20ago
Arquivado em: Música

Contei na primeira parte desta minha história com Taylor Swift que o Spotify alegou 83 horas de escuta em 2018. Muito pouco diante de uma swiftie, por exemplo, que a acompanha fielmente desde o 1989 ou desde o começo da carreira. Mas é com tal resultado que retornarei a outra parte do passado para dar contexto a este post. Mais precisamente a 20 de agosto de 2018. Dia, mês e ano em que ela cantarolou Out of the Woods na minha mente depois de mais de 365 dias de distância.

 

Depois do #TaylorIsOverParty, eu não quis mais saber de Taylor Swift. Basicamente, me tornei o meme da Mariah Carey. Tarefa que não foi nem um pouco difícil de acionar, pois a geminiana movida pelo ranço fecha a porta na cara sem pensar duas vezes. Neste caso, foi automático. E simples. Como eu não era fã hardcore, o caos me deu a chance de sair pela porta dos fundos da festa de cancelamento. Eu cheguei a ler uma coisa e outra sobre a cantora depois disso, mas o começo do amor morreu antes da própria Taylor apagar o feed de suas redes sociais para anunciar uma nova Era. Um instante que eu peguei na ponta rasa de um entretempo que nem sequer imaginei que um dia se tornaria muito meu em forma de músicas sobre reputação e amor dourado.

 

O buzz do súbito reaparecimento (reflexo do sumiço ao longo de 2016/2017) da Taylor tornou impossível não dar uma conferida na presença de uma cobra em seu Twitter/Instagram. Eu não lembro exatamente onde eu estava, mas fui atrás de ver o que acontecia para todo mundo voltar a falar sobre ela. Pelo tempo de distanciamento entre nós, eu não vi nada interessante. Reflexo de quem não entendia o conceito de Eras somado ao rancinho que permanecera depois de quase dois anos.

 

Em 2016, eu cheguei a dar alguns scrobbles para o 1989 em reflexo do fato de que eu escrevia meu primeiro livro na época e o shipper respirava You Are in Love. Sem contar que eu tinha um apego muito grande por Clean e isso aumentou um pouco porque esse mencionado ano foi a treva para mim. Depois disso, mais precisamente outubro de 2016, Taylor foi apagada da minha vida. Eu simplesmente a esqueci e ela meio que contribuiu para isso ao sumir também na mesma timeline.

 

Era 20 de agosto de 2018 quando Taylor veio me prestar uma visita e eu me lembro da cena como se fosse ontem. Um entretempo em que eu tinha completado um mês de análise. Um mês que também resolveu ser o mês em que emoções começaram a me açoitar ao mesmo tempo. Emoções conflituosas, de várias causas, e o primeiro disparo veio com o Dia dos Pais. Outro disparo veio quando terminei de ver Sharp Objects e Camille Preaker virou tema da semana. Sim, uma coisa parece não ter nada a ver com a outra. Porém, teve tudo a ver e foi quando Swift achou conveniente dar um olá. Como se soubesse que eu precisaria das suas músicas para chegar ao final do ano.

 

A música que pairou na minha mente foi Out of the Woods. De longe, a música que faz Clean perder o status de nº 1. Uma música que tem uma energia que me torna incapaz de descrevê-la, mas pulsa dentro de mim. Pulsa tanto que parece que me torno inflamável. Enérgica para tudo.

 

Out of the Woods tem uma tremenda importância na minha jornada com a Taylor. Essa foi a primeira música dela que eu escutei por conta própria, sem ter algum tipo de influência de videoclipes e de premiações. Exatamente no dia em que ela foi lançada e eu só me lembrei disso quando fui atrás de caçar meus próprios tuítes. Como contei na primeira parte deste especial, eu cheguei a acompanhar partes da construção da Era 1989, mas não esperava que fosse colar tanto.

