16set
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Se há algo que tem me perturbado ultimamente é a perda do meu hábito de leitura. Não é à toa que esta resenha fez parte de um arquivo de textos não postados de 2018 (a falta de vergonha na cara!). Este ano eu consegui finalizar Jane Eyre (que comecei ano passado) e O Fim da Queda. Pode ser uma fase já que eu sinto falta de ler. Porém, não tem rolado uma motivação.

 

Mas eu comecei um novo livro na semana passada. O que pode ser considerado bom???

 

Eu já vinha notando uma distância com a leitura ao longo de 2018. De certo modo, eu percebi que amadureci nesse quesito sem que ao menos percebesse. Antes, eu consumia demais livros YA, por exemplo, o que não mudou tanto assim. Contudo, eu me tornei mais seletiva. Uma seletividade que se reflete na questão de menos é mais e se não houver significado nem lerei.

 

Sem contar que não existe mais em mim o FOMO de ler todos os lançamentos como eu tinha antes. Eu abracei real e oficial aquela frase de “leio poucos livros, mas bons livros”. Claro que o “bons livros” é relativo, pois, para mim, “bons livros” me dão personagens para se relacionar, me inspiram e me fazem sentir algo que eu sei que levarei por toda a vida.

 

Por ter abraçado essa frase, eu tenho optado por meios mais eficazes para saber quais títulos valem a pena. Não é à toa que na minha antiga/atual necessidade de assertividade, cheguei a assinar o Clube Skoob. Acabei desistindo porque muito pesadinho para o meu bolso e, como disse, eu não leio mais com pressa. Se eu continuasse, eu aumentaria a quantidade de livros encalhados na estante (em uma época que eu estava decidida a doar vários e assim o fiz).

 

Uma alternativa que me ajudou veio graças a uma live feita pela Página 7. Por meio dela, eu cheguei ao clube do livro Infinistante em forma de newsletter que traz um título surpresa a ser lido no prazo de um mês (eu deixei de assinar por motivos de grana também e acredito que esse molde tenha se mantido) e uma discussão depois do prazo de leitura. O primeiro título que peguei no bonde foi Em Algum Lugar nas Estrelas, assinado pela Clare Vanderpool, publicado pela DarkSide.

 

Só dizer DarkSide que entrego pra vocês o quanto a diagramação e o design do livro são lindíssimos!

 

 

Em Algum Lugar nas Estrelas traz uma premissa que se desenrola em clima de fim de 2ª Guerra Mundial. Jack Baker (Jackie) é um dos protagonistas que acaba surpreendido pela perda da mãe e, a partir disso, testemunha como essa mesma perda altera de uma hora para a outra o seu mundo. Posicionamento que se reflete na figura paterna que também não consegue lidar com o baque do acontecimento. Nem muito menos assimilá-lo para ajudar o próprio filho. Abre-se então um distanciamento, que se torna praxe, e o menino é inserido em um colégio interno localizado no Maine.

 

Jackie demonstra certa apatia pelo novo meio e tem dificuldade de fazer amigos. Mas, em um dia comum, sua curiosidade estala por um garotinho chamado Early Auden. Ao contrário dos demais colegas que se comprometem à rotina estudantil, esse se faz quase totalmente ausente. Detalhe que colocou prontamente uma pulga atrás da minha orelha, tão quanto na de Jackie, pois, considerando que se trata de um colégio interno, faltar não soa como opção. Afinal, você está dentro de uma instituição que praticamente existe para monitorar cada passo dos alunos. Não tem como fugir.

 

Não demora muito para o livro nos nortear para a verdade em torno do mistério que Early representa (do início ao fim da trama). A começar pela sua própria lógica de ausência no cotidiano estudantil que é entregue em meio a um debate sobre Pi (o instante que chama a atenção de Jackie). O garoto se enfurece com uma colocação do professor e sai de cena, dando luz ao motivo de não ficar em algumas aulas porque os valores delas não condizem com o que acredita. Nesse ponto-chave, o personagem crê com bastante afinco que o infinito de Pi será para sempre infinito. A ideia de que há um fim em Pi o deixa extremamente consternado. E ninguém compreende qual seria o problema.

