09jul
Arquivado em: Speak Now

Neste entretempo, eu me encontro focada em preencher as brechas que envolvem a minha mente. Mais precisamente, as brechas que não retiveram as memórias boas (e que continuam com grande dificuldade de adesão) da minha narrativa. Tudo começou com um choque no meu sistema nervoso, que atribulou um cérebro acostumado a funerais e que impulsionou o rebobinar das minhas memórias. Assim, eu me vi forçada a reaprender a contar.

 

As últimas descobertas englobam as memórias ruins. Elas são campeãs. Aderem-se fácil e se retêm.

 

Lembro-me delas como se fosse ontem. E o charme delas é, na maioria dos casos, se associarem a apartamentos.

 

Como se precisassem disso. Afinal, eu fui educadíssima a guardar uma boa quantidade de memórias ruins.

 

E elas roubaram minha narrativa por anos.

 

Resultado: anos se passaram e as memórias ruins se transformaram e seguiram como minhas verdades universais. Além de se transformarem em defesas psicológicas e emocionais. Por causa disso, e de outros pormenores, eu me sinto perdida no tempo. Tudo que passei a saber, de forma a seguir com a minha vida em um senso não articulado de sobrevivência, vem de eixos ruins deveras impactantes. E assim se foi indo a noção dos tempos. Dos tempos bons.

 

Eu jamais relembraria dos tempos se não fossem os registros remanescentes de outros entretempos. É o que acredito de tão intrínseca e incrustada a sensação de descolamento do tempo. E essa sensação de descolamento vem da constante sensação de que muito da minha memória foi apagada.

 

Quando, na verdade, ela está cheia de bloqueios e de espaços que, por vezes, parecem em branco.

 

Dando a sensação de que eu nunca estive no tempo presente.

 

De fato, eu estava no tempo passado. Remoendo umas coisas… 

 

 

Comecei com fotografias e elas preencheram brechas das quais eu sequer sabia que existiam. Como as apresentações do colégio em que eu fui várias personagens que não me recordo o nome.

 

Tudo bem alguém me dizer que acontece. Todo mundo esquece, né? Mas, normalmente, todo mundo tem vislumbres, certo? Como reconhecer sonoridades e ser automaticamente teletransportada para outro tempo (bom ou ruim). No meu caso, eu acredito que aprendi a puxar as alavancas para não me deixar navegar por esses mares.

 

Não navegando, as informações foram desvanecendo.

 

As memórias boas que deixaram de ser minhas englobam as intermediações da infância, adolescência e início da vida jovem adulta. É bastante coisa, eu concordo, e chafurdar o passado tem sido a solução. Mas não do mesmo jeito de antes… Do tipo que me faria escolher qual veneno será minha defesa da vez. Eu queria respostas.

 

Algo que se relaciona com a minha fase de análise, pois, se dependesse de mim, acredito que continuaria em frente sem espiar pelos ombros. Só que, além da curiosidade, eu precisava descobrir algo que competisse com os apartamentos.

 

Logo, eu escolhi números.

 

E eu os encontrei em cada vela do meu aniversário.

 

Ou quase, pois há aniversários que sequer sei se existiram.

 

 

Eu perdi a memória entre os 14 e os 15 anos.

 

A timeline que fez o que era bom se tornar supérfluo.

 

E o ruim começou a ganhar. Sem precisar competir pelo espaço.

 

Desde então, o que é bom não adere e dissipa.

 

E o que é ruim permanece para criar suas ervas daninhas.

 

Eu não sei o veredito sobre isso, pois se trata de uma missão em andamento. Entretanto, para ilustrar bem a situação, é como se o ato de dormir acarretasse a minha amnésia no dia seguinte. E eu percebi isso mais drasticamente quando não me recordava dos garotos que achei que amei. Uma ideia que me ocorreu do nada e eu tinha me esquecido do único garoto que me fez certo bem.

 

Cavucando o que parecia vazio, bom, eu desmoronei muito do meu contexto com relação a afeto e reciprocidade.

 

Eu encontrei respostas que não tinha e foi importantíssimo.

