18maio
Arquivado em: Prismas

Em outubro de 2018, me matriculei em um curso de Jornalismo de Moda para Revistas, Sites e Mídias. A necessidade dessa experiência veio do desejo pequenino de me atualizar sobre o mercado jornalístico. Além disso, do peso revista, um tipo de envolvimento que não tinha há muitos anos. Estava nervosa para começar, claro, porque eu nunca exerci minha profissão. Ainda assim, não hesitei da decisão que rendeu uma das melhores experiências do ano passado.

 

Antes de efetivar a matrícula, eu paquerava a desilusão profissional. De novo. Há outros poréns também, como descobrir nos últimos dois anos sobre o que gosto de escrever e como verdadeiramente vejo o processo de escrita.

 

De novo, eu me vi nesse frame de insatisfação profissional e eu não queria mais sentir isso (e persisto em não querer, porque não é muito sadio). Chegou uma hora que eu notei que precisava urgentemente de algo diferente, que me animasse, e buscar um curso foi a ideia primordial para sair dessa zona de ruminação. Não me lembro exatamente como cheguei no de jornalismo de moda para revistas, mas sei que eu estava muito obcecada em reviver esse mundo.

 

E lá fui eu.

 

Mas, antes, preciso (re)introduzir outra história.

 

O retorno nada combinado

 

Capas Vogue

Exposição Irving Penn (Foto: Arquivo Pessoal/2018)

 

Terminei os anos universitários convicta de que eu não queria ser jornalista. Jamais! Chega! Eu queimei essa minha formação de dentro para fora, me eximindo desse período por motivos que se acumularam em 4 anos. Rádio. TV. Profissões que diziam ser o ponto de partida de sucesso e que eu não me via de jeito algum. A ideia de ter que falar no microfone me deixava apavorada. Editar programa de rádio nunca me soou divertido. Nem aquelas dezenas de laudas e laudas.

 

Para vocês terem ideia: não há sombra minha em vídeo ou em voz da época da faculdade.

 

E, se teve, foi feito escondido certamente. Eu me recusava a fazer esses trabalhos.

 

Eu sempre curti impresso. Mais precisamente, revistas. Amor que sempre esteve embaixo do meu nariz e que se manifestou ao longo da faculdade. Houve um projeto que fiz por conta (enquanto o grupo tomava conta de Rádio e TV, o meu esquema de troca) e me deliciei. O nome era Fifteen, como se eu já conhecesse Taylor Swift, mas foi uma inspiração vinda da Capricho.

 

Meu primeiro estágio foi na On Line Editora. Amei? Muito. Mesmo com o episódio da editora má. Mesmo com a sensação de deslocamento, pois parecia que todo mundo manjava pacas. Até hoje eu murmuro um sinto muito, porque eu queria ficar mais tempo naquele lugar que era lindo e que tinha sim muitas outras pessoas legais (apesar do distanciamento por revista). Pois é. Não deu. E nunca mais foi.

 

Depois disso, nunca mais ouvi falar de jornalismo de revista. E nem do próprio jornalismo.

 

Jornalista hoje vira redator publicitário, por exemplo. Não sei se isso é bom, pois depende muito da pessoa. Eu diria que é bem ruim e essa é uma opinião fincada em fins do ano passado. Ela trouxe a realização que eu não tinha antes: eu nunca exerci minha profissão depois de formada.

 

Eu me formei e saltei para o universo das agências. Um universo que nunca me atraiu 100%. Porém, foi o único que se abriu e lá fiquei. Aprendi coisas legais, que remeteram ao tempo em que me agarrei ao jornalismo online. De certa forma, eu também estava em casa, mas, ao longo dos anos, nasceu o buraco. Um buraco que vinha da falta que eu sentia do jornalismo de revista.

 

Desde então, nunca fiz nada puramente jornalístico. Eu sou mais redatora que jornalista. Detalhe que não resmungo, pois, de certo modo, está tudo ali. Envolvendo a escrita como ofício.

