04out
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Eu não me lembro do ano exato em que comecei a assistir Skins, mas posso dizer com propriedade que minha mente não era lá um completo paraíso. Também posso dizer que não estava mais na adolescência, mas, de algum modo, a adolescência sempre esteve comigo como minha sombra. Um tipo de sombra que também não compreendia àquela época. Não como compreendo hoje em dia.

 

Também posso dizer sem pestanejar que Cassie foi a personagem que mais me marcou e que ela continua como a minha favorita. Tão quanto dizer que ainda me lembro que muito das músicas que escuto atualmente vieram da série graças aos momentos-chave que repetiram sua dose de tristeza em mim, como Hometown Glory da Adele e Seven Nation Army do The White Stripes.

 

Raciocínios e recordações que cabem as duas diferentes interpretações que eu tive com Skins. Uma de anos atrás. Outra deste ano.

 

Nota importante: o post todo tem spoilers. 

 

 

Se eu for chutar alto, Skins entrou na minha vida entre 2010/2011. Já quase em seu final. Quase oito anos depois, eu decidi revisitá-la e percebi o quanto de coisa eu me esqueci sobre este universo. Afinal, nem tudo é recordação. Tal esquecimento gerou um raciocínio atualizado e franzidas de testa diante da minha nova realização sobre um conteúdo que envelheceu nada bem. Meu crânio foi rachado em dois e foi uma luta fundir a minha versão de 2007 e a de hoje durante a maratona.

 

Não sei precisar o momento em que Skins retornou na minha mente. Talvez, pelo meu desejo de querer rever Skam e algo em mim disse que não dava para ver uma série sem antes ver a outra. O que não tem muito a ver visto que ambas só se assemelham em nome, formato e público. Em contrapartida, eu voltei a consumir séries adolescentes e, putz, eu estava com muita saudade!

 

O que sei é que era um dia ruim e sei que vocês devem se perguntar o que diabos de tanto dia ruim eu tenho. Bem, eu não entrarei em detalhes, porque não é motivo deste post. Mas, o que parecia relampejo de autossabotagem, nada mais foi que uma necessidade de reviver momentos com esta série e ainda não sei como comportá-los dentro de mim. Meramente porque uma segunda olhada em Skins jamais será como a primeira. Aquela regada de ingenuidade e de desejo de ter aquele lifestyle – mesmo que, na prática, você já tivesse passado de tal idade.

 

Foi por causa desse olhar “inocente” que Skins funcionou por seis anos. Uma espécie de período-marco, pois existia outras séries voltadas ao público adolescente e que competiam entre si. Além de seguirem a mesma fórmula, onde o grupo de jovens se dividia entre o rico e o pobre. Entre a garota mais bonita e a não tão bonita assim. Com todos os estereótipos de personagem e repetecos de trama.

 

Ao contrário de Skins que foi a subversão do gênero e o inovou para a TV. Mas, como disse, não quer dizer que ela envelheceu bem. Em 2007, não existia a militância que há hoje. Nem muito menos cobranças sobre representatividade e cuidado com estereótipos. Atualmente, penso que uma série como esta não daria certo, porque há muita pauta para problematização. Para piorar, há muitos comportamentos que acabaram romantizados.

 

Não havia uso de aviso de gatilho em 2007-2013 também e Skins tem até suicídio. Ausência de preocupação que deixou o conteúdo ainda mais livre, leve e solto, e com caminho aberto para qualquer tipo de romantização. Nem a crítica chamava atenção para isso, não com a mesma intensidade que se daria hoje. E, claro, não posso deixar de comentar sobre o comportamento na internet que não era tão tóxico e influenciador na sala dos roteiristas – e Skins usou a internet totalmente a seu favor por meio de vlogs e do Myspace.

 

De qualquer modo, a série deu certo pelo motivo óbvio: não existia nada parecido naquela época. O recorde de audiência do Piloto gerou surpresa e, com facilidade, este universo criou raízes. Marcou os já crescidos da minha geração e a geração que vinha atrás – o caso da minha irmã que ficou extremamente fascinada.

 

A segunda olhada não foi empolgante, muito embora eu tenha sentido o impacto do começo ao fim. Já no primeiro episódio, eu me perguntei se conseguiria ir adiante, porque a aparência de Skins é inquietante. Longe de ser saudável e de ser um bom exemplo. Não teve um só momento em que eu não fiz uma careta – salvo a 3ª geração que é quase clínica de tão visualmente limpa – ou senti vontade de desistir. Foi desconfortável ao mesmo tempo que triste, especialmente quando me dei conta de que, em algum momento, eu fui um daqueles adolescentes. Ou um pedaço deles. Ou todos.

 

A partir deste post, eu começo um especial sobre Skins. Haverá um post para cada geração e um parecer geral da série no 4º. Hoje, eu começo com a 1ª geração (que segue como favorita).

 

I. standing in the way of control

 

Skins - 1ª Geração

 

“I say this world extends way beyond this little field of dreams we’re dancing in and I wanna see that world.”
Tony Stonem fazendo chacota de Dawson’s Creek

 

(Re)introduzindo meio que rapidamente, Skins foi uma série britânica lançada em 2007 e que finalizou com 7 temporadas. Produzida e escrita por Bryan Elsley (pai) e Jamie Brittain (filho), sua premissa acompanha três gerações de adolescentes hedonistas que vivem em Bristol e que rumam à conclusão do colégio. Cada geração tem um tema e cada personagem tem um episódio (às vezes dois em parceria com outro) que engata algum subtema para rechear o tema central. Esse último detalhe importantíssimo para a história da série, pois rolou um pouco de coragem em mostrar assuntos tabus (e que seguem como tabus, mas, naquele ano, o silêncio era predominante).

