17jul
Arquivado em: Séries

Antes tarde do que nunca, eis que finalmente apareceu o episódio inspirador de The Bold Type que eu tanto aguardava. Nossa, eu realmente sentia falta do efeito coração quentinho que esta série costumava proporcionar. Além disso, do incitar daquele lance de querer conquistar o mundo em poucos dias. Obviamente que a pessoa que oportunizou este momento foi Jacqueline Carlyle que segue, desde a S2, como mero plano de fundo. O que aniquila sua verdadeira essência vista na S1.

 

No caso, a ponte que ela cria com a Scarlet. O papel da revista também segue ausente desde o meio da temporada passada e isso se fortaleceu nesta por motivos de Patrick. O personagem que, honestamente, eu não aguento mais. Por causa dessa invenção de embuste, a trama da S3 não tem se encontrado (e nem possui tema específico) e o voo da Fênix de Jacqueline veio na hora certa. Principalmente porque eu cogitava deixar esta série para depois – uma ação que nada mais, nada menos, representaria meu abandono até ter coragem de retornar (o que aconteceu depois do 3×06).

 

Ao contrário dos anteriores, este episódio veio dentro da fórmula The Bold Type. Profissão. Inspiração. Jacqueline. Rotina na revista. Festa que, no fim, manda uma mensagem incrível. Foi ótimo ver Jane, Sutton e Kat inseridas em storylines pertinentes. Comentário que vale um tanto mais para Sloan, que vem de um começo de S3 sem relevância. Graças a isso, essa personagem fortaleceu a sensação de que este ano da série não tem premissa. Fato que diminuiu um pouco visto que esta trama também fez o favor de deixar pontas soltas para futuro desenvolvimento.

 

Sem dúvidas, este episódio compete com o 3×02 em qualidade e fluidez de roteiro. Tudo porque cada uma da tríade, até mesmo a editora-chefe, conquistou um senso de continuidade. Isso trouxe certa empolgação, especialmente porque eu me senti conectada de novo a esse universo.

 

Uma empolgação que também corresponde ao novo investimento no #MeToo. Porém, de uma lupa feminina. Um assunto muito pertinente já que há mulheres que são abusadoras e nada mais sensato que essa história, depois de uma expressão de ira, caísse no colo de Jane. Personagem que voltou ao cerne da história em seu devido papel/posto – e para febre gravíssima de Patrick.

 

 

Em mais um dia aparentemente entediante, Jane adquiriu uma informação grandiosa e perigosa. Tudo porque envolve uma fotógrafa consagrada no mundo da moda e que abusa física e emocionalmente das modelos. Quando soube que haveria esse viés de storyline, a famosa grey area do movimento #MeToo, fiquei muitíssimo curiosa. Apesar das minhas insatisfações com o início desta temporada, há um fato que nunca deu errado: Jane inserida em uma pauta dessas na companhia de Jacqueline. Vimos isso por dois anos da série, mas, por algum motivo, rolou insegurança. E essa insegurança veio justamente na presença desagradável de Patrick, que seguiu com seu boicote nas entrelinhas. Porém, seu efeito de tensão foi pertinente para o episódio.

 

Milagres acontecem, né?

 

Para além da pauta de Jane, que só serviu de âncora de trama nesse primeiro momento, fizeram o favor de resgatar o possível declínio de Jacqueline. Um assunto que entrou tão do nada na série quanto o desejo de Sutton em ser estilista. Pelo visto, querem dar um acerto nesse grande buraco e não sei bem o que pensar. Afinal, The Bold Type não tem aprofundado seus assuntos desde a temporada passada. Por outro lado, gostei da tentativa de explanar a situação.

 

Mencionaram a matéria referente ao declínio de Jacqueline e ela serviu de embasamento para o que transcorreu muito discretamente neste episódio. Patrick criou um clima em dose única que segurou o desconforto sobre o que aconteceria na festa e que trouxe um outro lado da editora-chefe. A insegura, perdendo um pouco das estribeiras, regando o episódio com o agridoce da incerteza.

