20set
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Meus dias de ficar no sofá a fim de encontrar respostas para a minha existência e tudo mais não é uma novidade. Novidade mesmo é encontrar algo bom para se fazer. Dessa vez, o motivo do sofá não envolveu nenhuma crise existencial, mas um ciclo de ansiedade sobre o dia seguinte – pois, normalmente, dependendo do que tenho que fazer no dia seguinte, eu não paro de ruminar. Para esquecer, nada como navegar na Netflix e foi aí que encontrei meu mais novo mimo. Um filme que encontrou meu caminho para se tornar um tipo de fonte de inspiração para aquele dado instante.

 

Como Superar um Fora (Soltera Codiciada) não é um tipo de filme que tenho assistido nos últimos anos. Quando se trata de uma personagem no cerne de uma comédia, já penso que o conteúdo será machista e eu não tenho mais paciência ou parte da ingenuidade de antes – daquele tipo que me faria rir ou simplesmente amar ver a mocinha se matando para reconquistar o boy. O título desse longa peruano não me soou muito atraente. Nem o pôster que surgiu no slider da Home da Netflix. Jamais o veria por espontânea vontade com todos esses pré-julgamentos formados.

 

Mas acabei vendo por espontânea vontade meses depois do seu lançamento e me surpreendi. Não digo que paguei com a língua, pois eu não tive nenhuma expectativa anterior. Quando dei por mim, apontei para os créditos e disse: essa mulher é muito euzinha.

 

 

Como Superar um Fora - Fé e Matías

 

Tudo começa como um conto de fadas… Da derrota, pois Fé está arrasada dentro da banheira.

 

Um dia depois que a tragédia aconteceu.

 

María Fé está no fim dos 20 e poucos anos e é publicitária. Porém, o assunto mais forte do seu currículo é o namoro de 6 anos. A razão de estar tão esbaforida nas primeiras cenas de Como Superar um Fora. O que ela não esperava era tomar um pé na bunda em uma chamada de Skype, que escala para mensagens, que termina em bebedeira e sono profundo dentro da banheira. Ao despertar, se conclui então que Matías não quer mesmo ser seu namorado e o fato de ignorá-la nos minutos seguintes ao término, e nos meses seguintes, é a provação do que ela não quer.

 

Supostamente, Fé passou por todas as fases do luto pós-relacionamento em uma noite. Surreal, mas funciona. A prova vem no dia seguinte em que se vê a derrota. Há pizza em seu cabelo. Rímel em toda extremidade dos olhos. Sua face reflete o auge da bebedeira seguida pela ressaca. No decorrer do depois, e de outros depois, ela reluta contra o desejo de mandar mensagem a Matías tão quanto stalkeá-lo online. Detalhe que destaca o aspecto jovial do filme na edição, na trilha e nos diálogos. Obviamente que a personagem falha nos primeiros dias e isso não é incomum.

 

Mesmo que ela sinta que segue em frente, o inconsciente, em forma de, er, Matías, que surge quando Fé se encontra de baixa guarda ou revivendo uma memória do relacionamento, sabe que esse papo não acabou. Consequentemente, sabe que ela não passou pelas fases do luto quanto ao término. A personagem ainda carrega a angústia e pira quando vê que ele seguiu em frente.

 

Como Superar um Fora - Fé e Matías

 

Tudo ao redor de Fé emana Matías. A começar pelo apartamento que ambos dividiram e que serve de palco para o transcorrer da história. A essência dele ainda está em cada canto e é impregnante. É quando se vê que o roteiro possui uma meta um tanto diferenciada que é fazê-la não cair no mesmo trope da mulher inserida em uma comédia que aposta todas as fichas, e se humilha bravamente no processo, para ter o amor de volta. Digamos que a proposta de Como Superar um Fora é inspirar a protagonista ver que o cara era um peso morto que empacava sua vida.

