07out
Arquivado em: Contra as Feras

Em julho, eu completei 1 ano de análise (aka terapia). Foi uma das melhores decisões da minha vida, principalmente quando eu vejo, mês a mês, a costura da minha concha de retalhos mental e o constante entrecruzamento das memórias. Memórias essas repletas de ausências no que condiz a armazenar de modo permanente instantes mais alegres. Aqui, parecia que só o cinza prevaleceria.

 

Até eu não querer mais esse cinza.

 

Nunca me dei conta de que minha mente tem esse esquema que passei a adotar para mim: de entretempos. Na experiência real do cotidiano, mesmo que eu saiba um pouco da causa de ter memórias suprimidas ou ausentes, cada um deles parece um monte de cenas quebradas. Parece algo como a edição de um filme em que o enredo é extremamente truncado e é espalhado ao vento no intuito de que alguém o encaixe na verdadeira sequência.

 

A única linha do tempo que tenho mais propriedade é a entre os 14 aos 19 anos. Justamente porque cada ano foi marcado por eventos desagradáveis e que seguiram como highlights da minha vida.

 

Os pontos de referência sobre ver o mundo e senti-lo. Sobre me ver e me perceber.

 

Até eu querer dar uma mudança no teor das minhas narrativas.

 

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Quando paro para pensar sobre minha infância e adolescência, percebo que nunca tenho um senso de continuidade. É tudo muito desorientado. Muito desorganizado. Não parece ter muito sentido já que nunca me lembro do que veio depois. Ou do que veio antes. Isso, de maneira a dizer automaticamente que tal evento pertence a tal ano. Minha mente é condicionada a puxar o ruim para me localizar. Com isso, foram anos me embasando em um tipo de norte que afundou o que era positivo. Hoje, eu tento girar essa chavinha para colocar o positivo à frente do negativo.

 

Um papo bem O Lado Bom da Vida.

 

Eu ainda tenho que pensar muito para resgatar algum instante que ao menos tenha sido feliz. Ultimamente, esses instantes têm retornado e presumo ser um dos efeitos da análise. Afinal, eu tenho que rever o que aconteceu e daí nasce o papo que escuto da analista sobre elaborar e ressignificar. O que concluí até o momento é que o polo negativo controlou vários aspectos da minha vida e do meu ser. Trazendo a dita verdade de que não fui uma “humana funcional”. Inclusive, de que sou um dito ser ausente de qualquer experiência positiva.

 

No fundo, eu acho que não fui uma “humana funcional” (apesar de eu achar que ninguém é funcional o tempo todo). Não quando eu vivi concentrada no avesso da minha concha de retalhos. Um mar de confusão, sem começo, meio e fim. Há quase sempre o meio e o meio que é ruim.

 

Justamente porque eu fico presa no “in between”. Ou, como preferirem, no famoso limbo.

 

Para vocês terem mais ideia do que digo, minhas memórias felizes funcionaram ao longo dos entretempos como um conteúdo compartilhado no Snapchat. Eu vivo o instante e, depois de alguns dias, ele desvanece. Alargando o espaço para o que é negativo se manter e seguir acomodado. Concentrando poder no que não foi tão bom assim. Isso me deixou no meio dos tempos. Flutuando, sendo devorada pelas minhas sombras – que eu detestava por serem as ditas fontes de vulnerabilidade.

 

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Viver no limbo traz a outra verdade de que eu nunca compreendi o cerne de tudo que me ocorreu. Nem muito menos o que veio depois e como esse depois aconteceu sem que eu o “ordenasse”. Eu tinha essa falsa sensação de ter tudo no lugar. De ser minha maior entendedora/ajudante. Daí era fácil jurar que estava tudo bem. Que essas partes da minha narrativa estavam sob o meu controle.

 

Mas sempre faltou uma parte (várias partes) e esse vácuo me levava para o limbo.

