24jul
Arquivado em: Escrita

Eu afirmei: não quero mais saber de escrever.

 

E eu afirmei isso como se falasse sério e é perigoso quando eu falo sério.

 

Justamente porque eu recolho tudo da minha frente e tranco no limbo mental.

 

Ou dentro da gaveta mais próxima.

 

Bom, era mais um dia daqueles. Parecia definitivo. Minha história não estava dando certo, então, eu me convenci o dia inteirinho de que era melhor eu sair do clube de escritoras e escrever apenas para construir os sonhos dos outros.

 

Uma ideia que soa ótima se não fosse o agridoce de queimar o orgulho um pouquinho. Afinal, eu não quero gastar energia construindo sonho de ninguém. Meus sonhos onde ficam, hum?

 

Então que eu também afirmei que estava cansada de ser duas em um mesmo corpo.

 

Resultado: eu tinha que desistir de um lado.

 

 

Dias antes de estacionar no gabinete da escritora-chefe, eu me vi, pela milésima vez na minha existência, empacada no mesmo ponto da história da já mencionada Alice. O problema não era da Alice, mas da pessoa que a escreve. Eu. Um ser demasiado perfeccionista. Daquele jeito que quer que o rascunho seja cronológico.

 

Que o rascunho já seja a versão original.

 

Que já esteja perfeitamente revisado (porque eu tenho preguiça de revisar).

 

Exigências que não estavam sendo atendidas. E nunca seriam a não ser que eu fosse uma Time Lady.

 

Isso não evitou que eu entrasse na fila do gabinete da escritora-chefe para devolver a minha carteirinha. Quando chegou a minha vez, ela perguntou:

 

— Por quais motivos você quer devolver sua carteirinha?

 

Depois de ter afirmado tudo que afirmei, eu encerrei com: eu desisto.

 

Bem basiquinha!

 

A escritora-chefe me olhou, pois ela me conhece um tanto mais que eu mesma. E motivo tem: eu estou oficialmente nesse clube desde 2004, mas fui promovida a escritora em 2012. Eu poderia fingir, mas ela sabe que eu tenho muita coisa na gaveta que conflita com mais um pedido de desistência. Mas, mesmo que eu não a questione, sei que estou no top 10 de escritoras que todo dia desiste. Melhor, escritoras que desistem com as gavetas transbordando abandono.

 

Sendo assim, a escritora-chefe sabe, como sempre soube, que, mesmo na minha cara de pau de anunciar minha desistência do clube, eu continuaria procurando soluções. Escrever é meu caminho para encontrar soluções.

 

Mas, se não quero escrever mais, não há soluções. Genial (não!)!

 

Eu tinha que convencê-la de que nem isso eu estava a fim de fazer, pois, se eu encontro soluções, mesmo que temporárias, é evidente que eu desisto de devolver a carteirinha e volto para o meu cubículo. Eu volto para as minhas gavetas entulhadas de textos que nunca viram a luz do dia.

 

É o que normalmente acontece. E isso torna minhas desistências nada verídicas aos olhos da escritora-chefe.

 

Daí eu fico só na fórmula da Dilma: ninguém ganha, ninguém perde, todo mundo perde.

 

Vamos fingir que a ex-presidente disse tudo desse jeito.

 

 

Minha cara sequer tremeu diante da escritora-chefe ao anunciar a nova e definitiva desistência.

 

O sorriso Mona Lisa é meu favorito, pois se trata daquele que mantém o rosto meio misterioso. Não dá para ter uma clara leitura. Por isso mesmo que essa senhora repetiu a pergunta:

 

— Por quais motivos você quer devolver sua carteirinha?

 

Se é para ser honesta, bom, eu volto no fato de que empaquei em alguma parte da história da Alice, na nova reescrita que seria a segunda, e isso começou a se repetir muitas vezes. Nasceu uma angústia que me empurrava ao escapismo. O que não impediu essa angústia de ganhar pungência e fortalecer a certeza de que eu jamais serei uma escritora promovida a autora. E esse pensamento recolheu meu sorriso Mona Lisa e eu fiquei entre o grito e a tristeza.

 

A resposta da escritora-chefe? Ela disse seu mais básico tudo bem e pegou minha carteirinha.