 

O que destaca outro ponto importante: o processo de recuperação emocional de Fé conta com mulheres como principais alicerces. Elas dão dicas a personagem de como sair do conflito (sem contatar o ex) e tudo aponta para fora do apartamento. Aulas de pole dance, jardinagem, balada, porre de tequila, perfil no Tinder… Isso tudo fortalece o tom cômico do filme. A proposta de uma melhora emocional depois de um pé na bunda é ter onde focar energia, mas o celular, assim como a lembrança de Matías, segue tirando a protagonista do eixo.

 

Como disse, Fé não passou verdadeiramente pelas fases do luto e tem lá suas recaídas. Ela não chegou ao fim para assim abrir mão do que se perdeu e que, aparentemente, não tem volta. Vira e mexe ela se vê aos prantos, mas o processo se torna menos árduo graças aos amigos. Com destaque para Natalia, julgada pelo seu famoso coração de Elsa. Ela é um ótimo ponto de transição e de conflito da trama por ceder sua razão enquanto mantém a ideia de amor trancada no calabouço.

 

O que me faz mencionar Carolina que é o compasso moral e escudo contra as farpas que Fé e Natalia trocam ao longo do filme. Tão quanto Santiago, o rosto famosinho por ser de Christopher Von Uckermann, que faz jus à figura do amigo que só quer inspirar a amiga a se botar pra jogo de novo. Personagens que o universo dá a Fé como mecanismos para superar esse rompimento sem precisar tanto de álcool e de balada. O que inclui também o trabalho, embora o chefe seja machista.

 

Como Superar um Fora - Fé, Carolina e Natalia

 

Como toda comédia, o peso vem do drama da protagonista e isso é muito presente antes da metade do filme. É quando Natalia perde a paciência em outro (de vários) instante que Fé se vê descompensada por causa de alguma lembrança sobre Matías. É quando o roteiro atinge seu momento de quebra, pois o papo sério traz à protagonista para a realidade.

 

Um papo que questiona quem era Fé sem Matías. O que ela curtia fazer? Como ela vivia? O que comia? É quando entra o subplot de salvação em forma de escrita. Aí a carinha do filme muda, pois, antes tarde do que nunca, a protagonista desperta para o que precisa fazer no intuito de focar/liberar essa energia.

 

Eu pensei que essa questão do blog, mencionada na sinopse, ficaria por isso mesmo. Foi onde minha atenção recaiu – e minha crise do dia era sim relacionada ao ato de escrever – e demora consideravelmente para Fé acessar esse ponto que nada mais é que seu processo de cura. Mas tenho que dizer que o fator escrita parece meio aleatório porque não surge em um instante de concordância com o plot central. Em contrapartida, para um roteiro que vende um coração partido, que faz um trabalho muito legal em cima das amigas que ganharam a noite tão quanto meu amor, nada mais sensato que trazer uma âncora para a protagonista começar a se salvar.

 

Como manda várias leis da comédia, Fé encontra seu caminho de retorno na escrita.

 

Como Superar um Fora - Fé

 

E ela escreve. Fato que não é entregue no início do filme e foi fácil notar que isso intentou ser algum tipo de elemento surpresa. Ela é publicitária. Há cenas dela dentro da agência, um espaço que traz quem é Fé fora do sofrimento por Matías. Contudo, o que a personagem faz é campanha. Sem contar que, aos olhos do chefe metido a maioral, essa mulher é só mais uma mulher. O que revela um ambiente em que a protagonista tem sua inteligência colocada em cheque por machismo.

 

Bem no comecinho do filme, Fé recebe a responsabilidade de criar uma campanha, que chega a ser bem-sucedida e age como parte do seu fator de mudança. Mas, enquanto os louros não vêm, Natalia é quem faz o favor de abrir margem para o fato de que sua amiga ficou empacada com Matías por 6 anos. Tempo o suficiente para deixar de aspirar seus próprios sonhos. Momento que abre para o verdadeiro sonho da heroína em ser escritora. Um sonho que acabou submerso enquanto vivia do jeito de Matías. Mais dentro das expectativas dele. Da bolha dele.

