09set
Arquivado em: Contra as Feras

I.

 

Houve um entretempo, de vários entretempos, em que ouvi que o passado deveria ser esquecido para assim viver o presente em sua completude. Uma completude que cabe um futuro. E eu acreditei.

 

Eu acreditei que esquecer do passado seria essencial para seguir em frente. Para eu ter o melhor da minha vida e assim alcançar um futuro que se adequasse a quem me tornei sem o que passou. Assim, eu segui em frente. Tornei-me, bem, uma pessoa. Porém, ainda sombreada pelas camadas negativas e traumatizantes do meu passado que sugaram horas lineares. Minutos à deriva.

 

Eu vivi em constante caos. Em constante briga comigo mesma. Em constante briga com o mundo.

 

Até que um dia eu fui jogada no que chamam de olho do furacão. Para variar, pensei, mas logo notei que a intenção daquela vez era diferente. Ao contrário do costumeiro, sempre socada por um gatilho ou por alguma situação que resgatava uma lembrança negativa, me vi posicionada no ponto onde minha vida começou a se quebrar. Onde eu comecei a subir muros para não permitir que possíveis desdobramentos ruins do presente me afogassem junto com os desdobramentos ruins do passado.

 

Vi-me diante de uma imensa rachadura entre os muros que subi ao longo dos anos. Muros esses sustentados por espinhos e marcados por infiltrações. Em tal posição, não havia o que fazer a não ser começar a examinar o cenário de um espaço interior que eu criei para me proteger. E olhar para trás, a fim de entender o que estava diante de mim e que ainda me fazia caminhar trôpega no presente, foi mais do que essencial. Foi necessário, pois, pelos entretempos a partir do ponto em que tudo se rachou, eu espiava a vida, sempre temendo que tipo de sombra eu enxergaria. Sempre na defensiva caso eu enxergasse quem/o que eu não gostaria de ver. Comportamentos que denunciam que o passado sempre esteve comigo. Pulsando. Jamais esquecido.

 

O passado nunca me deixou. Não como imaginei. Noção que veio por meio do triscar de uma infiltração mais comprida que tremeluziu meu espaço interior. A infiltração mais profunda. A mais incrustada e que criou um elo em X com outra infiltração igualmente intocada e profunda. Gêmeas. Uma suprimida pela negação e outra latejante o tempo todo. Elas nasceram ao mesmo tempo, embora em circunstâncias diferentes. Porém, ambas sempre foram poderosas e influentes.

 

E acabaram traídas quando eu finalmente olhei para trás e, em seguida, as toquei. Não tão de cabeça erguida, mas com a cabeça erguida o suficiente para enxergar o cenário em sua forma crua. Para ouvir o real resultado de suas origens tão quanto seus significados. Nisso, reconheci que as infiltrações se tornaram a base das minhas feridas. Reflexos de onde cheguei emocionalmente e foi desconfortável reconhecer a desordem.

 

Eu não soube o que fazer, pois o passado me ensinou a não ser vulnerável.

 

A não deixar a inundação acontecer.

 

Mas tudo inundou assim que eu comecei a ter noção dessa desordem. Uma desordem que também entregou a verdade sobre uma pessoa que nunca teve ideia de que vivera tempo demais submersa naquele mundo interior que se tornou seu próprio parâmetro para seguir adiante.

 

Ao relar nas infiltrações gêmeas, que formavam o elo em X contra a grande rachadura, as demais reagiram ao mesmo tempo. E meu mundo interior inundou mais. Eu fiquei um bom tempo embaixo dessa inundação e notei que eu passei muito pela vida em estado de entorpecimento. Em um tipo de negação que começou a ser diluído pelo desfazer das infiltrações. Veio a lucidez sobre o que passou. O real impacto, o significado e o denominador.

 

Enquanto espiralava, eu sabia que teria que decidir entre (re)construir e ressignificar o que passou ou deixar tudo como estava – de novo. Eu ganhei a chave para deixar aquele espaço interno, aquela prisão, para ir além da rachadura, das infiltrações, das sombras e das palavras de um passado que sempre me colocou para baixo. Que sempre me deixou em completo estado de alerta para vencê-lo sempre. Eu ganhei a chave para abrir a porta rumo ao verdadeiro entendimento do meu ser visto que eu nunca me entendi. Eu pagava de muito entendida sendo que eu me evitava.

 

Eu não olhava com lucidez para o que se foi. Para um passado que sempre foi sinônimo de dor.

