22ago
Arquivado em: Contra as Feras

Eu sempre fico meio chocada com a minha mente que vira e mexe se esquece das coisas. Não é um dito problema de memória (ao menos não que eu saiba), mas a razão é que eu sou uma humana que não para de pensar um só segundo. Por pensar demais, coisas se empilham, competem uma com a outra, e não há foco que resista por tanto tempo diante desse turbilhão mental.

 

Uma das coisas que acabou perdida nesse turbilhão mental foi o tema de 2018 que eu defini para este projeto na sua época de site próprio: a batalha Contra as Feras. O intento foi gerar uma campanha, mas ela não aconteceu. Meramente porque eu não fiquei superativa em qualquer um dos meus projetos no ano passado. Triste história!

 

De todo modo, não significa que não rolou uma batalha Contra as Feras. Rolou, mas no meu backstage. E, quando fui atrás de lembrar o tema de 2018 (que é uma tradição), fiquei chocada! Agora vocês entendem mais ou menos como meu esquecimento, às vezes, me impacta.

 

Eu sou consideravelmente esquecida e minhas intenções de cada ano entram nesse esquecimento. O que acho ótimo, pois não fico bitolada. Com esse desprendimento, a coisa toda flui, sem eu me meter no meio, e o resultado chega quase sempre no “aconteceu como jamais imaginei”.

 

Um dos resultados foi: voltei mais intencionada a compartilhar as minhas tretas porque eu vivi minha proposta de 2018. Sem me dar conta. Sem planejar. Aconteceu como jamais imaginei.

 

Antes de eu chegar aos capítulos dessa intenção, eu preciso contar um pouco sobre a minha batalha. Uma batalha de tema: eu vs. eu. Exaustiva, acreditem. Porém, teve (e ainda tem) seus louros.

 

Explicando: 2018 apresentou um ringue que eu nunca me inseri, mas estava inspirada a fazer parte dele. No caso, a terapia (cujo nome é análise no meu caso). O ano de 2017 virou e eu senti que precisava de apoio especializado. E, uma vez encontrado, passei a lidar com os muros que apenas disfarçavam a presença de vários espinhos gerados com o passar dos entretempos.

 

Espinhos que só aparentavam ausência visto que achei que os esqueci. Em um sentido de pensar que a dor acarretada em determinadas circunstâncias seria temporária e que logo eu ficaria bem.

 

Bem, eu apenas acumulei tudo dentro de mim e isso respingou em vários comportamentos/pensamentos.

 

A busca não foi difícil, pois eu estava decidida a ter uma psicóloga em 2018. E, quando eu tenho foco, o negócio se desdobra como tem que ser. Por outro lado, não foi rápido. A busca começou em janeiro e eu dei vários rolês até encontrar a minha luvinha perfeita. Aquela que me identificaria. Algo que só foi ocorrer no começo de julho do ano passado.

 

Antes disso, eu tive que trabalhar a real verdade de que eu teria que falar. Não que não tivesse conversado com as profissionais que encontrei e abandonei (uma eu larguei porque eu saía da sala me sentindo pior, sério), mas, por algum motivo, eu não conseguia desenrolar. Eu falava demais, porém, sem um recorte específico para o processo engrenar.

 

Processo que me fez perceber que eu queria uma troca de duas vias. Eu não queria ser somente ouvida. Eu tive a experiência de escuta e foi horrível. Parecia que a profissional não tinha o que dizer além de sorrir e de acenar para mim. Por favor, não. Só me deixou na bad, sério! Saía pensando que eu não tinha solução ou que meus problemas eram pequenos para serem tratados.

 

Percebi também a necessidade de ter um objetivo. Isso é importante, penso eu, ainda mais para quem tem gavetas lotadas de coisa ruim para contar e, assim, endereçar.

 

Houve um timing em que eu acreditei que não encontraria mais essa pessoa. Acreditei por uns bons meses que era um sinal de que eu não precisava frequentar a terapia. Eu estava errada, porque, depois de eu dar uma desencanada, a psicóloga certa veio. E veio na hora certa!

 

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Para ter sucesso nessa trajetória, que agora tem 1 ano e um mês, eu reconheci duramente que não dava mais para manter meus problemas na gaveta. Nem muito menos manter a ideia que eu lidava perfeitamente por conta própria (sem nem tocar nas feridas). Eu precisava de alguém que apertasse meus botões adequadamente, daquele jeito de doer ao ponto de você despertar pra valer. Negar, ou não trabalhar problema X, era tudo o que eu fazia até esse momento de glória chegar.

