31jan
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Without your past, you could never have arrived-
so wondrously and brutally,
By design or some violent, exquisite happenstance
…here.”

Trecho do poema Why She Disappeared de Taylor Swift.

 

Esse foi o trecho que escrevi na primeira página do meu diário correspondente a 2019. E, obviamente, eu não me lembrava disso. A lembrança veio quando eu reli esse mesmo diário para fazer uma retrospectiva a fim de capturar possíveis sincronicidades. Esse é um comportamento comum, pois, uma vez que eu libero um pensamento no papel ou na internet, ele magicamente desvanece. Daí, quando acesso de novo a informação, eu fico desacreditada com as intersecções.

 

E 2019 teve lá suas sincronicidades e intersecções. E tudo começou com esse trecho que destaquei.

 

Eu uso quotes como pontos de partida para cada ano. Eles simbolizam intenções que, no fim, tendem a corresponder ao que vivi. Muito do que se sinalizou em 2019 teve a ver com meu passado e eu só descobri isso quando reli meu diário. Eu vi que iniciei o exercício de deixá-lo ir. Eu vi que houve um trabalho para reconhecer e perceber que ele tinha que parar de me limitar. De ser ponte para alimentar meus traumas. Eu não cheguei aqui sem meu passado, mas ele não pode mais ser meu definidor. Conclusões depois de passar por um entretempo que ainda não entendi.

 

O início verdadeiro desse exercício de deixar o passado ir começou em 2018, mas eu não estava muito atenta. Eu ainda estava presa em várias nuances do que passou. Mas, quando escolho quotes, e intenções, eles também me servem como pontos de saída. Uma vez escritos, eles também saem do meu poder. Eles são esquecidos. Criam sua própria magia. Tomam o curso para me surpreender meses depois. Como? Bem, eu colocarei na conta do universo.

 

★ Natal 2019 ★

 

Eu aprendi a gostar mais de dias claros. Daquele jeito em que o céu é de brigadeiro e as nuvens são extremamente brancas, como se não existisse poluição no mundo. Foi a visão do meu dia seguinte após a véspera de Natal e que me trouxe uma nova onda de leveza. Pelo segundo ano consecutivo, eu me dei conta de que passei essa data ilesa de drama familiar. Sem nenhuma memória negativa e tóxica que serviria para “odiar essa época do ano”.

 

Isso ficou no passado.

 

Algo que realizei com mais força assim que eu preparei meu café da manhã. Nada chique. Somente café preto, um pão quente com requeijão e depois um mimo chamado de panetone de red velvet. Eu transitei para o quarto da minha mãe e abri a janela. E lá estava a visão que comentei no parágrafo acima. Acrescento a quantidade de vento que me deu asas para meditar um pouco. O sentimento livre de drama bateu mais forte. Tão quanto o retorno da vontade de escrever e foi assim que este texto nasceu. Eu queria botar algo para fora sem saber o que era.

 

2019 foi esquisito em vários aspectos. Nem um pouco coeso. Mas 2019 me deu a consciência dos escombros que me sufocavam e me anulavam. Ainda me sufocam e anulam em alguns aspectos, se querem saber. Mas eu encontrei a brecha. Comigo.

 

Preparei o salto para além dos escombros. Para além do penhasco. E isso é muita coisa.

 

 

Por algum motivo, meu cérebro é mais condicionado a lembrar dos anos em que coisas extremamente ruins aconteceram. Com ricos detalhes. Essa consciência de que tudo, em maioria, está aí para dar errado – e eu teria como provar por experiência. Nada justo com o tanto de coisa que já enfrentei. Ao longo do meu amadurecimento, eu vi que muito desses anos me serviu de muleta para simplesmente desistir de ir adiante. De realizar minhas vontades. Se deu errado em 2017, por quais motivos daria certo em 2019? Esse ponto de vista também cabe aos meus traumas. Se eu me tornei a pessoa X em função de Y, quais as chances de eu ser melhor?

 

Quais as chances eu teria de ter uma vida melhor com traumas tão… Limitantes?

 

Quais seriam as chances de me apaixonar de verdade quando eu acredito que já fui machucada o suficiente?