 

Muitos desses tabus envolveram transtornos mentais e Skins entregou vários comportamentos sem dar nome. Algo que, hoje, eu considero meio ruim. Para vários contextos, como o de Effy, era essencial pontuar com mais detalhes o que acontecia. Visão que eu não tinha quando vi esta série pela primeira vez.

 

O 1º volume de Skins abre com Tony Stonem. Só depois deste episódio se compreende o que se torna um padrão por três gerações: quem abre a temporada é a bússola da trama. A suposta dor de cabeça tão quanto a cola do grupo (ou não). O adolescente, interpretado por Nicholas Hoult, parece um cara legal. Além de obviamente ser o cara mais atraente e que toda garotinha ingênua quer. Essa visão muda em um telefonema para Sid, o melhor amigo, pois se vê que algo de errado não está certo. O personagem aparenta ser só ruim de piada e quem dera fosse.

 

Tony é tipo um símbolo da sua panelinha. O exemplo a ser seguido pelos camaradas. O cara que tem que ser ouvido, pois inteligentíssimo e pegador. Ele é tudo de melhor: amigo, namorado, aluno e filho. Além de cultíssimo. Claramente o ser perfeito, com tudo em cima, mas aqui temos um adolescente que usa suas características para manipular e dissimular. O protagonista também é um antagonista que acarreta vários instantes de desconforto em praticamente todo mundo. Principalmente para cima de Michelle, a namorada que é altamente sexualizada e objetificada. E ele não liga. Na verdade, ele acha bacana. E ela não responde negativamente, porque, bem, ela o ama.

 

Ele é idolatrado, especialmente por Sid que, de início, finge que não vê problema em ser chacota do melhor amigo (mas acontece alguns cutucões que Tony, claro, ignora). Ainda mais quando esse melhor amigo está dedicado em fazê-lo perder a virgindade. O personagem de Hoult tem propriedade de carisma, além de ser acessível e popular. Características que lhe “dão permissão” também para ser dúbio e malvado. A única pessoa que parece compreendê-lo é Effy, a irmã caçula que só observa o vai e vem desta geração – e que, no futuro, se revela bastante parecida com ele.

 

Pela proposta ser de um personagem por episódio é fácil crer que Tony não tem nada a ver com a vida dos demais. Que Skins trata tudo isoladamente já que cada adolescente tem sua própria storyline. Não é assim que funciona, pois esse jovem tem tudo a ver com todo mundo. É ele quem introduz as outras faces do grupo, como Cassie que sai como solução para Sid deixar de ser virgem. A garota “estranha”, conhecida por Michelle, que parece ver o mundo sob a lupa de Alice no País das Maravilhas. O que revela parte do conflito desta geração: Tony não gosta de Michelle (ou acha que não), Sid gosta de Michelle e chega a crer que perderia a virgindade com ela, e Cassie acaba se apaixonando por Sid que não lhe dá a mínima. O claro quarteto tóxico.

 

Skins - 1ª Geração

 

É Cassie quem mostra que Skins não nasceu para ser só sobre romance, pois seu conflito é um transtorno alimentar. Um assunto não muito compreendido e debatido em 2007, como qualquer outro tipo de transtorno mental.

 

Transtornos mentais são pautas presentes do começo ao fim de Skins. O episódio de introdução de Cassie (1×02) é todo voltado para essa questão e é brilhante. Ainda mais quando se volta para uma época que, inclusive, várias séries adolescentes não aprofundavam o tema e o glamorizavam. Tudo era uma questão de vomitar ou de comer pouco, mas, aqui, o plot teve começo, meio e fim. O roteiro dessa personagem não tem defeito algum!

 

Uma opinião que eu não tive na primeira vez que vi o 1×02 (que se tornou meu episódio número 1 de favoritos de Skins). Eu fiquei impressionada com as sacadas que denunciaram o comportamento de Cassie com relação à anorexia. Graças a isso, se minguou a impressão que eu tinha de que tal viés foi romantizado, pois o trabalho do roteiro foi entregar sinais que, normalmente, ninguém se dá conta. Nem mesmo a pessoa que tem o transtorno alimentar e é aqui que se destaca o mostre e não conte. Por todas as gerações, os roteiristas mostraram comportamentos sobre saúde mental e não contaram o que era.

 

Quando digo que isso foi meio ruim é porque Skins perdeu a chance de abrir para uma conscientização mais aprofundada. Razões e personagens nunca faltaram, sabem? Em contrapartida, quando parei para refletir esse mostrar teve seu sentido. Algo que eu senti com James Cook, pois seu comportamento me deu base para investigar qual seria o seu transtorno mental. Não sei se o objetivo dos roteiristas foi esse desde o início, mas, considerando que adolescentes eram fãs da série e a consumiam como religião, não acho impossível imaginar que foi sim. Anos depois, eu mesma me vi na Cassie de novo. Em outras palavras, o mostrar seguiu efetivo.