 

Muito desse meu negar veio do fato de que eu nunca compreendi alguns desdobramentos que ocorreram na minha adolescência. Desde aquele tempo, traduzi minhas dores como achismos. Soava o suficiente, mas eu sempre caía nos mesmos padrões, ou dava de cara com outros, para camuflar a pane no sistema. Nunca deu certo. Criou-se um ciclo vicioso que não me ajudava.

 

Vejam bem: quando eu achei que tinha controle, o transtorno alimentar me disse olá.

 

E achei que estava tudo bem, sem saber que vivia com um transtorno alimentar naquela época.

 

Cheguei ao limite graças ao que eu não lidei. Processo que foi ganhando forma em 2015, ano que me abriu a porta para eu entender finalmente um dos pontos que dizimou minha inocência, o motivo de ter alguns gatilhos e como eu ainda respondia a eles. Mais um tempo passou e outras coisas vieram à tona, o que entregou que eu não dava mais conta. Não dava mais para crer que eu tinha a capacidade de regenerar as feridas mais profundas e as cicatrizes mentais mais latejantes solitariamente. Não quando era evidente que parte de tal processo estava fora da minha alçada.

 

Eu precisava de uma pessoa que seria o que não sou: a pá que desenterraria o que mais doía e jogaria tudo na minha cara. Ação que, no fim, me impulsionaria a me sentir bem (essa era a esperança) e a vivenciar uma real recuperação. Além disso, me ensinaria sobre o padrão de vitimização – que rola mais na minha mente e tem horas que o negócio fica impossível de conter.

 

Não dava mais para ser a pessoa que reagia do mesmo jeito ao mundo externo. Que se prendia demais à ruminação. Decisão que transpareceu o desejo de querer um viés diferente para mim. Algo que eu não conseguia mais ver ou batalhar para ter. Quando eu achava que dava certo, que minha hora chegou, por minha conta e risco, eu logo menos caía no padrão de repetição.

 

Há certas coisas que não resolvemos por conta própria. Não dá! E eu tive que sair desse pedestal. Quanto mais eu acumulava perrengue, mais sintomas se criavam dentro de mim. Um processo de mais de 10 anos, repleto de acúmulos traumáticos que eu acreditei que tinha controle. Por essas e outras que eu acreditei que suportei tudo. Principalmente quando penso (ou pensava) que há pessoas que passaram por algo pior. E ver as coisas por essa lupa é errado, pois você minimiza o que sente. De quebra, você começa a enterrar seus problemas por achá-los desimportantes.

 

Eu mesma.

 

Eu me rendi ao entender que não dava mais para investir na mesma estratégia. E aprendi que rendição não é desistência. É pedir ajuda. E isso foi um dos meus maiores méritos, pois nunca fui adepta de pedir ajuda. Anos de traumas me tornaram a minha “própria psicóloga”, junto com o Pinterest, o que, evidentemente, não deu certo. Eu não lidava comigo mesma dentro do caos.

 

Eu me destruía no caos.

 

Por estar exausta desse processo de autodestruição, entender o caos se fez necessário. Principalmente para não me deixar ser mais destruída por ele. Eu precisava de outra mão em forma de uma profissional que traduzisse as partes espinhentas da minha vida (e do meu ser). Um entendimento que não viria pela boca de amigos. Nem por mim – e olhem que eu tentei.

 

Eu precisava de uma perspectiva profissional, pois esses capítulos da minha vida se tornaram leitura viciada. Incitando os mesmos modos de operação. Mantendo o mesmo distanciamento. Me comprometendo toda vez que a guarda abaixava.

 

Se pensarmos bem, achamos que lidamos com tudo. Às vezes, por nem lembrarmos. Mas, mudando o ângulo, o que rolou comigo foi uma iniciativa do cérebro em jogar tudo em gavetas mentais e passar a chave. É uma proteção, claro, mas que não anula os períodos de desordem e de desorientação. A negação, especialmente, porque esconder no fundo da gaveta não é lidar.

 

E isso piora quando a pessoa não aceita a própria vulnerabilidade. E eu vivi anos sendo esse impasse comigo mesma. Afinal, eu “aprendi” a ser independente muito cedo. Com isso, uma dita autossuficiente para lidar com todo tipo de drama pessoal – até com os traumas. Uma ilusão, né?

