12ago
Arquivado em: Contra as Feras

Conto de fadas foi a primeira ideia que se apossou da minha mente na hora de desenvolver e de elaborar um projeto que nasceu em 2015 e que eu batizei como Contra as Feras. Mais precisamente, o da Branca de Neve. Princesa da Disney que, apesar dos pesares, gosto muito por motivos de apelo da infância. Tudo que me veio à mente na hora de botá-lo no mundo foi seu contexto problemático. No caso, as partes do enredo que representam o dito mais bela de todas + um espelho mentiroso + a rivalidade feminina do ponto de vista da Rainha.

 

É engraçado pensar que, nessa época, mais precisamente 2015, eu estava muito conectada com essa princesa. Cheguei a escrever um post sobre meu amor por ela neste site e ganhei blusinhas adoráveis. Tudo isso bastante consciente de que o desenrolar da vida da Branca de Neve se deu entre altos e baixos causados por uma madrasta invejosa.

 

Tão invejosa ao ponto de querê-la morta.

 

Branca de Neve entrega nas entrelinhas a rivalidade feminina motivada pela aparência. Porém, de um ponto de vista. Para se sentir melhor e segura, a Rainha decidiu eliminar a dita concorrente. Até fracassar. Ou, como diriam popularmente, até o feitiço virar contra a feiticeira.

 

Se eu refizesse essa história, Branca de Neve jamais teria mordido a maçã. Ela teria sido mais esperta no sentido de questionar a sua origem. Daí, entramos na outra problemática desse enredo que é a princesa ceder ao papo da Rainha disfarçada por querer o happy ending.

 

Com isso, ganhar o beijo de amor.

 

O padrão de muitas princesas clássicas da Disney.

 

No fim, Branca de Neve é salva pelo príncipe. Firmando a ideia de que mulheres são incapazes de se salvar (ou até mesmo se ajudar) e que só almejam o amor romântico (e heterossexual). De toda ajuda que a personagem poderia ter para sair de tal impasse, o homem veio até ela. Não qualquer homem, mas um príncipe de grande vocal, quase um trovador, montado em um cavalo branco.

 

Lindíssimo (ou quase), mas havia outro inimigo na história da Branca de Neve: o espelho mágico. Para mim, o verdadeiro vilão, pois o item foi o agente provocador das ações da Rainha. Afinal, ela também foi vítima de sua opinião (o que não aniquila sua maldade). A voz dizia que a madrasta só seria a mais bela de todas quando Branca de Neve deixasse de existir. E ela foi atrás de garantir tal acontecimento.

 

Foi nesse contexto de a mais bela de todas que nasceu o projeto que um dia se chamou A Bela e as Feras. O objetivo foi desmistificar esse conceito da Disney tendo transtornos alimentares como ponto de partida. Foi assim que nasceu, inclusive, a primeira tagline: você é mais do que vê. Frase essa que será retomada ao longo deste ano visto que quero assumir a raiz deste projeto.

 

Um projeto que costumava ter seu próprio site e é por isso que este texto mudou de endereço. A partir de hoje, o Contra as Feras será integrante do Hey, Random Girl!.

 

━━ ❤ ━━━

 

A criação deste projeto contou com outro reforço em temática. O documentário Miss Representation – repetidamente mencionado por aqui. Foi por meio dele que comecei a comparar o que transcorre em A Branca de Neve no quesito aparência. Algo ainda contemporâneo quando pensamos em revistas, pois as mulheres das capas normalmente não nos incitam a ser melhores. Na verdade, a provocação desse conteúdo é para sermos melhores ao olhar masculino. O que, automaticamente, gera a rivalidade feminina por causa de um homem.

 

O que não é o caso da Branca de Neve, claro, mas não significa que a competição trazida por esse conto machuque menos. A aparência se tornou o motto, além do contemporâneo, para que cada mulher brigue pelo posto de a mais bela de todas. Crentes de que é na aparência que mora seu valor. Sendo que a beleza reside no que se emana para o mundo. No que se acredita. Em como se trata o próximo. Como se encara situações que fogem da compreensão da maldade humana.

 

━━━ ❤ ━━━

 

Eu sempre tive problemas com minha autoimagem e essa busca de aceitação se tornou um cerne essencial no início do ciclo deste projeto. Mas chegou a um ponto que não dava mais para falar somente da aparência quando eu, pessoalmente, tenho dezenas de outras Feras das quais batalho diariamente. Um processo que sei que não terá fim, mas sim um apaziguamento em que umas Feras irão embora, sem relutância. Em contrapartida, há outras que sempre retornarão e/ou permanecerão.

 

O espelho deu origem à metáfora da Fera. Espelhos sempre foram meus inimigos. Seja em sua forma oficial, como um item da sala, ou na forma do policiamento das pessoas que dizia o que eu certamente acreditei que eu não era ou que jamais seria. Reflexos e mais reflexos, ecos e mais ecos, que contam mentiras. Como aconteceu com a madrasta que, claro, não precisava ir tão longe.