 

Enfim, muitos questionamentos que trocavam facilmente o céu de brigadeiro pelo céu cinza.

 

A claridade logo se tornava fúnebre.

 

Quase dois anos se passaram desde que comecei a análise e segue difícil cancelar o funeral. Segue preso em mim o condicionamento de comprimir e abraçar o péssimo. O único veneno que conheço e que não me dá nada além de paralisia em um limbo sem otimismo. Que me enfia no looping. Quando o efeito passa, eu não sei o que aconteceu.

 

Um comportamento que tem sua explicação e eu descobri isso em 2019. Agora eu sei mais ou menos a música que toca quando o funeral dá os primeiros indícios. Só que, para ter esse conhecimento, eu fui inserida em um looping muitíssimo conhecido. Mesmo cenário. Mesma música. De novo, eu tive que brigar para sair dele. Sem ter a menor ideia de onde estariam suas falhas. Como nas últimas vezes que me vi presa desse jeito. Foi desesperador.

 

Uma briga que largou a sensação de que eu parei no tempo em 2019. E, se não fosse pelos meus registros no diário, eu certamente não me recordaria de muita coisa que aconteceu. Coisas boas. E aconteceu muita coisa. Boa. Mas a sensação de nada ainda é relevante, pois parece que eu não aprendi nada. Que eu não evoluí. Que eu fiquei para trás.

 

Mas eu evoluí de outro jeito. Quase invisível.

 

De dentro pra fora. Tentando desconstruir várias verdades que o passado um dia me contou e reafirmou.

 

Há uma diferença quando você passa muito do seu ano com companhias. Provavelmente, você se lembra dos rolês, das risadas e dos papos. A coisa muda um pouco quando você passa a jornada dentro de você mesma. Na sua própria companhia na maior parte do tempo. Lutando contra você mesma. 2019 foi outro ano que vivi assim e não acredito que eu tenha lidado bem. Mas eu sobrevivi. Melhor que em 2016. Justamente pela autoconsciência que adquiri com o tempo e pelo poder das palavras da minha analista.

 

Palavras essas que demorei a ouvir. Compreender para aceitar. Aceitar para ressignificar. Ressignificar para abrir espaço para o novo. Ela seguiu dando vários previously sobre certos assuntos e eu os entendi tempos depois. Para isso, eu passei por muita ruminação e escrita. Daí, constatei o que fez meu 2019: reconhecer entraves e fantasmas para sair do looping. Premissas espalhadas em capítulos não endereçados da minha vida. Páginas que eu me refiz em cima, acreditando que era só deixar para lá. Bem, eu fui engolida pelas entrelinhas. Todas sem nexo de tantas informações que se repetiam. Criando um ciclo vicioso em que eu só me machucava, não tinha uma opinião e não me reconhecia.

 

Por anos, eu aceitei que o passado me definia. Uma aceitação que resultou no trope Groundhog Day. Quem o conhece, sabe que a única saída depende da pessoa visto que é necessário encontrar o que foge do padrão. Tudo acaba quando se encontra o que não orna com o ambiente em que se gera o looping e a pessoa sai dali com outra visão. Eu fui colocada nessa posição de novo (e de novo e de novo) e demorei a achar a saída. Meramente porque eu tinha muitas portas para visitar antes de sair. Algo que me dei conta somente em 2019.

 

Depois de reler meu diário, e de pensar muito, especialmente no feriado de Natal, eu concluí que 2019 também foi uma jornada para encontrar uma versão de mim que eu acredito que sempre existiu. Ela não estava atrás de uma das portas do meu prédio do passado. Ela estava embaixo dos escombros que se acumularam e viraram prisões ano a ano. Ela nunca teve a chance de se manifestar, pois as pedras a esmagaram antes que ela se pronunciasse e fizesse qualquer reivindicação.

 

Mas, talvez, ela me sinalizou para abrir as portas. Eu só poderia me fixar no presente se revisitasse o passado.

 

E, assim, encontrá-la. Muito embora eu a sentisse já em 2018. Nas entrelinhas.

