20Maio
Arquivado em: Parágrafos

I.

O tornado virulento – significado de poder.

De conforto em destruir.

Uniforme e natural.

Elaborado.

(…)

De fora para dentro.

Acuamento:

Querendo extirpar,

Com agressividade e controle.

 (…)

 

Senso de segurança abalado.

Manifestação das sombras que faz provar que não há manual contra tal violência.

O que fica é praticamente um cenário de pós-guerra.

Escombros. Feridas para tratar. Um anticlímax.

 

Reerguer-se na desorientação.

O que restou (para o momento pandêmico).

 

(…)

 

Um pássaro pode machucar tempestivamente o outro, mas em ordem de querer as coisas como antes ou por não saber como reagir diante de situação extrema.

Ataca-se em ordem de proteger a si.

Sua existência.

Seu ninho.

Existências são interligadas.

(…)

 

Fogo no ego.

Novas cicatrizes.

O desejo de mergulhar e se tornar cinzas.

Uma nova tatuagem virulenta.

 

(…)

 

Pássaros sobreviventes; ainda na prisão.

Esperando que se tornem livres. De novo.

Enquanto isso, a busca da normalidade e da cura.

Fluir; sem permitir que mais veneno congestione suas existências.

 

(…)

 

Os tornados virulentos são capazes de retroceder mentes que já conhecem demais o poder de funerais

E a luta para relembrar de que algo na vida ainda vale a pena.

 

II.

 

O céu chorava refletindo o que está trancado lá dentro.

Talvez seja tristeza,

Talvez seja desesperança,

Mas nada é o mesmo.

 

As ruas ganham uma nova cor,

Depois que aquele mundo colidiu no pulso da violência.

Tudo ao redor é quietude e vazio.

O céu continua a chorar…

 

… Limpando o ciclo anterior.

Não havia o que pensar depois de tal guerra.

O vento. Tão gelado. Os pássaros pareciam doentes.

 

III.

 

Pedra.

Meio vermelha. Meio cinza.

No peito.

 

Uma neblina.

Cinza e pungente.

Na mente.

 

Acabara mesmo?

Poderia-se tentar de novo?

Não se sabe, mas é preciso curar o corpo inflamado de veneno.

 

Para o coração não perder a vida.

Para desanuviar a mente.

 

Não havia respostas prontas no céu que chorava.

A não ser o aviso para não se escapar do que ainda persistia de bom lá dentro.

 

IV.

 

Não há escolha a não ser assumir um novo papel.

Soa como um próprio coming of age, mas sem a parte da harmonia e da boa música;

Ao menos tem o Sol que anuncia um novo dia – cheio de compromissos para retomar o tempo.

 

Concluem-se as tarefas.

Sabe-se que seria fácil,

Pois o difícil foi quebrar um voto que dizia: não assuma o que não te convém;

A barragem das inversões.

 

O reinício das inversões,

Que rompe o voto construído por intermédio de um crescer tão rápido

E de um aprendizado em ser sua própria bússola (mesmo que desorientada).

 

Voto que se torna um dilema por causa da importância de se reivindicar,

De saber quando sair de uma narrativa.

Testa-se o amadurecimento.

 

Entretanto, o que não se pede também vem.

Nem que seja o papel secundário na narrativa de outrem.

 

(…)

 

Tudo se cumpre.

Relembra-se de um dos pássaros que temporariamente se ausentara para ter sua ferida cuidada.

 

Deu tempo para sentir o Sol quente,

Mas sem deixar de questionar quando o tempo será cronológico novamente.

 

V.

 

O vislumbre da Lua chama a atenção de um dos pássaros; um tipo de sinal de que a vida continuava.

Mesmo que não houvesse pessoas circulando, a luz sinalizava para outros ciclos.

Sinalizava para uma espiritualidade que o pássaro não abrira mão.

Sinalizava para uma exaustão de ter dado o que considerava tudo de si para interromper o tornado virulento.

 

Suas feridas não estavam expostas.

Pode-se dizer que aprendeu a escondê-las

– e ouvi dizer que lhe custara tempo demais para interromper a pose de Monalisa.

 

Indagou-se sobre a vida; sobre a vida não interromper seus furtos.

Nem mesmo em um mundo pandêmico.

Parecia até um sorteio de quem sofreria mais em silêncio.

 

O pássaro se sentia quebrado pela mesma vida que o quebrara tantas outras vezes.

Seu silêncio e sua observação falavam por si.

