20abr
Arquivado em: Parágrafos

Ela respirou fundo. Sugando o ar pela boca. Prendeu-o. Contou até 7. Liberou-o.

 

Sentiu seu coração pulsar gradativamente. Sua mente se desanuviar. Seu corpo reagir.

 

Não tinha afogado, mas era como se tivesse.

 

Foram muitos anos sendo afundada até conseguir encontrar uma brecha para emergir.

 

Era no mínimo duvidoso que aquilo estivesse acontecendo. Afinal, ela deixara de ser uma peça importante na sua própria narrativa. Ela ia e voltava. Ficava por um tempo quando tudo parecia bem. Depois sumia entre funerais.

 

Um filme passou em sua mente. Sobre outras vidas.

 

Vivera submersa em meio a elas.

 

(…)

 

Algo novo acontecia diante de seus olhos. Havia um céu de brigadeiro vigiando-a intensamente.

 

Claridade. Algo que há muito não via.

 

Um mundo desconhecido.

 

Era como se tivesse capotado por engano. Ou escorraçada de algum lugar por não ser mais bem-vinda.

 

Estava sozinha.

 

O que aconteceria agora?

 

Sumiria de novo?

 

Estabelecer-se-ia?

 

Não era mais necessária?

 

Silêncio.

 

Descrédito.

(…)

 

Levantou-se e olhou ao redor. Não havia nada além de um mar de distanciamento do ponto que evidentemente saltara para estar do outro lado. Oceânica era o que era. Cheia de oscilações. Agitações. Com diferentes picos da maré. Querendo se expandir. Desbravar. Se esparramar. Nunca consciente de onde exatamente deveria se ancorar.

 

Um gosto de nostalgia veio.

 

Tão quanto o gosto do luto.

 

Era uma mistura amarga.

 

Aparentemente, infiltrações do passado ainda marcavam sua pele.

 

Não dava para emergir totalmente intocada.

 

(…)

 

Ela notou a bagagem aos seus pés.

 

Abriu-a.

 

Não havia nada.

 

Como se encaixaria em um mundo que não fazia a menor ideia de como funcionava?

 

(…)

 

O outro lado. Um caminho que ela reconheceu assim que olhou para trás a fim de ter certeza de que não havia nada que pudesse colocar dentro da bagagem. Avistou a risca entre nuvens, como se um avião tivesse passado.

 

Ela tinha passado. Saltado, no caso.

 

Aproximou-se e olhou para baixo. Era impressionante não ter submergido de novo. Era o que acontecia toda vez que tentava emergir entre as outras vidas. Deveria ter lutado. Escalado.

 

Mas não havia tais lembranças.

 

Parecia que magicamente transitara de um ponto a outro.

 

(…)

 

Havia outras impressões. Como para que soubesse a quem representava.

 

Um mapa de cicatrizes.

 

Um mapa para um depois que não tinha a menor ideia de onde começar.

 

(…)

Intimamente, ela sabia que era… Nova.

 

O que parecia compensar o sucesso do salto.

 

Finalmente saltara e alcançara o outro lado.

 

Seus sentidos estavam em todos os lugares.

 

Desprendera-se, mas não se sentia menos esquisita. Ou mais segura.

 

Era uma versão rasa, mas não oca. O tempo submersa lhe dera material suficiente sobre o que não fazer.

 

No caso, retornar ao caminho antigo.

 

Ser como várias de suas outras vidas.

(…)

 

Era um novo normal. O seu… Normal.

 

Saltara.

 

Teria sido um momento de rebeldia?

 

Ou teria sido a hora certa?

 

Ela não tinha a menor ideia do que viria depois…

 

(…)

 

… mas nunca se esquecera da sua função.

 

O que parecia ter mudado é que, finalmente, conquistara espaço para exercê-la. Estava, aparentemente, no comando. Mesmo que ainda sentisse oscilações na maré, a pungência das infiltrações e carregasse o mapa de cicatrizes.

 

Poderia seguir, mas não poderia esquecer.

 

E, não esquecendo, saberia qual seria a melhor maneira de se fazer presente.

 

Quem sabe, mudar sua história.

 

(…)

 

Ela não tinha pressa.

 

Ainda mais quando se viu meio que esperando alguém ou algo buscá-la e colocá-la em seu dito devido lugar. Alguns hábitos demoram a morrer, mas ela se deu ao direito de fazer o que nunca fizera: apreciar a vista.

 

Os sons ao redor eram rítmicos, como seu coração.

 

O céu de brigadeiro iluminava sua mente, algo que nunca experienciara antes.

 

O movimento do ar era pacífico, como seu espírito.

 

O Sol queimava em sua pele.

 

Estava viva.

 

Sobrevivera.

 

Era uma sobrevivente de si mesma e de toda a violência que sofrera.

 

(…)

 

Ela era a vida original. Silenciada por outras mãos antes que pudesse emergir. Testemunha de um mundo sob o filtro que impedia seus olhos de queimarem diante de um eclipse. E, naquele mar de infiltrações, de oscilações e de cicatrizes aprendera a ser o sistema que resistia. A sua função básica que impulsionou o salto que faltava.

 

Aquele mundo era seu. Desde o começo.

 

Ela era a responsável em nortear suas outras vidas.

 

(…)

 

A parte que resistiu o tempo inteiro sempre pediu uma coisa:

 

Ancore-se em mim. E tudo ficará bem.
Eu sou sua bússola no meio do caos.
O primeiro pensamento, não o segundo.
Eu sou você antes de tudo começar a ruir.
Eu sou o motivo de você ter sobrevivido. 

 

Ela preencheria a bagagem com coisas jamais vistas e pessoas jamais conhecidas para mostrar que a narrativa poderia ser diferente. Ela cuidaria das cicatrizes. Ela endereçaria as infiltrações. Ela permitiria as oscilações.

 

Bastava começar a caminhar para longe do típico caos.

(…)

 

Ela seria a dona da narrativa.
Mente no universo.
Coração na mão.
Pés rumo a uma jornada somente dela.
Existiria em um mundo sem o livro das regras e das feridas do passado.
Fluidez e amor – novas bússolas para escrever uma nova história.

Tags: , .
Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
Você pode gostar de ler também Deixe seu comentário
Siga @HeyrandonGirl no Instagram e não perca as novidades