 

Carolina é quem dá o tema de escrita: escrever sobre o coração partido. Fé hesita, mas logo adere à sugestão. Como todo filme de comédia, a resposta é rápida e logo a personagem se torna uma celebridade na internet, dando espaço para o nome original do filme Soltera Codicionada. O que vem depois disso é lucro atrás de lucro. Mas, como nem tudo tem que ser perfeito, Matías retorna. Obviamente quando ela vive seu momento, começa a se redescobrir e tudo mais.

 

E, obviamente, que ele retorna com cara de cachorro abandonado.

 

Após receber a luz divina das amigas, o universo da protagonista não tem mais lágrimas. O que tem é diversão, um blog muito legal que lhe abre portas e uma campanha. Até chegar um casamento de amigos em comum e foi aí que eu temi pela história. A recaída é iminente, mas isso não me deixou com tanta raiva em comparação ao pretexto dela largar tudo para voltar com Matías.

 

É um momento de choque, porque Fé redescobriu sua identidade que acabara engolida no relacionamento com Matías. Por isso, foi normal não querê-la de novo com o boy, pois o erro já começou em terminar por Skype, na desculpa de querer mais espaço (não morar juntos não é espaço o suficiente????).

 

Como Superar um Fora - Fé e Matias

 

Matías age como um teste sobre cada posicionamento de Fé na trama. Ele testa, inclusive, sua recuperação emocional e seus objetivos que prezam sua individualidade assim que retorna. E aí vem o cheiro de possível retrocesso. A prova final da protagonista. Os ânimos dela perdem o foco e a carência, além da falta que ela ainda sente dele, estremece o que construiu sem ele. Chega a ser possível acreditar que o embuste não é tão ruim assim, mas ele meio que a pressiona a ir embora.

 

O auge dos impasses rumo à conclusão do filme e é aí que Natalia entra de novo. Dando soco na ponte de transição que, nesse caso, intenta não permitir que a protagonista retroceda. E, normalmente, as amigas das comédias diz para a amiga ir atrás do boy. Não é caso!

 

Rola uma conversa bem importante entre ambas sobre amar e ser amada. Sobre os sacrifícios que se faz por uma relação e outros sacrifícios que aparentam ser por amor sendo que não é. Fé parou na vida por 6 anos, alojada em uma agência de publicidade enfadonha e escorada em um namorado que se mostrou um sem noção. Foram escolhas dela, claro. Não adianta chorar pelo leite derramado. Contudo, Como Superar um Fora quer que a personagem perceba isso e mude.

 

Ela viveu à sombra desses dois elementos enquanto Matías vivia o melhor em Madrid, com mestrado e tudo. O que não parece tão ruim, pois escolhas. Porém, fica evidente que o ex só a quer por perto para compor um status de perfeição – em que um só se beneficia.

 

Quando ele entrega suas verdadeiras cores, se vê que Fé nunca teve voz ali. Ao ponto dele achar ok terminar por Skype. Ir para Madrid seria o mesmo que apagar as conquistas dela e ele não liga. Ele seguiu normalmente enquanto ela ralava para se recompor. Ele retorna como se ainda soubesse quem é a sua ex e age como se ela estivesse todo aquele tempo à sua espera. O que de início faria sentido, mas o transcorrer da trama faz o favor de despregá-la dele.

 

Fé tem muita dificuldade em largar o ex de mão e não sei se ela conseguiria sem um time de amigos pra lá de sensacionais. Ela meio que se tornou dependente da emoção de Matías, de um modo que a faz achar que o amor dele é o suficiente para ser feliz. Como toda fórmula de comédia romântica. A personagem rege boa parte do roteiro com uma mente romantizada e teve que sair da bolha da idealização. Uma bolha passiva, mas, ainda sim, meio nociva. Afinal, vemos uma Fé tentar se livrar dessa bolha ao longo do filme e nem é fácil para quem parou tudo por um relacionamento.

 

O mais legal de Como Superar um Fora é que as emoções de Fé não são temporárias. O que traz um roteiro até que longo para uma comédia, pois o que ela sente se desenvolve de um jeito bem mastigadinho. É fácil capturar o objetivo de tornar a história coesa ao mesmo tempo que eficaz. Da mesma forma que não podia ter muito drama também não podia torná-la uma palhaça.