 

Era fins de novembro de 2018 quando eu percebi que algo de errado não estava certo. Ou que algo certo estava errado. Eu não me sentia a mesma, porque eu abri a porta principal do meu prédio do passado. Eu cruzei essa porta e coloquei seu conteúdo para fora. Eu comecei a mudar, porque algo novo se abriu – algo sem significado visto que foram anos de alienação sobre o que me aconteceu e eu tive que passar pelas fases do luto. E eu vi a mudança externa. Os primeiros indícios do céu de brigadeiro – que coincidiram com as minhas férias.

 

Automaticamente, eu comecei a me distanciar de parte de um todo que achei que sempre serviria para mim. O que incluiu certos condicionamentos e eu quis lutar para manter o que foi condicionado. O controle. Autocontrole.

 

Foi como se eu não quisesse me libertar de parte do que passou. Era parte do meu escudo e eu o perdia. Eu me vi na briga de querer mantê-lo e, consequentemente, de segurar um tipo de controle. Por bons meses, eu pensei que seria impossível existir sem uma parte de mim mais leve. Sem o peso 1/de vários dos capítulos anteriores da minha vida. Eu espiralei diante da criação de um novo buraco que eu não sabia como preencher. Um buraco bom. Limpo. Mas, como contei lá em cima, eu tenho esse negócio de me ater ao ruim. Além de querer o controle. Depois de tanto tempo cultivando espinhos, cuidando como se fossem flores, um espaço vazio sem drama me incomodou.

 

Eu precisava de novos espinhos. Era o que uma versão de mim achava. Não habituada em viver sem rasteiras.

 

Ultrapassada a porta principal do meu prédio do passado, eu vi outras portas. Eu poderia ir embora, mas eu tinha tomado a iniciativa de resolver tudo. Eu estava exausta do funeral e, no fundo, eu queria mais céus de brigadeiro.

 

O processo estava só começando. Outro passo e 2019 me jogou em um looping conhecido.

 

 

Eu fui lançada no mesmo looping como uma pessoa já diferente para sair de lá mais diferente ainda.

 

Mas eu fui pelo caminho condicionado. Certas coisas são difíceis de mudar.

 

Eu comecei 2019 muito bem. Eu me sentia confiante. Parecia que eu tinha noção do que eu queria, de como faria e como conseguiria. Eu já me sentia diferente. Renovada e certeira. Meu caderno de ideias estava no auge. Eu planejei o retorno para o Hey, Random Girl!. Terminei o primeiro rascunho de um livro (mais conhecido como Alice). Até chegar junho e as coisas começarem a desmoronar. O mais bizarro é que não sei o motivo do desmoronamento. Uma hora eu estava com tudo em cima. Nas horas seguintes, o teto caiu e as infiltrações me inundaram sem dó.

 

E eu só tive os planetas retrógrados a quem culpar em minha insistente negação.

 

Eu desmontei parte do meu vision board. Jurei que não queria mais saber.

 

Da euforia, eu fui para a apatia. Recebi a notícia sobre o significado do funeral constante no meu cérebro e não fiquei chocada, porque sempre desconfiei. Escolhi não ceder, mas eu não tinha forças para me reorganizar.

 

Era julho. Desliguei o motor. Fiquei observando enquanto tentava encontrar soluções. Houve o banho de alienação. Vieram doses de desespero em instantes aleatórios. Eu estava ficando fora de mim, mas fingia que aguentava.

 

Veio atribulação entre silêncio e caos mental. Tive a ideia de segurar o fio para compreender onde doía e qual era o motivo. Escrevi. Toquei em pontos da infância. Da adolescência. Parte desse exercício foi ideia da minha analista. Por um tempo, nem ela conseguiu entender o que acontecia e eu continuei sem saber como explicar.

 

Eu fiquei parada no meio do corredor do meu prédio do passado. Eu não sabia que porta escolher para continuar me tratando e melhorando. Eu sempre retornava ao mesmo assunto. Então, eu acabei relando em praticamente todas. Assim, eu comecei a checar os problemas e ver outros problemas. Reli o diário de 2016 para ter certeza de que não repetia padrões em 2019 e foi uma experiência dolorosa. Tinha coisas que eu não me lembrava e fiquei mais triste. Mas eu levei para mim no intento de não passar pelo mesmo em fins de 2019. Bem… Eu resolvi só dormir em cima.