 

Mas a questão do cliente… Gente, sério! É muito desesperador!

 

Aí vocês imaginam a introvertida que só quer paz!!!

 

E a ansiosa também!!!

 

Voltei a pensar sobre jornalismo durante esse curso livre (que pareceu uma extensão) de jornalismo de moda para revistas. Após o primeiro dia de aula, me perguntei se me envolveria totalmente ou se faria o mínimo como na faculdade. Aguardei os sentimentos de apatia e de antipatia. De resistência e desistência. O instante de pedir o reembolso. Nuances muito familiares. Afinal, eu vivi essa mesma treta por 4 anos da minha vida e que, claramente, não foram resolvidos. E me dei conta disso quando retornei ao dito cujo chamado jornalismo. O capítulo que coloquei uma pedra em cima. Sem realmente analisar as possibilidades dessa formação atuar a meu favor.

 

E assim segui como se nada fosse comigo. Até a hora do acerto de contas. Ou quase…

 

Retornar ao jornalismo por meio de revistas me pareceu correto. Eu gosto de textos longos. De deadlines longos. De calma no processo. Por isso que criar um blog foi uma necessidade que eu não sabia que tinha (até o professor de rádio me chutar pelas canelas) também e aqui temos o Hey, Random Girl!. O que dá em dois tipos de veículos que combinam com a minha introversão. Há tempo de até buscar fontes – que não diminui o nervosismo quando rola o temido “posso te ligar?”.

 

Mesmo que eu não me visse (e, às vezes, sigo não me vendo) e não atuasse como jornalista, entendi ao menos minha escrita. Tudo por meio deste site visto que textos publicitários/blog de clientes não são jornalísticos. Eles são assertivos, sem fontes, curtos, visam reputação e posicionamento. Por ter começado e me mantido na parte de agências, eu me afastei demais da minha formação.

 

Principalmente em tipo de texto. A parte que tremi durante o curso de jornalismo de moda. Texto jornalístico informativo, voltar ao lead, inserir fontes… Eu me esqueci de como fazer isso.

 

Porém, eu não me esqueci sobre o quanto achava boring esse papo de quem, o quê e etc.. O lead me causa inquietude. E eu poderia dizer que ele tira a naturalidade do texto, mas é errado. Afinal, tal artifício é usado mais em textos tipo os da Folha que sobrevivem de pautas quentes. Aqueles que precisam de um primeiro parágrafo sem enrolação. Algo que não ocorre muito com revista que permite uma teatralização.

 

E, claro, isso depende do veículo.

 

Embora o curso tenha sido focado em comunicação para moda, eu tive que me lembrar várias vezes de que estava ali pelo fator revista. Eu não domino o mundo fashion, embora eu curta o assunto desde que me entendo por gente. Contudo, me falta a expertise. Pano longo o suficiente para engatilhar o complexo de inferioridade. Fato que rolou, mas por poucos segundos. Veículos de moda conversam sobre inúmeras pautas e eu mesma me joguei na editoria de comportamento. Impasse resolvido assim que a revista tomou forma. Um revés de tantos outros que conto no próximo tópico.

 

Daí vocês devem se perguntar por quais motivos eu escolhi esse curso. Ainda mais depois de várias revistas terem sido encerradas nos últimos dois anos. Bem, eu sou fã das ditas causas falidas. Hoje, eu noto melhor que gosto de fazer o que está contra a maré e não sei como isso pode me ajudar. Nem é malice, mas também não sei o que é. Mas, com o passar dos anos, eu vi que muita coisa não era minha praia e que pagar um curso qualquer não me traria satisfação pessoal.

 

Exemplo: marketing. Eu gosto de algumas partes e vocês sabem qual: de texto. Acho incrível a estratégia também, mas nunca tive a chance de participar dessa parte (ou porque tinha equipe fechada ou nem tinha isso na firma).