 

Resumindo: anos se passaram e eu acreditei que fui enxotada por eles. Quando, na realidade, eles nem sequer sabiam da minha existência, porque eu nunca sequer perguntei se rolava a chance de dar uns beijos. Mas um deles sabia da minha existência e eu não sei quem perguntou quem estava a fim de dar uns beijos – e os beijos aconteceram.

 

Vejam, uma memória boa! Que poderia ter me ajudado a ser menos amarga sobre afeto e esquiva sobre a reciprocidade (isso no âmbito relacionamentos amorosos visto que sou a figura que cai fora primeiro). Inclusive, crer menos na tese de que eu precisava de validação masculina para absolutamente tudo.

 

Desde este momento, e outro que desvendou os reais motivos de eu ter desenvolvido um transtorno alimentar na adolescência, contestar tem sido meu modo de operação.

 

Algo que eu não fazia antes. Eu realmente achava que era assim e pronto. Era a minha verdade.

 

As coisas mudaram quando eu sentei no sofá da minha analista. Foi mais depressa ao que imaginei.

 

 

Na adolescência, eu tinha minhas notas de campo.

 

Eu amava tirar fotos e filmar os passeios do colégio.

 

Eu pedia para que escrevessem no meu diário – e eu mantinha vários diários.

 

Realizações de agora cujo ato de rasgar os diários definitivamente me largou nessa zona de brechas e de vazios. Justamente porque eu parei de registrar a minha vida. Aos 15 eu já via a minha vida como insignificante.

 

Consequentemente a minha existência.

 

E o tempo se tornou meu maior inimigo.

 

Minha mente era deveras alienada em fins dos anos 90. Segui assim, alienada dos meus traumas, das minhas emoções, da verdade sobre a atitude dos outros. O que veio como resultado disso é esse senso de que nada importa muito visto que não é permanente. Que alguma coisa ruim sempre acontecerá. Que você sempre será machucada.

 

Sempre é uma palavra muitíssimo forte. E foi nessa linha tênue que as memórias ruins criaram infiltrações e fizeram seu trabalho. Aos poucos, eu me apaguei inconscientemente da minha jornada.

 

Eu não me tornei invisível. Eu continuei a existir, mas no background.

 

Contra todas as probabilidades do tempo.

 

 

As fotografias se tornaram as principais evidências de que eu vivi outras timelines.

 

De que houve outras versões de mim, com outras vidas.

 

Como mencionei, minha atenção recaiu nas fotos de aniversário. O período que me instigou para criar esta missão de reaprender a contar. Ordenei-as pelo número das velas e me vi chocada com algumas descobertas.

 

Eu tive a sensação de não ter vivido aquilo.

 

Fotos bebezinha segurando um par de sapatos novinhos e rodeada de ursinhos de pelúcia; Fotos de uma versão de mim nem um pouco feliz por estar do outro lado de uma mesa cheia das coisas do meu aniversário (inclusive o bolo) e do outro os “coleguinhas” que devorariam tudo; Uma festa em casa cujo sabor do bolo eu lembrei (era horroroso parecia mato, sei lá!).

 

Lembrei-me de que, de todas as decorações, a da Lua foi a minha favorita.

 

E, por algum motivo, eu acabei lembrando que me entalei com espinha de peixe. Vislumbre resgatado por causa da foto de aniversário de 4 anos, tirada em certo apartamento que eu nunca me lembro que vivi.

 

Eu era pirralha nessa época, mas foi lá, inclusive, que aprendi a andar de bicicleta.

 

Por meio dessas manifestações de outros momentos vividos e sequer recordados, eu notei que as minhas memórias boas possuem um gancho também. Elas se apresentam em um ambiente seguro. Um ambiente que eu não as julgarei. A contrapartida quando estou sob a luz das memórias ruins. Torno-me imperdoável.

 

 

Ao longo dessa missão, eu descobri um empate desconfortável. Boas ou ruins, as memórias são gasolina. De ambos os lados há alguma timeline que me deixa pra baixo. Ironicamente, as memórias boas com mais pungência que as ruins. Depois de revivê-las, eu sinto como se devesse algo. Como não ter permanecido por mais tempo.