 

A história da Cassie trouxe um sentimento novo em comparação à primeira vez que o vi. Justamente porque eu não tinha o entendimento que tenho agora sobre transtornos alimentares – mais especificamente bulimia que foi o meu caso. Saber disso, ao longo da maratona, alterou totalmente minha visão sobre o 1×02. Tão quanto sobre outros episódios em que personagens se perdem por causa do surto gerado por um transtorno mental (Effy é um exemplo).

 

Skins - 1ª Geração

 

A parte realmente brilhante da história de Cassie cabe às mensagens que pedem para ela comer. Várias SMS que a personagem acredita ser de Sid – o garoto por quem se apaixona. Porém, é seu inconsciente pedindo que tome uma ação. A vozinha que pessoas com transtorno alimentar têm como companhia e isso é verídico demais, mas de um modo nocivo. Afinal, o pedido é sempre para não comer e essa jovem se viu perseguida sobre o que precisava fazer para o seu bem. Principalmente porque acabara de sair (mentindo) de uma clínica de reabilitação (outra parte cheia de gatilho de Skins).

 

O transtorno alimentar e o crush por Sid formam duas ligas de conflito dessa personagem. Ela sofre de vários colapsos ao longo da trama devido à necessidade de parecer adorável para outro alguém. Em outras palavras, mais magra. Uma fala que é problemática e que entra na categoria de romantização. Principalmente quando o que ela sente pelo garoto em questão começa a tirá-la do controle e coloca sua saúde mental na berlinda (um detalhe que comentarei melhor no post sobre a 2º geração).

 

Quem tem transtorno alimentar normalmente controla muito alguma coisa. Seja a aparência. Os estudos. Por essas e outras que Cassie é puro gatilho para quem está em recuperação/se recuperou.

 

Eu nunca me esqueci do comportamento de Cassie diante da comida. Nem muito menos o instante em que ela se vê entre comer e não comer – o trabalho de Skins com reticências. Eu me vi engatilhada de novo, porque eu tive a voz na minha cabeça e minha gaveta cheia de doces. Às vezes, a gaveta chega a retornar e hoje eu sei qual comportamento rege essa atitude. Fato que tornou o episódio dessa personagem ainda mais relacionável. Principalmente quando se conhece os pais que não ligam para ela. Assim como quase todos os pais desta série.

 

Skins - 1ª Geração

 

Jal vem como modelo de personagem que eu chamaria de (quase) careta. Ela é um compasso moral e suas problemáticas envolvem temas mais do lar. No caso, a adolescente tem treta com o pai. Pela ausência da mãe, que abandonou a família sem a menor explicação, a jovem vive em um mundo predominantemente masculino. Um mundo que, de quebra, é voltado para a música. Seu irmão e os amigos, que servem de ótimos alívios cômicos, são aspirantes. Ela, pelo contrário, sabe que ama tocar clarinete e sabe que é boa ao ponto de entrar em competições. Não há foco romântico em seu 1º ano na série, pois tudo dela se centralizou em tocar e aconselhar, especialmente Michelle, a melhor amiga.

 

Essa personagem traz um oposto de inteligência também. Isso pensando na influência de Tony. Ela é perspicaz e ácida. Ela capta o que normalmente nenhum dos amigos percebe. E ela é a menos escutada pelo grupo. Seja porque alguns não se importam com a vida que levam. Seja porque são autocentrados. De qualquer forma, Jal pertence ao grupo raro de caracterização rica em uma série como Skins. Ela, e Liv (3ª geração), até que fugiram do estereótipo de garota negra. Isso se pensarmos exclusivamente na época que a série foi exibida e na sua proposta.

 

Mas, sem dúvidas, há problemas. Jal não é imunizada das piadas sem graça. Os garotos a caçoam por ser meio nerd, ou seja, não ser tão atraente. Ela não liga para essas coisas e isso muda quando Chris e Cia. a zombam. É quando a jovem se percebe diferente. Afinal, ela é uma adolescente e ter impasses com o modo que se é vista pelos meninos não deixa de ser natural (e infernal). Porém, foi por meio dela que se vê com extrema clareza o quanto os criadores de Skins nunca dosaram em sexualizar as personagens. No seu aniversário, dia de prova para ser lindíssima, Jal usa uma camisola sexy e não um vestido.

 

(mas juraram que era um vestido).

 

O que não foi legal de se notar. Ainda mais quando penso em Michelle que, ao contrário de Jal, tem sua storyline focada em sexualização e objetificação. Ela é a dita garota mais bonita do grupo e que todos gostariam de fazer sexo. Em vez de contribuir para a autoestima dela, Tony a arrasa (o apelido dela é peitos em PT-BR, gente, graças à piada dela ter um seio menor que o outro). O que abre para outro arco da trama da adolescente: busca de validação que não seja sobre a aparência.

 

Skins - 1ª Geração

Chris anjo injustiçado!

 

Chris é o menino alto astral que todo mundo quer por perto. Que todo mundo não consegue ficar sem. Ele é o bobo da corte, o coração da festa, o cara que é 100% foda-se (fuck it for Chris). Pena que o adolescente é o mais viciado em comparação aos outros personagens. Bebidas e drogas são o que o compõe para preencher um vazio que se abre em fins da 1ª temporada. O pai o abandonou e o renega. Há a sombra do irmão morto, ainda sem causa na S1. E o abandono da mãe é a cereja que reforça a impressão de que não há mais a perder. Não há maldade em Miles, mas desamparo. Ele tem uma das storylines que mais machuca junto com a de Cassie.