 

Mas não pensem que sair do clube de escritoras é fácil. Você tem que fazer as malas, né? Despedir-se das suas colegas de escrita e das suas histórias engavetadas. Além disso, você tem que pensar em qual outro clube se enfiará já que escrever não será mais o seu ofício. E isso inclui a leitura, pois, sem escrever, por quais motivos ler?

 

ANTES DE SAIR DO CLUBE

 

Depois que joguei a toalha, eu tive uma semana para arrumar minhas tralhas e queimar rascunhos e etc..

 

Eu estava confiante. Finalmente eu sairia daquela aflição e me sentiria melhor.

 

Era o que eu pensava enquanto observava meus cadernos de anotações. Refleti sobre os anos de escrita. Sobre o quanto eu já avançara com meu projeto mais recente. Sobre o quanto todo mundo consegue menos eu.

 

Era o fim. Eu tinha que me despedir.

 

Não dava mais para eu sentir que há algo de errado comigo ou que romantizei ser escritora.

 

E eu não queria pensar sobre essas questões acima também. Estava cansada!

 

Aí eu decidi usar os 7 dias para fazer isso aqui também: nada.

 

Já era o tempo de encontrar soluções, então, vamos fazer bolos!

 

Quem sabe assim eu não entraria no clube das boleiras.

 

 

Às vezes, é do nada que você precisa.

 

Foi nesses dias de nada que eu notei que a ideia de sentar para escrever vinha acompanhada de uma angústia sem sentido. Outro tipo de angústia que me paralisava diante da ideia de escrever. Nada tinha a ver com a história da Alice, mas comigo. E piorava um pouco quando eu me sentia muito ansiosa, além de nebulosa mentalmente.

 

Esse é o período em que começo a ficar muito pra baixo e eu meio que vou deixando minhas coisas de lado – para depois sentir culpa por não ter feito nada, não que isso seja uma escolha, pois acontece por causa da minha saúde mental. Mas, dessa vez, eu tinha que manter o regulamento de nada. Eu tinha que rebater o desejo de sentar e escrever – o que me impediria de comprovar de novo o fracasso que gerou minha desistência do clube de escritoras.

 

Eu não sei explicar minhas angústias efetivamente (eu acho), porque elas me parecem particulares, não sei. Mas é uma angústia que nasce no meio do peito, que gera uma aflição que estressa todo meu corpo.

 

O grande porém é que, em vez de eu lidar com a angústia, que abraça minha ansiedade, eu sento em cima.

 

Daí eu fico parecendo uma máquina de lavar tentando dar conta de muito peso.

 

 

De acordo com a escritora-chefe, a única maneira de interromper a angústia é fazendo o que tem que ser feito. Mesmo que seja encarar uma história em andamento. Ou inventar um texto X para recuperar a confiança.

 

Nada de prolongar a perturbação. É isso que no fim a escritora-chefe quer dizer.

 

Eu sempre achei que essa angústia que me fez desistir da escrita era coisa do momento. Afinal, eu sempre retornava ao ofício e continuava de onde eu parei. Mesmo depois da perturbação que desencadeia uma série de pensamentos negativos. Tão quanto falsas verdades, como: desista. Porém, a coisa foi ficando descontrolada.

 

Era hora de dar um jeito de tirar essa perturbação de dentro de mim. Então, desisti.

 

Desistir é uma palavra que cultivo como se fosse uma planta venenosa. Eu bebo dela para acalmar minha existência e selar qualquer outro tipo de perturbação. Desistir estranhamente me acalma, pois, em tese, eu aniquilei o problema.

 

Se eu digo que desisto, logo, minhas aflições sobre a escrita vão embora.

 

Afinal, a escrita e o processo deixam de existir.

 

E ficou tudo bem até eu ler a ficha de outros clubes que posso entrar.

 

Laudo: eu me enrosquei em mais perturbações.

 

 

Em um dia de nada, eu fui atrás de soluções.

 

Eu resolvi fazer a entrevista de despedida com a escritora-chefe. Uma senhora que estava pronta para me ouvir implorar pela devolução da carteirinha.

 

 

De acordo com os autos da escrita, parte da minha angústia, mais precisamente a que nasce no meio do meu peito e estressa todo meu corpo, se chama writing anxiety. Que traduzirei como ansiedade (para reais ansiosos) sobre a ideia de escrever.