 

Eu nunca lidei com o passado diretamente para deixá-lo ir. Eu deixava o passado ir verbalmente, mas a rachadura, as infiltrações, as sombras e as palavras negativas seguiram me acompanhando. Fazendo minhas infiltrações se aprofundarem. Os espinhos crescerem. Os muros ganharem força. Ao tocar o que praticamente evitei, eu ganhei a missão de me resgatar. Para ir além do que um dia disseram para mim ou do que eu mesma me impus.

 

Os escombros dos muros vieram depois para me dar a compreensão real de que somente explorando o passado eu me daria a chance de iniciar a primeira e crucial tarefa: me curar. Mas, para isso, eu teria que sair daquele espaço. Deixar de tê-lo e de tratá-lo como minha própria fortaleza, pois eu ainda teria muitos muros para derrubar no intuito de manter minha visão limpa. Para manter minhas emoções em equilíbrio. Para viver o presente sem medo de infiltrações antigas.

 

Eu ganhei a missão de tornar sombra em luz. De mudar palavras nada minhas pelas minhas próprias palavras. De endereçar a bagunça do passado para emergir. Para abrir espaço para outra tarefa que nunca me foi ensinada, mas que caiu aos meus pés, como uma bússola: ancorar em mim. Ser minha própria âncora para ser presente e viver o presente. Para sempre buscar as respostas e o caminho de retorno dentro de mim mesma.

 

Ser minha própria âncora para finalmente ter o cerne para batalhar em me fazer inteira no presente.

 

II.

 

Houve outro entretempo, de vários entretempos, em que escutei que o passado não me define. Um eco falso. Um eco inimigo. Um eco que acreditei como lei da minha existência. Um eco que me fez acreditar que eu era maior que minhas dores e meus traumas. A própria ordem absoluta que poderia me limitar ao que me machucava e a me inspirar a passar por cima das rachaduras, das infiltrações, como se nada acontecesse. Mas aconteceu e eu vivi apenas socando muros.

 

Submergindo junto com o meu caos.

 

Não olhar para trás a fim de compreender o que passou me trouxe desequilíbrios emocionais. Tornou-me incerta sobre basicamente tudo. Nasceu um tipo de isolamento que parecia justo e acertado com a minha impressão sinônima da preguiça de me envolver com o que existia além daquela fortaleza. E submersa nessa fortaleza eu caminhei em um estado de sono profundo. Um sono interior que não apenas fechava as oportunidades de cura, como também impedia meu poder interior de resplandecer. Um poder interior que, de certo modo, me ajudou a resistir.

 

Mesmo sem eu entender muito das causas e do cenário que se abriram graças aos perrengues do passado, algo dentro de mim sempre reluziu mais além. Porém, eu sempre fui minha sabotadora. Presa na falsa certeza de que estar submersa desse jeito me pouparia de muito mais dor e decepção.

 

Que eu sempre seria mais forte estando submersa para não pensar no que machucou antes.

 

Comportamentos impressos de um passado que, de certo modo, me definiu e me transformou.

 

Com o passar dos entretempos, eu recebi a falsa lição de que valia a pena não olhar para o que passou. Sendo que eu apodrecia de dentro para fora. Sendo que eu ficava à parte do resto. Aceitando que aquele ponto da jornada, mais precisamente atrás de onde tudo rachou, era onde eu ficaria. Para sempre.

 

Rebobinar para o passado me forçou a compreender o que se alterou. Como se alterou. E como essa alteração impactou e acarretou algum tipo de transformação em mim. Isso, de um ponto de vista de quem viu tudo se quebrar em uma fase da vida em que esse mesmo tudo deveria ser apenas castelos de areia e maresia. Fase da vida que me fez crer que tudo seria sempre e para todo sempre como um castelo desmantelado e sem vida vigiado por um céu cinza.

 

O passado tem suas camadas definidoras, tanto para o bem quanto para o mal, e só percebemos isso quando olhamos para o que passou e capturamos o que se moldou. O passado tem um poder de catapulta, o incidente-incitante que nos dá a chance genuína de tentarmos nos salvar.

 

E é abismante que o medo de olhar para o passado seja maior que tentar se salvar. É abismante como se acomodar ao que foi, ou fingir que o que foi não existe, soa melhor que enfrentar o que doeu. O que te transformou para chegar a um tipo de presente que uma hora exigirá respostas.

 

Que exigirá acertos.

