24jul
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Loja de Unicórnios começa com imagens da infância. Instantes de sua protagonista que tendem a ser esquecidos uma vez no dito ciclo de ser adulto. Memórias que possuem algumas nuances que se repetem em muitas e diferentes histórias, como a pureza de ser. A leveza de ser.

 

O ser criança.

 

É verdade que na infância existimos dentro da pureza e da leveza. Muitos dizem que pela falta de responsabilidades ou pela inocência da fase. Pode ser, pois pureza e leveza se perdem após o chamado para a vida adulta. Tudo bem que alguma força maior premedita o diluir da pureza, mas não deveria ser assim com a leveza. Afinal, é um dos caminhos possíveis para se acessar um ponto que se afoga por causa de outras prioridades que envolvem ser gente grande: a criança interior.

 

A criança interior é um dos pontos mais honestos do nosso ser (eu o considero primordial) que, com o tempo, é minimizado até minguar por não condizer com o “ser adulto”. Isso gera algumas consequências. Como não se permitir a naturalidade de apenas ser. Ou se permitir vibrar e ressonar conforme a sua própria verdade, independentemente dos boletos a pagar. É fato que, quando crescemos, perdemos a magia e nos tornamos fiscais do dito “comportamento infantil”. Julgamos quem não parece adulto, como a garota de pijama de unicórnios que já passou dos 20. Sendo que o problema desse “pequeno incômodo” não reside em quem traja o pijama, mas sim em quem não.

 

Mas não é essa parte que eu gostaria de tratar neste texto. Até porque Loja de Unicórnios manda a mensagem de abraçar sua criança interior de maneira que você saia do padrão de vitimização, assuma a responsabilidade e não se desconfigure do viés da própria vida que se acredita. Nada mais condizente que começar com imagens da infância. O lembrete de um período que pode sinalizar quem você costumava ser. O que te libertava. Independentemente de ter sido uma boa fase ou não, pode haver uma questão em comum: o brilho da sua verdade que, por algum motivo, sumiu para atender as urgências do crescer.

 

Quem não queria completar 18 anos logo, né? Bem, eu nunca quis por nunca entender esse hype.

 

I. o silêncio da criança interior

 

 

Eu me recusei a assistir Loja de Unicórnios (Unicorn Store) assim que saiu na Netflix. Como já comentei aqui, eu não tenho mais essa pressa de consumir tudo. Porém, há instantes que você só quer entrar no buzz. Uma grande força do hábito incitada pelo FOMO, mas não foi o FOMO que me distanciou deste filme. Na verdade foi o medo do impacto do que eu possivelmente encontraria.

 

Era um dia de semana quando o assisti pela primeira vez. Foi uma experiência suave que não me inspirou necessariamente a escrever um texto. O desejo veio na segunda vez por ter coincidido com meus passeios frequentes na caixa de memórias da infância. Entretempo em que eu buscava, e ainda busco, o instante em que eu perdi a leveza de existir dentro da minha verdadeira essência.

 

Sim, eu acredito no teste que diz que o que se ama fazer sempre esteve com você na infância. No meu caso, seria na pré-adolescência. Fase que eu não vivi como “deveria”, porque a pureza me foi roubada junto com toda a leveza. Tudo ao mesmo tempo. Quando me dei conta, já era  a “adulta” da casa quando eu só queria manter meu mundinho Disk MTV por mais tempo.

 

Eu vivi muito à mercê do que não era meu. Dentro de lugares que me encaixaram sem eu pedir. Alguns desses lugares eu mesma me coloquei, pois não queria que ninguém se aproximasse, por exemplo. O que sei é que eu “adultei” fora do tempo mencionado pela cartilha e, óbvio, há danos.

 

Danos que não são um problema para Kit, personagem principal deste filme, interpretada por Brie Larson. Seus VHS da infância dão o tom para a “adulta” que ela se transformou: honesta com sua essência. Não é à toa que a tela que pinta para uma prova da escola de artes tem cores que refletem seu lado unicórnio. Seu autorretrato. Enquanto todos da classe levaram a dedo tal tarefa, ela partiu do puro e verdadeiro. E eu digo com tranquilidade que o trabalho dela foi o mais lindo. Totalmente livre de competição. Totalmente consciente de como ela se via em completude.

 

E muitos adultos certamente não conseguem se enxergar de modo algum.

 

 

Kit é expulsa por causa desse “autorretrato pobre” e retorna para a casa dos pais. Ela entra no limbo da sua jornada interrompida e arrasta fortemente o efeito do feedback dado por 3 adultões consagrados sobre sua arte. Ato que, na verdade, reflete a negativa de quem ela é. A visão que a personagem tem dela mesma e que, supostamente, não corresponde com o que é exigido na cartilha dos adultos. Em uma mesa de bar, essa jovem seria a chacota do dia visto que não acertou no tema “seja uma adulta de verdade e esqueça esse negócio de unicórnio em nome da Deusa”. Né?

 

Pois eu adotaria Kit como minha própria filha, com licença!