 

A real é que eu não tinha compreensão do impacto direto de todos esses eventos. Eu virei acumuladora e não endereçava nenhum fato que me angustiava (mesmo sem eu saber a razão da angústia em dado instante). A minha saúde mental nunca foi prioridade. Nem sequer pensava sobre isso, independentemente de querer “ficar bem logo”. Ou de achar que me ajudava demais ao me permitir somente um dia para ficar na bad. Eu fui minha própria inimiga sim, mas mais em um ponto de vista de nunca ter parado para me ouvir e para ouvir as minhas emoções.

 

Eu sempre atropelei minhas emoções e ainda assim achei que lidava com tudo muito bem.

 

Nos entretempos, eu quiquei em várias fases de limbo. Lá, eu aguardava sempre o instante em que as coisas se assentariam. Não se assentavam, pois, sem endereçar cada “evento”, dei de cara com acúmulos. Fatos não lidados. Feridas não cicatrizadas. Outras feridas com curativos capengando. O que traz o fato de que eu fui muito alienada sobre minha existência e minhas necessidades.

 

Eu fui muito alienada sobre as duas infiltrações de elo em X que mudaram minha trajetória.

 

Minha mente e meu corpo se tornaram uma espécie de tapa buraco contra o efeito do ácido que se alojou dentro de mim a partir da adolescência. Tempos intermediários que criaram a falsa sensação de cicatrização em cima do que eu achava que tinha lidado, mas era pura enganação.

 

Tudo que eu reuni com o passar dos anos foi naufrágio atrás de naufrágio. Isso me desconfigurou, especialmente porque eu vivia mais tempo nas profundezas. Jamais indo até a superfície a fim de pedir ajuda ou para admitir que eu precisava sair daquele buraco que parecia interminável.

 

Por mais que eu achasse que lidava, a verdade é que eu não lidava com nada. Eu nem sabia como lidar, mas nem isso me impediu também de me tornar “minha própria cura”. Intimamente, eu achava que pequenas atitudes me ajudavam, como escrever em um diário (e isso me ajudou/ainda ajuda só que deixou de ser o suficiente). Porém, algum efeito sabotador vinha em seguida para me mostrar que o ácido ia cada vez mais fundo. Aí as fases de inundação no meu próprio limbo ocorriam e eu tentava evitar meu naufrágio tapando os buracos com as mãos.

 

Eu fazia isso o tempo todo. Um serviço exaustivo, pois, como disse, parecia nunca ter fim.

 

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Entretempos. Tempo intermédio. Ou ínterim. Minha linha mental foi construída por intervalos. Como? Eu não sei. É assim que eu vejo a coisa toda, especialmente quando tento preencher algumas ausências – que surgiram pelo impacto dos traumas. Sempre houve o intervalo de transição, mas não necessariamente rumo a algo emocionalmente bom. Foi um processo de assimilações nunca desmembrado até eu começar a análise.

 

Eu acumulei muita coisa e nunca desmembrei cada item rumo à tradução do seu impacto nos meus entretempos. Por outro lado, eu sempre tentei entender. O que trazia (e ainda traz) o quadro de ruminação mental em que eu não alcançava nenhuma conclusão plausível.

 

Por ruminar o ruim por boa parte da minha vida, aproveitar coisas positivas no entretempo atual tem sido um desafio. O meu exercício diário é tentar retê-las, priorizá-las, a fim de tirar o poder das coisas negativas. O que é difícil, pois eu não me conhecia sem os fatos negativos. Nem muito menos tinha outra visão de mundo exterior a não ser aquele cinza com altas doses de pessimismo.

 

Muitos denominadores dos meus traumas conseguiram me controlar. Além disso, fortalecer a vozinha maligna que sempre aparecia (e segue aparecendo) para me dizer que sou um lixo. Uma vozinha que expressa uma ansiedade que eu não sabia que eu tinha. Uma descoberta que me deixou um tanto assustada. Mexeu no meu ego por achar que eu era autossuficiente para viver bem.

 

Depois de alguns meses de análise, minha mente entrou em parafuso na tentativa de sequenciar os entretempos. De lembrar de coisas legais, como os aniversários que eu já tive (e amém a fotografias). De analisar e perceber que muito dos meus comportamentos, especialmente os da fase adolescente, corresponderam/correspondem a algum trauma. De vez em quando isso é bom. De vez em quando isso é meio triste, pois me lembro do muito que perdi.