 

Eu sabia da existência do reputation quando Taylor retornou aos meus ouvidos. Entretanto, não dei chance. Talvez, eu estava receosa. Talvez, eu imaginei que Swift ressurgira apenas para representar o papel de guilty pleasure naquele dia – e, automaticamente, não valeria a pena saltar para um álbum novo que não geraria apego. Inicialmente, eu só conhecia Look What You Made Me Do, porque eu cheguei a ver o videoclipe quando foi lançado. Com aquele olhar cético, de quem claramente não entendeu o conceito, e com ranço no coração. Eu vi, mas, depois, fingi que nunca nem vi. Principalmente quando tudo que pensei foi: mas de novo essa narrativa?

 

O tempo passou e o reputation atropelou o 1989 e disse: amiga, corre aqui!

 

… are you ready for it?

 

Taylor Swift - ready for it?

 

SINCRONICIDADE: uma palavra mais chique sobre o famoso “nada é por acaso”.

 

Em 2014, eu tratava Taylor como guilty pleasure. E o jogo virou quatro anos depois.

 

Hoje é dia 20 de agosto de 2019 e era 20 de agosto de 2018 (obrigada Last.fm) que Taylor Swift pipocou na minha cabeça e com extrema intensidade. Daquele jeito em que eu cantarolava Out of the Woods enquanto me arrumava para mais um dia chato de job. Eu não sei por quais motivos, mas bateu saudade do 1989. Uma saudade parecida com o querer mandar mensagem para uma pessoa que você não vê há tanto tempo para deixar a marca de que ela faz falta.

 

A soma da timeline entre o Dia dos Pais e o após da maratona de Sharp Objects bateu em várias quinas delicadíssimas da minha vida. Algumas foram desenvolvidas ao longo da análise e destaco o reconhecimento do quanto alguns apelidinhos que eu recebi na adolescência geraram muita dor. Eu não tinha essa noção, porque eu abraçava. “Achava divertido” e isso “me ajudava” a não falar sobre como eu me sentia. Eu acreditei por mais de 10 anos que isso não era um problema, pois eu “levava de boa”. Mas era um problema e esse problema deixou um rastro de sintomas negativos.

 

Esse reconhecimento deu voz a uma emoção que sempre me foi comum: raiva. Raiva que faz tudo arder e piora quando pessoas que não convivem mais comigo acreditam que ainda me conhecem. Que ainda se acham no direito de me tratar como antigamente. Que ainda acham que não mudei.

 

Outro sentimento que me abateu nesse período foi a subestimação – e eu abracei isso com carinho tão quanto os apelidinhos que ganhei ao longo dos anos. Isso em âmbito profissional em que sempre fui chefiada por homens e eu sempre tenho relação de atrito com qualquer homem. Pode demorar meses, mas o estranhamento vem e ele veio igualmente forte. Tudo porque, ao longo da minha vida, homens foram responsáveis por dezenas de mudanças no meu comportamento. Tão quanto na maneira como eu passei a me tratar, a me ver… A ser ausente na minha própria vida.

 

E a análise arremessou tudo isso e mais um pouco na minha cabeça. Criando caminhos que eu nunca sequer parei para refletir, como amor e relacionamento. Tudo veio de uma vez e eu comecei a perder o controle. Justamente porque eu nunca soube externar meus sentimentos. Daí a raiva me serve de cola para tudo – e com chance de explodir de uma vez só.

 

Esse foi o início do marco de um tipo de declínio emocional que rendeu em um misto de raiva e de tristeza. Muito bem acompanhado por registros no diário e muitas, mas muitas lágrimas. E era só o começo! Afinal, o meu sofrimento ao longo da vida me fez crer que havia 200% de coisas erradíssimas comigo e que não havia mais solução. Eu acreditei que o tempo para me “consertar” tinha passado visto que o passado fora eficaz em me furtar.