 

À primeira vista é fácil chamá-la de jovem excêntrica. Imatura, pois quem se veste daquele jeito? Ou sem noção por achar que poderia usar glitter em uma tela de artes. Julgamentos dos adultões que, sem dúvidas, perderam a lógica do brincar. Ou de como é ser sem ligar para terceiros. Há limites, mas, às vezes, muitos correspondem ao olhar do adulto à espreita. O metido a “adultão”.

 

O comportamento dos pais da personagem está em tantos outros pais. Tê-la de volta foi o anúncio de que a fase artística acabou. Tão quanto a confirmação de que chegou o instante para ela levar tudo mais a sério. Juntos, eles sentem alívio enquanto Kit só quer ficar afundada no sofá de luto por si mesma. Acompanhada de vários anúncios da TV que narram seu misto silenciado de emoções.

 

Gladys e Gene têm suas expectativas para a única filha e nenhuma envolve sucesso nas artes. Ambos querem seriedade na carreira, embora tenham apoiado a experiência artística (ao menos é o que deu a entender). O próximo capítulo que almejam é ver Kit seguindo a mesma estrada de Kevin. Um cara que, por mais que pareça incrível, seguiu de certo modo a cartilha dos adultos.

 

Kit é uma pessoa-unicórnio que não demora a saltar para ser a pessoa-adultona. Teoricamente, ela é menos que uma adulta e os pais não hesitam em reforçar isso de modo passivo-agressivo. De um modo confuso, se querem saber, porque não dá para tratá-los como inimigos. Porém, há lampejos incômodos que a inspiram a colocar sua essência dentro de um monte de caixas. Afinal, há uma expectativa a se atender e não é ser a aluna mais brilhante da escola de artes.

 

De fato, não dá para viver sua própria verdade e ser adulto ao mesmo tempo, certo? Uhum.

 

 

De certo modo, Kit ainda é vista como a “adulta” indecisa. Sem gostos fixos. Que quer nada com nada. Que não desapega da infância. Sua experiência fracassada não soa necessariamente como algo péssimo. Ao menos, não para os pais visto que eles compreendem esse milagre divino como o sinal de que a brincadeira acabou. O que reforça a visão sobre arte ser perda de energia. Ou uma opção para passar o tempo enquanto a pessoa descobre o que quer fazer de verdade no futuro.

 

Kit se irrita e entrega as pontas graças à falsa sensação de não ter algo de verdade a se agarrar e por não aguentar os comparativos dos pais sobre sua vida e a de Kevin. Ela declara um plano imperfeito que põe fim à criança interior. Ela está arrasada e perdida, mas fica insustentável o modo como Gladys e Gene querem ser úteis para animá-la e encorajá-la. O que não é ruim, mas, nessa situação, realmente não dá para levar na esportiva. Ainda mais quando seu espaço não é respeitado.

 

Uma vez fora da bolha da infância, tudo que se tem pelo caminho é cobrança. Principalmente interna que costuma vir na forma de alguém que está em um ponto da vida do qual você não se encontra (mentiras). Não tem como aplicar a música da Taylor aka não dá para se acalmar. Sério!

 

Para os pais pararem de falar, Kit entra na típica furada que muito jovem adulto já se meteu (e não direi por necessidade porque não é o caso aqui): engata o primeiro job fácil para dizer que finalmente adultou. Atitude apressada que me foi familiar, pois nem era meu ano 18 e eu estava desesperada para ter um emprego. Comportamento que eu absorvi graças aos meus pais que sempre colocaram o trabalho como tudo na vida. Reflexo que me afastou de descobrir o que eu realmente gosto – e que, no fim, ainda está comigo já que a infância é testemunha de quase tudo.

 

A situação da personagem não é um exagero. Eu passei por muitos ciclos de empregos ruins, com cheiro de furada, por eu nunca ter tido uma visão acertada de mim. Do que eu queria. Só se vendo para ter certeza do que você quer na vida e Kit sempre soube disso. Não é à toa que Loja de Unicórnios é sobre se reencontrar. Ela não precisava de um ano sabático, mas sim tomar um choque dentro de um universo apático habitado por adultos apáticos para se relembrar de onde veio.

 

E Kit ingressa nesse universo que nunca experienciou e que confronta a sua verdade que é ser o único unicórnio de qualquer lugar. Ela é colocada em um mundo de inadequação que chega muito perto de nulificá-la para fazer o que todo adultão faz. Normalmente, sem personalidade alguma, sempre temendo se abraçar de verdade. Algo que a protagonista não compactua e nem cai, pois ela é livre de padrões e de normas. Não menos importante: ela sempre soube quem ela é de verdade.

 

Só que, depois da decepção com a escola de artes, seu mundo nublou. O próximo capítulo de sua vida pede para que ela seja como todo adulto. E Kit crê que consegue, especialmente para amansar os pais. Especialmente por ter deixado sua própria verdade em caixas. Longe de suas vistas.

 

Dando-me de exemplo, a vida adulta conflitou com minha criança interior sendo alimentada por Harry Potter. A saga âncora de sobrevivência, pois, por meio dela, eu apenas fui. Eu criei meus primeiros blogs. Eu me vestia como um personagem. Eu criava histórias que me trouxeram web friends. Esses capítulos da minha vida, que incluíram muita imaginação, foram meu jeito de ser e de me expressar. O meu unicórnio assim como a arte é o unicórnio de ser e de se expressar de Kit.