Sinalizando que ainda tentava se agarrar ao que restara de si.

 

Quem culpar?

Os pássaros?

A gaiola?

A previsão rasa sobre os chiados e os ecos do tornado virulento?

 

Parecia que nada restara – mesmo na contradição de observar a Lua que mal dava para ver devido à estreita janela

(o mesmo lugar que o pássaro flertava com o Sol…).

Contudo, aprendera duramente que a vitória não era a sensação final.

 

No que acreditar?

Coração?

Universo?

Outro alguém?

 

Não se sabe, mas se sabia que a vida continuava.

Em um novo normal de dezenas de outros normais que nada tinham a ver com o estado pandêmico.

 

VI.

 

Era um novo normal que incluía:

Um pássaro baqueado pela violência direta;

Dois pássaros vítimas da mesma violência;

A violência como herança.

 

E o laudo:

Não há vida para culpar pelos tornados virulentos.

Eles existem em suas próprias naturezas.

VII.

 

Como se continua depois de um tornado virulento?, um dos pássaros indagou quando a estação mudara.

Por quanto mais se pode fingir?

Ainda dá para fugir?

 

Sim, você continua — não se sabe pra onde.

Sim, você finge — mas a tristeza está nos olhos.

Não, não dá para fugir com mais um assunto inacabado.

 

VIII.

Onde os pássaros estão?

Nenhum deles ousa espiar pela gaiola.

 

O que se vê?

Há um território invadido.

Cinzas e escombros.

 

O que ainda há?

Um local vazio para reerguer.

Uma fé para restaurar.

Uma história para reescrever.

 

À paisana para não se tomar o que já não mais existe.

À paisana para impedir que a tristeza silenciosa consuma o resto de dourado no coração dos pássaros.

 

IX.

 

O mesmo pássaro indagou alguns dias depois:

 

O que é um novo normal de qualquer forma?

Você acredita que tem uma nova chance de sobreviver,

Mas sua sobrevivência vem ao custo do que foi subjugado pelo tornado virulento.

 

Vale a pena…

…Ter um novo normal em que você continua a temer os escritores da sua própria jornada;

Enquanto se tenta resgatar o equilíbrio em um solo ainda instável?

 

Como confiar…

… Quando há os escombros para analisar atentamente;

Temendo que o tornado virulento retorne

Para roubar o que não mais há?

 

Como acreditar…

… Quando se sabe que a vida seguirá;

Mesmo consciente de que não há mais nada a furtar.

A não ser o nome, o corpo, o endereço, o que há dentro.

 

XX.

 

Flores vermelhas.

Flores amarelas.

Uma mistura vívida que não se relaciona com o tempo.

Com o sentimento.

 

A ideia de um contagiante novo normal.

 

Flores vermelhas.

Flores amarelas.

Outonais ao redor da mesa, no chão,

Uma mistura triste que se relaciona com o tempo, a queda, o desespero.

 

Ainda não é lockdown,

Mas cada flor na mesa, no chão, simboliza a perda, o vazio,

O medo do que ainda está por vir.

 

O amanhã não tem o mesmo sabor,

Como as flores sem cor do calendário

Que ilustram o silêncio, a morte, a desesperança

— o mood de maio.

XI.

 

Há uma linha invisível flertando com o coração,

Esperando o timing perfeito para golpear

A fim de sufocar até a rendição dos pássaros.

 

Há uma mão invisível mirando a mente,

Esperando para checar o pulso da paranoia

A fim de tragar o que ainda resta por dentro.

 

Há chiados rodeando a gaiola,

Dançando enquanto aguarda pelo momento

A fim de fortalecer a sensação de prisão de dentro pra fora.

 

Há fogo preparando uma nova combustão

A fim de transformar o resto em cinzas

Para esvaziar o coração,

Minguar a mão invisível, afastar os chiados,

 

Atrair novos sopros de fora para dentro.

 

(…)

 

Um pássaro saiu.

O mesmo que observou a Lua, cumpriu as tarefas e fez indagações.

Aquele pássaro sabia como lidar com um pós-guerra – mesmo de um jeito errático.

Vira tantas guerras, embora nenhuma como aquela.

 

E, ao contrário das outras vezes, nada de pulsos firmes.

Nada de pedra ou de anuviamento (mesmo que inevitável).

Os antídotos seriam outros — amor e fluência.

 

Dentro, fora, dentro.

 

 

Imagem em destaque: Min An (via Pexels).

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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