 

Como mencionei, o filme em si parece longo demais, mas o intento é justo. Comédias tendem a ser curtas, porque precisam segurar o ritmo do riso, mas, ao contrário desta aqui, há uma reflexão. Além disso, se nota a preocupação em impulsionar Fé a vivenciar sua dor e buscar sua melhora. Ela precisava reconhecer que não precisava de Matías para viver. Somente assim para ela sair da princesa deitada na banheira, toda desmantelada, para ser a princesa da própria história.

 

Fé: uma pessoa real

 

Como Superar um Fora - Fé escrevendo

 

A parte da escrita é valorosa no filme. Escrever tem seus efeitos curativos sim e Fé foi se reencontrando ao colocar suas emoções para o mundo. Emoções que amadurecem e que, no fim, lhe dão a convicção de que ela merece muito mais que ser apenas uma sombra. O que eu não sabia é que há alguns fatos reais que contribuíram para a narrativa de Como Superar um Fora existir.

 

O filme foi inspirado em uma obra original (de mesmo nome) assinada por María José Osorio. Tudo começou com o blog Soltera Codiciada. Ela começou a escrevê-lo no verão peruano de 2012, tempo dito em que esse tipo de mídia ainda estava no auge (e há um questionamento sobre isso no filme). O êxito das postagens tirou a normalidade dessa jovem e rendeu a publicação de um livro.

 

Assim como a própria Fé, já que ela é a própria Fé, Osorio escrevia em formato de lições, pois, antes, o blog levava o nome de Manual da Solteira Desejada. Tudo durou até a lição 99, última postagem antes dela se casar, e ela declarou que retornaria a escrever se algo grande acontecesse.

 

Ela cumpriu e escreveu a lição 100 em inspiração ao filme.

 

Eu li alguns posts e é quase certo que o modo de falar de Fé é o mesmo da sua criadora (ícones grandes fãs de usar carajo). Foi realmente divertido lembrar como era blogar em 2012 embora no filme a tela se assemelhe muito a do Medium. Era uma tarefa mais despreocupada e que ainda resistia ao formato diário. Hoje, tudo é muito bonito, arrumado e até rígido, o que perde demais meu interesse, na moral. Honestamente, eu sinto falta dessas propostas mais light. Com certeza deve ter, mas eu ainda não encontrei???

 

Em meio ao conteúdo do seu blog, encontrei até uma carta dedicada ao homem abusivo, que fez parte do projeto Cartas de Mujeres feito no Peru. Não li o suficiente para saber se rola machismo contra a autora, mas, ao menos no que se transmitiu para o filme, não há sinais disso. Nem mesmo quando Fé começa a se expor na internet. Santiago, o melhor amigo, é quem posso chamar de machistinha que acha suas ideias muito inocentes – como sugerir o envio de nudes ou explicar como ela deve conquistar o cara da balada na estratégia de ser repentinamente abandonada.

 

Osorio me parece bem feminista, tem vários posts com o tema, o que faz jus à adaptação cinematográfica que tem um teor mais girl power. Fé não ergue a bandeira do feminismo no filme. O que a premissa traz é o poder entre amigas (e girl power não é igual a feminismo).

 

No mais, o que se sabe de concreto é que Osorio tem um segundo livro chamado Click, que narra como conheceu seu marido por meio do blog. Algumas coisas simplesmente têm que acontecer, né?

 

Concluindo

 

Como Superar um Fora - grupo

 

Este projeto começou a ganhar vida em 2017 e, óbvio, o blog de Osorio serviu de respaldo para o que se desdobra no filme. O blog se transforma em livro que, coincidentemente, se transforma em um filme disponibilizado pela Netflix. A trajetória sonho de princesa de quem escreve.

