15maio
Arquivado em: Antídotos

Não é dia de #TBT, mas eu quis transferir este post dedicado ao I AM THAT GIRL para esta casinha (já que o conteúdo foi escrito para o falecido Contra as Feras e eu continuarei passando os posts de lá a limpo). A narrativa é bastante breve do que parecia ser uma cilada pessoal e que, hoje, eu reconheço como uma das melhores experiências da minha vida. Daquele tipo que me ajudou a amadurecer tão quanto ver o quão longe eu posso voar!

 

Este é um texto de recordação visto que meu papel como Chapter Leader se encerrou em 2018.

 

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Minha jornada com o I AM THAT GIRL começou em dezembro de 2014. Eu estava em uma época que queria muito me envolver com alguma ONG e, graças ao talento chamado Sophia Bush, me deparei com esse movimento.

 

Foram dias pensando se deveria ou não escrever um e-mail questionando sobre as chances de escrever para o blog. Ganhei um baita presente de Natal ao receber uma confirmação positiva, pois, por ser um movimento estadunidense, as chances do meu envolvimento pareciam diminutas. Porém, as portas se abriram com uma facilidade que até hoje não acredito. E, a partir disso, eu me joguei no que seria uma jornada de 3 anos.

 

Estreei no site em janeiro de 2015, mas ainda me pareceu insuficiente. Essa sensação aumentou quando eu cobicei o formulário para ser líder de um Capítulo Local e eu achei uma grande bobagem. O famoso fogo de palha gerado pelo meu alto nível de empolgação de já fazer parte de uma ideia tão legal. Só que a vontade criou raízes em meu âmago.

 

Estava ali uma coisa que eu queria muito e nem sabia os motivos. Só parecia certo, embora eu sentisse medo de não dar conta. Afinal, uma vez atuando como Chapter Leader, eu ganhava responsabilidades. Como organizar encontros mensais e, depois, conversar em inglês com a minha Point Person (a responsável pelo meu capítulo).

 

Eu nunca me envolvi com nada parecido em toda a minha vida.

 

Sempre quando tinha chance, eu abria e fechava a página do formulário até que decidi cortar caminho. Fui conversar com uma das líderes, a Isa linda de Porto Alegre, e ela me deu mais confiança em investir nessa vontade. Ela, inclusive, minguou a impressão que eu tinha sobre ser inviável assumir tal papel por morar no Brasil (e vamos de ideia persistente mais uma vez). Algo que rolou com a primeira ONG internacional que ofereci meu coração e o partiram em mil pedacinhos (mas continuo fã!).

 

Independentemente do meu esclarecimento sobre o IATG e de ver vídeos das líderes já existentes (na época existiam dois Capítulos no BR), eu continuei paquerando o formulário. Obviamente que mensurei a impossibilidade de eu ser líder de alguma coisa visto que minha única experiência nesse quesito foi uma catástrofe. Sem contar que eu me preocupei com a questão de reunir mulheres mensalmente, um ponto que pesou muito mais em comparação a deixar meus dados naquelas lacunas vazias. Mas, de uma hora para a outra, simplesmente fiz. Mero impulso.

 

Não é à toa que mandei a inscrição duas vezes. Uma acidentalmente, porque eu queria ter a sensação de preenchê-lo. E esse acidente impulsionou meu ato de preencher o mesmo formulário em seguida para “corrigir o erro”.

 

Estava feito e com gosto de mico.

 

Da série de coisas que era para ser.

 

A trajetória em poucas linhas

 

Era 14 de março de 2020 quando eu me vi pensando na trajetória que eu fiz com o IATG. Data que o Capítulo de São Paulo foi fundado (e, coincidentemente, foi o último dia que vivi o mundo externo antes da pandemia). Nem sequer lembrava deste post, que me impediu de apagar a seguinte passagem, um tantinho agridoce, sobre essa data (eu tive que adaptar um pouco do texto original para o presente já que ele foi escrito em 25/10/2017):

 

Eu estava pronta para fazer aquele textão bonito, que sempre faço para as meninas e para mim como lembrete, mas emperrei. Não consegui fazer isso. Primeiro porque falhei no ano passado, independentemente dos meus motivos particulares. Segundo porque esse é outro ponto da minha vida que está em revisão. Sei que não abrirei mão, mas cheguei a pensar se seria capaz de ir um pouco mais adiante. Ser líder não gera entraves na minha vida, nem muito menos dá a sensação de obrigação. Porém, as coisas ruins foram tão pesadas no ano passado que cheguei a pensar que não havia mais propósito.