 

Eu sou um poço de trauma e isso me deu também o denominador comum de completa desconfiguração. Eu nunca fui minha. Também nunca soube com eficiência quem eu era de verdade. O que eu queria. A análise me tirou de vários níveis de negação e me abriu para essa busca interior. Uma busca que me exigiu lidar com o que passou e aceitar. Me autoaceitar.

 

Eu recebi a missão de começar a ressignificar o que foi ruim na minha vida e o reputation entrou bem nessa linha. Bem nesse início de rebuliço que se prolongaria até dezembro de 2018. Mais precisamente no dia 21 de agosto e foi aí que as sincronicidades entre Taylor e eu começaram.

 

22 de agosto de 2018

Sabe quando aquela artista que cê nem acompanha presta uma visita em sua mente e fica martelando? E vc não entende o motivo pq tá aqui bem de boa e a artista tá lá bem de boa, e tudo bem? Taylor Swift.

Só sei que essa semana entrou e eu seca querendo ouvir 1989 (e fazia um ano que não ouvia esse álbum) e agora tô meio que virada no reputation. E eu não tô entendendo nada porque a Taylor é tipo 100% distante de mim (mas eu amo muito o 1989, tipo, de verdade). E é a primeira vez que escuto reputation. Sigo sem entender nada, mas seguirei meu dia tentando entender o motivo dessa prestação de visita sendo que nem somos migas.

 

Há uma discordância entre o tuíte e as datas que mencionei ao longo deste post, mas é porque eu usei o Last.fm como referência. E nem é tão discordante assim porque o dia 20 de agosto de 2018 caiu na segunda. Ou seja, eu acordei com Taylor na cabeça e segui a semana desse jeitinho.

 

Eu me surpreendi com a minha rapidez em dar uma chance ao reputation. Ainda mais por ter se tratado de uma artista que eu não era (mais) familiarizada. Mas, de uma hora para a outra, eu escrevia minhas emoções sobre a Taylor em caixa alta. Quando isso acontece, bem, fangirl alert.

 

No momento em que a primeira faixa do reputation tocou, algo estalou dentro de mim. Ele soou familiar. Tão familiar que a primeira escutada gerou uma segunda, uma terceira… Eu fechei agosto ouvindo esse disquinho todo santo dia. De uma hora para a outra, o 1989 se tornou lenda urbana.

 

A partir daí, reputation se tornara meu mantra semanal e escalara para ser a trilha que me ajudaria a atravessar os eventos desse referido ano. Ao longo da jornada, todas as músicas desse álbum foram ressignificadas por mim. Denunciando que cada arte é interpretada de maneiras diferentes e Taylor espelhou as minhas emoções confusas. Ela deu voz a minha raiva e alguns furtos. Ela me inspirou a rever o passado tão quanto a voltar a escrever de forma que eu esvaziasse minhas angústias. Ela me inspirou a resgatar meu otimismo em dados instantes e um pouco da crença em mim. Fatos que persistem e não duvido que esse álbum volte ao topo do meu Spotify.

 

Enquanto o 1989  me dava (ainda dá) aquela vibe de primavera/verão, de nostalgia e de imaginação, reputation me colocou na fila do combate para que eu combatesse as minhas sombras. Foi assim que eu passei a ver esse álbum antes mesmo de saber que Taylor o escreveu para lidar com os eventos a partir da linha do tempo da festinha do cancelamento. Nem ela conseguiu explicar como se sentiu em voz alta e escrever sobre trouxe suas conclusões.

 

Saber da história do reputation, como ela se construiu, tornou meu encaixe nessa Era perfeito. Como se fosse minha própria Era, sendo que não passou de um reflexo do que eu tentava acessar, lidar e curar ao longo desse período resultante da análise. E cada música apaziguou alguma dor específica. Algo que eu senti bravamente quando ouvi Clean – e isso ainda acontece.