 

É só matemática, certo? Bem, Early vê muito mais que matemática.

 

Não é esse o momento que reúne os dois personagens. O mundo de Jackie e de Early colide depois de uma aventura noturna nada satisfatória de barco. O colégio tem essa tradição de regatas e Jackie é praticamente deixado sozinho e, claro, não se dá nem um pouco bem. Meio transtornado, seu caminho se desvia ao ser atraído pela musicalidade de quem se tornará um grande amigo, que vive às sombras no que seria o quartinho do zelador.

 

A partir daí a aventura que ambos enfrentarão se apresenta. E não é uma aventura de criança, mas de gente grande: encontrar um grande urso Apalache. É Early o dono dessa ideia que é palpitante em seu ser e isso altea as sobrancelhas de um incerto Jackie. Afinal, Early parece uma criança com grande poder de imaginação e é extremamente fácil não levá-lo a sério.

 

Inicialmente, Jackie vê tudo como uma extrema alucinação (por assim dizer). Porém, o papo com Early fica um tantinho mais sombrio quando tal personagem diz que seu irmão Fish, a grande outrora estrela do mesmo internato, está vivo – sendo que ele foi dado como morto ao servir na guerra. E a coisa se complica ainda mais quando Jackie vê que seu novo amigo tem tudo planejado para reencontrá-lo. Detalhe que se expressa em uma história à parte narrada por Early como a própria jornada de Pi.

 

O dia para colocar essa aventura em prática surge quando ambos ficam sozinhos no internato. É um instante depois de Jackie enfrentar de novo a competição de barco e se estabanar porque sentiu raiva do súbito abandono de Early. O amigo que o treinara nos dias conseguintes ao primeiro encontro entre ambos, sendo sua bússola em todo o processo. Encorajando-o. O agridoce alardeia Jackie e se torna em um ímpeto para saber onde Early se meteu. Atitude que o faz pegá-lo nas pontas dos pés preparado em ir atrás da ursa que o fará reencontrar seu adorado irmão vivíssimo.

 

É quando as coisas se tornam confusas. Sinistras. Ao menos, de um ponto de vista de duas crianças que simplesmente desbravam um mundo como se não houvesse mais nada a perder. Nada a temer. Como se não houvesse pais que poderiam se preocupar com a súbita fuga dos dois do internato. Embora a jornada atrás da ursa seja o motor de Em Algum Lugar nas Estrelas, as emoções e as farpas trocadas entre Early e Jackie são os verdadeiros combustíveis desta história.

 

Jackie é quem preenche as páginas com ceticismo, pois, mesmo que secretamente, acha impossível Fish estar vivo. Como eu disse, há provas concretas de tal perda, algo que o personagem não perde a chance de passar embaixo do nariz de Early. Obviamente que Early se irrita e, a todo instante, você espera a separação de ambos ao longo da jornada. Ainda mais porque Jackie quer retornar.

 

Esse personagem em questão representa muito o leitor que não acredita no que está prestes a acontecer e no que acontece. Tudo que Early conta de certa forma se torna realidade. Há uma verossimilhança desnorteante e o que me restou em cada virada de página, assim que essa aventura começa, foi dizer: não podicê! Como a história do garotinho sobre o irmão pode ser tão… Tangível?

 

É como se o menino fosse um vidente, real e oficial. E nem é o caso, hein?

 

Devido a esse conflito entre o que é e não é, e especialmente pelo luto que ambos não digeriram, a rica imaginação de Early ilumina essa história. Confronta as emoções de Jackie que englobam distanciamento e descrença. Seu ponto de vista é extremamente inocente. Quase despretensioso. Ele tem essa crença no irmão como uma religião e ele não quer abrir mão. É tudo o que ele tem.

 

O que serve de palco para Jackie jogar água fria sempre que tem brecha. Nas entrelinhas, fica aquele tom de que Early criou imaginariamente uma resposta para manter o irmão vivo e presente – e Early é incrivelmente inteligente e tem uma explicação no livro sobre seu autismo. O que traz a questão dos motivos de Jackie permanecer mesmo querendo ir embora visto que vira e mexe se opõe. A resposta a isso logo vem, pois ele quer ver o que queremos também: a verdade. Tão quanto o desejo de provar um ponto.