 

Dependendo de onde você está, é requerido esses cursos de atualização. Eu fiz isso e curti o processo. Justamente porque as escolhas foram embasadas no meu engajamento pessoal. O que pode não ser tudo e aí vem o dilema que reside no fato de que você não se identifica com sua escolha e sabe que gastará à toa.

 

Eu mesma e resolvi não fazer mais isso também. A não ser que seja muito necessário.

 

Por isso eu acabo escolhendo uns cursos bem X. E eu tento não cair na neura de que eu poderia investir milhões em SEO, por exemplo. Eu fiz isso uma vez, no intento de mudar de área dentro de uma agência, mas rendeu um sucesso semelhante a vários nada. Daí veio outra transição para um job totalmente diferente do anterior e foi por causa desse que me senti extremamente estagnada. Não havia blog, nem SEO e nem Analytics. Só cliente reescrevendo meu texto.

 

Ou mandando o texto pronto para ser revisado.

 

Mano, agora eu entendo o que é cobrar 4 anos de estudos para se sentir um nada.

 

E eu já me sentia um nada. 2018 só agravou o que eu já percebia.

 

Eu jamais esperei, depois de 6 anos de formação, um retorno para a sala de jornalismo. Mesmo com medos e receios, eu tive que tomar vários momentos para crer se tudo era real. A partir do momento que marquei o desafio de me envolver no curso, todo sábado ganhou um mantra diferente. Por medo até que eu comecei a me sentir à vontade.

 

E os créditos disso se devem a professora que eu tive. Ela me fez sentir como se eu retornasse ao meu habitat natural. Todo dia foi como se eu estivesse colocando uma matéria perdida em dia. Nisso, me reencontrando.

 

Quebrou-se o padrão do mínimo

 

Dona Dela - Instagram Feed

Feed no Instagram da revista que chamamos de Dona Dela Mag.

 

Apesar dessa experiência ter se tornado mágica, eu demorei um bocado para me matricular. Reflexos dos dias de um jornalismo esquecido. Como boa filha de série policial, investiguei. Agradeci pelo Instagram da professora ser desbloqueado, porque ganhei uma ideia do esperado – e a ideia era montar uma revista. A princípio isso não me intimidou. Mas… Uma semana antes veio o desejo de pedir reembolso.

 

Perguntei-me o que diabos fazia sendo que me afastei totalmente do jornalismo. Sendo que eu poderia gastar com curso de marketing (??). De quebra, havia o fator moda e eu nem sabia quem eram as top 10 mais influentes do BR nessa área (sigo não sabendo). Por mais que o jornalismo + revista fossem meu foco, nada negava que eu seria um grande peixe fora d’água. Impressão que mudou ao longo das aulas, pois, ao contrário do esperado, eu me senti confiante e inspirada.

 

Ainda assim, eu me vi perto de esmorecer. Por mais que eu tenha forte comigo essa de seja quem você é, a autodúvida sempre encontra brecha para dar rasteira. Por eu pensar que estaria na FAAP, logo imaginei que teria que me montar para sinalizar que eu manjava de alguma coisa. Tipo de neura da adolescência/fase quase adulta, e briguei comigo mesma. Eu não me prestaria a esse papel. Especialmente porque, na mesma época, eu super me envolvi em mudar meu guarda-roupa, então, eu já tinha uma linguagem. Desliguei-me disso, mas, uma vez na sala, eu quis sair correndo.

 

A ideia de me apresentar e tudo mais. De ouvir que alguém ali deveria ter 40 anos de carreira em jornalismo e em moda. Veio aquela sensação de Memórias da Faculdade – A Vingança e meu auge foi comentar que, além de jornalista (única jornalista da sala além da professora), eu era a “doida da astrologia”. Não muito diferente de quando eu fui a “doida do Harry Potter” na faculdade.

 

O que foi ótimo de dizer, porque logo consegui me misturar. E meu grande receio era não conseguir me misturar, especialmente por ter sido uma das mais velhas da classe. Sempre a tia da turma!