 

Para eu avançar na análise, eu tive que olhar para vários capítulos passados. Eu tive que endereçar e ressignificar o que estava ao meu alcance. Eu tive que parar de me comprimir para caber. Eu tive que analisar meus muros sustentados por espinhos, minhas infiltrações, meus vidros estilhaçados. Soma atrás de soma que me colocou em um espaço apertado demais e que não me ensinou como lidar com toda essa bagagem que eu passei mais de 10 anos internalizando.

 

Com reputation, Taylor me deu uma voz. Além de ter sido minha catapulta para seguir adiante.

 

‘cause she’s dead!…

 

Taylor Swift - Look What You Made Me Do

 

É preciso tirar a armadura uma vez que você entra na sala da análise. E estava aí algo que eu nunca imaginei que eu seria capaz. Mas eu fui capaz e, naquela sala, eu fui ganhando a melodia para pensar e me sentir melhor. O reputation entrou como o reforço que me fez olhar para minhas emoções que, assim como as expressas por Swift, estava em todos os lugares e totalmente incompreensíveis. Uma sensação palpável de estar fora do controle. Sem equilíbrio. De ser exposta.

 

De não ser sua própria âncora.

 

E daí vem a fileira de sintomas. E você precisa trabalhar em cima desses sintomas.

 

Eu fui furtada tão quanto me encolhi para ser cômoda desde os 14 anos. Eu não tinha noção disso até começar a análise. Processo que pede também para que tais narrativas se encerrem, pois só assim para você conseguir seguir adiante sem alimentar tanto (ou nunca mais) tais sintomas. Cenário que eu vi quando assisti Look What Made Me Do pela segunda vez na mesma semana em que comecei a ouvir o reputation. Foi o início oficial da minha sincronicidade com a Taylor – junto com os poemas que eu li dessa Era. No instante em que cada Taylor cai da pilha de Taylors, eu vi a chance do início da queda do meu somatório de furtos. Ali, no topo, a Taylor, que metaforicamente sempre existiu, ressurge. Ela escalou caminho para assumir sua própria narrativa.

 

Ela disse chega aos furtos. Furtos que, infelizmente, nunca têm fim. Porém, há como lidar.

 

Uma tradução pessoal que me arrepiou por ter sido a visão real do quanto abraçamos e do quanto acumulamos mais pelo ponto de vista alheio. Ou seja, inverdades. O alheio fez Taylor abrir mão de suas camadas do passado, que contribuíram para sua carreira, porque acabaram “manchadas” pela narrativa que os haters não conseguiram se desprender. E só mesmo a personagem central dessa narrativa poderia dar um ponto final a tudo e tal ação se deu no instante que ela retomou seu poder.

 

Há um instante em que tudo que foi acumulado explode. Você atinge o ápice da raiva, por exemplo, como a Taylor no topo de outras Taylors em Look What Made Me Do. O limite junto com o desejo de mudar urgentemente a narrativa. De forma que você pegue tudo e torne seu. Não de um jeito negativo, mas sim de forma a endereçar e se libertar. Tornando-se finalmente protagonista. Tornando-se finalmente sua.

 

1989 foi o auge dos auges das mancadas da sua parte, mas o reputation entrou com uma nova visão que me emana o reconhecimento de erros para assim transformar. E foi assim que eu comecei a perceber Swift novamente depois de quatro anos e não foi difícil. Principalmente porque a mídia da época só falava da sua turnê. De quebra, ela mesma se tornara muito ausente das redes sociais.

 

Independentemente do que é verdade ou mentira no transcorrer da Era 1989, Taylor fez o sensato ao se apropriar desses rótulos que moldaram sua reputação e transformá-los em música. Ela tirou a autoridade de quem falou ou deixou de falar. Claramente, a cantora precisava agarrar tudo uma última vez e deixar explodir. Limpar o ambiente para que tudo começasse de novo. E para o bem.