 

Como amizades. Eu não soube mantê-las e nem cultivá-las. E tudo bem. Até porque eu acho que isso é inerente da minha personalidade???? O que confronta o meu constante desapego??? Sei lá…

 

O que sei é que minha mente sempre foi meu campo minado. Principalmente quando duelo para não me deixar convencer de que sou um completo fracasso. Quando, de acordo com minha analista, é o pensamento ansioso que já prevê o que é ruim. Eu sempre empaco pensando no ruim quando só preciso agir. Ainda mais para barrar a ansiedade. Ação que nem sempre é fácil, pois eu ainda tenho o condicionamento de lidar depois.

 

Um lidar depois que vem como uma resposta automática. Que eu dava sem dar chance de compreensão. Que ainda dou quando tudo parece muito.

 

Não lidar trouxe os acúmulos. Criou-se uma concha de retalhos mental sem coerência e que moldou uma visão de mim pra lá de injusta.

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Ao longo dos entretempos, nada da minha parte foi dito. Eu nunca contei nada do que me ocorreu de traumático até 2015. O marco de um dos encontros do I AM THAT GIRL. Para minha mãe, a verdade veio só ano passado (e vai fazer um ano no dia 12 deste mês). Mas, enquanto esses ínterins de tempo não chegavam, fiquei calada. Minha mente seguiu com seu comportamento particular de dividir o ruim do bom e fazer a transferência. O ruim ia para o tártaro e inflava minha caixa de Pandora de experiências/traumas e afins. Parando além do limbo ao ponto de se tornar inacessível.

 

Por eu ter me tornado palco para o ruim, atitudes sabotadoras, pessimismo e ansiedade se manifestaram. De alguma forma, tudo isso é resposta da mente, do corpo e do emocional para dizer que há algo errado. E foi após os eventos de 2016 que vi que tinha atingido meu limite.

 

2017 foi o ano de novo recolhimento de cacos e eu estava exausta. Em todos os âmbitos. Porém, eu me vi disposta a tentar mais uma vez e acreditei que lidaria de boa com o que ocorrera um ano antes. Como sempre! Entretanto, dentro de mim mora aquela autodúvida que avisa que uma hora meus planos falharão e eu me vi sendo possuída pela sensação de vazio de novo. Depois da queda brusca, nada parecia ter muito sentido. Nada parecia encaixar como antes. Eu estava perdidinha.

 

Nisso, eu continuei espiralando. O ácido poderia ter entrado no modo voo, mas ainda me enrijecia internamente. Com mais pungência. Ainda assim, eu segui achando que tinha lidado com mais um ano ruim. Acreditei que o próximo ano seria exclusivamente de reconquista. Era só uma questão de “tomar vergonha na face” de novo e reagir. Além de deixar mais um passado ir.

 

Só que eu fui notando que não dava mais para segurar a “arrogância” de que eu conseguiria sozinha novamente. Era muito ruído. Muitos buracos. Mesmo que eu tomasse medidas, como escrever no diário, eu não sabia o que me levava a ir tão fundo. O que sabia é que eu não queria passar por isso de novo, pois 2016 me traumatizou demais. Justamente por ter exposto tudo de mim. Botado muito dos meus traumas e gatilhos em modo teste fulminante. Derrubando totalmente minha saúde mental.

 

Por causa disso e mais um pouco, o caminho em busca de terapia se abriu. Eu não aguentava mais viver assim.

 

Indo atrás de terapia

 

via Tumblr

 

Posso dizer que 2017 me moveu a pensar efetivamente sobre terapia, mas engatei a busca em janeiro de 2018. Eu simplesmente revirei a internet até encontrar a analista que tenho hoje.

 

Um processo que me empacou várias vezes, pois, como boa geminiana, eu queria tratar tudo de uma vez. Sem contar que encontrei profissionais que não consegui me relacionar. Só depois de muita tentativa/erro eu percebi que deveria ter um tipo de foco inicial. Para isso, eu rebobinei a fita rumo ao meu passado e encarei onde tudo se partiu. Foi aí que eu encontrei a minha analista, pois eu queria que fosse uma mulher. De quebra, ela calhou de ser parte de um coletivo feminista.