 

Uma vez nesse ciclo, a vozinha vilã do meu cérebro diz coisas do tipo: você é incapaz de escrever um romance por isso está empacada; ou quem sabe você só serve pra escrever coisa curta e temporária; ou você não será como as outras escritoras, nem mesmo estará ao lado daquelas que já faleceram.

 

Há muito mais nessa espiral, mas não quero deixar ninguém pra baixo.

 

Essa informação veio até mim porque a escritora-chefe me mostrou um artigo que define essa ansiedade como:

 

Sentimentos de tensão, pensamentos preocupados e mudanças físicas, como aumento da pressão arterial, quando se é confrontado com uma tarefa de escrever.

 

Eu continuei lendo o artigo e cheguei na parte do escapismo: algumas pessoas ignoram o projeto do qual estão dedicadas e passam a escrever sobre outras coisas a fim de interromperem a perturbação – como ter que entregar um job, por exemplo, pois é um job que dá o dinheiro do fim do mês.

 

Claro que eu poderia agradecer pelo conteúdo e cair fora, mas a escritora-chefe não resistiu em me aconselhar:

 

— Você precisa interromper a perturbação.

 

E ela sabe que essa perturbação na minha vida funciona em outros âmbitos além da escrita.

 

Como declarar o Imposto de Renda. Para eu interromper a perturbação, eu tenho que lidar com o programa, né?

 

Mas até eu lidar com o programa lá vai um mês de adiamento.

 

Daí eu angustio porque a ansiedade fica ali, circulando.

 

Um dia eu supero essa fase! Até porque a minha “resistência” em interromper a perturbação não é proposital.

 

Voltando. Tudo para essa senhora envolve começar. E ela ama dizer antes feito do que perfeito.

 

Eu até começo, mas eu já quero o perfeito antes. E isso também compõe a minha perturbação em escrever.

 

Daí a escritora-chefe perguntou:

 

— Quando foi a última vez que você escreveu com leveza? Sem preocupações?

 

Bom, eu escrevia feliz da vida na época das fanfics. Eu não tinha freio e reviews me alimentavam. Foi nessa fase que eu naveguei em vários gêneros, sem saber o que fazia, mas era divertido. O mesmo para contos que, até o momento, eu acredito piamente que não consigo escrever. E nem pela necessidade de ruminar a história por mais tempo.

 

Aí a escritora-chefe indicou um exercício antes da minha partida: reveja o que você já escreveu.

 

 

Muito da minha angústia envolve não achar que eu tenho voz narrativa. Ela existe, nem que seja na minha cabeça, mas eu não consigo replicá-la no papel. Aí eu passo raiva, e vem os bloqueios, e eu empaco e assim por diante. É a questão do perfeccionismo falso de querer que o papel seja fiel ao que está proposto entre os neurônios.

 

Daí eu descobri que preciso desenvolver no papel primeiro e depois vou para o Word.

 

Mas esse exercício me despertou para estrutura e voz narrativa.

 

Por quais motivos eu estava desviando de uma base que criei quando tinha 18 anos?

 

É uma questão de só aprimorar a base.

 

 

Aliás, eu preciso mencionar a cereja do meu pedido de desistência: eu não tenho garantia que continuar escrevendo dará certo. Feliz ou infelizmente, eu “cresci com essa visão” de que eu preciso ter garantia de tudo. Nada mais me frustra que energia despendida à toa. E, às vezes, eu me sinto assim sobre este site.

 

Pode ter sido um ato desesperador, mas eu disse tudo isso para a escritora-chefe. Sim, com omissões, claro, pois eu não queria passar mais vergonha. Daí ela me disse:

 

— Você precisa minimizar a importância da escrita.

 

Sabem aquele meme da Nazaré? Eu fiquei esse meme.

 

 

A escritora-chefe sabe o que fala. Ela vê pessoas como eu escrevendo bastante e esperando que dê certo. Ela sabe quem é valente de colocar os trabalhos pro mundo e quem se esquiva ou se aflige pelo perfeccionismo. Mesmo que eu não enxergue dessa maneira, eu sei que, lá no fundo, bem lá no fundo mesmo, sou um misto dos três.

 

Meus trabalhos estão no mundo. Falta apenas um para me promover a autora.

 

Seja lá o que isso signifique.