 

Mas deu tempo de ver elos tóxicos. Tanto com pessoas quanto comigo mesma. Notei como meus comportamentos reativos reverberam comportamentos da criança e da adolescente que eu fui. Eu vi fotos. Conversei sobre. Escrevi mais ainda. Eu capturei padrões de vitimização e como meu ego arde em determinadas circunstâncias.

 

O poder desse looping se apresentou no 2º semestre. Em algum momento, eu amoleci. Daquele jeito que finge não ligar. Já era outubro e não havia “mais nada que eu pudesse fazer”. Entretanto, outubro trouxe um novo despertar e eu vou culpar algum planeta que voltou ao normal. Outro efeito em cadeia se iniciou e eu não tive nem tempo de colocar o cinto de segurança. Muito do que projetei no começo do 1º semestre começou a “me atacar”. Não de um jeito ruim, pois parecia que eu recebia respostas do que eu tinha que parar de fazer. No caso, insistir no mesmo tipo de caminho para me garantir. Quando o mesmo caminho já estava obsoleto.

 

É quando concluo sobre o quanto 2019 não foi coeso. Pareceu uma sequência de flashbacks esquisitos. Rebobinando a vida antes da morte. Ok. Muito pessimista. Que tal rebobinando como um abajur que reflete algum desenho nas paredes? Melhor. Eu vi meu passado rodopiando nas paredes. Tive sonhos esquisitos. Senti-me assombrada. Quanto mais eu angustiava, mais eu permanecia do lado de dentro. A diferença é que algo continuou saindo.

 

O resto do veneno referente a porta aberta em 2018. Eu não tinha finalizado as fases do luto e achara que sim.

 

Essa realização veio em outubro. Sincronicidade, pois se trata do mês que eu entreguei um trauma para a resolução final, deixando-o na consciência de quem faltava. A porta principal aberta em 2018, que me entregou outras portas que escondiam as outras versões de mim. Sombreadas por névoas. Foi quando me dei conta de que eu ainda passava por um funeral em específico. Eu não sei expressar o luto, mas fiquei mastigando esse “aniversário”.

 

E daí eu me dei conta de que passei por vários funerais em 2019. Envolvendo as versões de mim que eu não sabia que estavam atrás das portas. E senti um luto pelos momentos que não vivi ou abri mão devido aos meus desdobramentos. Foi agridoce e, às vezes, ainda me pego assim. Triste pelas versões de mim que perderam passagens importantes de suas fases por aqui.

 

Concluí que, apesar do meu primeiro passo em 2018, a fim de adentrar no prédio do passado, eu ainda teria muito para resolver. Porém, eu não precisaria mais do looping para ter noção disso.

 

Para “receber uma lição”.

 

E assim encontrei um dos defeitos do looping… Eu não tinha a menor ideia do que viria depois.

 

 

Apesar de ter escolhido só observar, minha mente não parou. Uma prova de que eu ainda tinha interesse. Que eu não tinha jogado a toalha. Eu sumi de alguma forma, mas tal sumiço não significou que eu só fiquei contando escombros e rachaduras.

 

2019 também foi sobre redescobrir o que eu queria fazer de verdade. Como eu queria me assumir. Sendo que eu não precisava redescobrir nada, pois a verdade sempre esteve comigo. Mas o cinza soube muito bem desviar meus céus de brigadeiro. Eu entendo os motivos que envolvem controle e condicionamento. No entanto, eu vi em meio à névoa.

 

Resultado que me faz entrar na história que envolve uma personagem chamada Alice. Heroína do meu novo não tão novo projeto literário. Ela carrega um dos meus traumas e foi responsável pelo instante da minha epifania.

 

O looping não teve chance na epifania.

 

A epifania esmurrou o funeral.

 

Era o fim da fase de luto de um evento em específico.

 

 

Fazia tempo que eu não sabia qual era a sensação das coisas simplesmente darem certo. Às vezes, eu acho que nunca vivi essa sensação. Justamente por não deixar as coisas acontecerem naturalmente. Eu sempre tenho que intervir. Desviar do caminho. Controlar a jornada. Caí nas mesmas ciladas e loopings. E, de novo, eu precisava aprender uma lição e 2019 veio com o mesmo looping. Só havia uma opção: sair diferente. Como? Não sabia.

