23jun
Arquivado em: Filmes

Fato é que, quando este filme foi anunciado, eu não vi a hora de assisti-lo (mesmo com a existência do Chad, ew!). Porém, quando a possibilidade se tornou real, confesso que fiquei com medo. Nada como temer as chances de dar de cara com gatilhos que incitariam lembranças do passado. Isso aconteceu em algumas partes, mas ainda há gatilhos.

 

No caso, automutilação. E há estupro nas entrelinhas. Avisos de prevenção.

 

To Write Love On Her Arms - Renee

 

Segredos podem lhe deixar doente.

 

To Write Love On Her Arms (também conhecido pela sigla TWLOHA) não é um documentário, mas um drama biográfico que reconta com certa densidade um fragmento da vida de Renee Yohe, a pessoa que inspirou a criação da organização de mesmo nome e que é interpretada por Kat Dennings. Também conhecido como Day One ou Renee, o filme introduz uma adolescente que tem transtorno bipolar e que burla a ingestão dos medicamentos. Pelo que andei lendo, muitos fatos realmente rolaram e outros, como esperado, serviram como artifício de ficção.

 

De início, a vemos consciente e sociável entre dois e únicos melhores amigos – Dylan e Jessie. Relação que abre brecha para o core da vida da personagem: a música que a desconecta do mundo real. Essas circunstâncias mudam devido a uma experiência indesejada em uma festa de Halloween e que, a princípio, fica nas reticências assim que ocorre. Da sobriedade da trama, Renee muda da noite para o dia e é consumida por trevas.

 

Quando ela reaparece na escola depois de tal evento, sem a companhia dos amigos, é como se algo tivesse sido roubado. Da garota que fazia questão de conversar e de participar, Renee se torna solitária. E o resultado desse isolamento surge dois anos depois, em que a vemos viciada em drogas, se automutilando com frequência e completamente perdida.

 

Uma realidade que tinha tudo para ficar pior quando outro evento transcorre e chega perto de botar a vida dela em perigo. Em vez de continuar na fuga, Renee pede ajuda ao Dylan, às cegas, e na sorte, por ter deixado de falar com ele. Entre o saudosismo de Dylan e o azedume de Jessie (que marca presença nesse súbito reencontro), vemos uma Renee fingindo que está tudo bem e logo vem a proposta de auxílio. Ela se mostra animada a princípio, pois ainda há nela o desejo de ficar limpa.

 

Junto aos amigos entra McKenna, que nem a conhece, mas contribui para encaminhá-la para a reabilitação. Só que outro revés acontece, pois a personagem não pode dar entrada no tratamento por não estar clean naquele mesmo dia e por ter cortes recentes nos braços. Assim, Renee fica em contenção por 5 dias. Ela não pode usar drogas e se automutilar. Parece fácil, mas logo o tempo fecha ao seu redor. Mais precisamente, na sua mente, que conta com uma elaboração visual que transfere do seu íntimo para a tela os seus medos e as suas sombras.

 

A cada atualização feita no espelho, os demônios querem empurrá-la aos antigos hábitos. Renee luta, mas não sem se sentir rasgada de dentro para fora. O que faz diferença é o grupo de apoio que a impede de retornar para a versão obscura de si mesma.

 

To Write Love On Her Arms - Renee e Jamie

 

Nesse ínterim, Jamie Tworkowski entra em cena, o fundador do TWLOHA que é interpretado por Chad Michael Murray (ew pro Chad de novo, mas ele apoia a organização. Relevando!). Aquele que mal chega e já se envolve com a história de Renee. Posicionando-se como outro ponto de suporte para que a nova amiga não tenha uma recaída.

 

Uma ligação que abre caminho para o filme contar em paralelo como a organização nasceu.

 

Embora Jamie se situe para ser a figura principal da história de Renee por causa da fundação do TWLOHA, o elo dela com McKenna é o que faz o filme especial. Quando estão juntos, há os debates delicados, tais como acreditarmos que o problema do mundo somos nós, que precisamos de outras pessoas e que segredos podem nos deixar doentes. O tique-taque do relógio une essas vidas de uma forma que diria ser destino, rendendo também o aprendizado do background desse personagem muito bem interpretado por Rupert Friend. Um dia ele foi ajudado e usa essa experiência para ajudá-la. Uma mão lavando a outra em busca da mesma coisa: recuperação.

 

O interessante do filme é o storytelling visual que age como se fosse um conto de fadas, o que rebate no discurso de Jamie sobre finais felizes. O transtorno bipolar de Renee não é comentado a todo o momento, mas é simbolizado por fumaças cinza/preta que representam sua tormenta interna. Artifício que indica uma saúde mental comprometida, algo que mexeu bastante comigo por ter vivido algo semelhante praticamente na mesma idade dela – 19 anos. Por mais que haja o colorido do dia, havia/há momentos que o Sol não supria/e o cinza.

 

Há outros momentos extremamente chorosos em TWLOHA, desde Dylan cantando The Scientist do Coldplay até Renee entregando a última lâmina que usava para se machucar ao Jamie. Nesses pequenos instantes, o filme mostra o quanto é importante pedir ajuda e ter um grupo de apoio.