 

Como uma pessoa que escreve, eu deveria ter compreendido o modo de operação da Taylor desde que escutei The Last Time. Afinal, muito do que construo vem de experiências pessoais. De grandes decepções, de mágoas e afins, porque foi basicamente isso que me deixou marcas (e hoje eu tento dar mais finais felizes e com grande relutância). É na escrita que encontro meu meio de esvair. Um processo em que se encontra não só a criatividade, mas a própria verdade. Além da chance de se compreender certas dores e de tirar o veneno e abrir brecha rumo à regeneração interior.

 

Taylor faz esse trabalho com tamanha dedicação. E tudo se encaixa. Como o reputation que se tornou um álbum de regeneração para mim. Ainda mais quando penso nos chefes que eu tive e no quanto eu queria deixar escrito na parede if a man talk shits then i owe him nothing.

 

Graças a essa visita súbita da Taylor na minha mente, que completa um ano hoje, eu voltei a ter gosto pelas suas músicas. Isso aconteceu de uma maneira muito mais acertada em comparação ao meu momento com o 1989. Rolou mais proximidade e mais empatia. Não somente por me ver nos sapatos dela, mas porque eu voltei a apreciar uma ótima compositora. Ponto esse que foi o primeiro que me chamou a atenção quando eu me vi espionando o trabalho de Swift antes de 1989 ser oficialmente lançado (e eu repassei o Torrent para as amigas da timeline, gente, percebam!).

 

Foi com o reputation que eu comecei a ter um melhor entendimento do seu trabalho. Como cada álbum é uma fase da sua vida, com direito a Prólogo e tudo mais. O quanto ela adora easter eggs e como ela resgata sua própria história como se intentasse dizer que uma hora tudo melhora. Taylor é seu próprio lado A e lado B, construindo narrativas que se conectam em outros ínterins de tempo.

 

Hoje, eu acredito que o passado não tem que ser deixado para trás e essa não foi uma lição do reputation. Muito embora esse álbum reforce essa minha opinião não muito recente. Há certas camadas que é preciso lidar tão quanto largar o papo de que o “passado não me define”. Ele define sim, mas cabe a nós escolher o valor dessa definição e o quanto essa mesma definição arrasta o que possivelmente não prestou anteriormente. É bom sempre olhar para trás e ver onde rachou.

 

Ao longo da análise, eu aprendi também que ninguém precisa agradecer por tempos de trevas. Tudo bem você não ser grata por ter aguentado/vivido algo muito ruim. Além disso, não faz mais sentido para mim me convencer de que eu merecia tal trauma para amadurecer e ser melhor. Em contrapartida, eu posso aceitar que o passado e seus furtos me deram escolhas para eu me salvar.

 

Justamente porque a gente pode se reerguer nos espaços que foram rachados.

 

Taylor fez exatamente isso com o reputation. Ela poderia passar por cima, mas seria o mesmo que abraçar o que foi dito. Sem direito de resposta já que a silenciaram e criaram ruídos para que ela não conseguisse se defender. Se ela não endereçasse o #TaylorIsOverParty, seria o mesmo que ignorar o que foi rachado. E ela, assim como eu, vê a escrita como um dos caminhos para compreender o que se passou. Para se reencontrar e voltar a se posicionar na própria história.

 

… so it goes

 

Taylor Swift - Look What You Made Me Do

 

As sincronicidades continuaram: dia 21 de agosto de 2017 Taylor liberou a cobra do disquinho reputation no Twitter. O dia em que comecei a ouvir esse álbum, mas em 2018.

 

Em 2018, muito artista que eu amo lançou álbum, mas eu só tive ouvidos e coração para uma mulher, cujo ranço era pura osmose. Meu olhar torto era meramente imposto pelo que a mídia me contava até ela tomar a própria narrativa e renascer em meio ao caos. Tomando partido de contar o que eu não vi e isso se tornou um símbolo para mim. Um símbolo de quem não aguentava mais trajar as roupas que lhe foram cedidas. Ato que é uma faca de dois gumes. De um lado, se aceita a roupa. Do outro, as pessoas enfiam mais e mais roupagens por saber que você não reagirá.

