22jun
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Nota: esta entrevista foi publicada no meu antigo site Bela e as Feras (que depois virou Contra as Feras). A introdução do texto contou com edições para não ficar tão fora do seu tempo original de publicação.

 

 

Entretempo: 11 de maio de 2017.

 

O post de hoje é daquela série mais conhecida de: grandes surpresas da vida. Tudo começou com uma mensagem via inbox na página do Bela e as Feras que me deixou bastante emotiva. Justamente na época em que ensaiava o retorno que falhou um bocado. Logicamente que tratei tal mensagem como um sinal da Deusa, pois sou dessas que acredita que nada é por acaso.

 

A melhor parte é que essa mensagem se tornou uma sugestão de pauta e isso me fez dar saltinhos em círculos (a primeira do Bela e as Feras). A personagem? Andréa Tolaini, artista visual que deu um quique na área de publicidade para viver da sua arte. Uma arte que retrata a importância da vida em ciclos. Uma história que é a minha cara e sei que será a de alguma de vocês também.

 

Mas não é só isso, claro. A arte de Andréa também é voltada para o feminino. O foco é retratar as dores e os prazeres de ser quem somos. Aka mulheres! Um trabalho que visa autoconhecimento e entendimento, detalhes adquiridos com um pouco mais de afinco por intermédio da participação em grupos de estudos de processos femininos. Experiência que rendeu em uma busca emocional que serviu de liga para uma convivência mais intensa e profunda com outras mulheres.

 

Há mais, muito mais, e vocês podem ler aí embaixo:

 

Arte - Andréa Tolaini

 

Conte-me um pouco sobre você, especialmente o salto na carreira de largar publicidade e se dedicar ao que ama.

 

Andréa Tolaini: Sou uma pessoa bem inquieta. Com tudo. Principalmente emocionalmente. Sempre fui assim. Não me reconheço de outra forma. Sou uma pessoa que vive se movimentando, mudando as coisas, vivo num constante movimento. É algo que começa antes dentro. Depois vai pra fora. Quando minhas emoções me pedem, eu mudo. Quando fica evidente que dentro precisa eu acabo mudando fora também. Assim é na minha arte. Assim foi minha mudança de profissão também.

 

Eu estava há anos trabalhando para uma produtora de conteúdo digital. Meu núcleo cuidava da parte artística e eu cuidava da divulgação de bandas e artistas em geral. Clientes da casa. Era muito bacana o ambiente. Os clientes também. Estava num trabalho que acreditava ser o que queria para minha vida. Afinal, trabalhava para arte e este era meu sonho.

 

No fundo, eu sempre quis usar minhas expressões artísticas como profissão. Mas minha família era bem contra (apesar de minha mãe ter sido artista plástica).

 

Mas começou a ficar muito incômodo trabalhar para publicidade. Fiquei um tempo bastante frustrada trabalhando para algo que tinha pânico de pensar que seria pelo resto da minha vida. Eu queria me expressar.

 

Minha mãe faleceu em 2009. E aí começou uma grande transformação em mim. Eu percebi que eu precisava mesmo seguir o que eu intuía. Sem carregar os medos deles. Então me planejei. Juntei dinheiro. E em dezembro de 2011 eu me demiti da agência. Sem absolutamente nada em vista. Sem saber o que queria fazer da vida. Morrendo de medo. Mas larguei. E fiquei vivendo da minha poupança por um tempinho.

 

Fui morar em Londres por 8 meses. Fui me inscrevendo em todos os cursos que achava interessante por lá. Tudo que era referente a artes visuais eu me inscrevia. Fui encontrando nisso traços meus e uma vontade imensa de trabalhar com artes visuais.

 

Quando voltei pro Brasil, eu ainda assumi uns freelas em comunicação para conseguir sair da casa do meu pai e montar o ateliê. E assim que montei fui estudar na Panamericana de Artes. E quando vi estava trabalhando com artes. Vendendo meus trabalhos. E me assumindo.

 

Qual foi o momento mais difícil nessa aceitação/redescoberta de que você é uma artista visual?

 

AT: O momento mais difícil durou um ano inteiro. Foi 2012, logo depois de ter me demitido da agência. Porque as pessoas me perguntavam o que eu fazia e eu não sabia o que responder. Foi um ano muito difícil. Eu tinha vergonha de não fazer nada. Tava encontrando uma forma que não era a óbvia. Minha família preocupada comigo. Eu sem grana tendo que poupar tudo que eu tinha. Sendo questionada por muitas pessoas com a pergunta “mas o que você vai fazer agora?”.

 

Parei de sair para não me perguntarem mais isso. Me isolei muito em 2012. Tive crises difíceis psicológicas. Me sentia muito infeliz comigo. Mas eu percebo hoje que aquilo fazia parte do meu processo de descoberta. Partir do nada é angustiante mesmo. E precisa ter muita coragem de assumir o ‘nada’ por um tempo. Frente a uma sociedade que só vê valor em quem colocar dinheiro para rodar. Mas eu sobrevivi.