 

O que entrega o quanto eu vasculhei por saídas em 2019. Alguns fatores da posição de observadora de si mesma.

 

A sensação de novo alinhamento veio em novembro. Lentamente. Eu entrei no NaNoWriMo para terminar de reescrever a história da Alice que trabalho desde 2018 e dei de cara com outro fantasma: o da escrita. Obviamente que foi fácil questionar se eu ainda tinha habilidade de escrever qualquer tipo de coisa sendo que não exercitava o ofício desde 2016. O que se reflete neste site também, pois, de um segundo a outro, eu o deixei de lado. Não com o intento de fechá-lo, mas porque eu não sabia mais quem eu era e o que eu queria escrever de novo.

 

Eu estava confusa, mas só tinha uma certeza: terminar a reescrita do meu projeto literário antes de 2020. Experiência que levou o resto de mim tão quanto o resto de veneno referente ao que abri oficialmente em 2018.

 

25 dias intensos já que eu consegui fechar o arquivo em andamento antes do dia 30. Quando terminei, veio a mencionada epifania.

 

Em suma, eu expurgava o que ainda havia atrás de uma porta que eu abri em 2018 enquanto escrevia alucinadamente essa história. Mesmo que eu tivesse contado para quem precisava saber e contasse com apoio psicológico, eu não entrara na fase de aceitação. O veneno ainda circulava e causava as perguntas do tipo como “ser X se Y aconteceu?”. Eu estava enlutada após escancarar o primeiro fantasma.

 

Eu me dei conta disso quando escrevi e reli as últimas linhas que encerraram o rascunho da Alice. Eu chorei bastante e foi muito automático. Chorar limpa, como diz minha analista, e a limpeza se prolongou por alguns outros dias.

 

Algo no meu mundo se mexeu quando encerrei minha única meta de fins de 2019. Algo se manifestou. Naquelas linhas do rascunho, eu vi: eu nunca fui efetivamente a protagonista da minha história. Eu achava que era, mas havia outro personagem no comando. Por muitos anos.

 

O meu passado. Os fragmentos espinhosos e venenosos.

 

Cada capítulo manchado criou versões de mim que se criaram em cima de um sistema forte de controle (isso sendo resumida) e que eu achava que estava sob controle. Posicionamento que me inspirou a deixar o que passou pra lá. Mas os loopings continuaram tão quanto o mesmo tipo de funerais. Além disso, tais versões mantiveram o mesmo percurso para me proteger e eu fui desviada de quem estava embaixo dos escombros. Uma versão que, hoje, eu enxergo como meu verdadeiro eu. Um verdadeiro eu que precisa de uma mãozinha. E que quer o fim do funeral.

 

Mas, antes, eu tive que quebrar de novo para encontrar a clareza. Chorar limpa. Hoje, eu entendo que 2019 foi feito para destruir padrões e sistemas em função do que eu comecei a tratar em 2018. Foi um ciclo completo de início de tratamento, de tirar o esparadrapo da ferida, deixar ruir, ser jogada na repetição e sair com outro fôlego.

 

Desorientação é o que veio depois para mim. Eu tinha eliminado um dos pesos da minha bagagem e eu teria que seguir sem ele. Depois de tantos anos tendo-o esmagando meu espírito. Como se faz isso?

 

Eu ainda tenho muito escombro para tirar e muita infiltração para dar conta. Além do veneno, claro. O que sei é que muito teve que partir. Para isso, eu tive que checar as minhas versões. De verdade. Sim, o passado me construiu, mas em várias camadas. Não me fazendo consciente de quem eu sou, do que quero ser, para onde eu quero ir. O passado foi o funeral insistente que não me deixou ver meus céus de brigadeiro.

 

Além de ter me impedido de acessar a parte de mim que me fez resistir todos esses anos.

