27abr
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Acho sempre bizarro quando algum filme ou livro estala na minha mente em determinados momentos. Este foi o caso de A Vida em Preto e Branco (Pleasantville em inglês), um longa que fez parte da minha adolescência e que retornou para a minha vida adulta em um domingo chato, em que estava viajando na maionese e, como sempre, procurando a solução dos meus problemas.

 

A primeira vez que o conferi foi na amada década de 90, em VHS, e lembro que fiquei apaixonada pelo preto e branco que no fim se torna colorido. Lembro-me também que estava em uma fase “quero ver tudo da Reese Witherspoon” graças ao filme Segundas Intenções – que assisti mais vezes que Titanic, certeza. Como fazia um tempão que não o via, foi um tremendo choque recordar da trama e da moral que têm tudo a ver com os dias atuais. É fato que A Vida em Preto e Branco sempre pertenceu à lista de filmes que mudaram minha vida e amei revisitá-lo.

 

A Vida em Preto e Branco é estrelado por Tobey Maguire também, que vive David, um jovem viciado em um programa de televisão chamado Pleasantville. Ele seria o dono do fandom por manjar todos os plots, todos os personagens e todos os momentos minuciosos que só quem é viciado lembraria. O adolescente não cansa de ver e rever a série porque é sua válvula de escape e há o desejo nítido de querer viver naquele lugar que não é afligido por catástrofes naturais e nem sociais. Lá, todo mundo se dá bem, o amor é lindo, tem empatia e só pureza. Trata-se de um paraíso televisivo que respira a ordem, que nada remete ao inferno da vida real.

 

Quem nunca quis fazer parte da sua série favorita, não é? David consegue, em dia de maratona de Pleasantville. A troca do real para o fictício acontece em mais uma briga com Jennifer, a irmã vivida pela linda da Reese, que quer a sala para ela. Em um puxa e repuxa, ambos acabam tragados por meio de um controle remoto para o programa que roda em 1958. Ok, se não fosse pelo fato de que passam a ver a vida incolor com o espírito de adolescentes cheio de hormônios e sentimentos dos anos 90.

 

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Sugados para a TV, ambos ocupam o lugar dos filhos perfeitos da série, Bud e Mary Sue. A princípio, não sabemos o objetivo desse evento que tem sim um intermediador: um senhor que fez a troca do controle tradicional para um especial a fim de teletransportá-los. Um ser incógnito que aparece em alguns instantes cruciais e que deixa no ar os motivos de fazer David e Jennifer experimentarem esse mundo perfeitinho chamado Pleasantville (que rima com agradável/prazerosa). É fato que precisam aprender algo, mas o quê? Enquanto a resposta não vem, os irmãos fazem cosplay dos dois personagens e se encaixam na storyline do programa.

 

As pessoas (personagens) que vivem em Pleasantville não são corrompidas. Ninguém ali tem maldade no coração e todo mundo é igual. As coisas ficam ainda mais inusitadas quando percebemos que não há desejos sexuais e nem contato com nada que aflore e/ou aprofunde o conhecimento. Na verdade, é um falso paraíso e é Jennifer quem dá o pontapé para os primeiros estragos, pois, nos anos 90, ela é a menina popular irrequieta, preocupada com a aparência e desesperada em conquistar o bonitão da escola.

 

O conflito essencial do filme, e que vai contra os comportamentos de Jennifer, é que em Pleasantville as pessoas são conformadas, passivas e alienadas. Nesse estado letárgico não há consequências. Por não haver consequências, não há caos. Sem caos, há perfeição. David tem completa consciência disso por ser fã do programa e tenta manter a irmã sob controle para não descaracterizar a história. Contudo, ela não se contenta em apenas viver como Mary Sue até o irmão encontrar uma solução para tirá-los daquele universo.

 

Jennifer se torna foco de problema por ser charmosa, empoderada e indesculpável, características que fortalecem sua decisão em ter o que deseja. Sem contar que em um mundo perfeito não há muito que fazer, detalhe que não apetece a adolescente que gosta da ação. Ela não esconde suas atitudes que não são cabíveis nessa cidade não apenas por ser anos 50, mas porque em Pleasantville há a preservação da pureza que não passa de alicerce para manter a segurança. Ou seja, a ordem. Ao contrário do mundo real, lugar aonde o caos nos fortalece como nos enfraquece, nos evolui como nos bota em retrocesso.

