30set
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Este foi um texto que escrevi para o falecido site do Contra as Feras no ano passado e resolvi transferi-lo justamente por se tratar de uma leitura importantíssima. Naquele entretempo, eu me vi em dúvida sobre fazer uma resenha do título em questão ou uma listinha de motivos. Tudo porque eu tenho um pouco de dificuldade de comentar sobre livro de memórias e afins. Eu só faço isso quando eu curto muito, mas, este caso, é um tanto diferente. Tudo nele é recomendável, sabem?

 

Por isso, eu escolhi trazer as razões de ler este livro que foi muito importante ao longo dos meus estudos sobre depressão e ansiedade (e que tento manter apesar da rotina). É uma leitura até que bem leve apesar de ter alguns gatilhos – ansiedade, depressão e suicídio (que não contam com relatos muito explícitos, a não ser o suicídio que é o tema que o abre). Acredito que este título é uma ótima indicação para quem não domina muito sobre esses assuntos e/ou ainda carrega tabus. Principalmente do ponto de vista masculino, pois, óbvio, o autor é um homem.

 

Os motivos para eu ter lido Razões para continuar vivo foi graças ao TWLOHA (To Write Love On Her Arms). Fiquei bem contente quando vi que a Intrínseca o traduziu e não hesitei em comprá-lo. Matt Haig, o autor, conta parte da sua vida com alguns transtornos mentais – e o início desta história vem do dia em que decidira acabar com a própria vida. Há conselhos de quem aprendeu a ver um dito fim como o começo de tudo. O começo para viver de novo.

 

Um começo que deu razão para este livro.

 

Foi a partir do desespero de querer tirar a própria vida que ele refletiu sobre esse papo de sermos supostamente a promessa que não aconteceu do jeito que devia ter acontecido. Na beira de um figurativo penhasco, sua vida rebobinou e pediu mais uma chance para ser seguida adiante. Não foi fácil, óbvio, detalhe pulsante em cada página deste livro.

 

Um livro que traz a experiência dele com a depressão. Além do mais, como essa doença atingiu e afetou sua rotina e suas relações. Não menos importante, sua visão de si mesmo e da vida no geral. Aqui, Haig conta um fragmento difícil e impactante da sua existência, além de pontuar inspirações para que não desistamos também.

 

Razões para ler este livro

 

Razões para continuar vivo por Matt Haig

 

1. Esclarece sobre a depressão e a ansiedade

 

Haig faz questão de salientar os tabus que ainda existem sobre esses dois assuntos. O suicídio ainda mata muitas pessoas ao redor do mundo e sua rotulação, bem como de outros transtornos mentais, não ajuda ninguém. De um modo leve, ele discute a importância de quebrar o estigma e de mudar o discurso.

 

2. A nossa experiência nunca é como a dos outros

 

Apesar de nos assemelharmos em vários contextos, sentimos coisas diferentes. Vivenciamos a mesma dor de maneiras diferentes. Ninguém tem a mesma experiência com a depressão, embora os sintomas se aproximem.

 

A depressão nunca é vista e sentida de maneira homogênea por todos que a tem. Além do mais, não existe jeito certo ou errado de sentir, de lidar e de não lidar com essa doença.

 

O ponto que Haig centraliza um tanto mais é sobre o fato de que não somos protegidos de qualquer transtorno mental. Às vezes, já o temos, sem diagnóstico algum.

 

3. É um homem que escreve sobre o assunto

 

Em um mundo que ainda vê depressão, entre outros transtornos, como doenças exclusivamente femininas, Haig é uma voz importante. Ele não deixa de ressaltar o machismo que também rebate nos homens e que os fazem não dizer como realmente se sentem. Eles aprendem desde muito cedo que não podem expressar suas emoções e isso é um problema visto que homens também desistem da própria vida (e tem esse artigo aqui também).

 

Ter depressão é ser vulnerável e ser vulnerável “machuca” a masculinidade. É com esse exemplo de pensamento que homens não buscam ajuda e camuflam seus sintomas por meio de vícios nocivos, como o álcool.