 

É bizarro acreditar que um processo de escrita pode te dar isso, mas é possível. Escrever tem seus efeitos curativos. Além de dar realizações que você não vê quando suas questões são condicionadas e viciadas. A Alice é uma personagem que me deu todos os trabalhos possíveis, mas, de tanto escrever, e de tentar entender o que aconteceu, ela foi o processo que eu precisava para expurgar e encerrar. Para eu sair de dentro de mim e realizar o que faltava.

 

Sair dos escombros que, de certo modo, me ajudaram a resistir.

 

Não havia mais looping.

 

A música do funeral deu uma folga.

 

★ Ano Novo ★

 

The trick to holding on was all that letting go.

Trecho do poema The Trick to Holding On de Taylor Swift.

 

Esse trecho parou na minha Bio do Twitter depois de uma crise em que eu quis deletar minha conta. Acho que era agosto e não me lembro como cheguei ao poema, mas o texto me encontrou. Eu já o tinha lido antes, mas ele me tocou de uma forma diferente. Parecia uma súplica interior, pois, no processo, pensei que, de algum jeito, o letting go tinha que acontecer. Só não sabia como. Ainda mais quando eu estava preocupadíssima com outras coisas.

 

Foi a última intenção, se não estou enganada, e essa frase encerrou meu diário de 2019. Eu me dei conta de que, no mesmo looping, eu comecei o processo do letting go. Fazendo-me concluir que essas repetições sempre foram sobre aprender a deixar ir. Como disse, eu trajava meu passado como uma segunda pele.

 

E esse deixar ir também incluiu muitas versões de mim. Algo que eu só notei depois de reler meu diário.

 

Meu 2019 também foi sobre rever a relação que eu tenho comigo mesma. Sobre como eu deixo que as coisas se repitam e me façam mal. E excluir definitivamente o que existia na minha lixeira pessoal. De alguma maneira, o letting go aconteceu. Um movimento dentro do meu núcleo do passado. E daí veio uma nova sensação de leveza.

 

De possibilidades.

 

2019 me fez perceber especialmente que o positivo precisa ser exercitado. Mesmo que meus quotes e intenções ganhem mágica própria. Eu preciso exercitar constantemente o alinhamento disso dentro do meu cérebro viciado em funerais. Meu cérebro não está acostumado com objetivos grandes. Nem com uma pessoa mais positiva e confiante. Nem com avanços legais. Mas, junto com corpo, coração e espírito, meu cérebro sentiu o impacto sobre a impossibilidade de continuar sendo negativo. O sistema precisava ser reformatado.

 

Ele não gostou muito, mas ele que lute.

 

Dentre as versões de mim que eu tive que começar a despachar, estava a que sempre duvidava de mim. A faceta tóxica. Aquela que coloca contradição nos sonhos, ideias e etc.. Sempre com um desdenhoso tudo bem você querer isso, mas você sabe que não conseguirá, né? E você desistirá na menor chance, né? Essa versão tinha que vazar urgentemente, pois me deixava pior que café amargo.

 

E acredito que muito dessa realização não seria possível sem apoio psicológico durante esse looping. Ainda mais quando uma das heranças do passado é a soma da voz de autodúvida e autossabotagem que não se dissolve de uma hora para a outra. Isso ainda existe. Quer me pegar. Quer tomar o controle para que eu não saia da sua lupa. Eliminar é trabalho constante e é difícil. Principalmente para uma pessoa que sempre parou ao ouvir essa vozinha insuportável.

 

E aí vinha outro funeral.

 

 

Algo maior sabia que eu precisava passar por esse looping de novo e, com sorte, sair melhor. No fundo, eu acredito que nunca saí desse looping. Se eu tivesse saído, nada disso teria se repetido. E se repetiu outras vezes. Apenas mudando o cenário.

 

Ao contrário de 2016, eu tive um melhor suporte, mas não quer dizer que não houveram quedas bruscas. E eu já comentei essa parte. Eu nunca pensei tanto em desistir como em 2019. E 2019 teve uma carga pesadíssima quando conversamos sobre ter otimismo. Esse mérito eu dou para a nossa política que vai nublando a perspectiva do futuro.

 

Outro funeral.

