25Maio
Arquivado em: Parágrafos

8h15 — Ela vê o mundo pela primeira vez; É um mistério o quanto ela chorou ao ter tal realização, mas é fácil imaginar a desorientação e o cansaço de um longo e quase eterno parto.

 

23 — Seu código morse para o universo; E que ela descobrirá mais tarde o quanto o adora.

 

Maio — Uma textura outonal; Que seria uma de suas maiores brigas, além de sua estação favorita.

 

1986 — Greatest Love of All era hit; Que ela amaria assim que chegasse ao Jesus Year, tornando-o seu hino particular.

 

(…)

 

Não há tantos registros sobre as primeiras ondas de sua vida, mas, na reunião de quase todas, encontradas nos diários de bordo, se vê a:

 

Artística, hater de fotos, adoradora de fotos, fã da banheirinha, de brinquedos do parque, e correr pelada pela casa; rainha dos shows imaginários, viciada em música, fã calorosa, sonhadora, entusiasta em ser outras pessoas, adoradora de amigos leais e de garotos que se intercalavam em seu angst adolescente.

 

Geminiana — Cheia de facetas; Que também seriam causa de problemas, mas que ela aprenderia a abraçar como uma de suas características principais.

 

(…)

No início, o mar parecia oceano.

Era calmo e pacífico.

Nem um pouco assustador.

 

Ela o explorou com uma série de bússolas.

Muitas ditadas pelos padrões da época.

 

Quanto mais explorava, ela foi descobrindo que algumas partes do mar eram mais fundas; Que um piso em falso seria capaz de afogá-la; Que os naufrágios e os tornados eram possíveis e constantes.

 

Suas emoções se transformaram em maremotos.

Resposta ao aprendizado de se silenciar e se disfarçar para manter todo mundo confortável.

 

O tempo fez o mar perder a graça.

Ela queria desatracar e o fogo a reconheceu.

Atraiu-a para aprender sobre combustão e autocombustão.

 

(…)

 

Brigas com a mãe.

Com o pai.

Eles não a querem do lado de fora.

Eles querem preservar sua inocência.

 

Mal sabiam que a inocência já tinha sido roubada por um tornado virulento que a ensinou a se reprimir, a desconfiar e a internalizar. A criar fogueiras em meio aos escombros.

 

Brigas com as amigas

Pelo medo de ser substituída,

Esquecida,

Inspirando-a a ser uma people pleaser.

 

Moldando-a a aceitar qualquer forma de amor

Que era apenas mais faísca à sua combustão.

 

Brigas dentro dela.

A autocombustão que elaborava verdades que se tornaram coordenadas

Que a manteriam submersa pelas ondas conseguintes.

 

(…)

 

O tempo passava rápido demais.

E ela não se sentia ancorada com o tempo.

Inconscientemente, ela estava à deriva.

 

Mais escombros.

Ela nunca tivera tempo de se recuperar dos naufrágios e dos tornados.

Só de criar pensamentos limitadores para tentar evitá-los.

 

Nada disso a impediu de descobrir a dor da separação.

Os venenos do controle e do autocontrole.

As infiltrações que rachavam seu ser

E pungiam a cada naufrágio e tornado não endereçado.

(…)

 

As coordenadas:

 

O amor é para os fracos. Os fortes são bem-sucedidos pelo trabalho. Amizades são temporárias. Tornados só furtam. A vida é um balde de hipocrisia. Ser vulnerável é igual a ser idiota. É impossível confiar. As pessoas são interesseiras. A burrice deve ser patológica…

 

Era melhor navegar sozinha em suas ondas.

 

(…)

 

Assim, ela se isolou e se tornou intocável — por fora.

O mar era violento demais para que não tivesse um bote salva-vidas.

Só seu e de mais ninguém.

 

Seu coração nunca deixou de pulsar o código morse, a propósito;

Tentando reavivar a bússola que nascera com ela a fim de compassar sua existência —

com coordenadas livres de padrões de épocas e das suas verdades discrepantes.

 

Invisível, ela acreditou que nenhuma parte de si valia a pena.

O que culminou no esquecimento de ondas anteriores —,

inconscientemente orientadas a ficar no limbo de seus diários de bordo.

 

Ela se tornou destemida pelos motivos errados.

Abraçando as partes que realmente não valiam a pena,

Que a afastavam mais das coordenadas da bússola

E de se importar com o que era realmente verdadeiro.

 

Ela criou bloqueios de acesso

Por desaprender a cultivar o que era bom.

Das flores ela plantou espinhos,

E aprendeu a lançar fogo em si mesma.

 

Cinzas;

– Ela ausente da sua própria história.

 

(…)

 

Submersa; Desbravando o mundo a pulsos firmes.

Navegando em percursos errados,

Sem orientação.

Afogando-se nos maremotos.

 

(…)

Até que um dia ela se viu paralisada.