 

O que contribuiu para alterar a química do meu cérebro.

 

 

Foi aos 15 que eu tive o dito último aniversário. E esse aniversário não tem foto e nem gravação. Tudo que eu tinha era o que hoje chamo de primeira resenha da minha vida: um texto que narrava a minha aventura no show dos Backstreet Boys. Esse foi meu aniversário.

 

Adivinhem só: anos se passaram e tudo que mais evitei incluiu os CDs dos Backstreet Boys.

 

Foi quando eu comecei a entender que as memórias boas relembram cantos que não retornarei. Não por conta. E que eu poderia ter aprendido a retirar o peso do aspecto ruim a fim de não perder as memórias boas.

 

Ter a memória do show passou a ser um inferno, pois eu tinha que associá-la às amigas que perdi.

 

Eu queria ter a habilidade de explicar melhor como isso soa uma bênção e uma maldição.

 

Enquanto eu tenho que me esforçar para recuperar as memórias boas, as memórias ruins se repetem entre o tempo e o espaço como bem entendem. Eu não tenho controle. Quando me dou por mim, elas estão lá, criando espirais ao meu redor. Pode ser que alguém diga que minha mente atrai esse padrão, mas eu acho que é condicionado. Meu cérebro é fúnebre e fragmentado.

 

Memórias boas machucam porque vem aquele negócio chamado saudade. Atrelado à sensação de que não participei e da realização que eu não sabia o que me fez mudar tão drasticamente. Minhas comportas se tornaram limitadas.

 

E aí eu me tornei refém dos aspectos desagradáveis que me roubaram tempos úteis.

 

Como para voltar a andar de bicicleta. Algo que, definitivamente, eu preciso fazer de novo.

 

 

Depois dos 15, eu não quis saber de bday, de bolo, de vela, de sapatinho novo, de ursinho, de coleguinhas de olho no meu bolo. Nada, nadinha, nada, niente!

 

Só mesmo uma sem noção para celebrar alguma coisa quando a vida é o puro suco do inferno!

 

E assim nasceu a Guerra Contra Festividades ™.

 

E assim eu parei de ter noção dos números da minha existência.

 

 

Antes da missão de reaprender a contar, eu reaprendi a registrar.

 

O real ato de retomada do poder sobre as minhas memórias.

 

Mas eu não tinha noção disso – e nem tinha ideia do que começaria a acontecer na minha vida.

 

Automaticamente, na minha mente.

 

Eu voltei com diários em 2016, porque eu não sabia mais o que fazer comigo mesma. O que sei é que a vontade veio e eu não tinha grana para ir atrás de terapia. Desde então, é obrigatório eu ter um por ano.

 

E é abismante relê-los já que eu ainda esqueço dos entretempos.

 

Juro que estou tentando fortalecer os músculos no meu cérebro.

 

 

Eu aprendi com meus pais a registrar as coisas.

 

Na época que eu nasci, ter elementos palpáveis era essencial.

 

E está aí uma atitude que considero ótima em manter nos tempos atuais.

 

Nada dessa coisa de deixar estático na internet.

 

Afinal, se até as locadoras acabaram quem me garante que o Instagram também não vai?

 

As fotografias, tão quanto o que reencontrei no fundo do meu guarda-roupa em 2018, cartas e afins, me serviram de faróis que se direcionam nas minhas curvas cerebrais fúnebres. Quanto mais fundo vou na missão, mais eu tinha/tenho que jogar uma luz.

 

 

Objetos abrem minhas memórias também. Como um VHS de Harry Potter esquecido no fundo do armário.

 

Aniversário de 16 anos e nem sei se teve bolo.

 

Mas teve esse presente que veio de pessoas que não falo mais. Espero que estejam bem, inclusive.

 

O VHS marca o início de mudanças radicais na minha vida – e que explica melhor porque a partir dos 15 anos eu entrei em uma Guerra Contra Festividades™. Eu não estava mais no mesmo colégio, por exemplo, e vivi a famigerada morte terrível. E piorou porque eu não me formei no ensino médio com a turma que eu cresci. Drama, eu ouvi nos seus pensamentos, mas eu era adolescente e era meu direito culpar todos os planetas por esta tragédia.