 

Um cenário relativo para cada um, mas é assim que passei a ver minha transição pela vida.

 

O passado sempre esteve presente de alguma maneira na minha vida. Em sombras. Em hesitações. Em pensamentos pessimistas. Um conjunto de situações que se tornou definidor para eu estar onde estou. Para agir como ajo em determinadas situações. Para ver o mundo como eu costumava ver, sem muita esperança. E cair diante da rachadura incitou a nova proposta de que eu poderia ir além. Não necessariamente deixando todo o passado para trás. Eu estava autorizada a carregar o que ainda servia. O que me ajudaria a evoluir como uma nova pessoa. Uma pessoa menos refém do que machucou e traumatizou. Uma pessoa que escolhe emergir a submergir no caos interior.

 

Novas palavras que são difíceis de seguir. Ainda há incrustações do passado. Mas lidar com tanto escombro é processo. Arrumar o lar interior é processo. Mas é importante fazer esse ajuste para (re)encontrar a âncora e não desancorar diante da tentação de voltar aos escombros do seu ser.

 

O passado definiu meu comportamento de ver a vida e de estar na vida espiando por cima dos ombros. O comportamento claro de quem nega suas sombras e seus efeitos no presente. Uma negação que teve seu próprio jeito de atribular meu senso de futuro. O senso de quem sou.

 

Sensos sempre embaçados, porque eu não me via além do passado que me quebrou.

 

Sem mexer no passado eu não entenderia como, de certa forma, seria possível começar a encerrar as rachaduras, cuidar das infiltrações e trocar palavras outrora ditas para mim pelas minhas próprias palavras. Escolher os escombros-lembretes de superação positiva. Dar realmente poder a parte de mim que me fez resistir e que insistiu em me manter ao menos na superfície.

 

O presente demorou a me trazer conforto, porque eu não compreendia o passado. Eu não sabia o impacto real de dados eventos e nunca tinha conquistado a chance de ressignificá-los. Nem muito menos sabia quem eu era sem muitos dos escombros que arrastei crendo que me definiam. Crendo que eu precisava desses escombros para sobreviver ou sequer existir por ser tudo que me representava.

 

Tudo que me restava.

 

Mentiras que se acumulam dentro de nós com o passar dos entretempos.

 

Eu tive que parar de espiar por cima do ombro e me virar totalmente para ver os escombros. Um espaço que era apenas florido imaginariamente, pois, ao meu redor, sempre foi cinzas e poeira.

 

Entorpecência.

 

Por anos eu deixei que o peso do passado me definisse e isso teve seu poder de transformar meu presente. Um presente oscilante, cheio de inseguranças, que não abriu para um futuro porque minha visão ainda é embaçada. A jornada para remendar a rachadura é recente e o caminho é longo. Tão quanto árduo, pois submergir soa ainda como padrão de comportamento adequado.

 

Porque olhar para o passado dói. Mas é o famoso mal necessário para quebrar padrões. Quebrar ciclos viciosos. Se descobrir no meio da poeira e das cinzas e assim renascer.

 

É preciso ter coragem para socar o passado e vê-lo desmoronar. Porque você sabe que desmoronará junto. O que não contam é que, além dos escombros, haverá uma pessoa nova. Que você não saberá lidar de início, mas que aguarda que você se ancore e segure o leme para o futuro.

 

Por mais que houvesse autoconsciência do passado e do seu papel de me trazer até aqui, eu precisava olhá-lo e deixar minguar o que não me pertencia mais. Eu carregava peso demais e muito desse peso não se alocava mais no meu presente. Não é um ato da noite para o dia, ou que traz conforto permanente, pois, dependendo da carga do que passou, ela estará com você (para sempre).

 

O segredo, talvez, é tomar coragem de voltar onde tudo se partiu e começar a endereçar o que doeu. Hoje, eu levo muito do passado em conta. Não apenas por ter sobrevivido a ele, mas porque eu sei que meu presente não pode ser moldado pelos frames de um antes que não é mais meu.

 

O passado tem seu jeito de ser definidor. Também faz valer ser esquecido por incontáveis razões. Mas, às vezes, a ancoragem no presente pode se encontrar onde tudo parece que acabou. 

 

Onde tudo se quebrou.

 

O trajeto que eu passei por cima em vários entretempos por acreditar que o passado não me definia e que eu não precisava de seu entendimento para ter um presente e para ser presente.

 

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Imagem: Engin Akyurt (via Pexels)

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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