 

É óbvio acreditar que Jacqueline não será retirada de The Bold Type. Seria um tiro grotesco no pé visto que, como disse, ela é a essência da série. Uma essência que se fortalece uma vez que Sloan está ao seu lado. Fato que não aconteceu nos últimos episódios e amém que retomaram os trilhos.

 

 

Este episódio deu uma esclarecida bem mais ou menos sobre a punição que tanto cobro desde que Jacqueline publicou o artigo de Jane no season finale da S2. O conselho de homens brancos estava a todo o vapor (desde o início desta temporada pelo visto) e meio que se confirmou que Patrick é a arma de retaliação. Os homens estão insatisfeitos com a editora-chefe da revista e o “mais legal” é que ninguém se propôs a demiti-la. Decidiram pela tomada de poder pouco a pouco e eu cheguei a sentir falta de Richard como aliado nessa questão. Não anulo a participação de Oliver, que tem tido um grande momento nesta temporada, pois nada minguaria a verdade de que ela aperta calos desde que The Bold Type nasceu. Considerando o 2×10, se pode dizer que os boletos chegaram.

 

Eu comentei várias vezes sobre o quanto não era natural Jacqueline permanecer ilesa depois de ter estourado uma regra. O mesmo Jane. Por mais que eu não curta meus anjos se dando mal, ainda mais a alma da Scarlet, esse outro buraco ganhou um recheio que pesa nas tentativas de Patrick em tomar a revista. O que me faz entrar em outro ponto: a transição impresso para o online.

 

Um assunto que se comentou no episódio passado e que retornou para frisar um instante do jornalismo que também é muito brasileiro. Várias revistas fecharam por conta de dívidas e outras transitaram de vez para o online. O modo como as pessoas consomem notícias mudou. A maneira de entregar informação mudou. O que não mudou é ver mulheres como Jacqueline, com tantos anos de carreira e acima dos 30, serem tratadas por Patricks da vida como “dinossauros”.

 

Vide o instante em que Jacqueline afirmou que sabe quem é RuPaul e ele ficou “chocado”.

 

Uma mulher quando envelhece dá a entender que ela é menos sábia. Menos atraente. Um homem mais velho no lugar dela seria genial. No caso de Patrick, o famoso “novos ares”.

 

O foreshadowing ao redor de Jacqueline nunca fez tanto sentido como neste episódio. Mesmo que não usem a linguagem direta, a personagem tem sido caçada por dois motivos: ser mulher e ter mais de 40 anos. Com veículos querendo pessoas mais jovens, e consequentemente com risco de serem mais vazias como Patrick, quem tem muito tempo de casa é sempre o primeiro a sair. Justamente porque essas pessoas custam caro. Sem contar que mulheres com anos de casa são demitidas simplesmente por serem mulheres. Algo que remete ao posicionamento dessa personagem.

 

 

O intenso do episódio foi vê-la desesperançada. Atuação é tudo nessas horas, porque os roteiros desta temporada ainda dão a impressão de que não sabem o que querem atingir no quesito conflito. Eu acreditei que o embuste do Patrick tomaria a revista de vez. Uma revista que, como disse Jacqueline, está ali para servir a mulher de forma inspiradora e não para ser clickbait. E Patrick é isso. Ele só quer a popularidade. O buzz. O relatório bombando de usuários/conversões vazios.

 

Ao contrário de Jacqueline, Patrick é só dinheiro e o conselho de homens brancos quer isso. Um conselho que, “ironicamente”, é formado por homens brancos com mais de 40 anos. Eles são os sábios enquanto a editora-chefe é um impasse. A quem eles julgam ter envelhecido para atender a demanda atual de mercado. Comportamento masculino muito real se querem saber.

 

Quando homens se reúnem em panelinha corporativa… Bem, vejam Patrick. Ele dominou o conselho sendo um baita puxa-saco e sua artimanha para dominar a Scarlet foi além de tomar os redatores da revista. O cara tem contribuído para cortar os gastos da versão impressa e isso mexeu com as estruturas de Jacqueline. Inclusive, deu pungência na sensação de que essa personagem pode ir embora. Claramente, esse cidadão desconhece o valor de ter uma revista embaixo do braço.