 

Na frente dela, eu enderecei o primeiro fato que impactou a minha vida (ao menos é o que parece) e que ainda me faz questionar várias vezes como eu consegui viver no depois. É surreal e, de vez em quando, rola aquele momento em que eu tento minimizar esse evento ao pensar que mulheres passam por algo pior. Um pensamento desonesto, pois impõe menos valor ao que me ocorreu.

 

Às vezes, me pergunto também se não foi bem isso que fiz sem notar. Diminuir tudo que rolou…

 

Dado esse pontapé, a análise se tornou também uma chance para eu trabalhar outros entretempos. Nunca pensei que tanta coisa se abriria para entender um evento e tem sido assim desde então.

 

1 ano e 3 meses se passaram e esse tratamento me deu uma palavra mágica: ressignificar. Hoje, eu digo que minha missão é ressignificar os entretempos ruins, ou seja, me separar dos ínterins negativos. Deixá-los ir para que eu me cure verdadeiramente. O que não tem sido fácil, pois eu não sabia o que era viver sem a carga pesada. Eu nunca soube (con)viver com o melhor de mim. Com o melhor do mundo em si.

 

Esse tem sido um exercício tremendo, pois eu sempre fugi. Às vezes, ainda fujo, o que é fácil. Na vida, eu me escondo dentro do quarto. No meu interior, minha mente imaginativa cria escapes. A própria Alice que não lida com a realidade, mas se enfia em cada túnel mental que meu Deus.

 

Acho que toda criança que cresceu basicamente sozinha tem dessas coisas… No meu caso, eu sinto que sempre foi mais intenso, porque eu não tinha com quem conversar a não ser com as paredes (leia-se: falar sozinha). Dizer que eu não tinha com quem conversar é mais sobre nunca ter sabido como endereçar os eventos em que tudo não passou de capítulos e mais capítulos de coisas ruins.

 

E não saber endereçar foi outro motivo que me fez ir atrás de terapia. Eu estava cansada de tentar adivinhar todos os meus problemas. Nem tudo o Google resolve. Nem o Pinterest.

 

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Para chegar até a analista que tenho hoje, algo em mim pediu uma decisão crucial entre:

 

1. O que tratar primeiro?

2. O que me “estragou” primeiro?

 

E, claro, pediu uma busca muito minuciosa.

 

Eu já estava com a analista de agora quando optei pela segunda opção, que se revelou muito influente conforme o entretempo dos 14 anos foi vasculhado. Foi quando eu me vi afrontada, pois o que eu achava que era não era bem assim. O que eu achava que tinha trazido o ponto X não necessariamente tinha uma causa exclusiva sobre Y.

 

Era tudo muito maior. Com impactos esparsos, não muito concentrados. Era um caos que, hoje, não sei como era “silencioso”. De um jeito que aparentava ser “normal” – e eu apenas me adaptei.

 

E não foi nada “silencioso”. A memória tem sua forma de reter outras informações.

 

O que eu achava que era caso isolado, como o transtorno alimentar, foi apenas um braço de um único evento. O principal evento que me moveu para uma sala de terapia. O pico da montanha que eu sempre vejo quando me encontro estacionada em intervalos. No limbo mental e emocional. A própria refém de lembranças que me agregam nada mais que angústia, ansiedade e medo.

 

Quando me sentei no sofá da analista pela primeira vez, eu toquei no pico da montanha. Acreditei que seria difícil, pois levei em conta a primeira experiência que tive com outra profissional (nesse mesmo ano) e não me senti segura em contar tal evento – e acabei pulando etapas. Mas foi por meio dessa primeira mulher que me dei conta do meu caos.

 

Mais de 10 anos de carreira em caos não tratado.

 

Mais de 10 anos de entretempos com um total de vários nada lidado.

 

Mais de 10 anos repletos de intervalos e de mergulhos no limbo.