 

Hoje em dia, “ser adulto” tem soado como mais um tipo de pressão na vida. A pura briga entre expectativa vs. realidade que vira e mexe está no Instagram mais próximo. Te inspirando a se sentir a mais atrasada no clube dos adultões por não ter/ser X, T, A. Cenário que piora graças aos ataques passivo-agressivos que podem deixar uma pessoa doente visto que ser adulto vem com o desejo de ser perfeito. A ter tudo no lugar, porque você precisa provar que contribuiu para a cartilha.

 

Nisso, a criança interior se cala. Por vezes, mingua. E assim refutamos a infância de todo jeito.

 

Kit não participou da cartilha dos adultos e nunca teve a intenção. Porém, a expulsão dá aval para o lar se tornar o pior lugar para se estar graças à pressão de ser logo o que todo mundo espera. De quebra, a personagem deixa de se ancorar dentro de si mesma. Fato que, como comentei, interrompe a fase de luto que a protagonista tinha que passar por ter sido chutada do seu sonho. Ela foi atropelada em sua dor pelo chamado da vida adulta, incorporado na inquietude dos pais.

 

O que se entende, antes de Kit mandar o seu CV para finalmente ser um sucesso, é que ela viveu seu momento para tentar provar um ponto. No caso, de fazer artes acontecer. Com o fim dessa Era, só restou a reestruturação. O que é normal, óbvio, mas não quando se aniquila a sua própria verdade.

 

Não quando você nem sabe o real significado de ser adulta.

 

Kit cancela as lembranças da infância, porque, automaticamente, se entende que aquela pequena pessoa é a fonte que a levou a canto algum. É o instante da perda da inocência que reflete sua dor, especialmente porque se inicia o exercício de explorar um mundo do qual nunca fez parte.

 

O mundo em que muito adultão não sabe qual é sua própria verdade. Kit sabia, do começo ao fim do filme, mas ela recuou ao ver que sua própria verdade não é compatível ao que todo mundo faz/espera. Daí a personagem precisa fingir para caber. Ou para sobreviver.

 

O que não é assim tão surreal, certo?

 

II. o que todo mundo faz

 

 

Depois do riot, Kit se cadastra em uma empresa que contrata a regime temporário (e que traz “sucesso temporário”). O passe fácil para ela ser o que os pais supostamente esperam. De um dia para o outro, a personagem adultou e conquistou o direito de se gabar como a adulta do milênio (eu sendo irônica). Assim, se entra em uma nova composição para ela seguir com a jornada.

 

Indiretamente, o roteiro faz chacota com vários simbolismos ditos adultos e eu ri em minha sala. Beber café. Comer brócolis. Vestir-se socialmente. Deixar o cabelo padrãozinho. Artifícios colocados na “nova” caracterização de Kit para que ela seja vista/tratada como adulta. Caracterização que parece inocente, mas há certo cutucão nas entrelinhas. Afinal, a mudança dela abre para o ato de fingir. Em tese, só fingindo para ter os mimos sobre expectativas que não são suas – e, às vezes, nem dos pais. Já diziam que ser adulto é ter MBA em atuação e a personagem não perde tempo em “brincar” com sua própria transformação – sem saber o que isso significa.

 

A posição de Kit é delicada e muito real. Ao menos uma pessoa já passou por isso na forma de entrevista de emprego. O mundo adulto é um grande teatro, mas, até a protagonista sacar isso, ela se vê na crise de consciência que se direciona ao tipo de mulher adulta esperado socialmente.

 

Apesar de serem grandes líderes de torcida, é palpável o modo como Gladys e Gene se sentem meio que responsáveis por deixá-la ver o mundo na inocência. Algo meio “fazer o que quer”. O que se contradiz quando o pai se dói ao ver a reforma da casa de bonecas. É bom, e ao mesmo tempo não é, vê-la crescer. Ambos ficam perdidos quando ela aparece com trajes mais “responsáveis”, porque não faz muito sentido. É a reticência do “tudo bem você crescer, mas não se perca no processo”.

 

É esperado que uma pessoa/personagem ingresse no chamado da aventura em circunstâncias como essa com grande azedume. Resmungando a torto e a direito. Kit carrega a curiosidade de uma criança e é isso que a norteia com leveza para o primeiro dia de suposta adulta. É a sua diferença dentro da empresa que a faz ver que nunca foi do mundo dito adulto. Constatação que fica evidente não só na maneira como ela passa a se vestir, mas também na sua constante expressão de pura confusão. É fácil lê-la e julgar que Kit acha adultos esquisitos. Quem não acharia? A maioria é apática. Não são mágicos como um unicórnio. Mesmo assim, ela segue, porque precisa tomar o dito jeito na vida. Mas não quer dizer que a jovem perde a língua para não questionar e aí Gary entra.