 

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Assim, o primeiro passo dela é brincar com a pureza de Skip (Paul Walker <3), o rapaz que é apaixonado por Mary Sue, e tudo termina em sexo. Um instante que parece banal, afinal, quem é que não faz sexo, certo? Lá em Pleasantville não há nada disso, nunca ouviram falar, e quando o ato é consumado uma flor colorida desabrocha na escuridão. O primeiro sinal de corrupção de caráter, pois o que Jennifer provoca não deixa de ser rebelde e nada condizente com as regras daquele lugar.

 

Ao saber disso, David fica louco da vida, pois, por amar tanto aquele programa, ele sabe o que pode ou não ser feito. Ele quer respeitar o plot enquanto Jennifer dá os plot twist.

 

O pequeno instante de prazer abre margem para a desconstrução daquele mundinho preto e branco, e o filme mostra isso em pequenos detalhes. Uma cena ótima é a famosa do time de basquete, outrora perfeito, que deixou de ser excelente e sincronizado por conta da nova experiência de Skip. Experiência que não é segredada e que torna Jennifer influente na escola porque há curiosidade e todos os adolescentes querem saná-la. Com isso, inicia-se uma sequência de atitudes que dissolvem a essência incolor que recebe pinceladas de várias cores.

 

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O sexo é a ponta do iceberg, pois há a lanchonete que é outro farol do roteiro para mostrar o quanto Pleasantville começa a perder a sua moralidade. Esse local abriga as cenas mais marcantes do filme, tais como David impulsionando o dono a ser mais independente para não só assumir o próprio negócio (como abri-lo e fechá-lo), como também seu gosto pela arte e o que sente por Betty, a mãe de Bud/David. Esse é o point dos jovens que logo se torna abrigo de heresias.

 

Outro ponto forte de A Vida em Preto e Branco é mostrar que a sabedoria também é um meio de corrupção de caráter, pois a leitura tira as pessoas da alienação. Com a mudança na rotina, os livros começam a ganhar palavras, já que antes continham páginas em branco. Além da perda da pureza, há a perda da ignorância que, claro, afeta também a ordem de Pleasantville.

 

Com um misto disso e de outros fatores, Pleasantville deixa de ser um lugar prazeroso para ser nocivo como o mundo real. O plano de contingência? Isolar quem é colorido da sociedade, ideia ministrada por quem ainda está em preto e branco, o tom tradicional, o tom correto. As cores é o meio do filme mostrar que algo se perdeu por causa das experiências que David e Jennifer trouxeram dos anos 90 e o mais interessante é que os personagens em cores ainda não compreendem a maldade que começa a rebater contra eles. Porém, nada impede que o ciclo de desconstrução prossiga. Quanto mais repreendidos, mais a curiosidade os consome.

 

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Esse mundo doce se torna amargo, principalmente para as mulheres que saem do posto de submissas para terem acesso à informação e para explorarem a própria sexualidade. Na vida em preto e branco, elas continuariam apagadas e alienadas, mais que os homens (claro!) cujo único “problema” deles é não ter o jantar pronto e ser casado para dormir em cama de solteiro. Mas há uma semelhança de ambos os lados: ninguém questiona porque Pleasantville é daquele jeito intocável, em que a única ação do dia é quando os bombeiros são chamados para tirar gatos que se entremeiam nas árvores.

 

Em Pleasantville não há erros, só acertos. Todo mundo ali pensa, age e vive igual. Não há desconfiança, mentiras, traição, morte e nem catástrofes naturais porque ali tudo se preserva a base do caráter. Se não há tentações, a paz reina. Todo mundo é feliz e vive na mesma empatia. Só não há emoção e desafio. É, sem dúvidas, um lugar perfeito para se desejar viver, mas a graça vem de David ao perceber, frame por frame, que não é bem assim. Sua vida real pode ter vários problemas, mas nunca haverá uma vida perfeita. Vidas perfeitas não elevam o ser humano, mas o deixa empacado, talvez, para sempre. O mundo em preto e branco é uma fantasia, um lugar que não existe.