 

O bom é que Jacqueline esmurrou o embuste e eu chorei que nem um bebê por causa do discurso. Em poucas palavras, ela trouxe de volta o que sempre importou para The Bold Type. A série não é sobre Patrick. Nem muito menos sobre os homens brancos do conselho. É sobre o trio de mulheres que, junto com a editora-chefe, querem mudar a cultura para meninas e mulheres. A raiva de Jane sobre Patrick e a sede de fazer alguma coisa são totalmente compreensíveis. Principalmente quando você é acostumada a escrever sobre o que importa e/ou incitar conteúdo de qualidade.

 

Por mais que Sloan esteja sumidinha da trama, eu ainda sou capaz de me ver nela. Não tenho paciência para Patricks. E não tenho o menor interesse de escrever futilidades.

 

Em um único sopro, Jacqueline moveu todas as estruturas. Ela é resiliente. Firme. Inspiradora. Ela tem noção precisa do que faz e como faz. Em meio à sua vulnerabilidade, a personagem viu que não podia ceder. Não quando não há ninguém ainda que possa nortear a revista melhor que sua pessoa.

 

No fim, Jane e Jacqueline se reencontraram e, juntas, retomaram o poder. Jane não queria mais aquele inferno de site (nem eu iria querer) e Jacqueline quer lembrar o que a Scarlet faz de melhor. Algo que para mim soou como um belíssimo aceno à matéria que trouxe Adena para a série.

 

De quebra, trouxe a chance de um novo viés jornalístico: reportagem investigativa. Tipo de texto que leva tempo e confesso que tenho certa preocupação devido à falta de desenvolvimento da série. Mas tudo bem. Desde que entreguem algo sensato e adequado não tem problema.

 

Por meio do discurso de Jacqueline também soubemos mais do seu passado com a revista e está aí algo que eu sinto falta na série. O background dessas personagens. Sei que o futuro é o artifício mais pertinente para The Bold Type, mas tenho certeza de que há muito passado para ser discutido. Como aconteceu com Kat esta semana e foi muito formidável.

 

Outros plots

 

 

Falando separadamente agora, começarei por Jane. Foi muito bom vê-la invadir a sala de Jacqueline para falar sobre sua sugestão de pauta e deixar claro que não quer dividir sua ideia com Patrick. Além de ele ser o mala do momento, obviamente que o personagem anularia qualquer chance da matéria acontecer, porque, em sua mente de ervilha, isso não dá buzz.

 

Sem contar que seria uma nova brecha para barrar Jacqueline e sem condições.

 

O que é contraditório visto que ele empurrou Alex para o penhasco e me restou rir que o pagamento aqui rendeu em vários nada. Repetindo de novo: cadê os danos? A revista não foi chamada atenção? Estão tão preocupados com Jacqueline ao ponto de ignorarem a crise do episódio passado? Eu tento ficar de boa, mas, nesse quesito, realmente não dá. Como disse, não gosto de ver os anjos sofrendo, mas, pelo amor da Deusa, vamos ser realistas com algumas coisas, né?

 

Voltando, ninguém poderia coordenar a pauta de Jane senão Jacqueline. Pauta de mulher, sobre mulher, entre mulheres. Homem não tem nada que se meter aqui. Fizeram o correto e, fortalecendo minha opinião, eu espero que Pamela seja desmascarada com sensatez.

 

E eu tenho que dizer que curti à beça o fato de Jane não ter cutucado sobre o aborto de Kat. Acredito que aprenderam a não socar tudo de ruim na boca dessa personagem e a não fazê-la dizer que sofreu só para diminuir alguma situação vivida pelas amigas. A S2 foi tão ruim com Sloan nesse sentido ao ponto de eu aguardar ela dizer que já tinha abortado também ou visto alguém nessa posição e pipipopopô. Eu amo minha filha e não tolerei ainda o bad writing da temporada passada.

 

Nessa caminhada, tivemos Sutton que ganhou seu direito de ser dramática por conta da criação de um vestido. Tá errada? Não tá, pois eu mesma faria tudo que a personagem fez. Choramingaria. Desistiria. Ficaria um poço de decepção nessa treta entre expectativa e realidade. Foi basicamente isso que Brady passou neste episódio. O que estava em sua mente não se tornou real.