 

E pensar que Joe Dempsie e Hannah Murray estiveram em Game of Thrones, hein? Meu coração deu vários saltinhos na época das escalações!

 

Sid também tem uma pinta good vibes, mas há certa melancolia no personagem. Não sei explicar isso, mas pode ser uma causa do nítido complexo de inferioridade causado pela sua posição de estepe e de sombra de Tony. Ele não é exaltado um só minuto pelo melhor amigo. Só humilhado mesmo.

 

Assim como os outros, Sid se envolve em várias furadas e diverte. Ele tem “fascinação” por sexo, só pensa nisso, o que automaticamente o faz “vítima dos hormônios” – que compete diretamente com Anwar. Mas ele é extremamente tóxico também e é o canal principal de objetificação e sexualização das garotas. Mais precisamente… Sim, Michelle, o objeto de desejo. Ele não é um aluno dedicado, o pai é Peter Capaldi, e suas indecisões sobre quem gosta acaba por machucar Cassie profundamente.

 

Cassie fica tão azeda que se torna um tipo de vilã e desconta tudo em sexo também.

 

Fora disso, Sid é quem aparenta ter a família mais estruturada. Até a mãe cair fora. Ato que revela outro problema sério de Skins: tratar as mulheres adultas como traidoras e máquinas sexuais enquanto os pais são vítimas delas – ao ponto de não conseguirem se virar. Os homens adultos veem as esposas praticamente como babás. Sem elas, eles não funcionam. E a storyline desse personagem dá tal clareza e o desconto só vem porque o pai é o Capaldi.

 

Skins - 1ª Geração

 

Michelle conquistou uma nova aproximação com a minha pessoa. Eu não lembrava das minhas opiniões sobre a personagem, mas eu sabia que existiam impressões nada positivas. Ela é 100% autocentrada, especialmente quando envolve seus dilemas eternos com Tony – o que a faz só falar de Tony. O que não é um problema, pois não há adolescente no mundo que não se comporte de tal maneira. Contudo, ela só existe em função do namorado. Quando não está com ele, a mãe aparece. Uma figura que se comporta basicamente do mesmo jeito que a filha.

 

Mas, no caso de Skins, os filhos tendem a ser mais “maduros” que os pais. Os adultos se tornam espelhos do que essa juventude não quer ser. E nem sempre dá certo, pois muito está enraizado.

 

Como comentei no bloco sobre a Jal, o problema real de Michelle é o quanto ela é sexualizada. Objetificada como todas as outras personagens femininas de Skins. Ela não tem valor algum aos olhos dos garotos. Nem do seu namorado que vira e mexe a usa como isca para conseguir o que quer – como tirar Sid da cama devido à falsa ideia de que ela tirará a virgindade dele. A personagem também vive à mercê da mãe que tem sérios problemas com idade e autoimagem, se casando repetidas vezes. Um background mais suave perto de Chris e de Cassie, mas não menos verdadeiro. O nível de negligência existe.

 

Como para todos os personagens, salvo, talvez, Sid e Anwar. E Maxxie que é muito completo.

 

Falando neles, Maxxie e Anwar são os personagens de suporte. Porém, com storylines bem definidas. Maxxie é gay assumido. Anwar, vivido por Dev Patel, é muçulmano e finge que segue a sua religião. Enquanto um bota em alerta a conformidade com sua orientação sexual, o outro tem dúvidas sobre o assunto graças às regras das suas origens. Último ponto que Skins não aprofunda e que é uma das falhas desta geração. Sem dúvidas, a dupla teria coisas legais a contar, não só sexo.

 

E quando digo falha é porque Skins nunca teve um compromisso de desenvolver todos os personagens como acontece nos típicos dramas adolescentes (e nem sempre tão bem assim). Não apenas pela quantidade de episódios, mas porque a ideia foi mostrar como do avesso a turma se endireita para tentar ter um futuro.

 

O que é relativo, pois, com o passar do tempo, os roteiristas perdem a mão. A 1ª geração é a única que se salva por justamente ser a 1ª. A novidade. O trabalho de choque. O que vem depois é uma tentativa de emanar a essência dos personagens desta nas outras gerações. Tão quanto explorar outros temas que não possuem a mesma eficácia visto que Skins não deixa de ser um poço de estereótipos. Fato que causa repetições e a 3ª geração sofreu muito com isso.

 

II. hometown glory

 

Skins - 1ª Geração

 

“Shows that we ain’t gonna stand shit. Shows that we are united. Shows that we ain’t gonna take it. Shows that we ain’t gonna stand shit. Shows that we are united.”
— Hometown Glory ; Adele

 

Jamais seria possível imaginar que Maxxie e Tony seriam os primeiros a abrir a 2ª temporada da 1ª geração. Principalmente depois do que rolou na Rússia e que afetou o relacionamento de ambos com Michelle. Maxxie entrega um clima enganoso por meio de sua dança. Um instante que eu me vi fascinada como se fosse a primeira vez. Fascinação que disfarçou a torturinha de saber se Tony estaria vivo depois de ser atropelado por um ônibus.

 

Tony trouxe uma problemática diferente: o estresse pós-traumático que foi tratado do mesmo modo que o transtorno alimentar de Cassie. Porém, não houve o esquecimento sobre testar suas relações mais próximas em função disso. Sid sofre com a culpa de não ter estado ao lado do melhor amigo como gostaria durante a recuperação. Um agravante para quem já lidava-não-lidando com o luto do pai. O mesmo Michelle que sente um impacto ainda maior, pois ela ouviu o acidente por estar no telefone com o então ex-namorado e o que lhe restou foi se sentir culpada pela distração.