 

O mais “engraçado” é que eu me esqueci totalmente dos meus relatos nos encontros do I AM THAT GIRL. Uma memória feliz, vejam bem…

 

Esses mais de 10 anos foram a primeira realização que eu tive sobre não ter lidado com nada do que me ocorreu e eu achava que sim. Afinal, minha vida correu no dito normalmente. Contudo, vários instantes, dos meus variados depois, ocorreram regados de outros naufrágios que eu pensei que nada tinham a ver um com o outro. O ferida central nunca foi uma comporta à parte do que eu considerava muito trivial, como relacionamentos amorosos. Foi quando a concha de retalhos mental começou a cobrar uma costura mais responsável. Depois de fazer isso com algumas partes, eu tive que ver além do avesso.

 

Ao longo dos entretempos, parecia que eu não precisava de nada. Ou que não sentia falta de algo. Eu acreditei que estava ilesa, porque eu “lidava por conta própria” e “encontrava soluções”. O que eu não via é que meu interior estava quase totalmente estragado e que meu sistema de contenção não aguentava mais trabalhar por conta. Era preciso um novo par de mãos para me ajudar a mudar a bússola de uma série de situações que, vira e mexe, se repetiam. E cada repetição era pior.

 

Com a analista que tenho hoje, eu consegui me abrir de primeira e chorei como não tinha chorado antes. Cada dia de análise tem me servido desde então para sair pouco a pouco da negação e do descuido pessoal. Não somente sobre o pico da montanha, como também sobre pautas menores. Exemplo: como é legal ser o Grinch da própria história. Aos poucos, eu testo a elasticidade do meu cérebro para tratar instantes e sintomas que nasceram e permaneceram graças ao somatório de material ruim.

 

Foi a partir desse reconhecimento de território que eu comecei a dar atenção à minha timeline de vida. Foi quando outros entretempos começaram a se abrir e assim comecei a cruzar o primeiro caminho para organizar minha concha de retalhos mental. Um exercício diário, pois me habituei à desordem. Uma desordem que me fez acreditar que eu não era funcional, porque esses eventos me “definiram”. Mudaram meu comportamento. Mudaram minhas relações. Mudaram como eu me via.

 

Hoje, eu posso colocar algumas sentenças no passado. Porém, tem muita coisa a ser trabalhada. Eu gosto de pensar que não estou mais míope como antes. Nem tão alienada dentro de mim mesma.

 

Há muito tempo, li que nosso cérebro tem esse mecanismo de defesa, o de suprimir, especialmente em caso de trauma. Ele varre as memórias ruins para nos proteger, mas elas podem retornar na presença de gatilhos. Não sei explicar exatamente como isso funciona/funcionou comigo, pois muitas das minhas lembranças ruins sempre me acompanharam. Fosse consciente ou inconscientemente.

 

Por isso, parece que nunca vivi sem essa bagagem. Uma bagagem sem muita precisão de rostos ou de detalhes. Bagagem que acabou sendo chamada de gaveta. Uma coleção de gavetas em que afundei tudo do meu mental e me livrei das chaves. E são essas chaves que eu tenho que buscar para acessar e ressignificar o mar de memórias que se atracou com o passar dos entretempos.

 

Retomar a narrativa

 

via Tumblr

 

É fácil lembrar das coisas ruins. É o que dizem. Há também como recordar das coisas boas, mas o que aconteceu comigo foi um distanciamento. Eu acho. Enfim. Meu ciclo de entretempos conta com várias freadas bruscas, que mudaram meu percurso sem garantir uma cena completa. As cenas que envolvem o depois. Principalmente os depois em que não passei por nenhum evento negativo.

 

Há ainda uma sensação de truncagem constante. Quando algumas lembranças vêm à tona, sempre me indago o ínterim de tempo. Eu não consigo dar-lhes um roteiro contínuo, mas sei que aconteceram. O que me faz grata pelas fotografias. Principalmente as antigonas que tinham datas.

