31jul
Arquivado em: Séries

Finalmente entro no tempo real (ou quase) das resenhas de The Bold Type. Daquele jeito em que assisto, escrevo e publico. Honestamente, eu achei que esse tempo não chegaria, pois não fiz questão de esconder o tamanho do meu descontentamento com esta temporada. Vi-me ainda um pouco descontente ao longo deste episódio e eu tive que adotar o exercício chamado relaxar. Isso porque eu fiquei um mês afastada da série, mas as emoções mistas prestaram visita.

 

O roteiro trouxe a questão de fortalecer e de quebrar relações. A começar por Sutton que se viu sombreada pelo luto não trabalhado de Richard e, com isso, recebeu mensagens confusas quanto ao comportamento do mozão. Curti esse resgate, embora eu tenha ficado confusa também quando mostraram o casal correndo no previously. Meio que ficou sem noção em um primeiro momento e ainda bem que o texto ressignificou o que me pareceu um momento aleatório na vida de Suttard.

 

E vai que era aleatório mesmo.

 

O fato de Brady não ter se ligado com rapidez sobre o que empurrava Richard quase desesperadamente para as corridas matinais e a fugir dos amigos por motivos falsos de estar entediado da mesma rota me encucou várias vezes. Assim, ela sempre teve contato direto com o mozão. Na S2, a personagem continuou sabendo o que rolava na vida dele ao ponto de entrar de balão no velório do pai. Essa específica (e suposta) ausência de lembrança sobre um fato que, inclusive, foi responsável em uni-los novamente, não me convenceu. Afinal, se tratou de um ponto forte nessa história para simplesmente torná-la em uma impressão de desfeita.

 

Tudo bem que eu mesma não me recordava desse momento, mas porque eu não o curti tanto assim. Foi empurrado quase a base da força no intento de Suttard retornar rapidinho no finale da S2.

 

 

Brady é a pessoa mais próxima de Richard. Ela decidiu ir ao velório quando nem sequer foi convidada – e não entendam isso como comentário negativo porque não é. De algum modo, a personagem sempre gravitou ao redor dele, e vice-versa, e a demora de sacar que havia um luto mal trabalhado foi custoso de acreditar. Tudo bem que o instante de cair na real valeu pelo conselho de Jacqueline, mas, até esse instante chegar, o processo de confusão de Sutton me confundiu também. Uma confusão que estacionou já em um ponto muito comum diante dessa S3: o desconhecido motivo dos roteiristas não darem continuidade ao que escreveram na S2 para ter aprofundamento.

 

Ao longo dos episódios, Richard não deu sinal de que ruminava o luto sendo que isso tende a mudar muito o comportamento – e não somente a rotina de corrida – da pessoa. De novo, The Bold Type entregou uma história ausente de desenvolvimento anterior. Mas valeu também pela metáfora e pelos refrescos em forma de background.

 

Não é segredo para ninguém que toda vez eu peço mais background desses personagens e ter mais de Richard é sempre bem-vindo. O mesmo para Sutton que compartilhou sobre seu pai e eu fiquei muito emotiva. Como disse no 3×05, esse casal é marcado pelas conversas e fico contente por terem desbloqueado isso de um modo que acrescentasse à história dos dois. Tão quanto para firmar a relação. Mesmo que os roteiristas tenham queimado várias etapas, Suttard segue muito concordante ao instante em que foram apresentados na S1 e segue como o melhor casal.

 

Desculpa, Kadena, meu shipper mortíssimo em NYC.

 

 

O mesmo caminho não pode ser dito sobre Kat. Juro, ela me irritou demais neste episódio.

 

Entendam: ingressaram no tema racial para movimentar o background de Edison na S2 – e para acertar o que faltou na S1. Perfeito! Mas, como a série é curta, começaram a correr nesse processo e o 2×05 deixou isso muito evidente quando a personagem deu lição de privilégio para Jane. Perfeito! Mas este episódio meio que contradizeu todo esse “desenvolvimento”. De quebra, me fez questionar que redes sociais são essas que ela acessa para não ter conhecimento básico da cultura do cancelamento e do linchamento virtual. Não deve ser uma que conhece Trump como presidente.

 

A S1 fez questão de frisar o tempo de The Bold Type e as temporadas seguintes se esqueceram disso drasticamente. O visto de Adena serve como maior exemplo do que eu considero um furo.