 

Um personagem que reforça o quanto Loja de Unicórnios é um filme de expressão. O rosto de cada adulto que Kit interage é a própria visão do desespero. Impossível não se identificar.

 

 

Durante o expediente de tirar cópias, um trabalho repetitivo que ela está disposta a fazer funcionar, chega o chefe cujo rosto é de pura apatia. Além de ser um assediador em um modo quase imperceptível (e que gera uma fala bem infeliz de Kit). Diante dele, a língua da personagem coça. Ou melhor, seu inconsciente, pois há um desejo por respostas. Será que o mundo adulto é maneiro mesmo? Estar naquela posição maçante faz algum sentido? Vale a pena essa vida sem imaginação?

 

O filme não responde essas questões, mas foram essas que levantei pelos olhos de Kit.

 

O primeiro dia de trabalho logo vira papo do jantar entre os pais que seguem sem entender nada, mas dão apoio completo. Apesar das indiretas sobre ter responsabilidade e de atingir o sucesso, a dupla estranha essa tomada de decisão súbita da filha. Uma jovem que sempre preservou o sonho, nunca se escondeu ou fingiu ser quem não é. É evidente para ambos a mentira, mas tudo não passa de um experimento que pode dar certo em algum momento.

 

É possível ver que a protagonista não é relaxada. Ela tem interesse. Não é orgulhosa em não querer mudar ou fazer os pais de capacho. Kit quer mudar. O que faltava era o sentido para a mudança. Inclusive, para onde ir quando ser o unicórnio da história foi sempre a sua resposta mais concreta.

 

Os pais são extremamente presentes na vida de Kit. Eles conseguem ser divertidos e dá para ver que muito do comportamento deles é inconsciente. Em outras palavras, vem da geração que ambos cresceram e que celebra a chance de ter direito a um almoço com o Vice-Presidente – além de ver como garantia de sucesso aka subir na carreira e ter estabilidade. Ao mesmo tempo que os dois querem o bem da filha, há também a necessidade de incutir nela a visão de ser melhor que eles. Sabem, conquistar o que não conquistaram? Uma visão que também inclui o distanciamento do que é simples. Negar seu próprio unicórnio porque não faz mais sentido acreditar nele.

 

Mesmo em um job sério, a protagonista é perseguida pela incerteza de que essa nova empreitada da sua vida faz sentido. Ainda mais por não saber como ser séria. É difícil imaginar o que os pais esperavam assertivamente do futuro de Kit, mas ambos se dão por satisfeitos com o emprego conquistado por ela. Desde que a filha esteja em movimento, aparentemente não há o que se temer. E a personagem se agarra a essa aprovação que se parte quando os primeiros boletos chegam.

 

Ou melhor, cartas.

 

Em um mundo de adultos é fácil acreditar que todo mundo é bem resolvido, menos Kit. Fato que se fortalece quando ela abre uma carta de um lugar chamado A Loja. Lá dentro, tem um cartão que conversa com sua personalidade. Glitter. Lettering. Gravuras. Chamada de atenção que não tem como objetivo atrair a dita adulta Kit, mas sim quem está camuflada em seu interior.

 

Sabem aquele papo de não deixar a criança interior morrer? Loja de Unicórnios trabalhou isso muito bem dentro de um curto espaço de tempo. Pela sequência da história ter compasso curto, como um conto, os cartões surgem como medida tão urgente quanto achar o emprego. Pontos que se cruzam por serem a tensão suave rumo à virada de Kit.

 

A carta promove uma nova crise de consciência e inspira a briga para resgatar e manter a verdadeira Kit. Para isso, ela precisa se enxergar de novo, pois só assim para não se perder em um tipo de universo que não se encaixa e, com isso, desistir dos seus sonhos.

 

 

Aí vemos um conflito interessante, pois dois mundos racham a visão de Kit. De um lado há a proposta do Vendedor, que remete a ter um unicórnio. Do outro, a proposta de Gary em elaborar uma apresentação do aspirador místico. Dois projetos que garantem certa liberdade criativa. Porém, somente um traz a chance da protagonista em atingir o que muita gente quer: a promoção fulminante. Promoção essa que também se inclui às ironias do roteiro sobre a cartilha de como ser um adulto de valor antes dos 30.

 

Kit hesita diante do cartão, porque, apesar de tudo, ela se sente um completo zero à esquerda. A personagem tem vergonha do que aconteceu. Ela mata o sonho e pagar de adulta não passa de camuflagem para sua dor. Misto que traz a nuance da verdade de que escondemos o que nos aflige no trabalho (por exemplo). Só que Kit questiona tão quanto afirma o que é verossímil:

 

Eu só faço o que todo mundo faz.

 

A grande verdade é que Kit não teve tempo de pensar em um plano B. Normalmente, quem não tem um plano B apostou todas as fichas no plano A, sem hesitar, e, provavelmente, se deu bem. Nem tudo é linear e o cartão-chave surge para gerar ruído em uma decisão que não foi propriamente dela. Foi um impulso movido pela raiva. Foi um impulso para silenciar os pais esbaforidos.