 

E nem era essa a questão central. Na época da faculdade, eu me senti muito sozinha. Isso me inspirava a faltar tão quanto a lógica de não ir se a única colega que eu tinha não fosse.

 

Muito memórias do se a amiga vai de bermuda eu também vou. Mas tudo bem!

 

Passado o primeiro dia, tudo que vivenciei foi um desafio. Principalmente quando foi lançada a verdade de que a revista que teria que ser entregue envolvia o grupo formado pelas alunas inscritas. Ou seja, não tinha para onde correr. Ou fazer individualmente, algo que matutei antes do curso se iniciar (#hábitos). Tudo era empolgante e eu não tive tempo de me prender às inseguranças. O que eu queria era criar, botar em prática, voltar a ler revistas, aprender como fazê-las (digitalmente).

 

Eu retomei contato com revistas, pautas, organização de conteúdo. Descobri uma nova forma de usar o Instagram. Teve muito trabalho manual (recortar revistinhas e comprar coisas de papelaria para criar moodboard) e brainstorm para nomear a revista online. Foi sensacional!

 

Parte do percurso que foi tudo de bom. Até chegar o outro instante de trava: escrever uma matéria final.

 

Envolvendo moda.

 

Com linguagem jornalística.

 

Job individual.

 

E foi aí que comecei a gritar internamente.

 

Jane Sloan - The Bold Type

Imagem meramente ilustrativa do grito interior depois da aula de pauta (via Tumblr)

 

Mas eu escrevi.

 

Mais que o proposto.

 

E chorei com o feedback da professora sim!

 

E esse sucesso se deve ao que mencionei: minha confiança se fortaleceu a cada sábado desse curso. Não era nem a 3ª aula e eu já tinha uma pauta. Segui com ela, outro fato épico para quem escolhia qualquer coisa exclusivamente para preencher o quadradinho da nota. Sem amor algum. Ato superado!

 

Antes dessa alegria, óbvio que foi um pesadelo. Maior que o primeiro dia de aula. Eu não sabia por onde começar. Demorou dias para acertar a pauta e o negócio ficou ainda mais sinistro na hora de reunir informação e fonte. Eu sentia que estava tudo truncado. Uma meleca!

 

Lembram que eu contei que prefiro livros e o Google Acadêmico? Tem horas que o jornalismo não permite. Você precisa de especialistas para corroborar seus argumentos. Mesmo que você não curta essa ideia (tipo eu mesma que já crê que será largada no vácuo, então, para que tentar?).

 

E lá fui eu de volta aos capítulos da faculdade em que mal conseguia segurar um celular. Justamente porque entrevistas me deixam nervosa – e por isso sempre larguei na conta de alguém. Que a Deusa abençoe o e-mail e os áudios da vida (eu recebi uma resposta assim e foi incrível).

 

Se houve algo bom que desenvolvi na faculdade foi antecedência e essa antecedência me salvou. Comecei uma série de rascunhos depois da aula de pauta. Ação que me ajudou e atrapalhou devido à minha constante confusão. A minha sorte é que esse curso calhou bem nas minhas férias do job, então, só daria muito errado se eu começasse a recuar/procrastinar. Eu não recuei e nem procrastinei. Eu não agi como na faculdade. Na essência do mínimo. Vi-me querendo tudo, independentemente de ser um curso livre com um trabalho escrito de conclusão.

 

Quando acabou tudo, eu fiquei arrasada. Tipo, muito mesmo. Bateu um vazio que me deixou aturdida por dias.

 

Depois dessa experiência, o mundo do jornalismo voltou a se abrir na minha mente. Um curso livre agiu como um lembrete de tudo que considerei o mínimo ao longo de 4 anos. E rolou esse papo de mínimo na sala de aula, porque a minha professora foi maravilhosa since day 1.

 

Intimamente, eu sabia que não queria reprisar o mínimo. Nem pelo dinheiro investido, mas por mim. Se eu estava ali, a regra era fazer diferente. E esse mantra fez toda a diferença ao longo da minha experiência no curso de jornalismo de moda. Eu sabia o que fazer e como escrever.