 

Sempre tento dar uma amenizada por motivos da série querer ser o lugar seguro e harmônico, mas tem viés que não dá para ignorar. Da mesma forma que faltou a Alex o peso do racismo, Kat seguiu com sua campanha como se não houvesse um monte de Trump fans dispostos a destruí-la online. Como se não conhecesse a diferença básica entre uma ação pessoal vs. ação política. Depois de 7 episódios envolvida nessa candidatura, longe de mim chamá-la de leiga. Ainda mais tendo Tia como suporte, a quem eu não tiro nenhuma gota do comportamento em resposta à Edison.

 

Eu gostei muito do discurso de retomar o poder ditado por Kat. De fato, ela não teve como reagir de pronto – e eu esperei que isso ocorresse visto que ela já partiu para cima de polícia. Detalhe que foi comentado ao longo desta temporada e Jacqueline representou seu maior canal. Todo dia alguém tenta reduzir o poder feminino, especialmente das minorias, e este episódio meio que ensinou como tomar ação sem tanto risco de denegrir e de ser denegrida. Como ser mais inteligente ao responder a um ataque sem se deixar levar tanto assim pelo sangue quente do momento.

 

Bacana, mas, pela milésima vez, os roteiristas se esqueceram de pincelar na vida de Edison o quanto o tempo de hoje exige um pensar triplicado sobre o que se compartilha online. Pode ter sido proposital considerando como essa parte da história se concluiu. Porém, é aqui que eu arrisco a questão de se comportar como leiga. Ou até mesmo um tanto alienada do clima político. E não ornou!

 

 

Cobrei um tempo atrás sobre a falta de racismo de The Bold Type em torno dos dois únicos personagens negros e isso finalmente aconteceu. Porém, não teve suporte de texto e nem preparo de causa. Nem foco politicamente furtivo. Tudo porque o intento foi inspirar Edison a usar suas plataformas com intenção, sem pesar no racismo. Honestamente, aqui faltou o mesmo tipo de atenção que as pautas do #MeToo recebem. Com seu singelo atrito e emoção já que a série não tem a menor intenção de aprofundar ativismo e etc.. Foi bizarro ver Kat apenas forçando uma ideia e não refletindo no que aconteceu “pela primeira vez na sua vida”. Ela só queria ação e ação, algo muito semelhante ao comportamento de Jane sobre Betsy. Não teve formação de opinião, mas sim irritante teimosia. Uma personagem escalando na outra para render uma conclusão a desejar.

 

Mesmo que Kat ainda não entenda totalmente sobre identidade e raça, convenhamos que seria muito melhor uma conversa com esse viés. Algo que ocorre com as pautas do #MeToo. E ocorreu com a troca sobre aborto e que ficou bem boa. Mesmo com um writer’s room diverso, tem horas que eu acho que a galera peca muito com essa personagem e isso não deveria acontecer mais.

 

A construção de Kat entrou em discrepância de tempo e de caracterização. O que ela dizia ao longo do episódio soou mais surreal que Sutton “se esquecer” do luto de Richard. Não ornou o comportamento alienante de ir para o embate sem consciência do que as redes sociais têm se transformado desde que Trump tomou o poder. E piorou quando ela se recusou a aceitar que seu intento de exposição pedia estratégia. Da mesma forma que rolou com Alex, e com a famigerada Betsy, a ausência de uma dose política quanto ao tema enfraqueceu o roteiro.

 

Tipo, ela trabalha com redes sociais e tentaram justificar essa falta de “consciência” por meio da impulsividade. Como se Kat ainda vivesse na S1. De novo, soou alienante. Está certo que a personagem não é obrigada a saber de tudo, mas, poxa, não ter noção de linchamento virtual? Da cultura do cancelamento? Da sua própria campanha de digitar com bondade depois dela mesma ter sido impulsiva ao agir? Ela já foi vítima de retaliação na internet e se esqueceram disso também.

 

Mente quem diz que 10 episódios não dão conta de desenvolvimento de personagem. A S1 conseguiu isso sem precisar correr no tempo. O que começou a ocorrer, e menciono sob uma análise pessoal, é que Lasher viu que esses assuntos rendem biscoito. E isso me faz lembrar da época de Skins em que os roteiristas sacaram que morte era o choque que não podia faltar – e a partir disso as mortes perderam totalmente o sentido. Um exemplo básico, mas que serve. Afinal, por mais que eu curta o viés furtivo de chamar a atenção inerente à The Bold Type, o descuido de abordagem é latente.

 

Assim, o roteiro teve a pachorra de dizer que foi a primeira vez que Kat enfrentou um ataque racista. Ela tem uma mãe branca que, com certeza, a deixava na escola. E The Bold Type quis realmente me dizer que uma cena dessa (criada na minha mente, claro, para servir de exemplo) foi normal na vida da personagem. Sem nenhum comentário preconceituoso.