 

Oliver e Sutton sempre formaram uma parceria fantástica e dessa vez não foi muito diferente. Amarrando o talento de ótimos chefes, como Jacqueline reaflorou neste episódio, o patrão aqui pisou no calo de sua pupila e rodopiou para doer. Uma dor positiva sobre aceitar críticas, porque elas virão aos baldes. Principalmente no mundo competitivo e cruel da moda.

 

O que me faz comentar sobre o quanto estou feliz por Sutton. Na S1, a personagem se sentiu superinferior por não ter uma formação em moda e agora esse momento pode ser seu. De algum modo, os roteiristas precisaram abrir o futuro para ter o que contar na S4.

 

E Richard. O que dizer sobre Richard? Por mim ele seria o único hétero da série, na moral.

 

 

Kat segue me dando orgulho e é mágico ver como sua storyline tem sido a mais acertada da temporada. Para somar mais significado ao episódio, aborto veio como pauta e curti o fato de que trouxeram dois pontos de vista. Edison teve seus privilégios. Algo que Tia não teve no instante em que decidiu abortar. Apesar de sempre se cobrar para que personagens negros estejam dentro de suas ditas realidades, aqui houve terreno seguro. Tudo bem que meu primeiro pensamento disse que nada disso condiz, pois tudo muito bonitinho. Ainda mais quando paramos para pensar que as mulheres que têm acesso ao aborto legal são brancas e ricas. Mulheres negras periféricas são as que mais morrem nesse processo devido ao status social que as impulsionam rumo à clínicas ilegais.

 

Deve ser por isso que pensaram em dois pontos de vista. Afinal, existem mulheres negras e ricas que podem recorrer a um aborto em um ambiente mais adequado – mas elas não são maioria. Kat e Tia trouxeram duas realidades e a conversa teve sua pertinência. Os diálogos foram assertivos tão quanto a emoção transmitida. Ambas agiram para não decepcionar os pais por meio de uma gravidez. Sem contar que elas não puderam comunicar isso visto que aborto era tabu.

 

Fato que não mudou. O tabu continua em cima de uma pauta que é de saúde pública.

 

O discurso de Kat no final de tudo veio só para amarrar o poder de influência de Jacqueline. O episódio trouxe vários picos entre alegria e tensão. Sentimentos positivos que entraram em queda, e Edison, junto com Sutton, entregaram isso muito bem. Ambas estavam no pico até terem que lidar com suas sombras. De modo efetivo, as três retornaram à estaca zero e, no fim, resolveram dar o salto de fé. Seja abraçando uma falha pessoal. Seja ao projetar um percurso ainda melhor.

 

O tempo passa e ainda nos minimizamos pelos nossos erros. Pelas nossas escolhas. Somos retiradas das narrativas “simplesmente do nada”. Conjunto que pode ter vindo de uma posição de certeza e de paz, mas, ainda assim, soa como crimes que temos que pagar. E essa dívida se queima quando abrimos para a honestidade. Para a coragem de assumir que tudo isso e mais um pouco é nosso. Justamente porque não somos unilaterais como gostam de acreditar. Não temos um só caminho.

 

Temos várias chances para atender as multidimensões de quem somos.

 

Concluindo

 

Este entrou para o pódio de episódios favoritos desta temporada. Foi emocionante! Sem defeitos! Principalmente quando toda a temática casou com mais um momento do qual vivo. A questão de dar um salto de fé realmente me tocou e foi isso que cada personagem levou para si.

 

Focaram em quem precisava de foco – e quem se ausentou nem fez falta, na moral.

 

Sem dúvidas este foi um episódio bem escrito, especialmente por ter servido de complemento a algumas mudanças na narrativa da série. Houve um momento de grande adrenalina, em que todo mundo se viu confiante com o futuro aberto no 3×03, para depois tudo decair. Houve um começo, meio e fim que entrelaçou todo mundo em cena. Que envolveu todas as emoções. Que trouxe o reavivar da chama interior, como a confiança. Além do gosto fraco de despedida de Jacqueline.

 

Honestamente, me pergunto como desviaram tanto desse caminho em The Bold Type.

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Stefs
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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