 

Mesmo com a segurança que passei a sentir, eu fui lembrada sobre as minhas inseguranças. Fui lembrada de eventos dos quais se responsabilizaram pelo meu afastamento do jornalismo. Eu comecei a rever de onde vinha esse ranço todo pela área. Como disse para a psicóloga recentemente, parece que eu preciso resolver essa história de um modo que não haja mais rancor.

 

Que não haja mais aquele senso de que não posso fazer sendo que eu posso.

 

Se há uma relutância, muito dela vem do simples fato de eu nunca ter executado o que aprendi fora da classe. De ser jornalista. O que de certo modo pode soar ruim, mas, honestamente, capaz que teria cometido sérias burradas. Eu não sabia quem eu era anos atrás. Tanto que, ao longo de 4 anos, eu nunca atingi uma especialização de tanto que eu quis me manter afastada da área.

 

E o curso de jornalismo de moda me trouxe para perto. Tão perto que não quis largar!

 

Por anos, eu sempre disse que o jornalismo me fez mal. Dessa vez, ele me fez bem ao ponto de eu sentir falta?? E acredito, hoje, que passar por essa experiência foi justamente para eu rever essa argumentação de jornalismo Deus me Free! Eu me bloqueei, como costumeiramente faço, e tudo que aconteceu durante esse curso me serviu para retornar ao passado e rever as partes positivas.

 

Como ter feito uma revista por conta e ter sido uma das editoras-chefes do produto jornalístico web.

 

De um modo bizarro, minha mente cancela o que é positivo. E, por eu não lembrar do positivo, isso dá aval para a criação de bloqueios que eu não preciso. Bloqueios que me sondaram quando me vi hesitante sobre publicar no Instagram da revista, na hora de entregar o calendário editorial, na hora de falar sobre o que era minha pauta.

 

Houve um boom assim que saí desse curso. Concluí que é bem provável que minha experiência no jornalismo teria sido outra se minha mente de agora estivesse naqueles 4 anos. Se minha segurança sobre e como escrever tivesse sido positivamente alimentada desde o dia 1. A profª era muito da incrivelmente exigente por acreditar na capacidade de quem estava em sala de aula. Ela não estava preocupada em dividir quem era o dito bom do dito ruim, como eu vi acontecer na universidade – atmosfera que me minimizou ao ponto de eu refutar o que conquistei.

 

Eu sabia qual era meu espaço na classe de jornalismo de moda. Meu limite. Meus interesses. Eu saía da sala renovada e era um pesadelo retornar ao trabalho que me estagnava. Eu vi que sou capaz de exercer o jornalismo e torná-lo útil. Não sei como ainda, perguntem mais tarde!

 

Ao contrário da minha colação de grau, em que cantei Aleluia! mentalmente, eu saí desse curso muito orgulhosa de mim. E triste, porque eu não queria que acabasse.

 

Mas acabou!

 

Capas Vogue

Moodboards feitos no curso a fim de encontrar a mulher que nos comunicaríamos na nossa revista. Acabou sendo a Fernanda Lima (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Aprendi sobre a construção de uma revista. Como lê-la de uma nova maneira. Como compreender seu público-alvo. Suas origens. Explorei meu olhar diverso porque eu não aguento mais mulher branca em capa de revista. A cada dia que passou, eu alimentei minha criatividade. Tive chance de reescrever uma experiência diferente ao que esperei.

 

Eu me envolvi com todas as atividades. Melhor ainda, eu não faltei. Ao contrário da faculdade que, se tivesse chance, eu furava e faltava, porque não havia inspiração naquele ambiente. O oposto ao curso de jornalismo de moda em que eu senti confiança para me abrir, experimentar, e me apaixonei pelo que aprendi. Algo que não aconteceu tanto assim nos anos universitários, salvo revista/online ou algum assunto de interesse particular.