 

E você tem que reagir. Para o seu bem, você precisa reagir.

 

Muito de quem somos acaba nas mãos de outro alguém e esse outro alguém lapida. Assim nasce um rótulo ou um estereótipo que pode te definir para sempre. Eu não escolhi ser chamada de garota de coração peludo, por exemplo, mas aceitei. Aceitei a tachação e o resultado? Uma camada pungente de distanciamento que tenho comigo mesma no quesito emocional. E todo dia é uma luta para lidar com a minha vulnerabilidade. Tem horas que dá vontade mesmo em ser só o Grinch, não mentirei.

 

Quem sabe, eu precise trajar o Grinch, como Taylor trajou a cobra, e alcançar meu auge dos auges.

 

Imaginem que coisa horrorosa!

 

Voltando, o reputation ganhou seu próprio ritmo na minha vida. Esse álbum meio que narrou boa parte do que comecei a almejar no segundo semestre de 2018. O desejo de ser melhor, longe da camada grossa que impuseram sobre mim e que eu abracei ao ponto de “agir” conforme o esperado. De reconhecer que houve uma série de furtos que moldou meu comportamento externo – e, com isso, vieram os apelidos e o sentimento de subestimação. Tão quanto silenciamento, especialmente por parte dos homens que passaram na minha vida e que me furtaram.

 

Taylor entregou um trabalho em que eu senti que ela estava confortável e eu me senti confortável. Tudo porque veio um processo de cura emocional e acredito que a parte mais bonita deste projeto foi vê-la alcançar a mudança da paleta do vermelho das suas emoções para o dourado tão almejado. Mesmo depois das trevas, ela cantou sobre um amor que não é sofrido e esse amor pode ser interpretado de várias formas, pois Swift domina demais essa questão de universalidade.

 

Sua narrativa de amor no reputation socou outro assunto que eu me esquivava: de que sou digna de amor também. Eu tive a chance de pensar nesse amor dourado que não precisa ser um amor entre casal, mas um amor que você pode se dar. Ou os dois, vai saber. Eu vivi tanto tempo em trevas que as trevas se tornaram meu espaço comum. Com riscas mais vermelhas que douradas.

 

E daí ela me lança ME! que coincidiu com a minha dúvida sobre como existir sem o tanto de coisa negativa que eu consegui abrir mão no ano passado. Tudo porque, depois de meses, eu me vi mais leve. Eu ouvi pessoas me dizendo que eu estava mais leve (e eu vou sempre contestar isso). De alguma forma, naquele ínterim, eu troquei meu cinza por uma brecha de dourado.

 

Acima de tudo, reputation se tornou um canal para eu me lembrar de que não é legal passar por cima do que você sente. Nem muito menos se diminuir para caber. Ou viver totalmente do avesso para deixar os outros mais confortáveis. Ou se sombrear pelo que pensam de você. O que sinto toda vez que o escuto é que sempre posso mais. Seja lá qual for meu intento do bem.

 

Por meio dessa Era, Taylor me mostrou que aprendeu. Mesmo que ela tenha se preservado para não ter que reviver o ocorrido – uma atitude que achei sensata visto que é preciso respeitar seu próprio momento de cura. A criação do reputation lhe deu a chance de endereçar feridas que ela nem imaginava que ainda existiam. Como ser assombrada pela experiência de ficar sozinha na mesa do intervalo.

 

Sim, ela errou no passado, como todo mundo erra. Eu somei esses erros como se eu nunca tivesse errado na minha vida. E, quando eu ouvi o reputation, eu percebi que estava diante não somente da chance de conhecer mais o seu trabalho, como também de ver o outro lado da história que não veio fortalecida na bandeira de superação. Tudo junto com meu processo de me acertar e continuar endereçando tudo de traumático ou duvidoso que eu um dia acreditei que estava bem tratado.