 

Por mais que a ideia da Loja soe imatura para os adultões, esse é o percurso do amadurecimento da protagonista. Um percurso que atende ao seu âmago. Atende às memórias da infância também. É um caminho para que ela relembre e não se esqueça do seu porquê. Nem cale sua essência. É meta ela amadurecer e compreender que o “seja quem você é” nem sempre funciona e tudo bem.

 

Ao adentrar a loja, Kit ganha a chance de tocar seu eu mais profundo a fim de não perder nenhuma parte de si por causa de cobranças externas que, infelizmente, são inevitáveis. E acredito que esse deveria ser o principal foco assim que pisamos no ciclo da “vida adulta”: lutar por quem somos.

 

Lutar pela nossa própria verdade. Para isso, autoconhecimento é tudo!

 

III. a busca pelo autoconhecimento

 

 

Se eu recebesse esses cartões, eu diria com tranquilidade que é o universo falando comigo. Comunicando que eu preciso checar um ponto do caminho antes de desistir ou de dar brecha para uma vida que não almejo. Eu acredito muito em sinais, como as horas com números repetidos. Capaz que eu também ficasse tão intrigada ao ponto de ir nessa Loja desconhecida sozinha.

 

(mentira).

 

Mesmo sem ter raciocinado sobre sua empreitada adulta, Kit é imersa em uma experiência que, particularmente, traduzo como um olhar interior. O Vendedor é tudo de bom. Animado. Esperançoso. Ele é um agente provocador sem defeito algum e é fácil cair na dele. Ainda mais quando nos esquecemos de dar um pouco de autocompaixão a quem somos em dias ruins.

 

Para Kit, o tempo do unicórnio passou, mas há a dualidade do conflito que pede uma escolha. A Loja pode dar tudo o que ela sempre quis e o aspirador místico pode resultar em uma medida temporária (e a chance de acabar como Gary). Uma realidade é mais mágica que a outra e isso conturba seu falso propósito. É inevitável não vê-la em turbulência, que casa bem com a promessa de fazê-la reencontrar o que importa. Antes de terminar como a adulta apática da vez.

 

Uma vez na Loja, o Vendedor diz:

 

Nós vendemos o que você quer. O que você precisa.

 

O Vendedor, maravilhosamente interpretado por Samuel L. Jackson, a confronta. Vem dele o que ela se negou a fazer: parar a fim de compreender o que houve. Ela já sabe o que precisa, mas finge não saber. Justamente porque há o retorno da experiência que rendeu sua retirada do caminho que acreditara ser seu. Ao se entregar ao que todo mundo faz, Kit silenciou o sonho e o processo de autoconhecimento. Calou o comportamento comum de vivenciar o fracasso. O que ela precisava era de tempo e não de um job para provar que pode ser bem-sucedida custe o que custar.

 

No mais simples, Kit precisava revisitar as caixas e não enfiá-las em uma prateleira.

 

Mesmo que Kit diga que não sabe, o olhar externo do Vendedor sabe mais que ela mesma. A famosa opinião de uma terceira pessoa que, no filme, vem com a promessa de um unicórnio. Basicamente, ele oferece a chance de acender a vela interior que a protagonista enfiou em um monte de caixa.

 

Negar o unicórnio vem da parte lógica. A parte que Kit não tem “desenvolvida” justamente por representar a adulta que ela supostamente não se tornou ainda. Mas quer coisa mais adulta que você saber o que quer e seguir em frente sem receios? Eu acredito que não – e nem usaria o termo “adulta” porque eu prefiro madura mesmo. A protagonista sabe o que quer. Sempre soube. Contudo, no caso dela, o embaraço de ser expulsa atingiu vários pontos frágeis, como a relação com os pais. A dupla que não sabe onde jogar energia positiva, mas torcem. É o que os pais fazem.

 

Mas não é o que ocorre quando o papo é Kit ter um unicórnio. Fato que fica omisso até os pais traçarem o caminho da quantidade de feno no quarto arranjado da própria filha. A infância volta a ser referenciada com censura. Como um delírio. Um completo retrocesso.

 

 

Alguns dirão:

 

Você é uma adulta agora, como pode gostar ou crer em unicórnios?

 

E Kit escuta:

 

Eu acho que você é esperta o bastante para saber o que acontece aqui.

 

E para complementar:

 

Quem pode dizer o que é verdade ou não?

 

O que Kit ganha, além do reavivar da chama da criança interior que foi destruída na escola de artes, é a missão de tocar de novo o que sempre lhe importou. Uma missão em três camadas que não soam reais, pois A Loja claramente foi construída para ativar a imaginação de pessoas na situação da protagonista. O lugar complementa a personalidade de quem rege a trama.

 

O imaginar é livre de julgamentos e acaba anulado por essa sede de ser adulto logo. Assim, o filme induz a dita adulta Kit a voltar a imaginar. A voltar a crer no que é simples. Mas sem se esquecer de que há outra realidade no seu entorno. O aspirador místico que ela começa a fingir que nem vê. Um ponto que lembra Gary. Que automaticamente a faz lembrar do cara que a expulsou. Ela não nega tal responsabilidade. O problema é que essa jovem vê que não pode ser natural em suas ideias. Então, ela adia. Principalmente porque construir um espaço para receber o unicórnio é mais legal.