 

Cenário que sufoca a tríade da 1ª geração e que serve de nuance para o que viria a ser a jornada de Effy: a dificuldade dos adolescentes em compreender emoções tão profundas ao ponto de perderem o controle graças ao que sentem. Sid era o mais esperado a lidar melhor com isso visto que perdeu o pai. Porém, ele é infernizado com um luto atrás do outro e se sente perdido.

 

Ainda assim, ele fala um pouco, mas não o suficiente para tirar o fardo que se torna escapismo que rebate em Michelle. Antes tarde do nunca, ambos têm seu momento e é quando se percebe que a sexualização dessa personagem diminui um pouco – mas não se pode dizer sobre o figurino. Ambos se tornam a fuga um do outro, conjunção que afeta drasticamente a relação com Cassie.

 

Tony é quem tem praticamente dois episódios na S2, o que configura dois momentos que refletem perfeitamente a questão do lado avesso e do lado direito que norteou Skins. O 2×06 é sua transição e o roteiro foi extremamente inteligente. Um episódio que compete pau a pau com o 1×02 da Cassie. O que parecia um sonho dentro de uma universidade, nada mais é que a realidade cujo intento é libertá-lo da sensação sufocante de não ser o Tony de antes. Sendo que ele estava diante da chance de ser uma nova pessoa.

 

Esse personagem é o único que confronta seus próprios demônios de frente e, a partir disso, o peso do grupo diminui. Era preciso que ele retomasse a consciência e visse o que era importante para que os demais se concentrassem em suas jornadas. Sem culpa. Do ponto de caos, o adolescente se torna o ponto de mudança. Um dos pontos de saída para todo mundo.

 

Por vários episódios, eu pensei que Skins não trazia nenhuma transição já que eu não lembrava de muita coisa. Contudo, a S2 traz sim o rumo ao esperado amadurecimento, mas não garante sucesso para geral.

 

Skins - 1ª Geração

 

Viés que traz outra linha paralela a de Tony durante a S2: a storyline de Chris que ocupa Cassie e Jal.

 

Chris ganha um tocante mais aprofundado também visto que precisa arrumar sua vida para sobreviver. Ele segue largado à deriva. A mãe não o procura. Mesmo sendo a alma da festa, o personagem quer mudar a cada episódio que passa. O adolescente tenta amadurecer diante das poucas dificuldades ao mesmo tempo que teme a partida da namorada para a universidade (o medo do abandono que fica nas entrelinhas novamente).

 

Mas Chris não parece programado para se virar sozinho. Ele depende bastante de Jal para nortear seu caminho e é por isso que acabam se envolvendo. O casal surpresa desta geração, pois sempre existiu um abismo entre ambos.

 

Enquanto Tony precisa realinhar a parte mais tóxica da história da 1ª geração de Skins, Chris vem com a enganação de um possível final feliz. Sentimento tremido pela constante do medo de ser deixado para trás. Um assunto que é terror de qualquer adolescente, porque, de quebra, traz a sensação de fracasso. E esse personagem é um poço de fracassos que coincide com o fator comum de todas as gerações: a família é um sério problema. Engana-se quem ainda acha que adolescente é X porque quer, tá?

 

Além de se tornar a namorada de Chris, Jal recebe a bomba de que está grávida. Já Cassie, depois de uma temporada na Escócia, retorna sem eira e nem beira, dando de cara com Michelle e Sid. Mesmo à parte do círculo de Tony, ela se autossabota com sexo porque é o meio dela ser aceita. De se sentir validada. Nisso, o pior de si vem à tona e que nada tem a ver com Alice no País das Maravilhas. Confesso que foi irritante vê-la dessa maneira, mas é a espiral da sua saúde mental (que não dá direito algum de ser babaca, vale dizer).

 

Cassie é quem tem o papel predominante rumo ao final da 1ª geração. É ela quem deixa as mensagens de uma conclusão estarrecedora. É com ela que cai a bomba sobre Chris. Uma bomba da qual ela não sabe lidar e que gera a primeira mudança de ares: a personagem vai para NYC.

 

É na 2ª temporada que dá para sentir e capturar com intensidade o famoso foreshadowing. O episódio da Effy situou o que seria sua trama na 2ª geração. O pai de Jal entregou várias vezes que a história dela com Chris não iria para frente. Chris sentiu medo de ficar sem Jal e, com isso, escondeu que estava doente. Cassie, literalmente, como uma voz maligna na orelha de Jal, amarra tudo que representou a 1ª geração: os segredos. Externos ou internos, cada um carregava sua sombra.

 

E cavava seu buraco.

 

Skins - 1ª Geração

 

Cassie é uma das poucas que explode por causa da realidade, o que torna o episódio dela (2×09) vital para a conclusão da 1ª geração. Além disso, ela é outra ponte de entrega de um possível amadurecimento, pois, finalmente, a jovem reconhece seu ponto de controle. O ato de não comer para ser pelo menos adorável se perde, porque ela tem consciência de que pode morrer. Tony e ela entregam suas redenções, embora com conclusões e destinos totalmente diferentes.