 

A partir do momento que Jennifer dá o primeiro passo, tudo se transforma. A quebra da inocência que o filme transpõe é o que o torna tão rico e tão cativante, tanto no roteiro quanto na fotografia, em que as cores se destacam em meio ao estupor da descoberta. É um longa tão mágico e tão cheio de significado que me pergunto porque fiquei tanto tempo sem revisitá-lo. É tão real que me atrevo a dizer que sua história não passa de uma premonição do que vivemos agora. Mesmo produzido em 1998, há uma verossimilhança berrante com o 2016 que ainda prega o preconceito.

 

A Vida em Preto e Branco traz em seu cerne a transição do conformismo para o inconformismo. Da troca do certo e confortável para lidar com as consequências dos nossos atos. Algo que esse mundinho da ficção não oportunizava aos seus personagens que nunca souberam a diferença do bom e do ruim, da vontade e da consumação dessa vontade, do conhecimento e como ele molda os nossos arredores. David e Jennifer vêm com uma bagagem que não pertence unicamente à década, mas a uma vida modelo que se torna mais colorida quando é humanizada. Do sexo até uma simples chuva, os personagens de 1958 são lançados em um novo mundo e as cores simbolizam emancipação. O irônico é que os irmãos demoram para ganhar cor, sacada que segura o interesse até o final do filme porque queremos saber a ponte de corrupção deles.

 

Toby e Reese estão maravilhosos nesse filme, transmitem a cumplicidade dos seus personagens e emocionam em vários momentos. Ambos são agentes de uma mudança ao tirar um mundinho da ignorância. Quer missão mais linda que essa?

 

E nada mais propício que encerrar o filme com Across The Universe dos Beatles, que diz que nada mudará o meu mundo. No fim, alguma coisa muda e é preciso lidar e prosseguir, sempre se mantendo fiel aos seus sentimentos, às suas crenças e aos seus valores.

 

O preconceito não tão surreal

 

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Ser colorido vem com consequências e é quando o filme transmite sua mensagem: em um mundo preto e branco, a vida é completamente sem graça. É utópica a ideia de que devemos pensar igualzinho, nos vestirmos como uma embalagem e nos privar de sentimentos para evitar conflitos. Cada ser humano é único e Pleasantville ressalta essas diferenças de um jeito inocente para dar impacto quando os famosos membros do círculo tradicional (que ainda estão tingidos de preto e branco) começam a se rebelar na tentativa de banir quem é diferente.

 

As pessoas coloridas são excluídas da sociedade e passam a viver dentro de regras que não os beneficiam. Os livros são queimados. A estradinha em que os casais namoram é fechada. Guarda-chuvas são proibidos porque em Pleasantville não tem essa de reações da natureza (sim, gente, lá nem chove). Até a música é proibida e todos têm que ouvir algo erudito (para resgatar a pureza). Os que são preto e branco isolam o grupo de coloridos por não saberem o que acontece também. Porém, a atitude de bani-los do social sinaliza que o diferente não merece espaço, respeito e nem direitos.

 

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Vale mencionar de novo o quanto a troca de cor impacta o lado feminino do filme. É sutil, mas consternador. As ações do mundo real dentro do fictício afetam, principalmente, Betty. No início, a vemos andar na rua sem ser abordada, mas só foi se tornar uma pessoa colorida para ser rodeada por caras que a provocam e a humilham. Ela representa as mulheres a cores que se tornam alvos por serem vistas como donas de uma péssima reputação e isso dá direito de atacá-las. Não é à toa que, tão real quanto os dias de hoje, quem quer restabelecer a ordem são os maridos revoltados com o descaso das esposas que deixaram de ser sufocadas pelo patriarcado camuflado em Pleasantville.

 

Quando o mundo preto e branco racha, a intolerância ganha espaço. Uma vez saído da ignorância, o mundo vira um caos. O quanto isso seria realmente ruim? Falamos todos os dias que o mundo seria melhor sem isso ou aquilo, mas a queda da ordem não é necessária para nos tornarmos seres humanos melhores? Sim, queremos mundo sem guerras, mundo sem catástrofes, mas cada evento vem com um aprendizado. Se o mundo que vivemos não nos dá desafios, quem seremos?