 

Kit começa a receber de volta o que lhe foi furtado ao longo da missão rumo ao sonhado unicórnio. Além disso, ela começa a compreender que a sua falta de aceitação em alguns lugares não é culpa sua. Alguns diriam que falta a ela um pouco de noção, mas o roteiro entrega uma jovem inocente. Que ainda não desvinculou da infância para “crescer de verdade”. Argumento que é relativo, pois você pode ter o unicórnio em qualquer idade (e quem discorda que discorde em sua própria casa). O mesmo não pode ser dito na relação crescer e amadurecer. Tem gente que só cresce mesmo.

 

É nesse lance de cenas rumo ao sonho de Kit que Loja de Unicórnios revela que sua história é de aceitação também. A conciliação da sua própria verdade com o mundo externo em que rege a sobrevivência.

 

Todo mundo precisa ter um job, né?

 

O unicórnio precisava voltar a existir dentro de Kit, de verdade, para que ela aprendesse a resistir às demandas do mundo que nos quer do avesso. Longe de quem somos. Vejam bem, tudo que está ao nosso redor existe para trazer insatisfações. Quando sabemos quem somos, isso tende a ser o menor dos problemas. Daí a leveza pode encontrar seu espaço visto que a pureza não é permanente.

 

O caminho de Kit depois da primeira visita à Loja é de puro revival. Percurso que não é iniciado por meio do Vendedor, mas por Gary. O aspirador místico é outra tela que a personagem reluta em trabalhar justamente para evitar a sua visão pessoal. O que é bom visto que se trata de um produto para venda. Um produto que não é seu e que ela demonstra cuidado na hora de rascunhar suas ideias. Ideias de adulto que reforçam o senso de veto da protagonista de pensar como ela mesma.

 

Quem nunca?

 

 

Buscar a si mesma em meio à rotina caótica de “ser adulto” é tarefa das árduas. O diferencial aqui é que Kit sempre soube onde morava a sua própria verdade. O problema veio quando sua inocência foi partida e, uma vez com a primeira tarefa dada pelo Vendedor, ela se dá a chance inconsciente de amadurecer. Não somente sua visão de mundo, como também a visão de si mesma.

 

O unicórnio é o símbolo da infância de Kit. A leveza e a pureza. É a chave da sua criança interior e que tomou todas as partes da sua vida. Não de um modo negativo, embora ser expulsa tenha lá sua infelicidade. Mas é o unicórnio que a sustenta. É a magia que falta para muitos. Infelizmente.

 

Ao contrário do aspirador místico que a empurra para aprender uma lição, o cartão da Loja a norteia para o lado negligenciado desta história. No caso, ela mesma. Como ela ficou depois de tudo. É aí que entram as tarefas do Vendedor que calham perfeitamente em uma leitura sobre autocuidado. A primeira é sobre criar um lar para receber o prometido unicórnio – e ela precisava criar um lar interior para retornar, se sentir segura, e ser sua própria âncora.

 

Depois, vem a segunda tarefa que traz a necessidade de nutrir o unicórnio. Ato que corresponde ao como ela se nutre de corpo, mente e alma. O que remete à Loja visto que o Vendedor mostrou todas as áreas que o unicórnio específico de Kit curte. As áreas que ela curte. Por fim, ela precisa se abrir para o amor, pois o unicórnio não fica bem em ambiente de conflito. Ou seja, as pendências de Kit que refletem nos pais. Embora não aprofundadas, tais pendências carregam o fato de que a personagem não pode culpá-los. Nem eles devem culpá-la. Tudo tem seu tempo.

 

Poderia inserir Virgil nessa linha do amor, claro, mas ele me pareceu o mais fora de contexto.

 

Todo esse trajeto a leva para outra realização também: a de não ser especial. Isso, durante a apresentação do aspirador místico em que seu mundo é de novo negado. O que não a desanima dessa vez e é aí que Loja de Unicórnios entrega o amadurecimento da sua protagonista. Instante que também entrega o melhor dos poucos adultos em cena. Um a um se expressa fora do dito padrão e falam o que os incomoda de verdade. Eu torci para que Gary se libertasse, mas ele é o símbolo do caminho sem volta junto com os outros caras sexistas que servem de exemplos reais.

 

Nessa jornada, Kit descobre que há sempre coisas mais importantes e que vai além do seu desejado unicórnio: se ela não cultivar seu próprio sonho, ninguém fará isso por ela.

 

IV. falhar no que você gosta

 

 

A casa para receber o unicórnio se torna um museu da vida de Kit. Algo que arremata as filmagens da infância e que trouxe semelhanças para mim. Eu tenho retornado à infância para reencontrar meu unicórnio. Por ter crescido tão rápido, eu não sei o que me deixa verdadeiramente contente. Mais livre. Eu vi meus pais passarem anos e anos em um mesmo trabalho e isso era o normal da época deles. E esse normal me atingiu em cheio ao ponto de, às vezes, eu me sentir o Gary.

