18maio
Arquivado em: Parágrafos

Antes que você pergunte, sim, eu pulei para o outro lado do abismo assim que o ano começou. Com novas intenções para preencher a bagagem vazia. Com novos planos baseados em ideias que nasceram em entretempos passados.

 

Eu fiz promessas. Tais como viajar e meu guia seria os meus arredores. De dentro para fora, pois não conheço muita coisa. Cheguei a lançar um novo caderno de notas para registrar as empreitadas e me alojei em um hotel baseado em uma lista de necessidades – que dizia que eu deveria me desprender de onde vim.

 

Eu resisti para saltar e começar de novo. E saltei e estava esperançosa. Eu acreditei que este finalmente seria o ano, mas logo os sussurros sobre um vírus entraram em cena. E, ao se tornarem vozes articuladas, o mundo estremeceu. De fora para dentro. Mas, enquanto nada se isolava pelas minhas redondezas, eu mantive as intenções. Porém, pequenos empecilhos surgiram, como a grana encurtar.

 

O universo sabe das coisas.

 

Foi a primeira e última frustração considerada banal sobre o ano que deixou de ser o ano – ao menos por enquanto.

 

(…)

 

Era março quando saí pela última vez. Senti o Sol. Vi o céu de brigadeiro. Foi a última vez que avistei algumas âncoras, que ajudam a manter meu oceano brando, e lembro que eu quis compartilhar sobre meu plano de viajar a fim de preencher a bagagem. Era um dia especial. Um que me vi, inclusive, sentindo falta de outras coisas.

 

Nada relevantes para o momento.

 

(…)

 

O que os outros começaram a ver em tempo de distanciamento social, isso de um ponto de vista muitíssimo “privilegiado”, não remeteu ao que testemunhei de uma janela – um tornado direcionado aos pássaros da vizinhança.

 

Três pássaros, na verdade, e os descreverei da seguinte forma: um sabia do tempo do tornado e o segredou por acreditar em sua inofensibilidade; o segundo tinha informação rasa, embora capturasse o chiado virulento vez e outra; o terceiro sempre soube do tornado e tentara crescer em cima para vencê-lo, mas foi interrompido.

 

Um corvo anunciou o prelúdio de semanas que impactariam os pássaros como se fosse um dia. Semanas desvinculadas de bolos, de pores do Sol, da natureza falsamente branda.

 

(…)

 

Sempre existiram outros sons virulentos na humanidade.

 

Chiados. Ecos. Vozes masculinas.

Ganhando movimento entre a estática e a paralisia.

 

Um tornado – que se transformou lentamente. Elevou-se sem aviso. Abrupto, alcançando os pássaros no mesmo ínterim de tempo que as vozes articuladas anunciaram oficialmente a necessidade de distanciamento social.

 

O pássaro com a informação rasa achou que aquilo seria a salvação.

Só que a gaiola se tornou apertada demais.

Diminuía ao som virulento do que vinha de fora para dentro.

 

(…)

 

De fora para dentro.

Parecia que o tornado estava dentro da gaiola.

Manifestando-se pelo piso já quebrado e tremendo as grades já muito frágeis.

Aprofundando e transbordando as infiltrações.

 

Os pássaros sequer tiveram tempo de se despedir do mundo como era antes.

Já haviam sido deslocados para outro mundo de céu fúnebre.

Tudo colidiu.

De dentro para fora.

 

(…)

 

Era abril.

 

O segundo pássaro escolheu chamar o tornado de virulento, pois se desenhou novas cicatrizes.

Deixou-se corações sem compasso.

Peles em carne viva.

 

Ver o Sol parecia uma esperança, mas…

Que dia era aquele mesmo?

 

(…)

 

De fora para dentro.

Ainda era abril.

Nenhuma voz articulada impedia as investidas repetitivas daquele tipo de tornado

– e nem reconhecia aquele tornado.

 

Mais isolamento.

 

Alívio momentâneo aos pássaros que agradeciam pelo esticamento do tempo na gaiola.

Não era bom sair. Nem era por causa do vírus do momento,

Mas também não era muito bom se isolar.

 

A gaiola não parecia tão segura.

Parecia que seria varrida a qualquer momento.

 

(…)

O vírus daquele tornado era diferente.

Intoxicante.

Veneno; Que deixou, inclusive, pungente as cicatrizes de outros tornados.

Criando uma nova guerra por dentro.

 

(…)

Um dos pássaros se tornou ausente.

Trazendo de volta espirais amarelas, azuis e brancas.

A confirmação de outro tipo de normal à espreita.

Mas não sem antes o gosto de funeral.

 

De hora em hora.

(…)

 

O cenário era digno de pós-guerra enquanto ainda se falava sobre outro vírus.

Cinzas e escombros.

Novos alertas.

Funeral.

 

Felizmente, não havia traças para o corvo que partira;

A chuva veio.

A primeira limpeza de muitas.

 

(…)

 

Orientação.

O mundo que os outros viviam era tão diferente.

Qual era a sincronicidade daquele tempo?

Ainda dava tempo de fazer um bolo?

 

Pássaros silenciosos.

Descompassados diretamente ou por associação.

 

(…)

 

Enfim maio.

Novo normal antecipado.

Era para se estar contente?

 

Aquilo era verdade?

Não sei, mas o tornado parecia ter cessado a continuidade de seus planos.

Por quanto tempo?

Não se sabe e os pássaros continuam atentos em suas gaiolas agora individuais.

 

(…)

 

O novo normal antecipado não tinha nada a ver com se adaptar ao isolamento e imaginar o pós-quarentena,

Com uma natureza mais branda e amigável,

Sem máscaras e álcool em gel.

 

Aquele novo normal era sobre três pássaros que sobreviveram a ira de outro tipo de tornado – o virulento,

Que tinha nomes e endereços,

Vozes masculinas.

E nem todos os endereços contavam com a proteção de grades e de paredes

(porque esse tipo de tornado também pode surgir e engrandecer de dentro para fora).

 

(…)

 

Orientação pela necessidade de continuar.

Na busca de entender os efeitos colaterais do tornado,

Os limites quebrados para sobreviver,

As sombras expostas.

(…)

 

O que se mudou novamente no eu.

 

 

Imagem em destaque: Руслан Гамзалиев (via Unsplash)

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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