 

E que ela cresceu sem nenhum tipo de complexo.

 

Sério? Essa falta de consciência funcionaria na S1. Quando raça nem tinha sido mencionada.

 

Daí entramos no instante em que Edison trouxe à tona o dia que ela foi presa. E eu tive que rir, porque esse foi outro momento da personagem totalmente fora da realidade. Um policial jamais trataria Adena e ela de igual para igual. Ainda mais no clima polarizado que vivemos hoje.

 

Vamos lembrar de Kamilah Brock, que foi abordada e questionada sobre ser dona da sua própria BMW. Na série, Kat afrontou o policial, face a face, e não sofreu nenhum dano mental ou físico. O instante só serviu para botar mais angústia em Kadena visto que, naquela época, Adena lutava pelo visto.

 

 

No fim, eu escolhi acreditar que usaram a visão nublada de Kat para Tia ter espaço de opinião e contribuir com relevância. É a única conclusão que cheguei, independentemente de Trump não ter sido mencionado. Eu fiquei bastante chocada ao ouvir que foi a primeira vez que Edison lidou com racismo, sabem? Eu não tenho espaço de fala nessa questão, mas racismo está em todo canto.

 

Apesar dos pesares, eu curti o intento de Kat em tornar as redes sociais relevantes, especialmente depois do ataque racista. De fato, não tem como ficar quieto, mas o roteiro perdeu muito da sua credibilidade devido ao que comentei acima. E somo ao dizer que Edison poderia ter caído na real sobre seu desejo urgente de diferença por meio da jornada de birracialidade. Justificar pelos impulsos foi uma medida meio preguiçosa e a tensão só valeu por Tia que se saiu bem como compasso moral.

 

Kat largou nas entrelinhas o desejo de alcançar uma plataforma que fosse influente e socialmente transformadora e é ok errar nesse processo. Reconhecimento que entregou a moral de toda essa circunstância e nem sei o que dizer. Por um lado, tem sido bacana enxergar esse ponto se estendendo ao longo da storyline de Edison, pois, ao menos como candidata, ela é leiga. Por outro, vê-la recusar estratégia política foi absurdo. E foi mais absurdo vê-la chegar a uma conclusão para concordar com Tia depois de acompanhar a reação de Patrick ao vídeo.

 

O que deixou o sentimento de que Kat segue sendo construída de uma lupa privilegiada, pois este roteiro agiu como se ela não soubesse de nada. Nem muito menos da própria birracialidade. Como já disse por aqui, desconstrução é um processo lento e dolorido. Não vem de uma hora para a outra e não nos torna automaticamente prontos ou 100% conscientes. O importante é seguir aprendendo e este episódio conflitou esse processo. Repetindo: correram para torná-la entendida de tudo e pecaram ao mostrá-la ainda muito afastada das suas questões. E isso segue confuso!

 

Mas não menos real, claro, porque todo mundo tem seu momento de sabichona para tomar na cara.

 

A experiência teve algum pretexto apesar da minha irritação. Esta temporada mostrou que a impulsividade de Kat diminuiu e este episódio foi tipo uma prova de choque. Gostei dela admitir que é falha, que tem que aprender. É assim que se faz – embora eu saiba que a série não dará conta dessa parte como não tem dado desde que a S3 começou.

 

Justiça social tem várias camadas de engajamento e tem horas que você quer falar sobre tudo sem manjar muito. Kat serve de exemplo nesse quesito também, embora eu mesma não tenha certeza desse argumento. No geral, penso que é importante saber quando falar. Como falar. E o porquê falar. Nem tudo é compartilhável e a ser comentado. Nem por tabus, mas porque, às vezes, se preservar é melhor. Inclusive, admitir que você não sabe, pois isso não fecha porta para progresso.

 

Os outros plots

 

 

Eu nem sei mais o que dizer sobre Jane, mas sigo satisfeita na medida do possível sobre o desenrolar da reportagem. É o único momento que vejo o melhor de Jacqueline, então, tudo ok.

 

Por outro lado, confesso que não curti ver essa reportagem rendendo cenas curtíssimas. A pauta pedia um aprofundamento no nível The Bold Type 1×10 e 2×04 para gerar conexão, proximidade e impacto. Como se trata de outro viés de poder e abuso, penso que teria sido bom mastigar um pouco mais. Principalmente quando meio mundo ainda diz que feminismo é sororidade pra tudo! Não né?