 

Tony tem um ponto final. Cassie tem reticências. Com a história dele resolvida, ela se torna o canal para o retorno da raiva, para o desejo de tudo ser como antes. Para querer que tudo simplesmente seja fácil e intocável. Nada disso existe e tal informação é dada desde o 1ª episódio de Skins, pois seu elenco entra na trama já sem ingenuidade. Detalhe que faz desta história um caminho de onde tudo se estragou e a busca pelo remendo. Mas… Nada se remenda.

 

Não quer dizer que não há elos. A 1ª geração tem amizade como tema central e traz a luta de cada um para mantê-la conforme seus subtemas. Além da luta para sobreviver. A jornada de amadurecimento que exigiu que um ficasse bem com o outro para assim ouvir a voz individual. Tão quanto aceitar a separação iminente, de uma maneira que águas brandas ritmassem a saideira desses adolescentes.

 

Tony e Michelle vão para faculdades opostas, Maxxie vai para Londres com o namorado, Anwar se dá mal, mas encontra seu final com o melhor amigo, Jal aborta, Cassie foge, Sid vai atrás de Cassie… É o fim de uma geração.

 

Um fim marcado pelo funeral de Chris. Ele é o estilhaço de uma frase que passa a ser repetida na 2ª e na 3ª gerações: tudo é frágil.

 

Cassie é quem carrega esse estilhaço e engata a questão existencial da 1ª geração: onde é meu mundo? Onde e com quem eu pertenço? Como eu posso ser depois de tudo que aconteceu? Incertezas que cravam  a assinatura principal de Skinsas reticências dosadas de angústia.

 

Uma angústia que poderia passar junto com uma professora que dança para uma aluna conseguir fazer o último exame e assim ter um futuro.

 

Mas não passa.

 

III. seven nation army

 

Skins - 1ª Geração

 

 

“And I’m talking to myself at night because I can’t forget. Back and forth through my mind, behind a cigarette. And the message coming from my eyes says leave it alone.”
Seven Nation Army ; The White Stripes

 

A 1ª geração basicamente levou Skins nas costas graças à responsabilidade de introduzir um universo adolescente sem glamour. O hedonismo, que é a marca registrada desta série, chegou a chocar em sua época de exibição – e continuou assim ao ponto da versão americana não ter vingado dentro da mesma fórmula. Tudo ao redor desse grupo orna com o que sentem e como se enxergam, o que calha na questão da trilha sonora que acabou prejudicada com a distribuição para outros países. Muito das emoções que senti no passado acabou interrompida pela mudança de música.

 

Como no próprio funeral do Chris e na fuga de Cassie. Eu fiquei muito injuriada!

 

Revendo a 1ª geração de Skins, eu aprendi que o foco sempre foi entregar adolescentes às avessas em seu primeiro instante. Testando o famoso a primeira impressão é a que fica. Até acontecer um instante que muda tudo e impulsiona o grupo a repensar o que anda fazendo da vida. Ato que não garante menos festas e menos drogas. Tudo isso continua pulsando, pois se tratou da fórmula da série. É o campo de escape, pois, em cada grupo, se vê que muitos não veem sentido em existir. E não digo isso em um tom muito dramático. Na real, o vazio é a âncora de Skins.

 

Um vazio que traz Chris como principal representante da 1ª geração nesse quesito. Vê-lo dentro do guarda-roupa, depois de sacar o que a mãe fez, é extremamente desolador. O que trouxe minha constatação atualizada de que Skins nunca quis salvar todo mundo. Embora alguns desejassem sobreviver. Como Tony e Cassie. Não tinha como salvar um grupo de adolescentes que lutava contra seus demônios. Meramente porque a saída estava dentro de cada um e isso leva tempo para encontrar.

 

Ninguém pensava em cursos da faculdade ou no futuro propriamente dito até o receio das notas de conclusão chegar. A única vez que Skins mostrou uma preocupação com universidade e afins visto que as outras se desviaram graças aos seus temas. Há um episódio que Tony passa o dia todo em uma universidade (o mencionado 2×06) e nada mais disso é mostrado. Ponto que também inclui Jal que foi atrás do seu e não se sabe se deu certo após o aborto.

 

O mesmo não se repete com a maioria dos personagens (e ao longo das outras gerações), porque o outro segredo da série foi deixar algumas conclusões nas reticências. Como a de Cassie.

 

Skins - 1ª Geração

 

A S1 é extremamente conturbada além de imunda e visualmente desorganizada. Tem que ser valente para passar por ela, especialmente nos tempos atuais. Seu efeito ainda é devastador tão quanto problemático, porque é impossível não se perguntar como esses jovens viveram sem ficar mais doentes do que já estavam. Tudo é festa ao mesmo tempo que tudo é descuido. Tudo é uma extrema falta de compromisso, pois não há nada mais que importe a não ser a fuga por meio do hedonismo – ponto que serviu para alimentar o público mais jovem que acompanhava Skins.

 

Em contrapartida, a 1ª geração comportou o que as outras não conseguiram muito bem. Vários subtemas que enriqueceram o tema central: a amizade. Mesmo sem aprofundamento, há uma riqueza maior de histórias e de sentimentos. Como o luto e a experiência de morte.

 

O que me faz dizer com tranquilidade que a 1ª geração foi a única que acertou em luto e em morte. O susto causado pelo acidente de Tony, em um season finale de uma série nova, foi chocante. A perda de Chris, e como essa história se transformou tão rapidamente e dentro da caracterização, foi puro susto. Skins brincou bem com essas questões que, mais tarde, se tornaram valor do choque.