 

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Meses de tratamento depois, eu sentei para checar o site do Contra as Feras e preparar conteúdo novo. Não foi fácil, porque eu percebi que mudei. Tanto interna quanto externamente. A minha versão de 2015 se uniu a de 2018. Ao menos, é assim que vejo, pois se criou a versão que vos escreve. Nova em folha e que se viu perdida na hora de resolver se manteria o projeto ou não.

 

Nisso, voltei ao tema de 2018 e me lembrei da batalha Contra as Feras. Do processo de ter mudado a URL para Contra Feras (tirei o “as” porque não curti esteticamente). De certa maneira, eu me abri verdadeiramente para essa luta e acredito que seria interessante compartilhá-la com vocês aqui no Hey, Random Girl!. Algo que eu não tinha planejado, mas eis uma nova mudança.

 

Este texto fora publicado na versão site do Contra as Feras. Local em que eu intencionei contar sobre essa minha batalha (e o que veio depois). Um amigo especial me deu uma luz e me mostrou que a fusão entre esses dois projetos era possível. Uma decisão que veio, especialmente, do fato de que eu não desenvolvi o CF desde seu nascimento. Eu o criei para contar histórias. Para ser meu outro braço sobre pautas que eu achei que não davam para ser comentadas aqui.

 

E agora elas passarão a viver aqui.

 

Eu não imaginei que essa nova mudança aconteceria. Porém, era meio evidente, pois eu não estava dando conta. Eu desanimei ao longo de 2018 e isso fortaleceu meu sentimento de falcatrua. Desde mentir para eu mesma sobre meu job ser “tudo” (sendo que ele só me atrapalhava) até garantir que eu estava sob controle. Inclusive, emocionalmente estável sendo que, antes de encontrar uma psicóloga, lidei com novas nuances da falta de equilíbrio. Suportei muitos picos emocionais que me recordaram de 2016. Foi difícil transitar, mas eu venci. Eu salvei muito de mim nesse ciclo.

 

Agora, eu tento tirar os espinhos mais insistentes. Aqueles pequeninos que só saem com uma bendita pinça.

 

Eu tentei manter meus projetos em dia, mas o 2º semestre de 2018 foi definidor. Ele veio com tudo para testar meus limites – e a quantidade de lágrimas que ainda existiam em meu organismo. Meu tratamento começou em julho, mas foi em agosto que a coisa toda desencadeou. E eu simplesmente não tive onde me segurar. Era a hora de parar de tentar manter tudo trancafiado na gaveta. De não abrir mão do que precisava sair – pois eu, supostamente, não “conseguia” me ver sem a parte ruim.

 

Outubro de 2018 foi o mês das dores intensas e novembro foi a época das minhas férias. Tudo que ouvi nesse ínterim foi que eu parecia mais leve e, de fato, eu começava a ficar. Eu começava a compreender que nem sempre eu posso me ajudar por conta própria e que trauma tem sim caminhos de resolução – e, deixando claro, isso não acontece de uma hora para a outra.

 

Nesse entretempo, eu vi que certas feridas não batiam com as minhas próprias traduções. Independentemente disso, é real o fato de que eu posso sim ter uma vida boa sem todo o conteúdo ruim. O conteúdo ruim não vai embora, mas eu sou a própria responsável em manejar esse leme. Ser maior que ele para elaborar um novo caminho e ressignificar os próximos passos.

 

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Graças aos impactos da análise, eu me vi sem saber como dar continuidade ao Contra as Feras. Por mais que eu tenha consciência da nova Stefs, eu me pergunto quem ela é e tenho noção de que não é essa a pergunta principal. Na verdade, a questão é: para onde vamos?

 

A minha pausa serviu para que eu compreendesse o que mais doía e o motivo de doer. De sair do mencionado achismo. Para compreender o que esses espinhos geraram em mim (apesar de eu ter tido uma consciência sobre alguns e na análise eu vi que não estava tão errada). Foi um processo que exigiu muito de mim e muito do meu intento de deixar ir e finalmente deixar curar.

 

Novamente, não quer dizer que tudo se foi. Tudo ainda existe. Agora mais vívido porque foi remexido. A real solução que eu tenho hoje vem do que escuto sempre da analista: elaborar e ressignificar.

 

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O Contra Feras nasceu das batalhas que enfrentei ao longo de um período que foi definidor na minha vida: 14/15 anos. Minha analista ficou de olhos arregalados (ainda escuto ela dizer muita coisa né?) com o tanto de informação que lancei na primeira sessão. Saí de lá me perguntando como ainda estou aqui. Tentando ser alguém na noite, ou algo desse tipo, sabem? Desistir é atraente, não mentirei!