 

Acho que um dos porquês de ter ido para Londres foi para não mais ter que ser cobrada. Queria me esconder. Foi o melhor esconderijo. Porque ali eu era o que eu quisesse ser. Não tinha que cumprir papéis. Fiz cursos incríveis. Me vi sendo mais eu mesma.

 

Entrevista - Andrea-Tolaini

 

Como o feminismo mudou a sua vida?

 

AT: Nossa. Até me emociono. O feminismo me fez perceber que eu não era culpada. Não estava errada. Minha vida foi marcada por abusos. Físicos, sexuais, psicológicos. Acho que, no fundo, muitas mulheres têm um histórico parecido com o meu. Eu me sentia culpada pelas coisas que havia passado. Ou eu achava natural passar por aquilo sendo mulher. Achava que não tinha muita saída a não ser aceitar que aquilo era ser mulher. Viver abusos constantemente. Sozinha e calada. O feminismo me deu voz.

 

Feminismo me permite que eu não normatize mais a violência que eu fui sempre vivendo. Na rua, em casa, com vizinhos, amigos e namorados. Não que eu não viva hoje, mas pelo menos eu consigo ver que aquilo não é normal. E foi o feminismo que me deu a condição de olhar para estes abusos desta forma.

 

Além disso, o feminismo me possibilitou questionar todos os caminhos que eu achava que eram óbvios para uma mulher. Hoje eu tenho escolha. E foi o feminismo quem me mostrou que eu tenho. Eu tenho 32 anos, não tenho filhos, nunca fui casada e me sinto em paz com isso. A um tempo atrás, me sentiria envergonhada por ser solteira aos 32 anos.

 

Neste exato momento, nunca me senti tão bem em ser solteira e não ter nenhum compromisso com ninguém. Sei que isso está se movimentando em mim. Eu sonho sim em ter uma família, mas não é mais um pânico para mim o caso de eu não ter uma família. Isso já não me torna menos mulher ou menos parte da sociedade entende? E hoje eu vislumbro um futuro maravilhoso e feliz tendo um cara ao meu lado ou não tendo.

 

Tem também toda minha questão com estética. Passei anos da minha vida perseguindo um peso ideal. Um corpo perfeito… Nunca tive, pois esta é uma sociedade que não possibilita a gente se achar realmente bonita. O feminismo me ajudou a ver que eu não devo beleza a ninguém. E mais ainda, que eu sou bonita sendo como sou. E a escolha de como será meu corpo, meu cabelo, meus pelos é minha. Tô no processo com isso ainda, mas dei passos importantes para me aceitar como sou. E isso é muita liberdade.

 

Mas, olha, se eu for falar tudo que o feminismo fez por mim eu não paro de escrever.

 

Além do feminismo, há outros insights que movem o seu trabalho?

 

AT: Sim. Muitos. Eu tenho um respeito e uma paixão pela natureza da vida. Pelos ciclos naturais. As coisas como acontecem, como nascem, como morrem, como renascem. A natureza selvagem. Observo a natureza e a natureza das relações humanas da mesma forma. Eu acho bonito ver as mudanças das coisas, o amadurecimento natural. As folhas que caem e se transformam em adubo para outras plantas. Cara, isso me empolga.

 

Ou perceber nossos processos. Este poderoso ciclo de aprendizados que a gente vive aqui na Terra. Onde a gente passa perrengue e aprende um monte de coisas. Depois usa os aprendizados se deleitando e sendo feliz. Depois volta pro perrengue pra aprender mais coisas. Esta montanha-russa de mudanças que a vida nos permite viver. E que, se bem aproveitada, a gente vai se lapidando lindamente. Na dor e no amor. Acho estes movimentos magníficos. Meu trabalho, no fundo, nunca foge disso. Eu vivo num eterno perrengue e deleite. Vou desenhando e pintando estes movimentos como uma forma de digerir os processos.

 

Outra coisa que é para mim um estímulo criativo é o estudos das formas de comunicação. Afinar as comunicações. Conhecer novas formas. No momento, ando estudando comunicação não violenta. E amo aprender sobre isso. Me dá a sensação de que eu posso quebrar barreiras com o aprendizado de formas comunicativas. Tudo fala. Os olhos. Os desenhos. A roupa. A fala. Os abraços. Os gestos.

 

E um quarto alimento para minha arte é o AMOR. Formas de amar, o amor em movimento. Amar e criar relações em cima deste bom sentimento. Aprender o que é amar. E até nossa incapacidade de amar sendo humanos. Isso tudo me intriga e me fascina muito. Me faz desenhar, pintar, querer sentir e praticar o que é amor.