 

Traduzindo: acontecia só por acontecer mesmo. Freddie que o diga!

 

As duas temporadas foram difíceis de rever, porque há sim o aspecto de juventude perdida. Visualmente, tudo parece exagerado, mas Skins foi sobre exagero. A proposta era mostrar a adolescência em carne viva. Com mais verossimilhança. Não é à toa que a 1ª geração zomba de Dawson’s Creek e The O.C.. Séries versão Malhação anos 90 com atores fora da idade de seus personagens e todos esculpidos a canivete.

 

Daí entramos em outra questão importante: Skins trouxe um elenco dentro da idade de seus personagens. Ato que contribuiu para deixar tudo mais próximo do seu público-alvo. Não há look do dia, nem alunos exemplares, nem grana e nem padrinhos mágicos. A questão de estilo só foi mais percebida quando Effy assumiu a série por dois anos. O mesmo Franky. Ainda assim, o figurino não se tornou ponto de referência para desfiles de moda, mas sim como meio de assinar o estado emocional de cada personagem. Além disso, engatar as falsas percepções que cada um tinha de si – como Michelle.

 

É importante também dizer que a intenção desta série nunca foi permitir que outros salvassem sua juventude. Nem muito menos garantir que houvesse finais felizes como nas séries adolescentes mais classudas. Não há coesão. Nem muito menos segurança. Tudo é conta e risco. As festas, as drogas, as bebidas, o sexo… Escapes de não só uma, como de três gerações que são expressas no auge da nocividade. No auge de uma saúde mental extremamente debilitada. No auge de famílias disfuncionais.

 

Há um rasgante abandono em cada personagem e isso é mais latente na 1ª geração. Há uma carência que é a ponte de identificação e que traz o avesso de todos. Logo de cara, pois a meta da série também foi criar empatia acima de toda a podridão visual e dos relacionamentos. Contudo, infelizmente, Skins se popularizou com vieses problemáticos e vê-la hoje não reprime um olhar investigativo. A começar pela própria saúde mental. Não tinha um adolescente que não tinha um transtorno. Tenho certeza absoluta!

 

Na 1ª geração, há quem nunca amou, quem nunca se deixou amar, quem acreditou que manipulando se ganha respeito, quem achou que seu corpo é o mais importante para se ter uma relação. Há pais que claramente possuem o transtorno de personalidade narcisista. Skins ousou um olhar despido sobre um grupo que não tem com quem conversar e que, de certo modo, consegue conversar entre si. Mesmo que isso ocorra depois de uma grande tragédia. Ou de um simples coração partido.

 

Há ira. Ciúme. Inveja. Toxicidade. Itens que entregam o que é uma guerra não somente contra o mundo, mas sobre seu lugar no mundo. Um lugar que parece não existir quando o avesso não é a única parte trincada. Quando o interior está muito machucado, o exterior não parece muito promissor. Ainda mais quando se tem pais que pouco ligam e que reforçam o abandono.

 

Skins - 1ª Geração

 

A 1ª geração também serviu de palco para se ver o que possivelmente alguém passará a odiar a cada revisita a Skins – e ao longo das outras gerações também. A começar pelos adultos disfuncionais. Há a nudez, sempre muito criticada, que incomoda bastante por dar ponte à objetificação feminina. Dá para ignorar as bebidas, os gemidos, o auge de Crystal Castles e as drogas, mas não o quanto as garotas são apenas um objeto sexual ou um meio para um fim. Em um primeiro momento, você “perdoa”, porque elas alimentam o imaginário dos garotos no auge da puberdade. Depois, é incômodo, porque é uma constante violação e normalização de um tipo de agressão.

 

Michelle e Angie são as marcas dessa objetificação. A maneira como o corpo feminino é exageradamente exposto, facilmente tocado e acessível para as figuras masculinas inconforma. Eu me perguntei como isso conseguiu passar e daí vem o aviso de que era 2007. Época que a mídia em si, e a própria ficção, não dava a mínima para a mulher ser tratada como um objeto.

 

Por mais que a série em si não promova conforto, segurança e nem boa mensagem quando tratamos o cerne de todos em conjunto, a objetificação estala para todos os lados. Michelle sente que só é válida pelo tamanho dos seios. Angie, a professora de psicologia e que se destaca por ser o amor adolescente de Chris, é assediada o tempo inteiro no colégio por ser a adulta bonitona (aka a gostosona que até professor perde o maldito do limite).

 

Para vocês terem ideia: a viagem para a Rússia (1×06) é 100% insuportável de assistir. Digo sem pestanejar que é o pior episódio desta geração, embora seja logo de Maxxie e de Anwar, ambos muito queridos. Há todos os estereótipos sobre uma mulher russa, e dos próprios russos, e mais objetificação e assédio. Um momento que serviu para a formação de outra opinião que eu não tinha antes: os criadores tinham sérios problemas com mulheres. Nem pelo fator escrita, mas porque todo tipo de sexismo se fez presente ao longo da existência desta série. Além, claro, dos homens sempre serem vítimas, como de traição, sendo que até eles diminuem as esposas.

 

Tirando isso e mais um pouco, Skins entregou uma geração extremamente coesa. Alinhada no teste de relações enquanto cada um vivia a problemática da sua realidade individual. Todos se conheciam antes, algo que anulou o plot inicial de praticamente toda série adolescente: a aluna nova, pobre, que não se enquadra e etc.. Tudo bem que há uns aleatórios, tipo a Sketch, e até hoje me pergunto qual foi a necessidade. Ainda mais porque é um detalhe que se repete.