 

Seja Early com sua ideia. Seja Jackie com o famoso eu te avisei.

 

Em vários instantes, eu esperei que Early se desmantelasse ao perceber que nada conciliava com suas convicções. Mas, enquanto o veredito não vem, ficamos nesse pingue-pongue de é ou não é até o enredo alcançar seu auge. Que eu até poderia dizer, claro, mas seria spoiler.

 

Esse ar de dúvida é extremamente importante para uma narrativa que é fluida, dona de uma escrita tão gostosinha de cativante, que coloca emoções e crenças em cheque quase o tempo todo. Quase porque Em Algum Lugar nas Estrelas atiça demais a imaginação. O livro em si testa nossa capacidade de imaginar. E eu senti que o intento da autora era acessar minha criança interior – por eu ser uma leitora adulta.

 

Confesso que eu me senti como Jackie ao mesmo tempo que tentava reunir o quebra-cabeça da história de Early. No caminho, eu concluí que, se tudo fosse fruto da imaginação, isso teria sido o meio desse personagem em lidar com a perda do irmão. E tudo bem. Faz sentido. Eu mesma vivi da imaginação. Criando tramas na minha mente. Imaginar traz riqueza. Convicções. Em contrapartida a isso, eu também me vi como Jackie que não tem convicção – e seu pai parece ser muito prático. No fim, ambos têm um buraco no peito que ninguém norteou para um processo de recuperação. Os dois ainda parecem em negação sobre suas perdas e suas diferenças residem no modo como atravessam essa questão.

 

Por eles não terem ultrapassado o luto, os atritos que marcam a jornada remetem a busca de uma resposta mútua: como minguar a dor de perder alguém tão bruscamente? Um alguém que é o cerne do seu universo? Os personagens se diferem nessa busca de resolução e isso recheia mais o livro de conflitos. Tão quanto fortalece o que se torna uma grande amizade.

 

Mesmo com personagens tão cheios de bagagem, a história de Pi me cativou muito mais. Foi a parte que enriqueceu minha leitura, especialmente porque há uma convicção narrativa que casa com a realidade de Early. Uma história que parece à parte de tudo é um referencial do que realmente se desdobra. Além de expressar como cada um lida com a sua perda. Enquanto alguns preferem a esquiva, outros criam suas próprias fugas mentais.

 

Querendo os céticos ou não, o conto de Pi vai se amarrando com o contexto do enredo. É quando essa parte entra em cena que as indagações começam: será que tudo da mente de Early é real mesmo? Será que o que leio é realmente real? Provas existem. Argumentos fortes também. É no fim que a história se revela puramente. Retraindo o luto e engatando a absolvição de ambas as partes.

 

“Não existem coincidências. Só milagres e aos montes.”

 

Vanderpool trouxe com Em Algum Lugar nas Estrelas um olhar de criança sobre como ultrapassar a dor de perder alguém. Ao mesmo tempo que se quer encontrar um tipo de verdade sobre algo maior que essa dor. O luto é muito real aos dois tão quanto à solidão de carregar esse peso em uma fase da vida que deveria ser leve. O que faz deste livro uma jornada de amadurecimento também – e tudo fica bem no final, caso perguntem.

 

Literalmente, eu senti que ambos foram largados em um mundo que não se importa com eles. A maior prova disso é, logicamente, o embarque em uma aventura de adulto. Não tem como não perguntar onde se enfiaram os responsáveis desses meninos. Mas os dois seguem. Entregues a uma jornada que tudo pode dar errado. Tendo Early como única bússola.

 

Com facilidade, Vanderpool instiga a virada de página por meio de um enredo que traz muita fantasia. Além disso, você se vê querendo que os dois se entendam e lidem com o buraco causado pelo choque da perda. Independentemente de ambos provocarem a famosa escolha de lados. Uma briga que torna o contexto da história ainda mais interessante, pois se trata de duas crianças. E uma delas parece mentir sabe-se lá por qual motivo. E Jackie é quem perde a paciência.