 

Atuar no que você tem interesse é outro nível e recomendável para a saúde mental. É ótimo para resgatar a criatividade, fato que eu, como INFJ, precisava urgentemente. Todo sábado eu saía melhor da classe, com autoestima e disposição. Literalmente, eu reencontrei muito da minha inspiração naquela sala de aula do prédio incrível da FAAP. E sou muito grata!

 

Eu poderia fazer esse curso pelos próximos 4 anos da minha vida. Sem brincadeira! Além de me mostrar o quanto amadureci, especialmente em um ambiente que não deixou de ser acadêmico, eu me permiti muito mais em comparação aos meus anos na faculdade. Em pouco mais de dois meses, eu senti que cresci e minha visão sobre ser jornalista se alterou drasticamente. O que me faz confirmar pela milésima vez na vida de que muitas coisas acontecem por um motivo. Esse é o caso!

 

O caso de que chegou a hora de fazer as pazes com o jornalismo.

 

Passei anos amargurando o jornalismo e me negando a ser jornalista. O último ponto, nada benéfico porque eu me desvalidei por todos esses anos. Sem ao menos ter tentado???? Não que eu queira agora ser a jornalista que me formei, mas eu descobri que há outros meios de ser jornalista.

 

O que me faz comentar sobre o fato de que senti vergonha no primeiro dia do curso. Percebi o quão estagnada eu estava, porque, de fato, eu nunca exerci minha profissão. Escrever resenhas não é o mesmo que escrever um texto jornalístico. É um texto crítico, sem pesquisa e nem nada (na maioria dos casos), e me acomodei nessa linha. É incrível, mas, de certo modo, é mais recompensador você desenvolver uma pauta que acredita e encontrar as fontes certas (e vale para vários tipos de artigo, ok?). A sensação de acerto no fim mais a conclusão de ter conseguido é tudo de bom!

 

Claro que essa sensação também vem quando um post vai ao ar. Mas, para uma jornalista, há uma emoção mais forte que eu não conseguirei explicar. Deve ser como vencer uma maratona.

 

Eu tive essa sensação ao entregar um programa de rádio com uma colega sobre cinema e ao fechar meu TCC. Agora, depois que escrevi uma matéria que pretendo publicar aqui mesmo. Entregas que largaram o gosto de missão cumprida. Eu vi que conseguia. Eu provei que conseguia, embora a provação universitária tenha sido para os olhos do famoso professor da mencionada disciplina. Como tudo que envolveu minha experiência no jornalismo.

 

Menos o curso. Lá, eu fui atrás de atender as minhas próprias expectativas. E consegui!

 

Por meio dessa experiência, eu abandonei parte do conceito de mínimo que rege minha vida (ainda há certa influência, mas…). Nunca hesitei em escolher a parte de cultura devido ao pressuposto de que é meu único mundo. Sendo que, em parte, era a escolha fácil e resolvi arriscar em comportamento. O que não é tão complexo, vocês podem pensar, mas se atinge um tanto mais de significado. O que refletiu na minha pauta de moda vs. política.

 

Como podem ver, esse foi um curso de muitas primeiras vezes que só seriam possíveis depois de anos e anos afunilando gostos e pontos de vista. Experimentando. E me redescobrindo.

 

A minha própria voz

 

Jane Sloan - The Bold Type

via Tumblr

 

Para além das obviedades, eu nunca me encontrei naqueles 4 anos universitários porque eu não tinha uma voz. Consequentemente, eu não tinha uma força. Eu tinha somente a escrita que precisava ser melhorada (sempre precisa). Mas, lá no fundinho, eu sempre soube que eu queria escrever sobre coisas que trouxessem uma reviravolta positiva. Eu só não sabia quais eram essas coisas. Fiquei com o entretenimento e assim fundei o Hey, Random Girl!.

 

A universidade, de fato, não me foi tão benéfica. Eu tinha essa noção, mas o momento de admiti-la não chegava. Realização que veio 7 fucking anos depois. Eu vi, definitivamente, que parte do que me fez sentir como um completo zero à esquerda veio do básico que não é muito inspirado: cultivar sua própria voz. Afirmação que deveria ser a primeira lição do jornalismo.