 

Nas palavras do real Jamie, este filme é sobre pessoas quebradas amando outras pessoas quebradas, e não poderia concordar mais. Muito embora exista uma desconstrução de que ninguém é quebrado – e concordo também. Todos têm uma história que os relembra o quão machucados estão, mas, juntos, há certa dose de persistência para batalhar por si mesmo e pelo que é certo. No caso, a vida. Renee chegou perto de muitas recaídas, mas partiu para a reabilitação e assumiu novos medos ao buscar sua sobriedade.

 

To Write Love On Her Arms - Renee e Davis

 

Uma boa história não é aquela que impressiona. É aquela que leva você de volta para a história que está vivendo e para as histórias que está conectado – e pensar de forma diferente sobre essas coisas.
 Jamie Tworkowski

 

Por mais que já tenha dito, o que me cativou no TWLOHA foi a honestidade em conscientizar e em prestar auxílio a quem sofre com depressão, pensamentos suicidas, automutilação e vícios. A real Renee permitiu que sua história fosse contada e compartilhada, moldando essa organização a partir de um ponto de honestidade. De experiência e de vivência. Jamie escreveu o que ela passava (ela não conseguiu fazer isso no filme e na vida real Jamie escreveu o texto para coletar fundos para a reabilitação dela), apertou o publicar do Myspace e se espantou com a magia dos feedbacks.

 

E cá está ele, lutando para relembrar a todas as pessoas que a esperança e a recuperação são reais.

 

TWLOHA mostra que ninguém está sozinho e que histórias podem salvar outras vidas. Tanto como organização quanto como filme. Inclusive, a organização dá voz a quem se sente marginalizado na própria dor. E eu me encontrei nisso porque acredito na mesma coisa.

 

Ao longo do filme, voltei para vários fragmentos que me nortearam para uma derrota iminente. Uma bagagem de fantasmas que veio à tona e que me relembrou os motivos de ainda estar aqui. Do quanto me esforço para ser uma humana melhor. Sempre é complicado voltar a esses capítulos por vontade própria e a experiência de assistir algo do qual me relaciono me fez pensar diferente sobre esses acontecimentos mais uma vez.

 

Digo diferente mais uma vez porque, antes, engoli e alimentei o parasita que vivia dentro de mim. Tornei-me uma adolescente que não se importava comigo mesma até se importar demais dentro da falsa sensação de que as coisas estavam sob controle. Houve a falsa sensação de superação completa e ainda não há. É cuidado constante.

 

To Write Love On Her Arms - Renee

 

Uma recuperação que é constante também. Se não eterna. Renee se reencontrou na música e nos desenhos, eu me reencontrei na escrita. Tantas outras pessoas com a saúde mental afetada ou com algum trauma ou com estresse pós-traumático encontram as mais diversas válvulas de escape (boas ou más) para manterem a sanidade. Não é apenas um entretenimento. É uma questão de sobrevivência.

 

Não me sinto tão abandonada como naquela época, pois sei onde posso me encontrar e com quem conversar. Quando não me encontro, me sinto no dever de escrever na tentativa de dizer que uma hora tudo fica bem. Saúde mental sempre será um assunto de estigmas e é por causa disso que ainda há gente que o evita.

 

Geralmente, a pessoa que sofre não conta por vergonha. Renee se isolou na história dela, o que afetou seus pensamentos e fortaleceu os dias cinza que nublaram sua visão.

 

Perdi as contas de quantos dias cinza vivi com os monstros sambando na minha cabeça. Eles ainda sambam de vez em quando, pois tenho grandes oscilações emocionais. Só nos últimos anos compreendi que buscar ajuda é preciso, que não estou sozinha na minha espiral, e este filme atua como uma inspiração para se pedir auxílio e escolher a vida. Não menos importante: combater a Fera que cria raízes dentro de nós.

 

To Write Love On Her Arms - Renee

 

Acima de tudo, que esperança é real, o motto da organização. Renee passa por alguns conflitos que eu tive na adolescência, sobre pensar se um dia eu ficaria bem e indagar o universo sobre o motivo de ser de tal forma – ou o motivo de ainda me manter viva quando claramente não me importava com absolutamente nada. Os meus segredos me deixaram doente, perdi o controle, porque não fazia a menor ideia do que acontecia comigo.

 

Este filme me mostrou novamente que sempre haverá um pouco mais a se viver. Que todos os poemas sombrios que escrevi no passado agora se tornaram este e outros textos meus espalhados na internet ou no meu Word. Há recuperação, mas, até nos convencermos disso, é preciso encontrar a força. Nem sempre conseguimos, algo que Renee obteve ao lado dos amigos e de dois completos desconhecidos.

 

É bem fato que um momento pode nos mudar. Um momento que rende uma pilha de segredos não compartilhados. Que são remoídos e abafados por meio de processos autodestrutivos. Precisamos de outras pessoas sim. E precisamos ser ainda mais bravas em pedir ajuda. Não é todo mundo que entenderá o seu problema, especialmente quando envolve depressão, vício e automutilação. Mas falando, talvez, os outros passarão a entender que não é rebeldia. Que não é frescura. Que não é coisa passageira. É um monstro que habita dentro de nós.

 

As pessoas ao redor de Renee escolheram escrever amor nos braços dela e devemos fazer o mesmo com a gente. Caso não seja possível, deixar que quem confiamos assim o faça. Seja como for, ainda é possível superar os dias cinza.

 

E se salvar.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento.

 

Crédito das Imagens: Kat Dennings.net.

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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