22jul
Arquivado em: Parágrafos

A vida pode conquistar uma nova energia quando há o reconhecimento de ser uma sobrevivente de tornados virulentos e não mais vítima deles. Entretanto, não significa que a vida melhora de um segundo a outro. Os tornados virulentos têm a capacidade de desorientar e de fazer dissociar, principalmente quando se fala do tempo presente.

 

Hoje é hoje. Não se sabe muito do ontem, porque o ontem parece o hoje.

 

E o amanhã também parece com o hoje.

 

Todos os dias parecem um só. Tornando as coordenadas sobre o tempo de retorno incoerentes.

 

Se é que houve um retorno, pois a sensação de looping parece uma regra catastrófica.

 

O que se sabe com certeza é que, depois de testemunhar uma guerra, na forma de um tornado virulento, é difícil voltar ao tempo — de hoje. Há uma fenda que nada tem a ver com antes e depois, mas sim com a delimitação do tempo de uma ao tempo dos outros. Simplificando, a sensação é de se estar do outro lado da calçada, esperando incansavelmente o farol ficar verde para pedestres e assim correr para alcançar as pessoas do outro lado.

 

(…)

 

Meses depois, ela ainda se via empacada na mesma calçada. Não por uma decisão sua. Aconteceu. Sem aviso. Como se não bastasse as outras coisas que aconteciam no mesmo entretempo.

 

Ela não conseguia se mover ao mesmo tempo que a angústia pelo movimento endossava sua paralisia.

 

Não havia muito que fazer a não ser imaginar que atravessava com graciosidade.

 

(…)

 

Os primeiros dias de retorno foram difíceis, mas se sombrearam como fáceis.

 

Ela tentou se informar para se situar. Leu alguns jornais. Viu alguns stories. Leu alguns tuítes. Era bizarro ver a lógica de que o tempo não é linear, mas seguia como se fosse. Com ou sem você. Diante das atualizações, ela se viu pretérita. Era outro século? Deveria ser já que sempre se achara uma criatura de outro tempo desde que nascera.

 

Não há uma fresta no tempo em que o tempo dela não se danificara, mas, dessa vez, o dano era mais profundo. Independentemente da sua consciência aprimorada, único ponto que tornara fácil discernir os novos e antigos venenos que queriam criar pungência em seu organismo. Tomou decisões. Como separá-los em comportas.

 

Ela os trancafiou pessoalmente para deixar de senti-los. Deu certo a curto prazo, como sempre dava, mas situações virulentas têm o poder de incitar o pior de si. O efeito do roubo da humanidade, tornando fácil odiar e repudiar.

 

Há uma impaciência indescritível. Além da raiva diante do fato de que, mesmo consciente, o tornado virulento ainda foi capaz de tomar tudo dela. Um tudo que sequer ela sabia que existia para ser tomado.

 

(…)

 

Dentro das comportas, os venenos iniciaram a dor física, mental e emocional. Ao menos nessa parte ela sentiu que ornava com o resto, pois ouviu dizer que o vírus, do qual fora propriamente apresentada depois do tornado virulento, tirava todo mundo do seu estado dito normal. Despertando um monte de insones.

 

(…)

 

Alteração bruta de humor. Mais rigidez. Explosões de raiva. Lágrimas. Desejos insanos de fugir. Desistir. Dor aguda. Ansiedades e ruminações. Nada novo se querem saber. Ela sabia disso, pois, todas as vezes em que perde a compostura, o senso de si, parece que ela volta a ter 15 anos. Uma época que todas suas dissonâncias nasceram, mas seu cérebro se adiantara para que não enxergasse a verdade sobre tais dissonâncias que se livrara alguns anos atrás.

 

E que agora serviam de catapulta para os atuais venenos. Uma maldita reprise que não queria que reprisasse.

 

Principalmente quando se refletia sobre as mudanças internas que queriam se propagar. Mudanças familiares também, pois consumiram muito dela no passado e a transformaram negativamente.

 

Não há condições de ser aquela pessoa de novo.

 

Só que o ambiente claustrofóbico, que impede saídas longas e contato direto com os amigos, não dava muita opção a não ser internalizar e torcer para não perder o resto da cabeça. Este é o pior momento para se lidar com traumas.

 

(…)

 

O calendário na estante de livros não a fixou no tempo. Alguns detalhes ajudaram, como um bolo, um aniversário, músicas antigas. Meses se passaram e a desorientação ainda era latente, e não tinha nada a ver com o relógio da sua vida. Ela ganhara a sobrevida, mas não sabia que horas eram. O dia. O mês. Ou sequer para onde ir.

 

Ela só queria ir embora.

 

(…)

 

O céu passou a ser a bússola em seu retorno a este entretempo. Servia de orientação como os ciclos da Lua. Algo ainda se movimentava e parecia possível se realinhar ao tempo. O curso do universo, cheio de eventos, como uma série de eclipses. Aparentemente, era a única carona que poderia pegar para se reajustar, mas não conseguia.

 

Ela ainda era incapaz de ultrapassar a fenda do tempo porque estava paralisada entre os tempos.

 

(…)

 

O cérebro ganhou novos arranhões em meio a outros arranhões que aprenderam a pulsar menos.

 

E que agora pulsavam em conjunto. Abrindo o chernobyl do seu subconsciente.

 

(…)

 

Seus sentidos estavam em todos os lugares.

Sentia-se presa e totalmente esquisita.

Menos segura.

 

(…)

 

O corpo dava sinais de que pifaria junto com o cérebro. Um corpo fora do controle, contorcendo-se, agitando-se, tentando conter as dores mentais. Querendo expelir o parasita que não pertencia à sua narrativa. Seja lá qual fosse naquela altura do campeonato, pois não estava conseguindo escrever nada que não fossem tristezas.

 

Irritabilidade. Solitude. Cansaço. Forças opostas dentro dela.

 

O corpo não conseguia processar os venenos e não se sabia até quando ele resistiria.

 

(…)

 

Ouve-se que dali as coisas só tendem a melhorar. Que se aprende algo.

 

Uma piada diante de um mundo em que há pessoas que sequer acreditam em um vírus.

 

(…)

 

De qualquer maneira, retornara a um tempo estranho.

O tempo do hoje.

Esvaziamento.

 

Queria submergir de novo.

Fundir-se ao silêncio oceânico

E expelir as coisas horríveis instaladas em seu organismo,

 

Porque o tempo era linear embaixo d’água.

Lá se abraça sobreviventes que ainda não sabem como sobreviver.

Regenerando-as primeiro.

 

(…)

 

Não há pressa.

A noção de tempo volta a crescer pouco a pouco.

Mas dias novos continuam a se abrir como iguais.

 

Fora dela.

O silêncio era pesado.

Lá dentro.

Uma versão dela, desconhecida, perambula, pensa.

 

As questões eram igualmente agridoces:

Ainda era nova?

Aquele ainda era seu novo normal?

 

(…)

 

Lembrou-se do tempo outrora submersa; do material sobre o que não fazer.

Ainda dava tempo de diferir de suas outras vidas?

 

(…)

 

A vida não melhora de um segundo a outro depois de um tornado virulento.

Mas, em algum instante, os dias se desmembrarão e deixarão de ser um só.

 

Tudo começa dispensando o veneno das comportas para encerrar seu colapso entre os tempos.

 

Imagem em destaque: Giallo (via Pexels)

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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