 

Entrevista - Andrea-Tolaini

 

Em um mundo que ainda enxerga mulheres como rivais e competitivas entre si, como surgiu (se é que podemos colocar dessa maneira) a vontade de buscar entre elas sua recuperação emocional e sua inspiração para seus projetos?

 

AT: Mulher é um bicho foda cara. Puta merda! Não tem como conhecer profundamente uma mulher e não querer mergulhar em tudo que se passa por dentro de uma.

 

Quando minha mãe adoeceu, eu comecei a perceber o quanto eu amava as mulheres e nunca tinha notado. Minha mãe passou por uma doença cruel por um ano. E foi forte, corajosa, e passou por tudo o que passou como uma guerreira mesmo. Minha mãe chorava, era sensível, era doce, e forte como poucas pessoas que conheci. Acho que aprendi naquela época que assumir emoções tinha a ver com força e não com fraqueza. Minha mãe foi o grande estímulo de amor que tenho por mulheres e também o grande estímulo para querer ter mais mulheres ao meu lado depois que ela partiu.

 

Enquanto minha mãe esteve em tratamento, quem realmente estava ao lado dela todos os dias, dormia com ela no hospital, ouvia ela, e tava lá o tempo todo eram mulheres. Filhas, irmãs e amigas. No perrengue mesmo quem esteve ali foram as mulheres. Assim percebo que acontece comigo. Quando eu me ferro de verde e amarelo são mulheres que aparecem para apagar o fogo. Passei muito tempo na rivalidade. Foi quando conheci mulheres inspiradoras. Nesta mesma época que minha mãe adoeceu. Que são minhas melhores amigas até hoje. E seguimos estudando tudo o que envolve ser mulher.

 

Criamos um grupo de estudos. Saber sobre os movimentos da vida de todas elas. Ver que tudo tinha um paralelo com o que eu sentia e passava. Ver todas em posições diferentes na vida, mas com emoções semelhantes. Isso foi tão demais. Abriu um espaço dentro de mim para perceber que estamos em rede. E que quando estamos juntas a força aumenta muito. Nossa cumplicidade segue até hoje. Quando falo das minhas dores para uma mulher, não sou julgada de fraca, de chata, de exagerada. Eu sou acolhida. Sou ouvida.

 

Acho lindo este movimento de mulheres cada dia mais unidas. Menos julgando umas as outras. E mais protegendo umas as outras de uma sociedade que é muito cruel com o gênero. Gosto de ilustrar isso. Gosto de fortalecer esta corrente.

 

Mulher anda junta. Porque a gente se fortalece juntas. Isso não exclui homens. Inclui nós.

 

Há uma parte no site que se chama “Contra as Feras”. Basicamente, uma ideia de combater medos e anseios por intermédio de qualquer coisa (textos, música, etc.). Hoje, qual seria/foi sua Fera e como a combate ou a combateu?

 

AT: Eu tive uma arte muito aliada a mim nesta busca por me aceitar como mulher. É um livro mágico que se chama Mulheres que Correm com os Lobos. Me tirou de várias situações de perigo, situações de vício em relações abusivas, e me auxiliou nas mudanças mais substanciais da minha vida. Eu digo que vou ler este livro até o último dia da minha vida. Porque eu já o reli muitas vezes e sempre me ajuda de uma forma nova.

 

A todas que estão começando suas buscas, ou estão no meio ou em qualquer momento que estiver, eu indico muito este livro maravilhoso. É um colo de uma velha sábia.

 

Algo que gostaria de acrescentar? Pode ser o que partir do coraçãozinho.

 

AT: Queria dizer que é uma honra imensa estar vivendo neste momento do mundo e participando ativamente desta grande revolução que juntas estamos fazendo. Onde deixamos de negligenciar nossas forças e estamos exigindo nossos espaços neste mundo.

 

Deixo meu amor profundo por todas as manas. E que um dia a gente possa dar um abraço e dizer: conseguimos.

 

 

 

O trabalho de Andréa vem de um combo de força, de fraquezas, de impulsos, de dores femininas que não são apenas das mulheres ao seu redor, mas de si mesma. Uma coleção de histórias que enriquece cada pincelar de seus projetos.

 

Sinto-me uma pessoa honrada em ter tido a oportunidade de conhecer uma história tão inspiradora e tão intensa. Parece que bati papo com a Andréa pessoalmente de tão quentinho que meu coração ficou. Há tantas nuances das quais me identifiquei e espero que vocês também.

 

Deixo aqui meu mais novo obrigada por essa oportunidade. Uma experiência incrível sem sombra de dúvidas!

 

Vocês podem segui-la no Instagram (@andrea.tolaini) e dar uma xeretadinha em seu link no Cargo Collective.

 

Créditos das Imagens: todas retiradas do Instagram da Andréa.

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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