada”. Todos até que a ouviam, mas não a levavam adiante. A protagonista reserva uma dose de ingenuidade que encanta e que passa a ser um tanto segura para aqueles que queriam mantê-la dentro de uma determinada rédea.

 

Na Terra, ela recupera às suas raízes. Ela se volta para dentro e encontra seu principal alicerce: ela mesma. Vers enxerga que tudo bem sentir o que sente, pois é parte da sua humanidade. Ela vê que tudo bem ter os poderes desde que eles sejam exclusivamente seus. Além disso, ela percebe que não precisa ser suave a fim de descer pela goela de outras pessoas. Vers apenas é e pronto.

 

Ao se dar conta de quais sentimentos e lembranças são partes da sua origem, a personagem dá um reboot na sua identidade e se põe à parte do seu dito criador. Ela faz a tarefa difícil que é olhar para o passado a fim de reconquistá-lo. Tão quanto olhar para dentro e estimular sua força interior. Soma de fatores que impulsionam a tarefa seguinte: tirar sua narrativa da mão do homem.

 

Uma tarefa que não ocorre de uma hora para a outra e o filme frisa isso em vários momentos. Mais precisamente nos ecos masculinos que destacam que ela não é boa o bastante. Muito menos capaz de controlar os poderes que lhe foram dados por razões fora do seu controle. Lembranças que inflam seus nervos. Que a fragilizam e que a fortalecem. Demora, mas a personagem vê que foi mais longe que imaginou. Todas aquelas quedas a tornaram mais focada em ser quem diabos quisesse.

 

Yon-Rogg a vetou de ver tudo que precisava para se entender. Ele a blindou de seu ser.

 

Tendo-se de volta, o poder que a faz uma heroína foi controlado. O ponto-chave do filme e foi aí que eu chorei horrores – porque as cenas das quedas de Vers entraram em cena. Quando ela diz que o nome dela é Carol, então, sem comentários. Momentos… Cada um entregando a retomada de identidade da protagonista. E tudo começou com a simples troca da cor do seu uniforme.

 

A sequência das quedas trouxe identificação não pelo efeito do tempo, mas por ter sido uma soma de reflexos da minha vida em que eu ouvi que não sou boa o bastante. Um discurso que ainda me assombra, pois, vira e mexe, eu digo isso para mim. Obviamente que o peso dessas palavras vem graças à lupa do olhar masculino. Fato que me distanciou de mim mesma. Que trouxe a ausência de conhecimento do meu poder pessoal e ainda há muitas tretas para entrar de acordo e aceitá-lo.

 

Assim como Vers que luta para aceitar o que já tinha, mas não enxergava. Ela luta para se aceitar. Ao fazer isso, a protagonista se torna confortável na própria pele e reivindica o que é seu.

 

Uma força feminina que nunca precisou do contexto do homem salvador.

 

Ela se pertence

 

 

“I’ve been fighting with one arm tied behind my back. But what happens when I’m finally set free?”

 

Na tradução da legenda versão cinema, Vers diz que sempre esteve em desvantagem e indaga o que aconteceria quando ela finalmente se libertasse. Uma simples linha de diálogo que veio com toda a força de atuação que Brie Larson possui. Foi aí que meu mundo desabou totalmente.

 

Foi impossível não angustiar em cima do fato de que não há linha na história em que uma mulher não tenha sido posta em desvantagem. Há quem diga que já nascemos em desvantagem, o que não considero uma completa mentira. Afinal, nosso poder não é cultivado. Em vários casos, desde a infância. O poder que a mulher tem que cultivar é diferente e, muitas vezes, tem a ver com a aparência. A aparência é a dita segurança feminina. Fato que reforça seu “papel de acessório”.

 

Bem irônico visto que a aparência é fonte diária de insegurança para várias mulheres.

 

Enquanto há a manutenção da aparência, outros espaços são dados para que ocupemos sem questionar. Ser do lar. Casar. Ter filhos. Não há brecha de ser/fazer diferente, pois o social requer outras coisas. Enquanto isso, homens escolhem o que querem com tamanha facilidade e alcançam tudo mais rápido visto que seu poder cultivado vai além de ser o dito provedor do lar.

