13set
Arquivado em: Help Escritor!

Alguns dias atrás, eu escrevi um capítulo de uma história que rendeu muito mais do que eu imaginava e eu me vi muito surpresa. Algo que não deveria ser motivo para biscoito, mas explico: tem dias que rola uma angústia diante do pensamento de que eu não conseguirei colocar o que está na mente em algum aplicativo ou em algum editor de texto. Isso, antes mesmo de ocupar meu canto de escrita. Eu me vejo nessa situação frequentemente, ainda mais quando acho que eu me perdi da história ou fiquei muito tempo sem escrever. Daí, um processo que é totalmente envolvido em emoções e em sentimentos se perde graças à parte racional do meu cérebro.

 

O que não é bom, pois eu perco a parte emocional do processo de escrita.

 

Emoção + sentimento. É assim que eu poderia descrever mais ou menos como escrevo. Por isso tem vezes que ignoro totalmente a importância do outline e não nego que me perco lá na frente.

 

Eu acordei com minhas emoções por todos os lados quando eu escrevi o mencionado capítulo (de uma história que comecei a comentar no meu Diário de Escrita). Tudo bem que eu ainda pensava que não conseguiria atingir o objetivo, mas eu botei a música que mais achei que se adequava à proposta da vez e mergulhei na letra. Um exercício que aprendi recentemente ao ler um livro sobre a relação de uma pessoa introvertida com a escrita (que divido depois). Como sempre acontece, o efeito da música deu pungência ao que eu sentia e eu comecei a escrever o que eu precisava.

 

Em outras palavras, eu comecei a traduzir a emoção.

 

Às vezes, tenho essa mania de escrever ao mesmo tempo que edito, e isso também me trava. É algo que eu não gosto de fazer, mas vira e mexe eu faço. Mas parece uma coisa: eu não penso em editar quando há muita emoção congestionada dentro de mim. Na hora que eu sento para escrever, mais precisamente com esse mood, eu me atenho ao desejo de querer que tudo saia o mais próximo de como eu me sinto – automaticamente como a personagem se sente. Sei que é cilada. Em contrapartida, é assim que eu simplesmente deixo tudo fluir e tudo tende a ficar bem.

 

Escrever é meu meio de tirar algum peso de dentro de mim. É meu meio de botar algum pensamento no papel a fim de entendê-lo. É meu meio de registrar o instante em que vivo para checar se estou na mesma anos depois. Atitudes que variam conforme o que escrevo e se estou a fim de escrever, claro, mas está aí um tipo de transferência emocional que é sempre muito intuitiva e que serve para minhas histórias. E, de alguma forma, sempre foi assim. Chorar em frente ao Word é uma praxe – e penso que quem escreve passa por essa experiência, que considero o verdadeiro estado de graça do trabalho, independentemente do caminho que você se encontra.

 

Eu escrevo desde que me entendo por gente. Eu tive vários diários e neles eu registrava o meu mundo. Sem me preocupar em entendê-lo. Registros que tiveram sua linearidade sempre remexida por meio de conflitos que eu só fui compreender anos depois. Não em totalidade, mas o suficiente para eu ter noção do quanto o processo de escrita não é somente o registro do entretempo, mas a expansão do sentimento provocado pelo entretempo. De novo, traduzir o que eu sinto.

 

Nem sempre dá certo, porque nem sempre eu estou disposta a entender como me sinto.

 

Como também posso não ter ainda acertado dentro de mim o tom para uma personagem.

 

O que entrega que meu processo de escrita envolve mais emoção que razão. Não é à toa que meus bloqueios criativos ocorrem por causa do outline que é a própria racionalização. Eu me lembro constantemente dos instantes em que eu sentei para escrever e não senti absolutamente nada diante da ideia de ter que seguir um roteiro A-Z. É quando meu processo de escrita se torna um completo pesadelo, porque esses dias me levam horas para acertar o compasso da emoção.

 

Eu não gosto muito de me sentir discordante com o que escrevo.

 

O trabalho triplica, porque eu volto ao texto para tentar encaixar, ou encontrar, a emoção faltante. O pensamento que faltou. A atmosfera que não estava clara. Noções que não vieram de uma hora para a outra, pois, desde a época de fanfics, eu sabia que eu precisava sentir algo antes e assim escrever. Não necessariamente tristeza, o habitual pensamento romantizado, pois qualquer emoção que me deixe em frenesi torna meu trabalho muito mais fácil. É quando sei onde quero chegar.

 

Este ano, eu percebi mais isso e tem sido importante me aproximar dessa camada que compõe meu processo de escrita. Meu impasse é ser a racional do processo e, às vezes, é muito difícil não ser essa pessoa. Mas, uma vez sendo-a, a razão ocupa todos os espaços. E eu percebi também que não trabalho muito bem em espaço de razão – porém ainda insisto. Eu gosto de sentir nos dedos a transferência do que sinto. Não necessariamente o que eu racionalizo.

 

Eu preciso deixar a razão de lado para o processo fluir. A razão me faz voltar dezenas de vezes ao texto. Fazendo-me duvidar do que eu produzi. Quando tem a tradução da emoção eu me sinto um tanto mais segura. É quando eu sinto que eu escrevi um texto certeiramente, porque eu parti do ponto em que considero mais a minha verdade. Que nada tem a ver com outlines, embora eles sejam importantes. Na verdade, tem a ver mesmo com a sonoridade da emoção e do seu compasso.