 

Como Superar um Fora rende boas gargalhadas. Não há exageros. Nem tanta coisa problemática. Quem tem a idade de Fé provavelmente se identificará com muita coisa. Quem é mais jovem também por causa da disponibilidade da internet. Eu me identifiquei, além da escrita, com a agência de publicidade que tem sido meu carma desde que me formei em Jornalismo. O chefe machistão me fez rir amargamente, porque eu convivi com esse tipo por tempo demais.

 

Sem contar que os exageros do chefe são tão verossímeis que não tem como não ficar estressada – e também há uma pequena ressalva sobre a publicidade só usar empoderamento para vender.

 

Aqui temos o velho caso de rir entre lágrimas e rir de nervoso. Não porque você chora no final ou passa nervoso com o filme, mas sim porque Fé transita pela história dentro desses picos. Quando você acha que ela seguiu adiante, 10 passos são dados para trás. Detalhe que a torna muito relacionável. Muito próxima, pois, de fato, nada se supera de uma hora para a outra. Inclusive, o amor.

 

No fim, a mensagem é que, possivelmente, fomos uma María Fé. Tivemos o coração partido ou ainda o teremos. A diferença é o que perseguimos nesse processo para melhorar. Aqui foi um percurso de retorno para ela mesma. E foi aí que este filme me tocou. Mais que a ideia de escrita.

 

O que destaca o que mais gostei neste filme: a ausência da medida de praxe de empurrá-la para outros caras como os filmes de comédia ainda costumam fazer. O que as amigas dela querem, mais precisamente Natalia, é que Fé se dê um tempo e se reencontre. Foram 6 anos vivendo basicamente “à mercê” de Matías e autossabotagem não rende nem um pingo de evolução. Só retrocesso.

 

Como Superar um Fora - Fé, Carolina e Natalia

 

Nesse reencontrar, vemos um trio animado de mulheres na mesma faixa etária e eu amei muito isso. Mesmo com o dilema de Fé, o roteiro nos dá a chance de conhecer um pouco de cada uma. Como mencionei, Natalia é o oposto da amiga e ela se tornou minha favorita! O coração gelado que nunca se apaixonou e, automaticamente, que não lhe dá “o direito” de comentar nada sobre o que Fé sente (mas comenta como se fosse proprietária do tema). Mas, Tali, como é chamada, serve do soco necessário. Ela é o olhar da razão que a protagonista não possui. De certo modo, ambas se complementam por terem emoções díspares e se equilibram. O que faz com que os conselhos soem extremamente cabíveis. Tão quanto mais eficazes por virem no modo corte com navalha.

 

Natalia tem o fraco de ter sacrificado o amor pela profissão. Ela escolheu ser bem-sucedida, um rompimento que não a impede de sentir o impacto de ver as colegas da escola casadas. A cena mais preciosa é vê-la na banheira entregue ao seu incômodo que a veta de demonstrar vulnerabilidade – e por isso Fé meio que a irrita. Ao seu redor, existe Santiago que, além de melhor amigo, é colega de trabalho da BFF. Ele tem uma queda enorme por Tali e ela percebe isso, mas reluta até o fim. Defendendo-se de um alguém que considera extremamente infantil.

 

A harmonia, em forma de apaziguamento, vem com Carolina que traz outra nuance ao tema rompimento. A personagem não tem problemas amorosos, mas de permanência. Quando ela conta sua história, vemos um alguém que completa a dinâmica por meio da ideia de dar sempre a volta por cima à sua maneira. Ela é totalmente essa pessoa, além de roommate de Fé. Seu momento mais marcante é quando avisa que vai embora e isso abre para seu padrão de sempre ir ser questionado.

 

Fé, Natalia e Carolina têm visões diferentes sobre amor/rompimento e o quanto isso pesa. Entretanto, as três querem o denominador comum que é pertencer. Carolina precisa aprender a ficar. Natalia precisa entender que pode ter amor e profissão. Fé precisa pertencer à si mesma antes de tudo. Esse trio é muito adorável! Não tem como não amar um pedacinho de cada uma, de verdade. Gisela Ponce de León, Karina Jordán e Jely Reátegui levam tudo nas costas.