 

Hoje, tudo é inconsistente e inseguro. Se não nos autoconhecermos, bem, a sensação de nunca ter plano B pode ser a primeira da lista de tormentos que envolvem o questionamento: o que se perdeu no meio do meu caminho? Kit se sentiu assim até ver o objetivo de todo aquele processo de receber o unicórnio. Ela pode ter se despedido dele ao concluir o percurso, mas o unicórnio sempre viverá dentro dela. Afinal, a personagem criou um lar dentro de si.

 

E é esse lugar que precisamos ter dentro de nós. Justamente porque precisamos ser nossas próprias âncoras. Não podemos viver com medo dentro de quem somos. Em todos os âmbitos. Não há algo mais duro que você ser sua própria inimiga. Além de triste, porque, às vezes, você não sabe como parar de puxar o próprio tapete e dizer coisas ruins sobre si mesma. Autocompaixão é tudo! Porém, é cultivo diário.

 

Há certa dose de autocompaixão em Loja de Unicórnios. Kit decidiu queimar etapas para caber em outras caixas e teve que reverter o caminho para se perdoar. A brecha da expulsão não era o momento para a personagem se enfiar no que todo mundo faz.

 

Já diziam as sábias mães:

 

Você não é todo mundo.

 

Mas para alguns pais você precisa ser igual a todo mundo. O que é nocivo para todas as partes.

 

Eu acredito que sempre haverá algo ou alguém como o Vendedor para nos dar um toque sobre o que não endereçamos. Sobre o que não nos cabe. Sobre a máscara que não nos pertence. Toque para nos fazer pensar que ser adulto, como um meio de validação, é tão nocivo quanto negar o unicórnio. É possível manter os dois. Desde que não haja conflito. Missão difícil, eu sei, ainda mais quando é muito claro a necessidade de se ter uma vida dupla. E nem sempre isso é emocionante.

 

Aos olhos de Kit, amadurecer é saber balancear o unicórnio com as necessidades do presente. Não é se anular. Não é se esquecer de ser criança – a área da vida que ainda traz a chance de sermos leves. Nem muito menos abandonar sua essência. E, se essa essência se perdeu, provavelmente ela estará em alguma imagem da sua infância. Fato que entrega o ponto de celebração de Loja de Unicórnios. É sobre imaginar. É sobre espaço seguro. Aceitar-se. Descobrir que ninguém é especial – e nada anula o fato de que podemos nos sentir especiais sem validação externa.

 

Kit teve que retornar para o ponto em que tudo se quebrou e assim criou dentro de si a âncora para continuar, especialmente quando tudo parecer perdido. Ela precisava de maturidade e não cancelar as cores, o glitter, as letras garrafais de seu mundo. Seria o mesmo que cancelá-la e torná-la um Gary. E ela tem consciência demais. O que faltava era a compreensão de que seu sonho não precisa morrer diante das demandas de um mundo que não a aceita. E, claro, compreender que falhar no que gosta não é motivo de abrir mão de tudo.

 

O ambiente corporativo só quer vender e não garantir a magia da vida de quem consome. Kit quer vender sonhos, possibilidades. Um mundo melhor e mais alegre. A recusa na escola de artes não é necessariamente o fim do mundo ou um pedido de uma mudança radical, mas sim a chance de olhar para dentro, reconstruir o lar, nutrir e impedir que mais conflitos se permeiem.

 

O unicórnio foi simplesmente a metáfora do cuidado que precisamos ter com quem somos. Não estamos protegidos do mundo externo, mas cabe a nós nos desintoxicar do que não nos cabe.

 

No mundo externo ninguém é especial, mas você precisa ser especial para si mesma. Como ter seu próprio altar para relembrar de onde você veio. Do porquê fazer o que faz. De como enfrentar as desilusões. O segredo é não se perder de quem você é. E, caso desvie do trajeto, será preciso parar e voltar para casa. Refortalecer o amor de dentro para fora.

 

Eis um pouco de autocompaixão e precisamos disso. Hoje mais do que nunca, pois todo dia tem uma cobrança “adulta” diferente. E uma tragédia presidencial.

 

 

As falhas acontecerão e o único quote destaque do filme deixa isso muito claro:

 

A coisa mais adulta que você pode fazer é falhar no que você gosta.

 

O momento em que a mãe, depois da treta em família, compreende que sua expectativa não pode influenciar o que a filha quer realizar no futuro. O que me faz até comentar que não fica claro o que Kit ama fazer a não ser misturar tinta com glitter. O que me pareceu proposital já que ela nunca acessou essa parte de si de um modo mais maduro. De pensar em fazer carreira com arte e tal.

 

Eu senti que Kit não deu um adeus completo ao unicórnio. Embora ela tenha se questionado sobre sua existência, Steve sempre estará dentro dela e ela poderá acessá-lo caso precise. Foi um momento da sua vida que não precisava mais ser uma totalidade. Afinal, a personagem teve sua visão de mundo alterada, mas nada que não comporte a mágica que ela ainda vê no mundo.