 

E eu nem tenho mais as ilusões de editoras como em 2013. O auge da minha ilusão de escritora porque era novata.

 

Eu tenho um grande impasse de colocar muito valor nas coisas. É bom e ruim. Bom porque torna meu desistir a maior lorota do planeta (e explica eu retornar de onde parei). Ruim porque eu quero proteger tudo que eu faço.

 

Como a escritora-chefe disse uma vez:

 

— Você sabe que se colocar para o mundo, você não tem mais controle. E você quer controlar tudo.

 

Eu fiquei quieta, pois a mais pura verdade.

 

 

Eu sou a pessoa que precisa de um sentido para escrever. O que pra mim difere da direção propriamente dita. Sentido para mim seria a descoberta que resulta na epifania. Direção seria aquela coisa de 3 atos de uma trama (e eu não me dou bem com isso justamente porque eu acho que minha escrita não comporta esse macete ~roteirístico~).

 

Assim, eu fico sempre questionando se projetos e processos fazem sentido.

 

Se sou mais torta que a proposta por não conseguir lidar com outlines.

 

Por essas e outras que desistir da Alice tinha outro peso em comparação a desistir do We Project (?). A Alice é uma história que veio para mim depois de quase 2 anos sem escrever um romance. Marcando meu retorno do retorno ao clube de escritoras. O que foi rolando é que, com o tempo, eu ultrapassei os limites da importância e isso despertou meu nocivo perfeccionismo.

 

E assim a minha necessidade de controlar o projeto.

 

Não tem como ser divertido e leve desse jeito.

 

Pior que sempre me pergunto quando a ansiedade sobre escrever surge. Quando eu vejo, opa, já estamos dançando juntas!

 

 

Daí, assim que voltei ao meu nobre quarto, eu pensei que a escritora-chefe poderia ter razão sobre minimizar a importância da escrita. Ainda mais porque era uma sugestão de solução do artigo que ela me fez ler embaixo de sua lupa. Era um caminho possível para acalmar a minha ansiedade sobre escrever.

 

Se eu tivesse sorte, essa seria a solução para o meu processo de escrita se tornar leve e divertido de novo. Além de ser uma oportunidade de rever meus processos. Inclusive, as razões de ruminar demais e, consequentemente, alterar o que não é para alterar.

 

Um último ponto que me faz dizer que a parte mais complicada de não ter um deadline de uma agente de escritoras é que você acha que tem todo o tempo do mundo com a mesma história. Mas isso desgasta.

 

E nessa circunstância a canção do desistir se encaixa também.

 

Você quer criar outra coisa porque não encontrou solução no projeto atual.

 

E acho que tudo bem essa parte. Afinal, você desvia a atenção que já estava bitolada e depois volta.

 

Então que eu chego à conclusão de que as Deusas da escrita erraram demais em inspirar uma geminiana com ascendente em Gêmeos a escrever.

 

É pura energia caótica.

 

 

E a escritora-chefe sabe disso e emendou no argumento anterior:

 

— Você já entra querendo sair!

 

Não errou.

 

Eu refaço antes de sequer terminar.

 

TESTANDO UMA COISA ANTES DE IR EMBORA

 

No meio do meu café da tarde, com as coleguinhas, bem pertinho do fim da minha permanência no clube de escritoras, algo me ocorreu: a Alice precisa mudar. Por mudar seria retomar a Alice como ela nasceu. Como uma pessoa adulta, com seus problemas adultos. Menos a parte da gravidez (um dia quem sabe eu resgate esse plot).

 

No meio do nada, talvez, eu tinha que entender uma coisa que alteraria minha visão da escrita: o que eu escrevia não cabe ao hoje. Isso de um ponto de vista de temas e de público-alvo. Alice ganhou muitos rascunhos como adolescente e era nessa fase que eu empacava. Sendo que a maioria das minhas histórias pegou a linha new adult e adult. #Chique.

 

A ideia de escrever tudo de novo foi muito natural. Eu não tenho dificuldades para começar um texto do zero. Claro que rolou uma breve aflição, porque eu trabalho na história da Alice desde 2018 (oficialmente falando já que o NaNoWriMo de 2017 foi só para despertar os músculos da escrita). E muito disso tem a ver com uma vida sem deadline profissional, o que abre mais para ruminação e, consequentemente, mudanças que não precisam.