Sendo que sempre há um propósito. Mesmo se ele perder um pouco a força.

 

O ano ruim era 2016, mas eu não desisti dos encontros mensais. E assim foi até fins de 2017.

 

Os encontros mensais do IATG eram uma das melhores coisas que me acontecia. O tanto que descobri sobre mim no processo me renderia vários posts. Mas o maior desafio de todos foi me abrir com várias mulheres incríveis porque eu tinha medo de mulheres, especialmente das incríveis. Eu tinha a completa certeza de que essa empreitada não duraria seis meses pela minha inabilidade de empoderar e de esbanjar sororidade por aí. Duas palavrinhas que nem conhecia tão quanto feminismo. Ao menos, não com a propriedade (mesmo que rasa) para me deixar segura de falar sobre.

 

Além de não dominar o que citei acima, houve um pensamento que me emperrou várias vezes: meninas acarretaram caos na minha adolescência. E eu acarretei o caos na adolescência delas. Elas me colocaram para baixo e vice-versa. Mais tarde, mulheres se usaram de seus postos de poder para me minimizar.

 

Resumo da obra: eu achava os homens mais confiáveis (laudo: otária sim!).

 

No início, eu me senti uma fraude. Eu queria ser líder, mas do quê? Para quem? A cilada se manifestava.

 

Quando no fim nem era cilada. Eu ganhei uma colagem de memórias que projeta avanços dos quais eu jamais esperei para mim. Ou sequer almejei. O IATG veio para revelar uma parte de mim que eu desconhecia. Para eu me reaproximar das mulheres. Me perdoasse e perdoasse aquelas que me machucaram. E botasse para fora venenos dos quais eu não entendia muito bem, mas que, mais adiante, me inspirariam a buscar terapia.

 

Todo domingo era a minha missa e dá saudade dos cafés da tarde.

 

Eu poderia destrinchar outros resultados, mas eu não posso falar pelas mulheres que participaram dessa jornada. Ao menos para mim, me pareceu muito bom. A energia era excelente e o feedback me dava mais força para continuar.

 

Mas, falando por mim, o IATG me deu a mão para assumir uma pessoa que sempre existiu: a parte que sempre lutou por mim; que resistiu para me reerguer entre espinhos, infiltrações e venenos pungentes do passado.

 

Uma parte mais caleidoscópica que me mostrou que era possível ser melhor que os tornados virulentos.

 

O movimento me impulsionou rumo a um discernimento que, provavelmente, eu não teria acesso se não preenchesse o formulário. Até porque eu cresci em um lar alienado. De maneira que eu não sabia o que era um assédio sexual, por exemplo, e eu passei anos da minha vida sem saber o que era (e eu estive em trabalhos que rolava abuso psicológico e isso para mim era absolutamente normal). Eu vivi episódios de violência sem nome e o IATG me deu o esclarecimento. Eu aprendi a correr atrás dessas informações e de seus prejuízos na minha vida.

 

Sem o grupo, eu provavelmente não conheceria o feminismo um pouco na prática e não me veria interessada em outras pautas (como saúde mental e corpo). Poucas coisas mudaram minha vida para o bem e o IATG é uma delas. E, em tempos como hoje, repleto de nostalgia, o espaço de fala e de escuta que nasceu faz muita falta.

 

O IATG se encaixou na minha vida em uma época que eu não sabia mais o que eu queria. Algo que suprisse a sensação de que eu era um zero à esquerda (fato reforçado pela verdade de que, na época, eu estava desempregada).