 

O impacto do ruim dentro de mim jamais foi esquecido. Ou deixou de ser sentido. É palpável, pois essas memórias foram predominantes na minha construção. Mesmo que eu acredite que nada disso me definiu, de certo modo um pouco me definiu sim. Não sei o quanto e como. Porém, o que importa é que eu fui adiante. Sem nem ao menos saber de onde veio a força.

 

Nessas horas que digo que algo dentro de nós simplesmente resiste.

 

Por nunca ter tido um espelho para minhas emoções, tudo que me ocorrera de ruim criou essa sensação de que vivi em frames. Ou em atos. Eu sou um filme totalmente editado. Nem eu mesma sei por onde começaria, se pelo presente ou pelo passado em forma de flashback. Alguma parte de mim vetou as emoções boas. As experiências boas. Retroceder, por exemplo, para o colégio, me rendia desconforto. Não era uma nostalgia boa e, de vez em quando, me sinto assim.

 

Isso porque minhas experiências no colégio não foram ruins.

 

Todo o ciclo que se criou ao meu redor do ínterim entre infância e adolescência não me inspirou a contrabalancear o bom e o ruim. Não deu tempo de eu aprender esse equilíbrio. Ainda mais quando adolescentes focam no que está ruim com tamanha facilidade e eu fui assim. Eu foquei no ruim e me tornei meu próprio pulso de ferro. Eu sou capaz de me botar na superfície e de me afogar.

 

Demorou muito, por assim dizer, mas o fundo do poço de 2016 me ensinou demais. Principalmente a fazer o que eu não ousava por ver que era uma (dita) fraqueza: pedir ajuda. Como já contei por aqui, pedir ajuda não é fraqueza. É sinal de que você não desistiu ainda.

 

Eu percebi esses vácuos mentais nos meus entretempos durante a análise. A partir disso, outros se manifestaram. Minha analista ficou chocada com o tanto de coisa que vivenciei em curto espaço de tempo e do quanto é difícil me acessar, porque nem eu mesma tenho ideia de onde vem determinados bloqueios. Eu me vejo igualmente chocada em vários fins de sessão e é quando eu começo a refletir sobre como tudo isso me mudou. Como minha mente agiu para ser proteção e caos. Como o que vivia no meu interior automaticamente transformou meu exterior.

 

Eu nunca fui habituada a pensar positivo. Manter o positivo. E tem sido um exercício e tanto girar a chavinha. Nem sempre funciona, pois, uma vez ansiosa, minha mente conquista total domínio e escancara aspectos que eu realmente posso não precisar em determinado instante.

 

O que me faz voltar ao ritmo negativo. É aí que eu preciso lembrar de me reerguer e de me equilibrar.

 

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Apesar de me proteger, meu cérebro também concordou comigo ao achar que as coisas boas são dispensáveis. O que eu já lidava ocupava todos os espaços e não me lembrar que eu tive 3 bolos de aniversário em 2014 se tornou comum. Eu percebi isso, claro, ao longo do meu tratamento. Depois de ter cutucado o pico da montanha, eu me vi sem saber o que sentir adequadamente.

 

Durante esses meses, houve algumas resoluções que me fizeram ver as primeiras margens de libertação. É estranho sair da negação. Você percebe que algo não te pertence mais ao mesmo tempo que reluta para deixá-lo ir. Eu me vi com muito medo de começar a ser leve. De deixar pessoas e coisas boas entrarem. De viver no modo nave da Xuxa, porque tudo de ruim pode ocorrer.

 

E aí temos outra lição da análise que tem sido tão difícil quanto parar de pensar negativo.

 

A análise entrou na minha vida na hora certa. Meu ciclo 2018/2019 é extremamente abismante, porque as peças começaram efetivamente a se encaixar. A ter sentido. Eu senti muita dor física e emocional com os desdobramentos, mas eu fui ficando mais leve. Tem sido um desafio me deixar ser leve, porque nunca conheci leveza. Como viver no modo videoclipe de ME! da Taylor Swift.

 

Toda sessão eu sou inspirada a ressignificar e a escrever novos capítulos da minha história. Eu quero reconstruir minhas vivências e só poderei fazer isso efetivamente ao viver. E minha analista disse que seria uma boa ideia eu dividir minha experiência sobre isso já que nem tudo é good vibes.