 

Pleasantville ensina que o mundo preto e branco não espera nada de você. Não há expectativa. Ele quer que você se mantenha do jeito que é e firme na zona de conforto. Sem cor, sem vida, sem prazer, sem conhecimento. O universo incolor é bizarramente uma propaganda, vendendo comportamentos e atitudes agradáveis e toleráveis. O grande conflito da trama é aceitar o formigamento no peito codinome curiosidade e seguir pelo caminho que você acha que deve ir.

 

Pleasantville não quer que você seja você mesmo

 

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O filme é uma propaganda de margarina antes de ficar colorido, já que em Pleasantville gestos e diálogos são automáticos. Nada da história dos personagens é aprofundada e não há conflitos para enriquecê-la. É uma série feliz, mas sem vida. Quando há a quebra de comportamentos, essa ficção dentro de outra ficção se torna interessante porque aquele universo se altera drasticamente e se revela cruel por não aceitar o diferente. Quando o bicho pega, esse universo quer que você sinta vergonha de ser colorido. Um escândalo que se assemelha à realidade quando nos aceitamos do jeito que somos – o que não deixa de ser uma ameaça e uma afronta.

 

Este filme tem muito de libertação, pois, uma vez que você se aceita, você é livre. Você passa a viver com sentimentos reais, conflitos reais e ao redor dos mais variados tipos de pessoas. Você se abre para o novo. Você se dá uma chance de experimentar e de enfrentar as consequências. Um combo que nos empurra pra frente enquanto a sociedade preta e branca quer nos manter lá atrás. Quando você abraça o que há dentro de você, seu mundo muda. E Pleasantville não quer que nada mude tal como a sociedade que vivemos que até deixa ser quem somos, mas não de X jeito.

 

Sempre acho engraçado quando retorno para alguma coisa que vi ou li no passado e fico surpresa como se encaixa na realidade da qual vivo. Quando revi A Vida em Preto e Branco, percebi que há muitos formigamentos dentro de mim e não sei necessariamente no que dar voz. Há muito dentro de mim, mas não sei o que me tornaria uma pessoa completamente colorida. O filme força essa reflexão e me fez relembrar que já tenho partes de mim cheias de cor. E isso é maravilhoso.

 

Não há nada melhor que cruzar algumas linhas tênues e abraçar tudo que representamos. É um conflito permanente, com descobertas e decepções eternas, um trabalho em constante progresso. O que importa é lutar para se manter colorido. O que importa é a emancipação de uma sociedade que ainda julga, critica e isola. Que não respeita o próximo.

 

A Vida em Preto e Branco é um dos melhores filmes que vi na minha adolescência e repito o mesmo agora. A mensagem dele é incrível, bem como as experiências de David e de Jennifer que acabam por se autodescobrirem em 1958. Às vezes, não precisamos escapar da nossa realidade e desejar pertencer ao nosso programa de televisão, filme ou livro favorito. Apenas, precisamos nos voltar para dentro, lugar em que podemos tirar o que há de bom para mudarmos a nossa realidade. David era o que mais precisava disso e é fato que quando se viaja para dentro de si, o retorno nunca terá o mesmo impacto. Porque o ponto de vista é outro.

 

Imaginar como é viver em tal propaganda/série/livro/filme é muito bom, pois precisamos de válvulas de escape para preservamos quem somos e, talvez, para sobrevivermos. Porém, o filme mostra que tapamos muita coisa para não enfrentarmos o problema e seguirmos em frente. Gary Ross (que vocês devem conhecer por ter dirigido Jogos Vorazes) escreveu e dirigiu uma história que se relaciona com qualquer pessoa e em qualquer época. Todo mundo já sentiu vergonha de si mesmo e tentou esconder aquilo que lhe torna formidável (aka diferente). A quebra do mundo preto e branco traz várias nuances sobre o que aflige muitos de nós e isso contribui para o longa ser apaixonante.

 

Vão assistir, por favor! ❤

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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