 

Nesse looping não tão novo, a não ser alguns personagens da trama que me apoiaram e me escutaram, eu comecei a entender que eu precisava abandonar o que eu achava que já sabia e o que eu ainda achava que precisava para existir. Foi dolorido, mas necessário. E continuará sendo, pois eu ainda tenho muitos capítulos que precisam de um tipo de limpeza e resolução. Eu dei um passo enorme rumo a minha melhoria e, hoje, eu vejo alguns resultados primordiais.

 

Minha analista disse que o que aconteceu já aconteceu e que agora é seguir adiante. Isso quando falei sobre jornalismo e esse comentário coube em várias outras camadas da minha vida. Eu sempre voltava a fim de explicar que sou X devido ao evento Y, por exemplo. Isso tinha que parar. Na penúltima sessão do ano, salvo engano, eu contei sobre o fim da reescrita e como isso me impactou. E ela reafirmou o que eu vocalizei: eu também mereço ser feliz em um mundo livre do peso do meu passado. Assim como minha personagem, a Alice, eu posso conquistar um mundo melhor. Para isso, eu tenho que deixar ir o que não me agrega mais.

 

E aí vamos dos quotes que eu sempre escolho no começo de um ano. Que se transformam automaticamente em intenções. Em 2019, um deles dizia: o que não me agrega, não me pertence. Estava pregado no meu vision board (que eu reorganizei depois de tê-lo desfalcado). E aconteceu, porque eu entendi.

 

A expurgação não aconteceu somente a base da escrita. Eu tive muitas conversas, além das quinzenais com a analista, que colocaram uma luzinha de cada vez na minha mente. Intentando tirar os fantasmas de foco. Cada troca começou a me direcionar ao que eu tentei acertar durante o ano todo: meu caminho seguinte. Um caminho que só estava camuflado em névoas densas, pois sempre esteve lá. Me esperando.

 

Quando eu passei pela epifania da finalização da história da Alice, eu soube o que eu queria a partir dali. Eu vi.

 

Mas luzes oscilam.

 

Se há uma coisa que você aprende durante a análise é se ouvir. E, ao escrever, se ler. Você passa a prestar atenção no que você diz/escreve até mesmo sobre você mesma e isso é valioso. Eu disse coisas horríveis sobre mim. A conversa tóxica. Daí vem o famoso elaborar, ou seja, voltar à fita e tentar mudar o toque do padrão na sua vida. Houve muitos momentos que eu desacreditei das coisas que eu disse sobre mim. Eu consegui ser minha “mãe tóxica”.

 

E daí vem a minha convicção de que o ano passado foi o Lado B de um disco que precisava parar de tocar. Meu próximo disquinho tem que ritmar meu novo normal. Um novo normal que pertence a uma nova pessoa que eu ainda não conheço. A pessoa que estava embaixo dos escombros e que segue tirando o grosso da poeira.

 

Para continuar, o processo de letting go tem que existir. Principalmente para eu me encaixar. De novo. Depende de mim agora. De uma pessoa que precisa aprender a confiar em si mesma. A se amar muito. A acreditar no trajeto e nas pessoas. Depende de mim relembrar que eu não sou X por causa do evento Y e que evento Y não me limita. É momento de se descobrir e começar a se expandir.

 

E não significa que não tem mais o que excluir futuramente.

 

Ainda há outras portas. E outros funerais, como Emily Dickinson bem diria.

 

★ O dia seguinte ★

 

É. Eu não teria chegado até aqui sem o meu passado. Mas eu fiz escolhas.

 

Como me cuidar mentalmente.

 

Ainda assim, eu precisava compreender o maravilhosamente, o brutalmente, o design requintado e alguns acontecimentos violentos do meu passado – mencionados no poema da Taylor que abre este post. Só assim para sair dos escombros, começar a trocar as bagagens das versões anteriores e acrescentar elementos novos. Elementos que nunca experimentamos. Que nunca escrevemos. Que nunca vimos.

 

Como o valor de um céu de brigadeiro.

 

No dia 1 de 2020, eu vi um novo céu de brigadeiro que sorriu para mim. Eu estava bem. Eu tinha um pouco mais de noção de como preencher o vazio que ficou depois de expurgado um tipo de veneno. A confusão, que me acompanhou nas semanas finais de 2019, soa agora como um resultado próximo ao de 2018: eu sou essa nova pessoa e não sei muito bem o que fazer. Então, eu decidi caminhar. Pelo caminho além do penhasco, dos escombros, que me unirá ao resto e me fará descobrir uma nova vida. Do meu jeito. Com a minha voz.