 

Foi quando eu passei a compreender esse processo que a escrita se tornou mais importante para mim. Mais valiosa ao ponto de eu me ver mais chateada ao longo dos anos quando minha escrita foi exclusivamente lógica e vazia. Um tipo de espaço que me deu a consciência de que meu texto não atingiria nada além desse espaço em que ele foi criado. Com o passar dos anos, esse foi um detalhe que matou minha criatividade. De um modo que eu cheguei várias vezes a desistir da escrita.

 

Retomar sempre a escrita quando você se perde dela é um percurso difícil tão quanto complicado, porque você perde a confiança. Algo é roubado de você. Uma bateria que te faz funcionar erroneamente. E voltar a confiar no processo leva outros ínterins de tempo – práticos.

 

O que eu sabia sobre escrever – e não precisamente via – ia muito além das regras ortográficas. Ou de como estruturar o texto para um site. Na infância e na adolescência, eu curti a facilidade da escrita. O quanto era livre e sem regras. Bastava você se deixar expandir e assim tirar um pouco do fardo, e tudo bem. Era assim que o processo funcionava e se prolongou quando eu entrei no universo das fanfics. A primeira vez em que tive o “poder” de dar meus pensamentos, anseios e emoções para personagens. Dentro de qualquer tema que eu achasse conveniente.

 

Até a escrita ser a fonte que me mantém profissionalmente. Cheia de regras. De lógica. Queimando a emoção íntima que sigo achando a mais preciosa do ato de escrever. Foi quando do ponto de expansão a escrita se tornou um ponto de esvaziamento. Fato que se alterou um pouco quando eu criei minhas próprias medidas para continuar escrevendo, sem saber exatamente o quê.

 

Minha vida com a escrita sempre foi de altos e baixos. De desistir a me apaixonar de novo.

 

Foi em 2018 que eu voltei a compreender como se dá o meu processo de escrita. Em mais um período de esvaziamento que, ironicamente (pela falta de uma palavra melhor), me deixou doente. Não tinha um momento em que eu não me via insatisfeita e tudo piorara porque eu ia perdendo meus pontos de expansão em forma de projetos pessoais. O esvaziamento foi tão forte daquela vez que eu não conseguia encontrar energia para seguir fazendo uma das coisas que mais amo. Ainda assim, eu insisti por algum tempo. Eu criei uma nova história. Eu tentei manter meus projetos.

 

Mas o esvaziamento foi muito forte até eu começar a fazer análise.

 

Que não tem nada a ver com esse esvaziamento da escrita. Porém, foi o que me despertou ainda mais para a importância de escrever e fazer da escrita esse ponto constante de tradução e de expansão.

 

Minha analista me estimula a escrever em todo final de consulta. Talvez, ela saiba da minha dificuldade em falar. Mais precisamente de como eu me sinto. Nisso, o texto vem como uma âncora de salvação, pois eu tiro de dentro de mim o que me incomoda. É um exercício de transferência.

 

Foi em algum momento do ano passado que eu tirei um caderno (que eu protegia) e comecei a explorar as emoções despertadas depois de uma sessão da análise. Eu comecei essa de traduzir emoções, algo que nunca tinha feito antes (porque eu passava por cima). Em um diário, há um acúmulo de palavras que nem sempre faz sentido. Nesse mencionado caderno, eu comecei a explorar outros tipos de texto. Com isso, novas emoções, como amor.

 

Ao longo da vida, eu ouvi que não tinha que rolar apego com o que eu escrevo. Que eu não podia dosar “preciosidade” ou algo desse tipo. Que tinha que prezar pelo racional e não pelo emocional. Que eu tinha que ser cirúrgica. Que eu deveria ser distante. Que eu deveria ver a escrita como ferramenta unicamente à mercê do outro – que, male male, não é tão ruim assim. Mas é uma coisa… Eu não consigo mais me tirar de um texto. Ao menos, dos meus textos. E eu gosto assim.

 

Eu tenho que fazer o caminho de retorno toda vez que a razão entra em cena. Um exercício que ocorre bastante em entretempos vazios e foi em um entretempo vazio que rascunhei este projeto que batizei de Sua Escrita Importa. No intento de lembrar os motivos de como a escrita é importante. No meu caso, importantíssima um tanto longe do seu nível racional.

 

Emoção + sentimento. Literalmente, eu preciso reconhecer a emoção primeiro para escrever. E ela não precisa necessariamente ter um nome. Por isso que, às vezes, chamo de angústia e a angústia tende a ganhar forma quando eu a passo para o papel. É quando me acerto por dentro. É quando acesso a comichão em forma de emoção. É a emoção do texto que me importa. Criando uma composição que se torna o ponto de expansão tanto de quem compõe quanto de quem consome.

 

No fim de tudo, a tradução da emoção por meio da escrita é a ferramenta mais importante para minha expansão.

 

 

Quase todo dia de manhã, com um caderno embaixo do braço e um lápis com um suporte de unicórnio, que sento e tento entender o nó da angústia que pode ser minha ou da personagem naquele dado instante. Como no dia em que escrevi um capítulo que levantou a tradução de uma emoção que eu carregava e terminei dizendo que foi o melhor texto que escrevi. Mesmo que, dias depois, eu vá relê-lo e dizer que foi o pior texto que escrevi – pois a emoção dele já passou.

 

E para vocês? Qual é o ponto de expansão na sua escrita? Conte aí nos comentários!

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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