 

Toda a jornada entrega que este livro propõe o entendimento mútuo da perda. Jackie e Early só têm um ao outro. Ambos não podem se abandonar uma vez que a aventura descamba. Jackie engole demais o que parece uma inocência do seu colega e Early se sente arrasado todas as vezes que é confrontado sobre sua história de Pi ser ilusão. Uma bifurcação que traz o perfeito quadro de que nunca queremos que alguém diga como nos sentimos. Ou que julgue como vemos o mundo. Em contrapartida, há a lição de que, não importa o caso, precisamos aprender a respeitar o que o outro sente.

 

Confrontar a realidade também para assim entender. Por mais deducional que isso possa ser. Afinal, não sabemos o que o outro sente. Não sabemos a trajetória do outro. Não sabemos os sistemas que essa pessoa têm para lidar com a vida. Às vezes, o outro precisa criar algo para poder seguir em frente. Seja uma história, ou amigo imaginário, que seja. É a âncora para não se perder do compasso. Ou, sendo bastante intensa, para sobreviver. Ainda mais nessa fase da vida.

 

Todas as pessoas que os meninos cruzam, todos adultos, caem na metáfora de Gunnar (um personagem incrível!!!) sobre jogar nossos problemas para o rio. O significado? Fazer isso não significa que lidamos. Jogar no rio é apenas uma ação para nos livrar do peso. Algo que se assemelha à história de Pi. Assim como toda a proposta de Vanderpool que traz puro aprendizado existencial sobre vida e morte. E lealdade.

 

Como mencionei, o design do livro é maravilhoso. O que me faz pincelar bem de leve que a parte de Jackie que rememora a mãe é acompanhada de galáxias, de estrelas e de universos que se entrelaçam ao conto de Pi narrado por Early. É onde a narrativa consegue um respiro do tempo presente e é um respiro lindíssimo. A Ursa é uma metáfora dos dois personagens que buscam a mesma coisa, mas são muito jovens para notar. Mas acabam notando, de certa forma, e se tornam uma força única.

 

Uma força que traz o pai de Jackie, vale dizer. Ele não é totalmente esquecido na história.

 

A história se conclui dizendo que devemos ligar os pontos. Que é preciso procurar as coisas que se conectam. Encontrar os jeitos como nossos caminhos se cruzam, nossas vidas se interceptam e nossos corações se encontram. Jackie e Early precisavam se encontrar para superar o luto entravado em seus corações. Um luto que deu uma forte correnteza de emoções que disparou a braveza de quem achava não ter com quem contar. No caso, os dois, à sua própria maneira.

 

Todas as pessoas que se reúnem nesta história têm seu peso e seu nexo, e não é mistério para ninguém o quanto sou fã dessa de nada é por acaso. Eu mesma procuro interseções diárias e ver a interseção entre Jackie e Early me deu ainda mais perspectiva do quanto a vida pode ser mágica até em nossos momentos mais obscuros. Os sinais estão ali, piscando como faróis o tempo inteiro, e podem não necessariamente ser sobre coisas. Podem ser sobre pessoas prontas para nos ajudar na cura. Pessoas que, por vezes, podem ocupar um espaço temporário porque a mudança que exerce em nós é rápida. Porém, eficaz para desbloquear o que protegemos – e que pode não fazer tão bem.

 

Em Algum Lugar nas Estrelas é um livro sobre vidas que se entrelaçam. E penso que só lendo para vocês confirmarem o que tentei passar nesta resenha. Foi uma grata surpresa para quem não se aventurava em livros há certo tempo (naquela época e vejam bem que isso não mudou tanto assim). Jackie e Early confortaram meu coração várias vezes.

 

Além de deixarem o desafio: ser extremamente cético ou dar chance para os sinais da vida?

 

Extra, extra! Outro ponto que gostei demais neste livro foi o surgimento do gosto de Jackie por poesia. Oriundo da breve relação com Gunnar que o salva depois de um empecilho. Personagem que, inclusive, lhe dá a indireta missão de entregar uma carta ao amor da sua vida. ❤

 

 

Na Estante:

Título: Em Algum Lugar nas Estrelas

Autora: Clare Vanderpool

Editora: DarkSide

 

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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