 

E meus disquinhos.

 

Focalizando o outro poema da Taylor, meu truque para aguentar firme foi desaparecer dentro de mim mesma. Deixar partir tudo que precisava partir naquele entretempo. Por algum motivo, eu me achei depois da bagunça.

 

É. Eu nunca teria chegado aqui sem meu passado. Não pelos fatos ruins, mas pelas minhas escolhas. As minhas escolhas me definiram. Muito do que aconteceu comigo me aprisionou e eu tenho quebrado amarras desde 2018. Tentando largar o que nunca foi meu.

 

Todas as definições sobre mim foram atualizadas.

 

★ Epílogo ★

And if you drive the roads of this town
Ones you’ve gone down so many times before
Flashback to all the times
Life nearly ran you off the road
But tonight your hand is steady
Suddenly you’ll know
The trick to holding on
Was all that letting go

Trecho do poema The Trick to Holding On de Taylor Swift.

 

Tomando meu café e observando o céu de brigadeiro, respingado com nuvens branquíssimas, no feriado de Natal, eu percebi que todos esses meses foram de nova retomada. De quebrar o looping. De descobrir a fonte de alguns funerais.

 

Eu tive experiências incríveis em 2019 e o marco vai para as mencionadas conversas. Eu me comuniquei, não necessariamente neste site, mas com pessoas reais. Pessoas reais que me ajudaram a me ouvir enquanto falava. Foi assim que comecei a realinhar coisas das quais eu também imaginei que seriam impossíveis.

 

É a graciosidade de encontrar a falha de um constante looping. De desligar o abajur dos fantasmas. De se esforçar para ter mais céus de brigadeiro.

 

De reconhecer que você é sua salvação.

 

Mas não se enganem. Os funerais acontecerão. Os dias cinza, como na natureza, e será preciso brigar um pouco mais pelo céu de brigadeiro.

 

Mesmo quando parecer impossível.

 

É irônico lembrar que no primeiro post deste site, publicado no retorno pós-faxina em 2019, eu comentei que precisaria saber quem era essa pessoa nova para continuar gerando conteúdo. De fato, eu não sabia já naquela época e, por isso, esta casinha ficou desatualizada. Já em 2018, eu me sentia desconfortável. Perdida. Sem palavras. Eu precisava de um tempo antes de retornar. Eu só não esperava que 2019 exigiria uma nova parada.

 

E, agora, eu tenho que acreditar que eu cheguei onde era para eu ter chegado desde o começo da minha existência.

 

Antes dos funerais acontecerem.

 

No fim, eu não precisava ser minha melhor versão. Ela já existia. Ela só esperava ser vista.

 

 

★ Então 2020… ★

 

O que eu fiz em 2019? Não sei. E sei também. Eu me conheci mais. Não foi fácil. Foi como me incendiar várias vezes. Nada novo, mas rendeu o que tinha que render. Mas não sem um novo incêndio. Sem o caos. Jamais imaginaria que eu seria a pessoa que sou hoje. A começar pelo cabelo, pois entrei a década detestando-o. Reconfiguração para atender um padrão.

 

Outra reconfiguração para retomar partes de mim. Retomei muitas partes. Dispensei outras. Descobri outras que nunca me foram apresentadas. Quebras de silêncio. Confissões. Expurgação. Entender o que não me pertence. Manter o que é meu. Ver a clareza do percurso depois das cinzas. Ver-se de verdade no nu e no cru. Autocombustão. Cinzas. Renascimento. Florescimento. Mudanças. Compreender que eu mudei. Aceitar que eu mudei. Ter um novo normal.

 

  1. Olá. Quem é você? Não sei, mas vamos descobrir juntas.

 

Leituras Extras: 

Jessica Jones: o eco de alguns traumas

Capítulo 1: O passado como caminho de ancoragem no presente

 

Imagem destaque: Alessandro Cavestro (via Unsplash).

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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