 

Isso mudou minha relação com as pessoas. De novo, a questão de temporalidade.

 

Quando eu peguei o VHS, na minha faxina de 2018, eu fiquei triste. Eu ainda não tinha o argumento de que acessar memórias boas me machucavam mais que as ruins. Mas eu me vi no ciclo de eu deveria ter tentado mais. Só que eu me acostumei a ser um fantasma. Não significa que algumas pessoas também não se tornaram fantasmas para mim.

 

O que sei é que meu cérebro fragmentado me distanciou de várias linhas do tempo. Não só minhas, como das pessoas que convivi em certo período de tempo. Eu não consegui acompanhá-las, pois estava muitíssimo ocupada.

 

Como com um transtorno alimentar.

 

Eu me ausentei, mas meu relógio no tempo continuou contando.

 

Aguardando que eu reaprendesse a contar. E, assim, capturasse a noção do número de anos que corresponde a minha existência por aqui.

 

E, assim, voltar para a minha narrativa consciente do presente.

 

 

Para isso, eu tive que aceitar muitos aspectos das minhas memórias. Principalmente o que eu não conseguiria recuperar a não ser que viajasse no tempo. É uma atividade duríssima!

 

Quem quer aceitar que algo deu muito errado e nem foi por sua culpa, né?

 

Algumas coisas eu tenho culpa sim. Outras não. E essas outras que tornam determinadas memórias boas um completo pesadelo. Tornando fichinha nadar nas memórias ruins.

 

Afinal, eu me acostumei com elas. Sei cultivá-las e dar carinho.

 

As memórias boas mexem com a minha vulnerabilidade. Algo que me tornei mais aberta e muito disso se deve a experiências diferenciadas que mudaram meu rumo. Como a análise (que muitos resumem em terapia).

 

E descobri que a minha questão ia além de ter “apego” pelo ruim.

 

A minha questão sempre foi deixar o que é bom entrar. Consequentemente, ficar.

 

Se eu não abro passagem, bom, não tem memória boa que resista, né?

 

 

O ano era 2013. Mesmo com meu cutucão para o Instagram, ainda bem que ele está ali para ser vitrine de algumas memórias. As coisas são mais modernas, não é?

 

Sim, acertou quem disse que eu não me lembrava desse aniversário.

 

E eu me senti ridícula quando me dei conta da sua existência.

 

Para quem estava em Guerra Contra Festividades ™, se ver diante de 3 bolos, em 3 situações diferentes, com 3 diferentes grupos de pessoa, era demais! E a reviravolta maior foi que nesse mencionado ano eu aderi muito plenamente um quote de Stefan Salvatore: memórias são importantes.

 

O motivo? Eu estava no auge da fangirl com The Vampire Diaries e comecei a repassar a série.

 

Seja lá o que meu radar ou a minha roteirista ou sei lá queria com isso, bom, deve tá rolando alegria no bloco do universo que tem meu nome. Eu meio que segui tudo direitinho e isso se chama desenvolvimento de personagem.

 

Mas, antes disso acontecer, está aqui o que eu teria pensado diante daqueles 3 bolos, em 3 situações diferentes, com 3 grupos diferentes de pessoa: a algazarra, bolo pra lá e pra cá, que isso, um filme?

 

Os colegas do outro lado da mesa retornaram; O mesmo para a festa em família; O mesmo para o bolo que minha mãe já comprava e até hoje eu não sei como isso começou.

 

Estava tudo ali. Com as velas mais escandalosas.

 

Eu não levei a sério, mas nasceu uma emoção que reconheço melhor agora.

 

Eu não queria que meu aniversário acabasse.

 

Eu queria que meu aniversário continuasse no looping do universo.

 

Mesmo sem eu saber, eu estava iniciando o fim da Guerra Contra Festividades ™.

 

 

Do terror de dar meia-noite para anunciar que, hei!, hoje é meu dia, nasceu o terror de deu meia-noite e, hei!, seu dia acabou.