 

E digo isso de um ponto de vista positivo, ou seja, não interessa em que editoria você quer escrever. Nem muito menos a futura especialização. Sempre será importante ter a sua voz que não corresponde exatamente no modo que você escreve. Mas sobre o que você quer contar. Sobre como você quer deixar a sua marca. E isso vai muito além de escolher uma editoria. Ao saber da sua voz, a escrita será automaticamente influenciada. É o que acredito hoje em dia.

 

Por essas e outras que o lead meio que me irrita, porque parece corte seco. Robótico. Enfim.

 

Na minha época universitária, tudo era sobre o impresso e os grandes veículos. Tudo envolvia as editorias padrão. Economia, esporte, política. Parecia que não existia nada além disso e você ainda tinha que ouvir que o amor pela escrita não seria o suficiente para ser jornalista. E isso nunca fez sentido para mim.

 

Claro que jornalismo exige outras habilidades, mas esse mundo é pensado exclusivamente para extrovertidos e não para introvertidos. Uma parte do problema, pois, durante 4 anos, eu entendi que a escrita não seria o suficiente para eu vencer ali. Até hoje eu sinto isso, especialmente no meio do ativismo. Especialmente no ramo em que eu trabalho e isso machuca demais.

 

Mas, felizmente, há uma imensidão de opções para praticar sua formação + a escrita. Amém!

 

Na faculdade, é difícil você ser apenas você, ou achar sua voz, porque parece que existe uma força que meio que te empurra a atender as expectativas. Quais? Dos outros. Eu me via muito à mercê da grade do curso tão quanto do comentário das pessoas. Há quem seja bem resolvida nesses quesitos, mas eu não fui. Pelas impressões dos outros, foi facílimo embarcar no nado livre sem levar boia.

 

O jornalismo passou a ser o canal com uma suposta receita pronta e não dava para confrontá-la. Além dos estereótipos que ainda existem, mas, hoje, penso que é fácil não dar bola. Como eu não dei bola ao misturar um pouco de política para falar de vestimenta no curso de jornalismo de moda. Simplesmente porque está dentro dos assuntos que me interessam. Que importam para mim.

 

Por muitos anos, eu me espremi para caber em uma classe. Com isso, nunca encontrei a real missão de tudo. E, de novo, talvez isso fosse diferente se eu tivesse me conhecido primeiro em vez de querer ter uma profissão rápido. Para ter uma independência que também demorou a chegar.

 

Sempre sonhei em escrever para a Capricho (e o sonho morreu) e o estágio que fiz em uma editora reforçou meu encantamento por revistas. Porém, desisti de tentar de novo nessa área, pois meu espírito foi se alterando conforme descobria como o mercado jornalístico funcionava. De quebra, sempre ouvi que Rádio e TV eram tudo e só hoje compreendo que meu deslocamento nessas áreas existiu porque sou introvertida. Acreditei por anos que eu era a inútil e que não conseguia o mínimo. Sendo que, pensando bem, sem uma voz que fosse minha não haveria milagre.

 

E eu prezo demais a questão de voz. Que nada tem a ver com passiva ou ativa. Ou com a 1ª ou a 3ª que são extremamente importantes na literatura. É a voz que vem de dentro. 

 

Esse curso de jornalismo de moda serviu como um sopro fresco nos meus sentidos. Na minha voz. Na minha autoestima. Além de me ajudar a desconstruir várias coisas que vivenciei na faculdade e a me fortalecer diante de muita coisa negativa. Houve certa mudança no prisma que representa essa parte da minha vida. Quase sempre penso pouco de mim, ainda mais em situações de estresse, e choquei com tanta inverdade que contei com o passar dos anos em reflexo da minha formação.