 

Não há problema em ser mãe. O problema mora quando isso é visto como única forma de ser (mais) mulher. Ou ser a máxima que atingiremos caso o resto “dê errado”. O poder do sucesso na carreira, por exemplo, do ponto de vista feminino é constantemente esvaziado. E Vers se encaixa nisso, porque ela deixou de ser dela mesma a partir do momento que o homem roubou sua história.

 

Tudo em nome de poder.

 

No documentário Feminists: What Were They Thinking? (disponível na Netflix), Jane Fonda diz algo que nunca me esquecerei: o poder feminino vive submerso. Praticamente, dormimos em cima dele, como acontece com Vers. Para retornarmos à superfície, precisamos entender o cenário, acessar o poder e assim emergir. São essas palavras que eu definiria a conclusão de Capitã Marvel. Para além do corpo que é dela, tão quanto suas emoções, há o fato de que ela saiu da desvantagem. Ela quebrou a última amarra que era controlada por um homem.

 

Um homem que fazia questão de manter seu poder adormecido. Tão quanto sua identidade.

 

Dentre quedas e dizeres que a colocavam para baixo, Vers se transformou em sua própria heroína. Mesmo que não tenha sido entoado com frases claras, ela pediu ajuda e encontrou ajuda. Ações que fazem parte também do combo de você ser sua própria heroína, especialmente quando não há tanto esclarecimento de algum aspecto de sua vida.

 

Vetar a mulher da verdade, da sua verdade, também a veta da sua realidade. Do quanto ela pode ir além do pressuposto socialmente (do ponto de vista masculino) ou do que é esperado (dos estereótipos femininos, como a personagem não ser “dócil”). Vers não foi criada para ser objeto do homem ou para ter o homem como seu salvador ou para esboçar fanservice. Ela veio para mostrar que a mulher pode se salvar por conta própria sim. Sair da desvantagem. Assumir sua narrativa.

 

Mesmo que Vers não tivesse o seu passado na mente, o poder submerso dava sinais. O poder interior que tinha sua forma de expressão. Seu estilo. Sua presença. Suas emoções. No modo de provar que o sangue da mulher não é de homem algum. Última frase que, infelizmente, é relativa. O corpo objetificado ainda dá vazão ao fato de que homens se sentem detentores da mulher. Com isso, ocorrem muitas formas de opressão, como a violência motivada pela posse.

 

Vers é uma personagem relacionável. Ela simboliza um tipo de liberdade que tem muito mais a ver com o trançado que o patriarcado ainda impõe em nossas vidas. De dentro para fora. Para além do seu uniforme, que magnificamente muda de cor assim que se encontra dentro de si mesma, ela sai do silenciamento. Da amnésia explorada por Yon-Rogg que me faz voltar à ponte emocional. Ele tinha conhecimento dessa “falha” e a explorou de modo que sempre fosse beneficiado. E homens fazem isso todos os dias e, repetindo, acham que é “cuidado”.

 

Yon-Rogg não se usou da violência física para controlar Vers. Ele se apoia na manipulação emocional que é também um tipo de violência contra a mulher. Para sair desse ciclo tóxico, a personagem teve que retornar ao seu lugar seguro e estar ao lado de quem nunca se esqueceu de quem ela é. E, caso se esquecesse, essas pessoas a fariam recordar para assim seguir adiante.

 

Sua própria heroína

 

 

“I’m not what you think I am”

 

Capitã Marvel também mostra que mulheres precisam se provar o dobro para serem reconhecidas. Elas têm que lutar o dobro para saírem da desvantagem. Mulheres negras precisam se provar ainda mais em comparação a mulheres brancas para ter espaço. Essa sensação de se provar é um martírio, pois não precisa de muito para saber quando uma mulher é melhor que um homem. Ou quando uma mulher negra é muito mais competente que uma mulher branca.

 

No caso deste filme, o mais interessante é que não houve uma competição direta entre Vers e Yon‑Rogg. Tudo foi muito bem omisso. Aos poucos o medo dele em perder o controle dela se revela. A questão-chave desse personagem visto que seu intento era mantê-la submersa. Inconsciente, mas de si mesma. Atitude que traz a moral de que esse embuste não queria que a protagonista descobrisse que poderia pertencer a si mesma, pois, ao fazer isso, adeus o controle que a mantinha presa pelo calcanhar. A própria realização de certos homens que não passam de um whining baby.