 

Taylor me deu a possibilidade de pensar novamente sobre a minha frase favorita que diz que a heroína pode salvar a si mesma no fim de tudo. Ela se apropriou da narrativa por meio do reputation. Ela não precisou avisar que mudou. Ou dar entrevista para falar de superação. Ela sabia o que fazia e outra lição marcante é justamente o que disse neste post: expurgar o veneno.

 

Anos e anos se passaram e Taylor abraçou, engoliu e digeriu o que diziam sobre sua pessoa. Até ter o estopim, o ponto crucial de virada, em que tudo tem que explodir de vez no intuito de retomar o sentido. Hoje, eu acredito que ela finalmente se encontrou na bagunça. Eu a vi mais leve e pontual durante a Era reputation. O tempo de contemplação fora dos holofotes claramente fez muito bem.

 

Hoje, acredito que ela sabe que não tem como revidar tudo e todos, então, é melhor ficar de fora, especialmente sobre o que continuam a dizer sobre sua pessoa e sua carreira.

 

Ou revidar, mas somente quando o momento for necessário. Afinal, só nós por nós mesmos.

 

hold on to the memories…

 

Taylor Swift - rep tour

“We are never just good or just bad we are mosaics of our worst selves and our best selves, our deepest secrets and our favorite stories to tell at a dinner party, existing somewhere between our well-lit profile photo and our drivers license shot.”

 

Quando vi a data de lançamento de Lover, eu me lembrei que agosto tem uma marca relacionada à Taylor. Esta semana é 100% Taylor Swift e este post amarra a sincronicidade dessa história. Uma história que chegou perto de ser esquecida, porque eu tenho o dom de apagar o que costuma ser bom. Mas não dessa vez. O que ela fez por mim ao longo desses meses ainda tem forte impacto.

 

Ainda gera forte impacto. Principalmente na minha saúde mental.

 

Por mais que eu considere o dia de hoje como o dia de Taylor Swift na minha vida, o primeiro baque veio oficialmente em 14 de outubro de 2014. O dia de Out of the Woods. E ontem, pensando na revisão deste post, eu voltei para Out of the Woods. Claramente, eu acredito em sincronicidade, em intuição, no quebra-cabeça do universo, e penso que Taylor nunca foi embora da minha vida. Ela veio, mas precisou aguardar até eu me acalmar. Acalmando-me, eu atingi a emoção necessária para navegar em seu trabalho e assim conhecê-la melhor.

 

O pop foi meu gênero favorito na adolescência e repito o que disse na resenha do 1989: Taylor me deu músicas que eu nem sabia que sentia falta. Sem contar que, apesar dos altos e baixos, ela se tornou uma inspiração muito da positiva em minha vida. Muito mais perto do meu anterior fascínio por Britney Spears – a quem não consigo falar sobre e espero que um dia isso ocorra.

 

No total, foram 1.638 scrobbles de Taylor Swift no meu Last.fm em 2018. E, ao conferir os dados para este post, vi que hoje eu fechei novos 1.638 scrobbles. Se isso não é sincronicidade, eu não sei o que é!

 

Em poucos meses, Taylor se tornou a artista do meu ano no Spotify por meio de um álbum que me mostrou que é importante deixar o ruim entrar, ficar um pouco nas cinzas, para assim queimar e retornar como dona da sua própria narrativa. Um álbum que me mostrou também que é importante usar do silêncio para rever a vida e que não é tão ruim mexer na bagunça interior em busca da paz que só nós podemos dar ao nosso ser.

 

Não menos importante, me mostrou que é preciso se reencontrar para deixarmos de ser reféns do que sentimos. Além disso, nos livrar de quem tem sempre uma opinião para dar sobre quem supostamente somos.