 

A dedicação da professora e seu modo de dar aula me inspirou. O mesmo para as pessoas que passaram dando palestrinhas em sala de aula – e choquei também porque eu sempre furei as palestras visto que abordavam rádio ou jornalismo esportivo. Cada pessoa que passou por lá me ensinou algo de diferente e o mais marcante foi o Álvaro Leme, que escreve para a Forbes Brasil.

 

Eu tomei coragem (os milagres!) e fiz uma pergunta. Sobre como retomar o caminho do jornalismo quando se está há anos parada. Ele me disse que, nessa situação, é importante ter o seu. Foi a última palestra antes da conclusão feat. matéria a ser entregue. Eu me senti mais forte.

 

Não posso me esquecer de outra motivação: as palavras da professora que estão anotadas em um caderninho.

 

O que você gostaria de fazer?

Cuide da autoestima

Seja leve com você mesma

Não deixe as pessoas botarem valor em você

Seu valor não está no outro

 

★ Essa última frase eu cheguei a suar pelos olhos, na moral! ★

 

Lembretes de uma docente que entrou para o meu hall de inspirações. Finalmente o atualizei com uma nova mulher que apenas quis que todo mundo tentasse. Fosse além das suas próprias expectativas. Sem forçar a barra. Sendo uma puríssima injeção de ânimo.

 

Eu poderia continuar e logo teríamos um poema.

 

Quando penso na sala de jornalismo, eu não tive tantas inspirações. Muitos professores viam a turma com desdém. Às vezes, penso que se essa experiência tivesse sido metade do que vivenciei no curso, quem sabe eu olharia para trás com menos ranço da área. Mas tudo bem. Algumas coisas acontecem por um motivo e não imaginei que revisitaria tais memórias assim que decidi passar pelo jornalismo de moda para revistas. E foi bom. Foi muito mais do que eu esperava.

 

Vale dizer que essa experiência me fortaleceu em um novo período de autodescoberta. Não que agora eu esteja muito plena, um poço de sucesso, muito sabichona, mas ganhei muita coisa pra refletir. A começar pelo fato de que, depois de anos, me senti pertencente a uma sala de aula.

 

Eu ainda me vejo lá. Naquela sala. Foram semanas (e digo semanas graças às atividades pós-aula) de leitura, de processos, de ouvir jornalistas incríveis e de conhecer novas pessoas mágicas. Além disso, de acreditar um tanto mais em mim. De uma curiosidade tudo virou desafio pessoal.

 

E eu venci esse desafio e relembro dele com muito carinho.

 

Usando a tagline criada para a revista digital desse curso: eu vi muito além de mim nessa experiência. Nuances que me surpreenderam e que me deixaram mais firme no trajeto que caminhava naquela época. Uma época que comecei a dispensar oficialmente vários pesos, ressignificar algumas coisas, ver coisas das quais eu não gostava na época com outro ponto de vista.

 

O jornalismo entrou nessa. E acredito que criará um contraste com alguns posts que falam sobre meu ranço dessa área que me arrasou o suficiente para nem sequer me reconhecer como jornalista.

 

★ What a time to be alive (ainda usam esse meme)? ★ 

 

Esse curso foi a cereja do meu ano. Uma memória especial que eu queria muito dividir com vocês. ❤

 

 

Mas o questionamento sobre fazer cursos que não batem com minhas necessidades profissionais ainda segue. Eu poderia dizer que ligo, mas, por enquanto, eu tenho o privilégio de dizer que não. É um tanto libertador ir contra a maré, porque eu saio do piloto automático (preciso fazer, preciso fazer, preciso…). Eu abro para a possibilidade de descobrir coisas novas e ver até onde sou capaz de ir mesmo sem muita certeza do trajeto.

 

Sem saber muito bem dos motivos de meus instintos me nortearem para tal caminho.

 

E, Andreia, caso você chegue neste texto, é evidente que não mandei o link por vergonha. Mas, obrigada por tudo e por ser incrível! ❤

 

Imagem em destaque: Reprodução/The Bold Type. 

 

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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