 

Assim, eu gosto muito de deadline, sabem? Vindo de cima, embora eu consiga cumprir aqueles que estipulo para mim! Esse é o único tipo de controle que eu gosto de ter já que me coloca na cadeira para trabalhar.

 

E me colocar na cadeira de novo foi difícil.

 

E vamos de angústias.

 

 

Havia uma dica interessante no artigo que a escritora-chefe me fez ler. Dentre os meios de como minimizar a importância da escrita e eu acabei escolhendo escrever em Calibri, nº 11, e com a tela do Word reduzida.

 

Era como eu fazia na época de fanfics. Com a diferença que eu usava o WordPad (comportamentos no trabalho em dias de marasmo).

 

Nada de parágrafos. Nada de recuos. Nada de nada.

 

Tá. Mas do que adiantou?

 

Bom, essas ações têm seu jeito de mudar os hábitos do cérebro. Afinal, eu estava criando outro hábito, porque o antigo me deixava mal. Assim, ressignificar a importância da escrita me serviu de reinício. De raquete para desviar do peso de que escrevo um livro. Diminuiu-se a pressão e a minha bitolagem sobre o processo.

 

Nasceu um hábito mais leve, que remete a um passado de escrita positivo, para romper a ansiedade sobre a escrita.

 

Tem horas que memória afetiva é tudo!

 

Aos pouquinhos, eu comecei a exercitar um lado meu que foi consumido pela rigidez do tempo: ser desencanada. E assim eu reencontrei um negócio chamado fluência.

 

Eu tive que abraçar a bagunça também, porque ela funciona para mim. E acho que agora entendo o termo paisagista que uma autora do clube de autoras disse um dia aí. E outra autora que se dizia amadora, pois, se dizer escritora, era o mesmo que dizer que ela seria uma profissional quando ser amadora permite escrever quando der vontade.

 

Ver-se como amadora realmente diminui a seriedade de tudo. Não de um jeito negativo, porque você ainda leva a sério. Mas não tão a sério ao ponto de querer desistir e devolver sua carteirinha de escritora.

 

 

Por mais que eu não quisesse admitir logo de cara, diminuir a seriedade caiu como um antídoto. Eu consegui sentar sem temer a cadeira ou o notebook. Eu ainda era capaz. Seja lá o que isso signifique também.

 

Eu recomecei bem. Escrevi até que rápido. Não há nada mais valoroso para mim que ir descobrindo o contexto conforme escrevo. Algo que eu esqueci do quanto era bom visto que eu queria ser a voz de autoridade em cima de personagens já exaustos de tanto passar pelas minhas alterações. Desculpa, Alice!

 

Diminuir a importância da escrita criou uma zona de respiro e eu comecei a ficar empolgada de novo. As ideias começaram a vir naturalmente e aprendi a adotar a versão extremamente cirúrgica do outline.

 

No caso, capturar o primeiro pensamento que vem depois de um capítulo encerrado. Só assim para não ruminar e me perder para o segundo pensamento que é racional e cheio de defeitos.

 

Por mais que eu também não fosse admitir logo de cara, eu fui vendo que a escrita retornava a ser leve e divertida.

 

#FICASTEFS

 

Muita coisa aconteceu na minha vida em curtos meses e eu fui interrompida do ato de escrever a Alice (em dar seguimento à reescrita). Meu mundo perdeu o sentido. Automaticamente, meus projetos não tinham mais sentido.

 

Mais rápido que das outras vezes, eu notei que algo mudou em mim e que eu tinha que escolher.

 

Daí, eu me lembrei de um livro que a escritora-chefe indicou certa vez: Your Art Will Save Your Life. Lá, a autora diz (ela se chama Beth Pickens, a propósito):

 

Artistas precisam fazer arte como forma de autocuidado. 

 

Eu realmente acredito na escrita como uma forma terapêutica e deve ser essencialmente por isso que me mantive por tanto tempo no clube de escritoras. Há essa necessidade de articular emoções, tirá-las de dentro de mim no intento de expurgar venenos. Principalmente quando envolve o meu passado que é onde eu encontro minhas ideias.

 

Não é a cura, mas ajuda a não acumular tanta coisa dentro de mim.

 

E eu estava congestionada como há muito tempo não me sentia e desistir, bem, encolheu minhas perturbações.