 

A cena final traz a liberdade de Vers que sai de cena como Carol. Quando tudo parecia perdido, a personagem se percebe e se reivindica. Claramente cansada dessa desvantagem que sempre a minimizou diante do homem. Ela não precisou se rebaixar para atingir Yon‑Rogg. Sua existência fez isso por conta. Tão quanto o fato de ter os superpoderes que ele cobiçava.

 

Carol não teve tempo para ouvir a praxe de que “tudo que ela é foi ele quem fez”. Não nego que adoraria mais de um soco da parte dela na cara desse embuste, especialmente quando pega no nervo de “minha propriedade”. Mas, às vezes, é melhor deixar o homem na humilhação mesmo.

 

A ficção científica nunca foge de alguma crítica. Se eu puder definir a de Capitã Marvel, com certeza seria a libertação feminina. Porém, de um ponto de vista interior. De um jeito de desbloquear finalmente o que há dentro de nós para assim lutarmos pelo nosso protagonismo. O filme derruba vários tropes, como de ter que lutar para se provar maior que o homem (e com isso fortalecer a violência contra a mulher) e o fanservice que hiperssexualiza heroínas (que eu bem sei). Por meio do seu uniforme muito bem tapadinho, Vers entrega o óbvio: a aparência não é fonte de poder visto que essa fonte só visa o prazer/entretenimento masculino.

 

Carol Danvers me lembrou de várias camadas de libertação que tive ao longo dos últimos meses. Fardos muito pesados e que, de certo modo, sempre estiveram entrelaçados a um homem. Alguns pesos ainda existem tão quanto à lembrança dos tombos. E dói, bastante, ao ponto dessa heroína me render alguns gatilhos pessoais. Por outro lado, o filme manda a mensagem de que, uma vez livre, devemos ir de acordo com as nossas próprias expectativas. Com nossos próprios valores.

 

Não menos importante: cuidar dos sintomas que sempre nos colocou para baixo.

 

Apesar de ser uma história de origem, eu vejo Capitã Marvel como a história de uma mulher que foi roubada da sua verdade para viver outra sob a lupa masculina. Uma lupa que se esforçou pra fazê-la se esquecer da sua essência e assim se moldar a ele para ser uma suposição. Detalhe que me lembra de Jessica Jones, outro exemplo de heroína que foi explorada/abusada por homens e que luta para sair da alienação e se reencontrar. Inclusive, para se aceitar.

 

Como filme, Capitã Marvel me tocou certeiramente. Seu roteiro é difícil de esquecer. Não pelos efeitos, ou pela trilha, ou pela nostalgia. Mas porque é sempre bonito ver uma mulher assumindo o poder que sempre esteve em suas mãos. Emergindo. O percurso de Carol Danvers. Sem contar que eu gosto demais de personagens como esta, pois elas me lembram de uma versão anterior de mim.

 

Hoje eu digo que estou muito disposta a acompanhá-la em qualquer canto do universo. Posso até pedi-la em casamento se me der na fucking telha (A)! Carol Danvers conte comigo pra tudo!

 

Retomando, Vers tinha que sair da suposição sobre quem era e capturar a verdadeira identidade que também foi sufocada por Yon‑Rogg. Carol Danvers. Uma mulher simples. Divertida. Que não deve simpatia a quem não gosta e se permite. Nuances que estavam com seu outro eu, mas sempre havia um porém. De certo modo, ela estava submissa ao sistema e a sua diferença morou no questionar.

 

Questionar sua origem. Questionar onde deu errado. Questionar como voltar para si mesma.

 

Carol Danvers importa. Ela tem uma narrativa que ardeu as cicatrizes de vários entretempos. De tombos causados por silenciamento, vergonha, culpa acarretada por homens. Ela é um símbolo de força para que cada uma de nós vá atrás do que está submerso: o nosso poder interior.

 

Nisso, Carol Danvers nos mostra como ser sua própria heroína. E nós podemos fazer isso ao ouvirmos o que queima no centro do nosso coração. ❤

 

Imagem em destaque: Reprodução. 

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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