 

Why She Disappeared

gif via ssparksfly/tumblr

 

May your heart remain breakable but never by the same hand twice
and even louder: 
Without your past
You could never have arrived

– So wondrously and brutally
By design or some violent, exquisite happenstance
Here

– Why She Disappeared (mais conhecido como o primeiro poema que eu li)

 

A ironia real é que o reputation entrou na minha vida para que eu discutisse o período em que eu sentia que tinha “muita coisa errada comigo” visto que eu consumi muita cultura que me norteou pela busca de um profissional em saúde mental em 2018. Obviamente que minha história não tem nada a ver com a da Taylor, mas aqui nasceu o elo. Um elo muito forte que me faz correr a ela quando tudo está uma grande porcaria. E está aí outro ponto de surpresa para mim, pois eu acreditei que não tinha mais habilidade de ser fangirl.

 

Dizem que a arte cura e esse disquinho é uma âncora de sobrevivência para mim. Hoje mais do que nunca. Foi em 2017 que eu dei um pontapé a um projeto de regeneração, mas ele começou efetivamente um ano depois. E a última pessoa que eu esperava que me ajudaria seria Taylor Swift. E sou muito grata por isso! Todas as músicas do reputation são tradutores desse entretempo que vivi, e vivo, e de suas causas. Cada uma se tornou lembrete da minha força interior.

 

You held your head like a hero
On a history book page
It was the end of a decade
But the start of an age

hold on to the memories, they will hold on to you

 

Eu sei que o post ficou enorme e pessoal. Como eu disse, eu precisava de contexto para explicar meu envolvimento com a Taylor a partir do reputation, pois somente assim eu conseguiria chegar na conclusão de tudo: ainda há arte no mundo que é capaz de nos ajudar e ela pode chegar no instante que mais precisamos.

 

Essa história precisava vir ao mundo. Uma vontade que se fortaleceu quando vi o reputation Stadium Tour na Netflix. Eu sempre lamento pelos shows que nunca verei e, quando a Taylor anunciou esse evento, eu me senti muito contemplada. Principalmente por ter sido noite de ano novo. Uma noite que dificilmente me cai bem, mas eu me vi contente. Eu me vi chorando de alegria. Foi com Taylor Swift que vivi meu 2º semestre de 2018. Foi com ela que virei e abri 2019.

 

Pelas músicas da Taylor eu vi meu ciclo se fechar e o mix Long Live/New Year’s Day me fez chorar como um bebê. Justamente porque eu me voltei para o quanto eu cruzei em 2018 e eu nunca esperei por isso. Um ano que foi rico de memórias boas e de luta com a minha saúde mental. Há muitas memórias que nasceram e que ainda não acredito que existem. E eu me agarrarei a elas para que não se tornem o eco que a gente apenas reconhece, mas não se lembra da sua origem.

 

Apesar das turbulências, 2018 entrou para a lista de anos favoritos. Por meio de experiências que eu jamais imaginei que eu teria e com reputation como trilha sonora de fundo. Minha vida não é perfeita, e nunca será, pois recuperação é processo. Um processo que tem que nos impulsionar adiante para que melhoremos. E ter a companhia de uma música que se atrela ao momento em que você vive torna tudo um tanto mais suportável.

 

Mal posso esperar pelo Lover. The Archer é a minha favorita e, como manda a sincronicidade dessa história, chegou em um dia que eu estava muito na pior. Tipo muito mesmo! Se o intento da Taylor é me ajudar novo, eu não poderia estar mais do que pronta para esse evento se repetir.

 

E assim Taylor e eu seguimos tomando chá todo fim de tarde com torrada com geleia.

 

the trick to holding on was all that letting go

 

 

Imagens: destacada (reprodução)/screencaps por taylorpictures.

Tags: , .
Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
Você pode gostar de ler também Deixe seu comentário
Siga @HeyrandonGirl no Instagram e não perca as novidades