 

No post #100, que serve como parte do epílogo do filme, chegamos à conclusão:

 

Como Superar um Fora - Fé na banheira

 

“Porque nos ensinaram que somos a princesa do conto. Mas, na verdade, também podemos ser a fada madrinha se uma amiga precisa de ajuda, o gênio da lâmpada quando tentamos cumprir as expectativas dos outros, e, sobretudo, o nosso próprio Príncipe Encantado. Porque princesa que se respeita se salva sozinha.”

 

Sim, vivemos a fase de que princesas se salvam sozinhas, obrigada Amanda Lovelace. Mas, o mais relevante do filme, vem no que o inconsciente em forma de Matías afirma: você está onde quer estar. Eu aplico esse pensamento para tudo na minha vida, sério. Às vezes, eu falho 100%.

 

Fé precisa reencontrar o equilíbrio na solteirice e ela encontrou isso abrindo mão do que a emperrava. O engraçado é que tudo que a emperra tem a forma de um homem. Um chefe. O ex. Eu mesma durante parte da minha vida e essa sacada foi mais que demais. No relacionamento, ela se deixou anular sem perceber, preocupada demais em manter o outro feliz. No trabalho, ela aceitava o básico. Mas e sua própria felicidade? Por que a mulher tem que sempre largar tudo para manter a vida do homem em equilíbrio? Questionamento que tira esse filme das comédias comuns.

 

Este roteiro não entrega uma mulher que precisa de outros braços masculinos para ser feliz. Fé reconhece que é uma pessoa e uma pessoa em progresso. Uma mulher que precisa dela mesma, especialmente para compreender a diferença essencial entre ser feliz com o boy vs. trabalhar para manter o boy contente. A personagem entra em cena como a pleaser do namorado até ver que não precisa se diminuir para caber no outro. E nada disso anula seu ciclo de amizades que é saudável e que precisa ser ovacionado. Até na agência ela tem amigos, que servem até de realce para uma sutil diversidade (já que tem uma negra e um gay, mas, infelizmente, eles são device na trama).

 

Fé passa pela sua história entre melancolia e negação, pois o aceitar lhe custa muito. Afinal, ela acredita que não existe sem ele. Vê-la curtindo com as amigas, cantando no carro, celebrando com tequila, apoiando uma a outra, torna esse processo mais leve. Como o roteiro diz, fechando a porta se abre uma janela, mas não necessariamente tem que existir um ex além do batente. Pode existir apenas você, com suas aspirações. O negócio é organizar o jardim interior e todo o resto tende a fluir. Fato esse que se reflete no ambiente que a protagonista ocupa.

 

Do caos, com um letreiro que praticamente a chamava de preguiçosa no topo de sua cama, a luz finalmente entra. Outro letreiro, além de post-its organizados como um storyboard, surge pendurado na parede e pede por paciência. Eu amo ambientes que se transformam junto com os personagens.

 

Como Superar um Fora traz uma proposta diferente para uma personagem curar seu coração depois de um término e isso não se deu emendando outro relacionamento (para algumas pode até ser, não sei, e tudo bem). Aqui, a princesa retorna para si mesma. Encerrando a proposta de conto de fadas às avessas e que dá certo por se tratar de outro tipo de final feliz.

 

Eu o recomendo por se tratar, inclusive, de uma chance de ouvir outro idioma (espanhol) e de conhecer outro país (Peru). Tudo é muito colorido, vívido. Divertido. Os personagens se complementam e têm uma química impregnante. Quem é Matías na fila do pão?

 

Foi uma grata surpresa by Netflix para mais uma tarde no sofá e espero que vocês se divirtam! ❤

 

PS: capaz que vocês achem que esse é um novo Someone Great, mas, em defesa, este foi lançado antes. Porém, nada anula o fato de que, mesmo com abordagem parecida de uma amiga de coração partido e duas de suporte, os temas centrais diferem os respectivos roteiros. Mas confesso que, quando saiu o trailer de SG, eu torci o nariz sim (mas assisti e logo posto a resenha também).

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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