 

Para não perder Ingrid, que inspirou uma mudança de ângulo na escrita de Jane, encontraram outra fotógrafa que abriu um novo caminho. O real início para construir a reportagem, pois houve proximidade com as futuras e ainda anônimas fontes. E, sem fontes, Jacqueline e ela não iriam longe e matéria especulativa seria o auge dos auges da falta do que escrever, honestamente.

 

Outro ponto que me fez torcer o nariz neste episódio foi Alex se tornar roommate de Jane. Óbvio que eu voltei ao caso Jeff. O cara está inabalável e empregado. E Kat quase se ferrou em um possível linchamento por ter sido vítima de racismo ao ocupar uma escada com Tia. Nem ouso colocar que homem é homem e mulher é mulher nesse caso. Afinal, Edison não abusou ou quase abusou de ninguém. Já Alex…

 

Mas essa sou eu, sempre recolhendo motivos para detestar homem hétero.

 

Não sei se sou contra a atitude de Jane em simplesmente enfiar Alex na casa dela. Por ser um alguém conhecido, não vejo real problema. E, outra, é a casa dela. Porém, volto na questão de diálogo. Ela caiu de novo em partir do que acha correto para si, mas as circunstâncias eram totalmente diferentes. Tudo bem não querer interferência do boy na questão de fertilização, mas a personagem chamou outro cara para viver embaixo do mesmo teto. Tudo para medir a quantidade de ciúme e de insegurança do casal que praticamente vivia junto.

 

 

Alex se tornou atrito entre Ryan e Jane e que desperdício. Assinatura bem Lasher, se querem saber, e foi uó. Ambos não conversam, se tornaram Kadena da S2 por viverem na cama e quase o tempo todo nus. Contribuição de desenvolvimento de personagem nota 0 e com cheirinho de toxicidade.

 

Eu sempre fui meio que dual sobre Ryan e fico na margem. Aguardando o instante que esta temporada me dará o motivo que eu preciso para chamá-lo de projeto de Chuck Bass.

 

Foi péssimo descobrir como Ryan queria morar com Jane tão quanto 100% incômodo. Ele se empurra na vida de Sloan desde aquela maldita caixa de ovo – e da necessidade de Lasher em querer todo personagem como traidor. Eu não consigo me sentir confortável quando os vejo juntos. Eu chego a me divertir em algumas partes, mas, como também venho dizendo, o sexo aqui veio mais como fanservice que como desenvolvimento. O cara tem sido um intruso desde o dia 1!

 

Sigo reforçando a impressão dele ser um completo escorado que deu sorte, porque nem os roteiristas sabiam o que fazer com esse cidadão. Tudo bem que eu lamentei por ele ter feito todo aquele jantar e Jane chegar com Alex nos calcanhares, porque, de fato, foi bem bacana. Porém, isso míngua quando o vejo e me pergunto se ele não tem casa, família e etc.. É surreal como Ryan existe para render em vários nada e ainda ter uma turnê programada em incontáveis cidades.

 

E ainda querer viver com Jane sendo que Jane nem sabe de onde Ryan veio. Coerência cadê?

 

Concluindo

 

Wendy Straker Hauser assinou este roteiro junto com Nikita T. Hamilton. O que me deixou ainda mais em conflito, porque Wendy escreveu um dos melhores episódios da S2 (Rose Colored Glasses). Pode ser que este se saiu como uma tentativa de versão 2.0 do mencionado episódio e não deu muito certo visto que Kat não é mais alheia à sua realidade como mulher birracial. Além de tornar tudo mais pessoal que social quando a situação inteira tinha cunho político.

 

Não tenho muito que dizer sobre Nikita, especialmente porque é a primeira vez que ela escreve para The Bold Type. Ótimo, mas é possível notar que Wendy teve mais voz na construção deste roteiro por todos os pontos que mencionei.

 

Só sei que posso colocá-lo no 3º lugar junto com o 2×07 e o 3×03. Falou, falou e não falou nada.

 

Em contrapartida, este episódio funcionou por motivos de ausência de Patrick. A tríade voltou ao centro dos holofotes, com os caminhos de suas respectivas storylines. O que me incomodou dessa vez foi: sinto como se boa parte da turma não tivesse trabalho. Mais precisamente Jane que vive mais fora que dentro da revista. Mesmo com a busca de fontes para fechar a reportagem sobre Pamela, não havia outras pautas que poderiam desencadear outro interesse? Aka trama?

 

Saudade de quando pauta casava com o objetivo das meninas de alguma maneira.

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Stefs
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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