 

4. Sinais de alerta para ansiedade e depressão

 

Este livro não é uma biografia sobre alguém que venceu a depressão, que não sente ansiedade e que não pensa mais sobre suicídio. O autor se mostra preocupado em conscientizar ao mesmo tempo que conta suas experiências nesses quesitos. Há sim muitos comparativos sobre como era antes e como está agora, o que traz uma narrativa que quer nos tirar um pouco da caixinha. Especialmente quem ainda generaliza esses quadros.

 

Razões para continuar vivo por Matt Haig

 

5. Rótulos generalistas

 

Haig quer inspirar a mudança do discurso. Depressão não é tristeza, embora possa começar por meio dela.

 

Ansiedade não é só estresse ou ansiedade por um evento, mas um incômodo que pode se tornar um transtorno ainda mais grave se não cuidado.

 

Se tudo que te deixa triste é depressivo e tudo que te deixa ansioso é estado de pânico ou um surto, temos um problema na conversa. Propositalmente ou não, se diminui o peso das doenças e daí calhamos no famigerado “frescura”. Ou nos rótulos que estereotipam os transtornos mentais.

 

6. Como se sentir melhor

 

O autor também dá suas próprias dicas de como se sentir melhor em dias ruins. Como escrever. Algo que eu faço bastante e sempre dou um sorrisinho quando indicam essa opção para aliviar o que sentimos.

 

O que me encantou profundamente foi o poder das pessoas em ceder ajuda. No caso de Haig, foi a esposa, que não o deixou na mão. Ela o acompanhou em todo o processo, sempre o desafiando do jeito que fosse possível para inspirá-lo a sair da cama e agir. Há muito sobre viver com alguém que tem ansiedade e depressão, e o quanto se consome de ambos os lados. Deu um tímido desespero porque eu mesma tenho essa visão supérflua de mim mesma.

 

7. Tratamento e recuperação

 

Conversa importantíssima sobre a verdade de que nem tudo se trata com remédio. Alguns se adequam bem, outros nem tanto e outros de maneira alguma. E tudo bem! A recuperação não é linear e igual para todos. Há muita romantização de antidepressivo, por exemplo, e Haig dá um puxão de orelha. Ele afirma que uma pessoa não é um caso perdido se não tomar medicamentos.

 

De novo, a questão da experiência. A situação pode ser parecida, mas as soluções não.

 

8. Razões para estar vivo

 

Há listas dos motivos de se estar vivo e para continuar vivo. Algumas listas para se guardar no coração.

 

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Razões para continuar vivo por Matt Haig

 

“Eu sou você e você é eu. Estamos sozinhos, mas não estamos sozinhos. Estamos aprisionados no tempo, mas também somos infinitos. Feitos de carne, mas também de estrelas.”

 

Estes foram 7 pontos importantes que marquei sobre o livro, mas há muito mais. Por isso mesmo que preciso destacar o maior motivo de todos: o autor nos faz perceber que não estamos sozinhos. Não vivemos em um mundo unilateral e todo mundo precisa de ajuda. Independentemente de qual for o impasse.

 

Livros como este inspiram a manter a conversa sobre tais temas e a desconstruir os generalizadores. Além disso, estimulam as pessoas que andam nas bordas desses assuntos a ver muito além dos estereótipos que, infelizmente, persistem. Haig também quer que não sintamos vergonha de ter transtornos mentais, pois não há nada de errado conosco. Isso acontece e, com sorte, há tratamento e há pessoas que podem nos ajudar nessa trajetória.

 

Palavras realmente me faltam para descrever este livro, que casou com o Janeiro Branco e que agora trago em fins de Setembro Amarelo. Senti-me extremamente reconfortada ao longo da leitura. Inspirada a correr ainda mais atrás de métodos para manter minha saúde mental equilibrada tão quanto aceitar a minha pequenez e a pequenez da vida.

 

Razões para continuar vivo vale muito a leitura. Eis um livro de fácil acesso, prático ao nosso cotidiano, sem linguagem floreada, e que deixa no rastro o óbvio: muitas razões para se continuar vivo.

 

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Na Estante:

Título: Razões para continuar vivo

Autor: Matt Haig

Editora: Intrínseca

Tradução: Clóvis Marques

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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