 

Mas não significa que eu reaprendi a contar nesse mencionado entretempo.

 

Eu estava no meu ano 27.

 

Eu tinha muito que aprender nos próximos 7 anos.

 

 

O farol dos aniversários se acendeu tão onisciente quanto o retorno dos diários.

 

Como o renascimento da consciência do tempo.

 

Meu cérebro acinzentado e fragmentado me deu a chance de regenerar suas falhas, brechas e espaços em branco.

 

2014. 2015.

 

2016 é o único ano que eu tenho uma brecha. Pensa em um ano tão ruim que eu quis sumir! E, bem, eu sumi!

 

2017. 2018. Anos que fortaleceram o contato com meu aniversário. De uma forma que, quando releio meus diários, ainda parece surreal porque foi incrível! Tipo, muito mesmo, de verdade! Festas na firma podem ser cool!

 

E a saga de bolos de mãe também.

 

2017, inclusive, foi o ano que eu voltei a escrever cartões de Natal. Papo para outro capítulo desta história.

 

2018 foi o ano que comecei a terapia. E foi bem aqui que A Guerra Contra as Festividades ™ oficialmente se encerrou.

 

 

2019 eu ganhei um novo entendimento das pessoas que eu tenho na minha vida.

 

Das memórias que quero manter.

 

Foi um ano que eu acreditei que seria 2016 de novo, mas tanta coisa mudou.

 

Como escolher pensar no lado positivo de aniversariar em tempo ruim.

 

 

2020. Um ano péssimo sem precisar terminar.

 

Mas 7 anos depois.

 

34 anos em meio a uma pandemia.

 

E, somando os números acima, e vamos de número 7.

 

O clima era oposto ao de 2013. 2020 tem um pouco de 2016, com 2019. Está bem esquisito.

 

O que não foi esquisito: mais um aniversário em tempo ruim.

 

O que também não foi esquisito: me ver em um cenário digno de 2ª Guerra Contra as Festividades ™.

 

E ela seria maior, muito maior, porque eu incluiria o mundo e todo mundo.

 

No caso, eu vs. eu mesma contra todo meu sistema nervoso.

 

… O cheiro do retrocesso bem ali na minha cara. As memórias ruins querendo me fazer cair na tentação de romper o que eu rompi aos 15 anos. E o clima de isolamento era o famoso cair como uma luva para outra tragédia acontecer.

 

No caso, eu desistir do tempo e desvanecer entre essas timelines.

 

 

De um cérebro que regenerava seus faróis, aconteceu o apagão.

 

Uma escuridão familiar. Que eu não temia. Que sei que sempre se apresentará como o melhor percurso.

 

E não foi por culpa da pandemia.

 

Havia o meu tempo e o tempo das pessoas.

 

Havia duas timelines correndo pelas minhas veias.

 

Não era um paradoxo.

 

 

Dia 14 de março foi o último dia que eu estive acordante com o tempo.

 

E, assim como aconteceu aos meus 16 anos, eu me vi fora dele.

 

Os ventos indicaram que havia outra lição antes de me realinhar oficialmente no tempo.

 

Uma que eu não gostei.

 

Uma que foi suficiente capaz de acinzentar e fragmentar mais meu cérebro.

 

E, quando se foi, eu me dei conta de que perdi quase dois meses do tempo dos outros.

 

Na virada dos 34, eu ainda estava desnorteada e deslocada por causa do tornado virulento.

 

Mas eu cedi e estava de volta. Sem saber direito meu nome.

 

 

Um farol se acendeu e eu relembrei do que escrevi no diário dias depois do que parecia o fim do tornado virulento.

 

Mas nada distanciava a sensação de que eu mudei.

 

De que o tempo estava esquisito.

 

De que eu deveria reaprender a contar o tempo para continuar retornando.

 

Mesmo depois de tornados virulentos.

 

 

Eu poderia dizer que foi a prova de choque de quem toma conta do bloco que tem meu nome no universo para saber se eu estava disposta a manter os faróis. Além disso, manter as notas de campo.