 

As duas temporadas entregaram que o futuro é um caso de sorte. Outro motto de uma série que nunca garantiu felicidade e sucesso. O que se garante é entrelinhas e faz sentido. Afinal, nada se acerta ao sair do colégio. A adolescência é a fase que estamos do avesso. Não sabemos quem somos e há um longo caminho para descobrirmos. Principalmente quando se pensa nesses adolescentes que precisariam de muita recuperação mental e emocional.

 

Principalmente para não serem como os pais. Algo que ninguém ali queria.

 

Na adolescência, não sabemos o que queremos. Nos misturamos com quem consideramos legal. Não brigamos com o Tony do grupo, porque achamos que não teremos outros amigos. Acreditamos que somos Michelle e que nossa vida sempre será sobre validação de aparência. Ficamos na panelinha que aparentemente nos protege e ouvimos o que não queremos. Magoamos porque nos sentimos magoados. Arranhamos nossa mente, corpo e alma em busca de uma aceitação em um mundo que não nos aceita como somos. Em que o sexo pode ser uma experiência incrível tão quanto um meio para fugir da realidade. Como as bebidas. As drogas.

 

Nem toda adolescência foi multicolorida e a 1ª geração de Skins esfrega isso sem uma gota de dó.

 

O final feliz seria a resolução mais intragável considerando tudo que esses adolescentes viveram e entregaram. Ninguém se cura desse tipo de vivência, de troca, de autodestruição de um dia para o outro. Ou só entrando na universidade. Leva tempo e isso é bastante claro na S7 de Skins.

 

IV. wild world

 

Skins - 1ª Geração

“Don’t you wish you could go back to when you hadn’t lost anything? Everything’s in the future. More shit to happen, that’s all.”
Cassie Ainsworth

 

A 1ª geração fez o trabalho completo que as outras pecaram, pois não teve como não replicar o que já tinha acontecido e o que já existia. Muitos personagens nasceram como sombras de alguém da 1ª geração e assim não se engatou mais o tom de novidade em Skins. Justamente pelo óbvio: a S1-S2 foram a novidade. A 2ª geração se salvou um pouco, mas sem tanta riqueza de subtema.

 

Os temas foram tudo que Skins conseguiu para diferenciar um grupo do outro. Funcionou até se perceber que não dava para viver a sombra daqueles que ainda considero os melhores. Mas, de maneira geral, uma geração se tornou sombra da outra e a 3ª acabou se prejudicando demais nesse processo.

 

No melhor e no pior, a 1ª geração mostrou como o mundo adolescente é voraz e volúvel. Impossível e, por vezes, insuportável. Por não ter uma linha temporal fixa, os roteiros vão direto ao ponto e há vários exemplos que eu chamo com tranquilidade de poetic television. Os melhores episódios desta geração são o 1×02, 2×06 e 2×09. Os três dão aula ao se pensar que Skins não é uma série longa e, em seu começo, teve que encontrar soluções cabíveis aos personagens. Highlights, claro, porque tudo, unindo as duas temporadas, se encaixa. Até as reticências. Algo que, infelizmente, não se pode dizer das outras gerações que se perderam seja pela Effy ou pela Franky.

 

Vale repetir sobre o foreshadowing da S2. Diálogos dentro da temática dos personagens, sombreando os socos que viriam no futuro da série. O da Effy (2×07) merece todos os aplausos. Personagem que, certamente, ninguém dava nada por viver 100% na miúda e que se tornou a bússola para a continuação de Skins.

 

Eu realmente pensei que me entediaria fácil reassistindo Skins. Quando eu terminei a S1, pensei: mas esta série nem tem mensagem. Mas tem sim. E acredito que isso seja mais visível para quem teve uma adolescência conturbada e quem se reconhece em alguns comportamentos. O choque de ver os adolescentes em seu pior e torcer para que alguns encontre um tipo de redenção são emoções predominantes. E eu ainda me sinto ligada a tudo isso.

 

É difícil comportar o que veio à tona durante a minha maratona de Skins. Algo que espero transmitir ao longo dos posts. O que me resta dizer é que a 1ª geração sempre teve um lugar especial no meu coração e isso não mudou. Agora eu posso dizer que eles são muito completos. Tudo bem que ainda defendo que Maxxie e Anwar mereciam seus próprios episódios, mas, pensando bem, eles nem precisavam. Ambos nasceram prontos. Os tipos de personagem que não necessitavam de drama exclusivamente em nome do drama.

 

O que mudou depois de rever essas duas temporadas da 1ª geração foi meu olhar. Eu meio que senti respeito pelo que foi criado, independentemente das problemáticas. Cada personagem tem um motivo para agir como age e isso não é entregue mastigadinho. Mais uma vez, está nas entrelinhas. O que significa algo muito básico: atenção aos adolescentes. Sair do achismo.

 

Como o próprio achismo que circundou o silêncio de Effy. Parecia apenas charme. Um meio de irritar os pais. Mas é uma das principais nuances da sua caracterização e que se torna seu inferno a partir da S3. Temporada que marca o início da 2ª geração e que será discutida no próximo post! ❤

 

Imagens: screencaptures por Kissing them Goodbye

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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