 

Mas minha analista parece que me entende e eu a chamo na intimidade de meu universo. Assim, eu tenho para mim que ela é a voz do universo na minha vida. Um universo exausto de me dizer que “não sou qualquer pessoa” e que eu tenho meu valor. E eu devolvo com sarcasmo.

 

Certas coisas não mudam, percebam!

 

O que ganhei para compreender meu caos foi a metáfora das gavetas. Eu dividi tudo em gavetinhas, sem intenção de revisitá-las. Gaveta do abuso. Gaveta do transtorno alimentar. Gaveta dos péssimos relacionamentos. Gaveta da família. Gavetas. Minha análise é quase literária, acreditem.

 

Digo isso porque minha analista sempre quer saber o que eu estou lendo (e ela puxou minha orelha na sessão dessa semana porque eu tenho lido um total de vários nada). E eu sei que ela associa ao momento, pois eu mesma faço isso. É ou não é o universo, gente?

 

Enfim. Viver essa batalha Contra as Feras foi doloroso sim. De vez em quando ainda é. Porém, segue gratificante, pois me descubro mais no processo. Conforme eu ia me resolvendo com o que transbordou no tratamento, eu fui notando as mudanças em mim.

 

Não menos importante: eu descobri que o que eu achava que doía mais era o que doía menos.

 

Nesse início de batalha Contra as Feras, eu ganhei mais noção da necessidade de autocuidado. De parar e respirar. De sair quando a necessidade vem. Do que me faz sentir bem ou mal. Das razões que me feriram quando eu vivi o ciclo e os resultados dos depois que me deram escolhas para ser quem eu sou – e eu abracei tudo de braços abertos. De aceitar a solitude, porque eu tenho problemas com essa parte (e sempre achei que não). Eu gosto um pouco mais de mim, penso no meu melhor, e tenho orgulho de onde cheguei. Em contrapartida, ainda há dias que eu não gosto de mim, que quero sumir e me acho tonta. Informações para quem acredita que análise é milagre. Não é.

 

Tudo porque depende da gente mesmo melhorar. O analista é apenas a catapulta. Os dias ruins não somem de uma hora para a outra, especialmente se você tem um tipo de transtorno mental. Não é todo dia que eu estou leve e sem drama. Que me sinto confiante e enérgica. Há dias e dias, como na vida de qualquer outro ser humano. A questão é reaprender a lidar com todos esses picos e é difícil.

 

Resumindo: tudo é processo. Nesse caso, é processo constante e permanente.

 

Correr atrás de terapia foi o melhor presente que me dei em 2018. Um ano conturbado de vários vieses possíveis e inimagináveis, como as Eleições. Foi um ano agridoce, mas, por outro lado, houve muito crescimento e amadurecimento pessoal na minha vida. Há muita coisa que aconteceu, que não dará para contar tudo neste post, mas um dos resultados foi ver o caminho para redescobrir o meu valor.

 

Eu jamais esperei me ver segurando um escudo contra as minhas feras. Ainda mais por ser a pessoa que cede sempre o escudo para proteger quem gosta. Na minha mente, eu já fazia isso por mim. Porém, não tinha uma ação em que eu fosse testemunha. Eu acreditei, piamente, que eu estava bem, mas vários estopins disseram que eu precisava cuidar do meu interior.

 

(e deixa eu repetir que nem tudo segue lindíssimo já que eu quase sempre acredito duvidando).

 

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Ficar fora deste projeto rendeu culpinha porque eu não gosto de deixar jobs na mão. Ainda mais quando são de minha autoria. Mas foi melhor que fazer um trabalho nas coxas.

 

A única coisa que consegui mudar efetivamente foi o nome do projeto. De Bela e as Feras fomos para Contra as Feras. Um nome que vivia zunindo no fundo da minha mente e que se transformou em uma realidade. Que deu um tom de fortalecimento para minha intenção de 2018 – e que, hoje, vejo com outro significado que espero contar também em futuros posts. Eu acredito muito nessas intenções, mesmo esquecendo-as – e é bom ter a surpresa da revelação.

 

2018 foi o ano que eu comecei a cuidar de mim dentro do famoso real e oficial. O que me resta daqui em diante é contar para vocês como foi.

 

Como foi essa batalha Contra as Feras.

 

Leia também:

Contra as Feras: o entretempo entre infância e adolescência

Jessica Jones: o eco de alguns traumas

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Imagem: Eberhard Grossgasteiger (via Pexels)

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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