 

Com tanto trauma e experiências desastrosas (algumas muito padronizadas), sempre reneguei as minhas sombras. Efeito que respingou em meu comportamento, rendendo rótulos nada fofos como ter o coração peludo. Eu nunca me aceitei vulnerável, porque eu me tornei maior que meu próprio espaço. Um espaço dentro de mim, porque eu quis controlar tudo que vivia lá.

 

Eu tinha que sempre ser forte, especialmente para evitar questionamentos. Ser o muro, a boa garota que tinha que compensar por ter dado trabalho na adolescência. Essas escolhas… De novo, eu me espremi tanto, mais tanto, que tem sido baby steps reabrir as asas depois de anos na gaiola.

 

Depois de anos sendo vetada de ver o outro lado graças ao muro que eu mesma pus diante de mim. Ao redor de mim. Dentro de mim. Tornando-me uma espécie falsamente inatingível.

 

O que aconteceu quando entrei na análise foi o começo da organização na minha desordem. Eu precisava de orientação na desorientação. Parece não haver muito sentido nisso, mas há sim. Eu fui uma desordem ambulante. Minha visão sempre foi programada pela minha desorientação com relação aos desdobramentos que acarretaram a desordem no meu existir. Com isso, eu repetia padrão. Eu me tratava da mesma forma injusta. Parecia nunca haver brecha para ser minha própria pessoa, pois eu, literalmente, vivi do avesso. E me mantive tempo demais do avesso.

 

Hoje, eu vejo como se reconciliar com você mesma é mais do que necessário para viver bem. Compreender que muito do que aconteceu não a define e que você é merecedora de coisas boas. Que você pode viver o seu melhor e criar vários depois.

 

Meu caminho rumo à análise se deu porque eu não aguentava mais carregar tudo sozinha e tentar adivinhar o que tinha de tão errado comigo. O mesmo para o looping que minha vida se tornou e eu nem sabia mais o motivo. Eu queria ser melhor para mim. Eu queria me descobrir para, finalmente, apenas ser.

 

Muito se diz sobre reencontro na análise e eu fui me encontrando. Basicamente, eu virei de frente para eu mesma visto que sempre andei de costas. Evitando meu reflexo. Evitando meu existir.

 

Apesar de tudo, esses entretempos são importantes porque me trouxeram até aqui. O que faltava era a mudança na direção e no ponto de vista. O que faltava era eu compreender que eu precisava retomar minha narrativa e assim vivê-la de um jeito melhor, mais positivo e mais saudável.

 

De um jeito que primaveras imperem um tantinho mais que os tempos tempestuosos.

 

Cutucar eventos e memórias tem sido meu caminho de orientação na desordem. Rumo a um sentido de ressignificância para ser mais gentil comigo mesma. Perdoar-me. Evoluir. Tirar de dentro de mim o que é ruim e exalar. Tomar meu poder que nunca soube qual era porque foi furtado muitíssimo cedo. Colocar um eixo nos entretempos e seguir ressignificando a jornada.

 

E tudo começa com o desejo de retomar a narrativa. Olhar para trás, não por cima do ombro. De frente. Encarar-se. Encarar o muro e golpeá-lo para vê-lo ceder um dia de cada vez. Dá medo? Sim, porque você nunca sabe o que pode encontrar. Você não sabe como lidará.

 

Você não sabe quem será depois que a poeira baixar. Nem muito menos como tal evento pode ser significado de outro ângulo. Mas acredito agora que a análise é um canal para acertar a bússola interior e assim começar a (re)construir a si mesma e seus arredores.

 

Imagem em destaque: Heidi Sandstrom (via Unsplash)

 

O Contra as Feras é um projeto do Hey, Random Girl! que tem apenas o intuito de gerar conversas/conscientização. Caso se identifique com alguma postagem mais direcionada/específica, por favor, busque ajuda especializada. Há atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS e no Centro de Valorização da Vida (CVV).  Algumas universidades também oferecem atendimento gratuito/com preço acessível (e o recomendado é ligar antes de ir até o local).

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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