 

E, quando eu botei na mesa tudo que se construiu naqueles entretempos, só me resta orgulho. Eu realmente desacreditei que eu consegui manter um Capítulo por muito tempo. Justamente porque, antes de sequer tentar, eu já coloco um pensamento sabotador na frente: eu não vou adiante mesmo. Muitas vezes eu pensei em desistir, mas eu mantive tudo funcionando até perceber que era hora de encerrar essa história.

 

Falar como antídoto

 

Sou internalizadora nata de emoções e os encontros exerceram o milagre: me fizeram falar. A melhor parte de tudo!

 

Com o IATG, eu descobri o quanto o espaço de fala e de escuta é importante. Um que seja confiável, claro, livre de julgamentos. Que te permita falar sobre seus problemas, traumas, medos. Que você possa transbordar e contar com um colete salva-vidas em seguida. Um espaço para dividir o peso dos fardos com cumplicidade.

 

Acima de tudo: confiança. Tanto na minha voz quanto para desabafar sem a paranoia que eu seria exposta ou que passariam meus erros antigos embaixo do meu nariz. Eu sou muito difícil de ceder confiança e de confiar (em mim mesma também), mas o IATG representou duas mãos invisíveis totalmente inspiradoras.

 

Aprendi que empoderamento pode ocorrer de maneiras sutis. Como compartilhar um projeto da amiga, elogiar, ouvir e dar uma enaltecida. O mesmo vale para sororidade que pode não se aplicar em todas as situações, mas é possível pincelar a vida de outra mulher com essa troca. É uma palavrinha que mostra que não estamos sozinhas.

 

Ter feito parte dessa comunidade abriu muito mais a minha mente sobre esses e outros pontos. Seja do presente e do passado. Além disso, me fez ver que certos voos simplesmente não são programados.

 

Tudo a seu tempo.

 

Hoje, eu percebo que, apesar de ter falhado várias vezes (eu não me aguento em ser um bebê chorão tem horas), eu sou grata por ter contado com esse sistema de suporte. Sinto orgulho de ter preenchido o formulário, porque eu encontrei o que eu ansiava: uma causa maior do que eu e em pró de algo que fizesse meu coração cantar.

 

Sou grata por ter buscado a diferença que minha alma ansiava – mesmo sem saber o caminho. Sempre me imaginei como voluntária em algum hospital (ainda não descarto isso), mas encontrei em um movimento o aprendizado que, com certeza, contornaria e nem seria propositalmente. Considerando que demora muito para eu me dar uma chance, bem… Isso me faz reforçar o pensamento de que era para ser e eu acredito que… Isso mesmo: nada é por acaso.

 

Ter feito parte do I AM THAT GIRL foi uma vitória pessoal, pois se tratou do maior salto da minha zona de conforto. Ao menos, até a publicação deste texto. Como disse, foi uma jornada que eu pensei que não duraria mais de 6 meses, mas cada encontro motivava o alongamento da sua duração. Cada encontro era um novo despertar, além de vários coletes salva-vidas que me botaram de novo na superfície (eu sei ser minha própria vilã tem horas, viu?).

 

Foi como dar um unlock no coração.

 

Ser líder de um Capítulo Local do IATG entra para a minha pilha de coisas não planejadas e que estranhamente deram certo. E, sério, eu fiquei bem contente quando me vi tomando essa iniciativa. Era algo para mim, por mim, e mal podia esperar para compartilhar tamanha novidade para quem quer que fosse.

 

O Capítulo existiu até o 1º semestre de 2018, mas seu fim oficial aconteceu em 2019. Mensagem encaminhada em março. Não na mesma data do lançamento. Aconteceu tão naturalmente quanto seu nascimento.

 

Tem horas que a gente sabe quando é o fim e eu parti desse sentimento. Hoje, eu não tenho mais informações sobre o I AM THAT GIRL. A não ser que os Capítulos se tornaram Squads e se envolve quem tiver interesse.

 

Eu quero acreditar que transferirei as postagens antigas que ficaram no Contra as Feras – o meu diário de bordo sobre o IATG. Por enquanto, eu encerro aqui o episódio de recordar é viver. Deixando meu eterno agradecimento a quem tornou essa jornada possível e inesquecível! ❤

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Stefs Lima
Jornalista, fundadora do Contra as Feras e ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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