 

Nada como uma força oposta para me desancorar depois de anos temendo mudar o curso do meu navio. Para ver o que tinha do outro lado, ao Sul. Nem começara direito e veio a catástrofe cujo veneno ainda circula no meu sistema. O que tornou esse meu aniversário extremamente introspectivo. Eu pensei mais que o costumeiro.

 

Eu voltei a questionar tudo e todos.

 

De novo, indagando o valor da existência.

 

Outro farol se iluminou. Um que ignoro bravamente. Ou ignorava.

 

No caso, o determinador comum do meu tempo aqui: ser sobrevivente.

 

E não digo isso exclusivamente pelo papel de ser humana e de sobreviver dia após dia. Há um significado mais específico sobre sobreviver. Como sobreviver ao câncer ou a algum tipo de violência. É aqui que entra o novo normal que me faz revirar os olhos toda vez que leio em alguma matéria sobre a pandemia – porque não faz o menor sentido.

 

Dizer que você sobreviveu a um tornado virulento parece tão incerto quanto você achar que é especial. Não cai muito bem, pois soa como se você estivesse muito cheia de si. Gabando-se de algo quando se dizer sobrevivente é sair do posto de vítima depois desse maldito tornado virulento. É tentar retomar o poder de você mesma.

 

Mesmo aos frangalhos e em cima dos destroços.

 

Não há um senso de vitória, mas um anticlímax.

 

 

Vi-me parada apreciando os destroços, a fumaça, catatônica, sem saber por onde recomeçar.

 

Eu percebi que meus punhos nunca foram feitos a fogo, embora tudo de mim tenha se forjado em fogo. E, como o fogo, eu me indaguei se não deveria ter agido mais rápido contra o tornado virulento. Afinal, não era a primeira vez que eu lidava com um tornado virulento. Eu tinha como vencê-lo e tentei vencê-lo. Esgotando-me.

 

No dia dos 34, eu não conseguia sentir nada. A não ser o puro suco do cansaço e da irritação.

 

O que pode se transformar em uma raiva inflamável.

 

 

Havia uma decisão: interromper o tempo ou mantê-lo fluido em sua imperfeição.

 

Eu precisava de tempo para acalentar meus punhos que são do ar e meu coração oceânico.

 

Não dava para lidar com fogo sendo fogo. Não dessa vez. Não de novo.

 

E eu queria. Muito. Eu ainda não sei onde enfiar minha raiva.

 

 

Os destroços. Nunca foram tão propícios para cultivar flores.

 

 

Eu decidi não misturar as coisas. O que é ruim fica no bloco ruim. O que é bom fica no bloco bom.

 

Nenhum era mais importante que o outro. Eu era mais importante.

 

Mesmo presa, real ou metaforicamente, ainda havia vida lá fora.

 

E eu ainda estava inclusa.

 

E, intimamente, eu sabia o que eu queria manter: o que escrevi no diário dias depois do que parecia o fim do tornado virulento. Foquei-me nas duas palavras que surgiram no começo deste ano e que se reapresentaram em outra tentativa de articular a minha ausência de emoção.

 

De tentar esvair a raiva e a culpa.

 

 

Da mesma forma que é um sacrifício deixar memórias boas entrar, o mesmo se aplica a compreender que o que é ruim é temporário. Eis uma nova guerra que ainda não sei como batizá-la.

 

O que inclui o senso de controle. Os últimos meses me ensinaram demais sobre controle. Uma palavra que passou a me acompanhar aos 16 anos. Eu controlava o que saía e o que entrava. Simples. Eu não queria isso de novo.

 

As comportas… Elas se tornam pesadas demais com o passar do tempo. E, como disse, eu estava fartíssima!

 

Se há algo que aprendi nesse aniversário é que a vida é areia movediça. Ah, mas você jura? Juro com três Js. Minha vida sempre foi linear. Eu nunca ousei mudar a curva. E, quando mudei, eis o tornado virulento.

 

Eu quis muito retornar. Voltar para a mesma ilha. Ignorar tempo e espaço.

 

Eu estava muito exposta.

 

Daí me ocorreu algo importante. Algo diferente.