 

Em meio a cena mais linda do filme, e mais aguardada para saber se o Vendedor não zoava com a cara dela, foi dito:

 

O Vendedor disse que uma moça precisa mais de você do que eu. Você será amigo dela. Será o melhor amigo dela. Vai jogar damas com ela sempre que ela quiser. Não a deixe procurar pessoas que não veem quem ela é de verdade.

 

Kit deixa o unicórnio ir para ser a ponte de reencontro de outra pessoa. Ela atendeu ao seu chamado para se tocar sobre o que havia de errado e o que precisava ser feito. E fez. Um trajeto que não pediu uma desconfiguração, embora tenha sido isso que a protagonista tentara no início do filme.

 

Ser “adulto demais” também é decepcionante e doloroso. Tudo porque você se ausenta de si mesma. Um marco que, inclusive, pincelou um outro diálogo importante de Loja de Unicórnios:

 

K: Você sempre soube que era isso que queria fazer ou queria fazer outra coisa antes?

G: Como assim? Se eu sonhava em ser patinador, mas meus pais não pagavam as aulas?

K: Claro.

G: Por que não desejar voar? Mas não voamos, então, focamos no que podemos fazer.

 

Esse diálogo me deixou muito triste!!!

 

Focar no que podemos fazer. É uma verdade. Mas acredito que é importante também acreditar que há uma Loja para todo mundo. Aquele refúgio livre de julgamento e de culpa. Com área de recreação para termos um momento nosso e sermos de verdade. Nem sempre os sonhos de infância são cortados na maldade. Nem sempre há condição de ser criança. Ou possibilidade. Nem sempre alguns sonhos vingam ou chegam a nascer. Mas Loja de Unicórnios traz um conceito de saída. Cabe à Kit sair melhor depois de ter sua atenção chamada e essa atenção é testada de várias formas, como dar de cara com a Loja vazia. A mensagem que diz que também cabe a nós a nossa própria mudança. E, claro, acreditar. Ir além do que todo mundo faz.

 

 

Loja de Unicórnios não é um filme de salvação. Ou de lições mastigadas. Ele não foi pensado para quem nasceu supostamente pronto e quem não precisa de um unicórnio. Aqui, o roteiro testa a capacidade de quem o vê de imaginar. De se identificar com Kit. Em seu ar imaginário, há a livre opção de interpretar o texto como convir.

 

E todo este textão é minha experiência com o filme (aka não é uma resenha).

 

Este não é um filme sobre almas perdidas, como muitos com a temática de desemprego, mas funciona como um lembrete para não deixar a criança interior se afogar. O roteiro não prega a questão de “faça o que ama”, mas sim a compreensão de que seu sonho e suas ações nem sempre funcionarão no universo de outras pessoas.

 

Eu acreditei em Loja de Unicórnios do começo ao fim, pois eu me vi em Kit. Eu deixei de imaginar. Eu deixei de ver possibilidades. Eu troquei minha Loja pela correria de ser alguém que, naquele entretempo (19), eu não estava pronta. Mas eu tenho aprendido a não lamentar sobre isso. Aconteceu e o máximo que posso fazer agora é acessar o que há ainda de mais puro dentro de mim. Acessar o meu unicórnio para resgatar a magia em meio à dura realidade.

 

Além dos sonhos calados dos personagens, o filme questiona a apatia de ser adulto. De deixar sonhos morrer, porque estar onde está é o bastante. De deixar que ideias sejam destruídas por soarem absurdamente infantis quando elas são apenas suas e alguém pode precisar delas. Como Kit percebeu ao ceder o unicórnio para alguém que precisava. Finalizando uma história que ancora dentro da protagonista. Mesmo que o roteiro em si não seja tão completo, especialmente sobre a participação dos pais na vida da personagem, muito fica por conta de quem assiste.

 

O puro teste contra céticos. Ou dos adultões.

 

Falando em adultões. Talvez, a gente precise ressignificar o que é ser adulto. Hoje, eu vejo isso mais como cobrança e exposição. Para dizer que se está acima de. A vida adulta se tornou um cinto apertadíssimo e muitos vivem em alerta para não serem menos adultos. E, quando paro para pensar, eu nunca quis fazer 18 anos. Eu nunca quis sair da minha bolha assim como Kit. Mas a vida aconteceu e eu mentiria ao dizer que sou grata por tudo que me aconteceu. Eu não sou e tudo bem. Por essas e outras que eu acredito que precisamos (re)encontrar a nossa própria Loja. Sempre.

 

Loja de Unicórnios cumpriu seu propósito comigo e esta foi minha leitura do seu impacto – encontrado na segunda experiência – na minha vida. Para além da imaginação, do jogo maravilhoso de cores e de seu tom lúdico, o filme soa como um conto que você pode consultar quando se sentir desconectada de si mesma. Longe do unicórnio que, sem dúvidas, sabe quem você é de verdade. E você precisa acessá-lo não com dependência, mas como a âncora para não perder de vista quem realmente importa nos trancos e barrancos da “vida adulta”.

 

Você. ❤

 

O filme está disponível na Netflix e o elenco é simplesmente adorável. Brie conte comigo pra tudo!

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Stefs
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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