 

Mas, de alguma forma, nós vamos longe para ser a dita mais bela de todas. Mesmo que não seja um ato consciente, pois, para muitas, soa com naturalidade, como se nunca tivesse existido um tipo de coerção social. Seja como for, ainda nos moldamos para encaixar e para competir. Entregamos nosso corpo a processos estéticos sem ao menos questionarmos o que é realmente o corpo. Aceitamos o que achamos ser amor porque parece que nunca encontraremos algo assim na vida.

 

Mulheres vivem nesse ciclo constante de validação externa e se esquecem de que a validação interna, de nós para nós, é um tanto mais relevante. Claro que isso não anula o agrado de alguém. Precisamos de troca sim. Precisamos sentir o amor que vem do outro lado da ponte. É importante estar aberta ao carinho externo, desde que ele não seja nocivo para você.

 

Mas é tão igualmente importante cultivar amor-próprio e autoestima, pois assim se dá alguns passos para se livrar das mentiras que os espelhos dizem diariamente.

 

━━━ ❤ ━━━

 

Mesmo com tais inspirações, a curta jornada deste projeto me mostrou que o real objetivo é: fazer as pazes comigo mesma depois de anos me achando menos que as ditas mais belas de todas. Com esse intento, o que tem acontecido é a busca constante de alívio interior. Além de retificar o que vivi de ruim na tentativa de manter os bons momentos e os aspectos bons de mim.

 

A aparência se tornou um eixo de impacto do que hoje se chama Contra as Feras. Depois, saúde mental por motivos de ansiedade e do transtorno alimentar. Dois eixos que não são únicos. Ou exclusivos. Eles se complementam e abrem portas para outras batalhas contra outras Feras.

 

As batalhas Contra as Feras são um impasse diário. Quem se recuperou de um transtorno alimentar vive com a constante do medo da recaída, dos gatilhos ou de qualquer lembrança que impulsione velhos hábitos. O mesmo cabe à aparência, pois, independentemente de você encontrar seu estilo, há dias que você se pergunta o motivo de não ser como as outras.

 

Essas inseguranças nunca nos pertenceram. Elas nos foram dadas.

 

Porque não nascemos nos odiando.

 

E nos odiamos. Tornamo-nos incapazes de nos ver além do espelho.

 

Não acredite no que as Feras dizem foi o motto de criação junto com o Você é mais do que Vê. Frases criadas no piloto e, com a transição para um site próprio, alterei para Você é você por uma razão. Gosto muito desse quote, mas, hoje, é necessário voltar ao início.

 

━━━ ❤ ━━━

 

Todo este texto é para dizer que o objetivo do projeto não mudou, mas as narrativas serão outras – além do seu endereço. Ao menos, é o que espero. Quero me desenvolvê-lo mais e sair um pouco de pauta pronta. Ser o mais natural possível, como eu fui nos primeiros meses de Contra as Feras.

 

A meta é ser uma companhia. Tocar alguém com meus textos (que é assim objetivo para a vida). Tornar o dia de alguém melhor. Ou fazer com quem está aí do outro lado se identificar e se sentir menos sozinha. É uma boa hora para retornar à história de Origem de um projeto que amo muito.

 

Uma história de Origem que chegou a me fazer questionar se deveria abandonar tudo (ou mudar o nome mais uma vez). Mas daí eu olhei para um pequeno mural que eu tenho na parede. Lugar que tem duas fotos minhas em versão bebê. Olhar as frases ao redor dessas imagens me fez compreender o sentido da coisa toda e notei que eu não podia fazer isso. Não quando este espaço também é uma resposta para a minha criança interior, que nem sabia o que acontecia ao seu redor. Uma criança bem contente que não esperava ser demolida por incontáveis Feras.

 

O que me faz ver agora que o Contra as Feras representa a lacuna do entretempo entre minha infância e adolescência. Somente a parte adolescente ganhou minha atenção.

 

De todo modo, fechar a porta para um lado da minha história me faria perder o fluxo da essência deste projeto. A chance de retificar muitas feridas do passado que ainda me perseguem.

 

━━━ ❤ ━━━

 

Não tenho grandes planos para este ano a não ser escrever. Detalhe que minha psico sempre comenta, então, praticarei a atividade. Tem muita coisa acontecendo aqui desse lado. Uma nova batalha que tem muito a ver com transição. Com o deixar algumas Feras partirem.

 

Contra as Feras é o motto pelo tempo que for necessário – e acredito que assim será até o projeto parar de existir. Todo dia é uma luta diferente. E todo dia a gente tem que se erguer e estabelecer nosso equilíbrio. Tudo porque vivemos em uma constante em que a ressignificância do nosso meio serve de ponto de partida para vencermos as nossas Feras.

 

E eu estou muito contente de agregar este projeto ao Hey, Random Girl!. Confesso que rolou um receio imenso, mas, com o apoio dos amigos certos, só me resta dizer: vamos nessa?

 

Imagem: Aleksandr Ledogorov (via Unsplash).

Tags: , .
Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
Você pode gostar de ler também Deixe seu comentário
Siga @HeyrandonGirl no Instagram e não perca as novidades