 

Nada do que eu vi e vivi era minha culpa.

 

E só é um tanto mais fácil pensar dessa forma porque eu não era o foco do tornado virulento.

 

Ao contrário do passado.

 

Mas, como aprendi, eu não fui menos vítima.

 

E, saindo da posição de vítima, você se torna sobrevivente.

 

E aí você tem que reivindicar um novo normal.

 

Mesmo quando não há emoção para começar de novo.

 

 

Antes do meu aniversário dos 34, eu entrei na moda dos jovens.

 

Eu cancelei a vida.

 

Não durou muito, porque eu acho que ela ainda gosta de mim.

 

Daí eu relembrei da fórmula contra vários venenos: ressignificar. Uma palavra que ganhei em 2018 e que tem sido meu motto – dado pela minha analista.

 

Elaborar e ressignificar. Jogar luz ao que foi ruim.

 

Uma lição que eu nunca tive antes, pois vivi no linear e no controlável. No que é exato.

 

No que é ruim.

 

Dessa vez, eu tinha uma saída.

 

Mesmo que tudo ainda doesse como o inferno.

 

Ao contrário do passado.

 

Lá, eu me mantive no mesmo lugar por não saber como reagir a tudo que me acontecia.

 

Por não saber como ressignificar o que se acumulava nas comportas que se transformaram em uma caçamba de lixo.

 

Eu não sabia como pedir ajuda.

 

 

O ciclo dos 34 reforçou a necessidade de recontar. É recontando que eu ressignifico.

 

A sensação de estar perdida entre o tempo e o espaço não é das melhores.

 

Eu perdi muitos céus bonitos. Muitos bolos. E vários cursos online gratuitos.

 

 

Certa vez, minha analista disse que eu saio antes da chance de permanecer. Aquele negócio de apagar o que não foi bom (mesmo resultando em algo positivo como me formar, sabem?). Na minha 34ª regeneração, eu não tinha para onde ir. Eu tive que ficar no mesmo lugar e vivenciar o que fosse. Não havia escapes – a não ser dormir.

 

Eu escolhi ficar acordada e isso se deveu, em parte, a uma música que reverbera desde o início deste ano.

 

You gotta step into the daylight and let it go

 

Daylight. Taylor Swift. Dizendo para “entrar” na luz do dia e deixar ir.

 

Infelizmente, eu nasci no outono.

 

O que felizmente não é tão horrível assim.

 

 

Depois do tornado virulento, novas coisas se manifestaram na minha mente. Com a minha absoluta baixa guarda, se gerou uma grande abertura, que eu chamaria de falha, no meu sistema.

 

À mercê de algo maior, o próprio universo, que acredito mais que a vida (?), minha mente começou a rebobinar. Pra valer! É como se eu recebesse várias informações perdidas de uma só vez e sem precisar de fotografias.

 

De diários e afins.

 

Levando-me aos lugares que eu evitei por muitos anos. Lugares bons.

 

Provando que minha mente não tem espaços em branco. Talvez, várias memórias suprimidas. O que importa é que as coisas/pessoas que um dia me importei ainda estão comigo. Registrado.

 

Eu não preciso ter medo.

 

Mas é meio assustador de qualquer forma. Lembrei-me de músicas que me arrancaram soluços (foi como chorar dentro de um copo vazio). Lembrei-me, principalmente, das versões que eu fui. Versões boas. Umas me deixam triste porque não as conheci direito. Outras me deixam no mood WTF?. Fato é que eu não poderia continuar sem ter passado por essas versões. Pela sua convergência de memórias. Eu preciso mantê-las. Elas me ajudam a recontar.

 

 

Rebobinando. Reaprendendo. Ressignificando. Coletando.

 

Eu preciso manter as notas de campo.

 

Deixar-me fluir e aprender o que é o amor (não exclusivamente romântico).

 

As palavras ditas para minha analista no começo do ano.

 

Assim, eu escolhi manter o movimento até estar de acordo com o tempo.

 

O meu tempo.

 

Mesmo que doa como o inferno.

 

 

Imagem destacada: Marianne Bos (via Unsplash)

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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