Em meio aos escombros, ela perguntou:

Sua vida seria aquilo?

 

Os naufrágios e os tornados a mantiveram submersa por tempo demais.

E a ensinaram a ancorar em todos os lugares errados.

 

Ela sentiu que precisava de respostas.

Não era possível ser tão inflamável.

Para sempre

 

Ela arriscou tirar um dos escombros. O sopro do vento revelou uma onda caleidoscópica. Sentiu-se bem, embora incerta se deveria continuar.

 

Ela continuou.

 

Escombro a escombro, reencontrando mais ondas anteriores que foram esquecidas nos diários de bordo que encapsulavam o que valia a pena. Era simplesmente inacreditável que vivera todas aquelas coisas. Era simplesmente inacreditável que existira em outros entretempos.

 

Ela usou o código morse.

A ajuda para definitivamente emergir.

Para remover os bloqueios de acesso.

 

Foi quando ela viu o quanto resistiu.

Entre tornados e mares revoltos.

 

(…)

 

Ela se viu querendo aprender a cultivar o que era bom,

Tornar espinhos em flores

Submergir apenas quando necessário.

 

Oceânica;

– Ela retomando sua própria história.

 (…)

 

Em seu compartimento, ela voltou a escrever.

Sobre suas dores a fim de articulá-las.

Sobre amizades e amores que voltara a acreditar.

 

Ela começou a endereçar naufrágios e tornados; Tornando-se mais próxima de si. Autoconsciente ao ponto de contornar os incêndios. Nem sempre era bem-sucedida, mas, ao contrário de antes, ela aprendeu a analisar os escombros previamente ao fogo. Isso a tornou capaz de ressignificar o cinza, o senso de lar, o amor, as amizades. A dar importância em reverter a toxicidade e de encarar a vulnerabilidade como uma bênção.

 

Era o início de algo.

Uma força maior que ela.

Fácil de crer e de abraçar como sua nova verdade.

(…)

 

Oceânica; Alguém a chamou em um sonho.

Não fazia sentido já que mar e oceano tinham suas diferenças.

Mas ela entendeu como um sinal – parar de navegar pelos mesmos mares.

Ser mais calma e contemplativa.

 

Isso provocou o ciúme do ar, o regente que a tornava mutável entre o tempo e o espaço. Uma viajante de muitos mares, conhecedora de naufrágios e de tornados – encapsulados em novos diários de bordo para serem o exemplo de como reagir certeiramente no período agridoce da ressaca.

 

Um passo de cada vez — ela prometeu.

Afinal, era preciso de tempo para aprender a ser oceânica.

Para aprender a inserir luz na neblina.

Para reparar as verdades discrepantes que contara para si mesma.

 

Para se sentir segura dentro dela mesma depois dos naufrágios e dos tornados.

 

(…)

 

Novas coordenadas:

 

Amor, leveza, fluência, gentileza. A recuperação não vem do dia para a noite. Você tem que continuar. Tem que fazer o que continua a ter sentido. O tempo não é seu inimigo. Nem o universo. Nem a vida. Tudo é temporário. Escolha sempre o amor.

 

Trocou-se o mar pelo oceano. Novas brisas e, da popa, ela viu o horizonte.

 

Ainda discrepante, mas com 34 cores para reavivar o seu caleidoscópio. Para ver e se convencer de que o medo, os ossos trêmulos, o que não vale a pena, os naufrágios e os tornados nunca a interromperão.

 

E, quando interromper, ela terá a bússola para retomar o controle,

Para colocar orientação na desorientação.

 

Tempo; a fórmula para regenerar, recuperar e reconstruir.

E, depois, continuar navegando seja de onde tudo parou ou sob novas coordenadas.

 

(…)

 

Não há como controlar o navio. Nem evitar que as ondas se rompam. Porém, dá sempre para escolher o que salvar. Dá sempre para manter as colagens do que vale a pena nos diários de bordo.

 

Os registros de suas origens.

Os lembretes para não se perder.

 

Há sempre um depois.

 

(…)

 

Ela entendeu que é a única que pode se salvar.

A única que se dará cumprimentos e heartclaps,

Que verá 23 auroras, às 8h15,

Que lhe darão de 5 a 1986 razões para continuar.

 

Oceânica; Ela escolheu ser por estar exausta dos mesmos ciclos.

Dos mesmos padrões e venenos.

Dos mesmos registros.

 

Invicta; Ela assume o leme.

Destemida pelos motivos certos.

Abraçando as partes que realmente valem a pena.

 

Ela; Consciente de que tem que ser seu próprio lugar seguro para ancorar.

Mesmo depois de naufrágios e de tornados.

Mesmo quando não se sentir inteira.

Tags: , .
Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
Você pode gostar de ler também Deixe seu comentário
Siga @HeyrandonGirl no Instagram e não perca as novidades