 

Vamos lembrar que fiquei uma semana entregue ao nada.

 

Seja lá qual era a meta da escritora-chefe em puxar minha orelha por esses anos, eu percebi que, desde que comecei a Alice, meu processo de escrita precisava mudar. Urgente! E diminuir a importância me colocou de volta aos cernes que me inspiravam e me fez ignorar regras (que só servem para queimar o espírito da coisa toda). Isso não é garantia de que todos os dias são bons. Vejam bem: vivemos em uma pandemia, não tem como ser bom.

 

Aliás, escrever se tornou a única forma para eu me cuidar durante o isolamento, porque é meu método para alcançar um tipo de sentido já que a direção é consequência.

 

 

Foi uma semana intensa.

 

E o que sei é que o único jeito de acalmar minha ansiedade, diminuir minha melancolia, entender meu passado, é expondo os fatos em texto. É fazendo! Independentemente do resultado. O que eu preciso aprender é interromper a perturbação sem sofrer tanto ao ponto do meu cérebro e minhas emoções se bagunçarem profundamente.

 

Acredito que muita gente se encontra nessa dificuldade, pois parece impossível trabalhar, criar e afins quando o mundo continua se desintegrando.

 

Parece até que você não tem que fazer nada a não ser tentar segurar o mundo.

 

Mas daí eu pergunto: e o seu mundo?

 

 

Nada disso era sobre desistir.

 

Se eu saísse do clube de escritoras, depois de muito tempo, eu não eliminaria minhas perturbações. Até porque eu realmente não sei o que eu faria uma vez que a escrita deixasse de existir na minha vida. De ser uma opção. Eu, literalmente, cheguei decidida em abrir mão da única coisa que ainda me deixa em paz de certo modo.

 

Eu tinha que desistir de um lado e esse lado era o lado do controle. O controle me faz sair antes de permanecer. O controle incita importância exagerada. O controle pronuncia o perfeccionismo que me congela. O controle me aflige.

 

Um controle que não brotou por causa da escrita. Ele está comigo desde os 16 anos e, sem ele, parece que não funciono de outra forma. Sem ele, parece que não tem como conciliar a escrita de um job e a escrita de um livro, pois eu giro no senso de que todas as horas precisam atender determinado objetivo. Se isso não dá certo, ah!, pronto.

 

Um controle que fortalece esse negócio de querer ter garantia de tudo. Desvalidando a questão de sentido, pois direção é consequência.

 

Daí eu aprendi uma nova lição: quando o controle vem, eu olho além da janela do meu quarto. O mundo está fora do controle e virou uma areia movediça. Não há prova maior que esse negócio de controle não existe!

 

Ninguém sabe o dia de amanhã. Não há lista de tarefas que traga conforto.

 

E meu conforto é me manter no clube de escritoras e escrever. É a única coisa certa que eu tenho atualmente.

 

Daí que, folheando as outras marcações de Your Art Will Save Your Life, eu tomei outro tapa:

 

Lembre-se de que você está em sua vida, a única que você tem. Você consegue torná-la significativa e bem vivida a cada dia, independentemente do clima político. As pessoas criam comunidade e beleza nos climas mais traiçoeiros e fascistas.

 

Há quem diga que escrever não é arte, mas se apressam em dizer que é absurdo se cobrar por livros e afins.

 

Mas é arte. Esculpe-se a história a partir de uma tela em branco que recebe suas angústias.

 

Como uma pintora.

 

(pergunto-me o que o clube de pintoras tem a dizer sobre controle).

 

Se é a arte que salvará a minha vida, então, não há motivos para me afastar dela.

 

Ao menos não hoje. Porque hoje precisamos de arte mais do que nunca.

 

 

Depois disso tudo, a escritora-chefe, com seu grande talento de ler pensamentos, me disse:

 

— Estar em serviço é um forte antídoto para a depressão. Quando você se sentir uma merda absoluta, tome uma ação contrária ao que seu cérebro está lhe dizendo.

 

Ela citava Your Art Will Save Your Life.

 

É a frase que está pendurada na parede do gabinete. Acima da cabeça dela.

 

É a primeira coisa que as escritoras enxergam quando entram ali.

 

Ou pode ter sido apenas eu. Afinal, tenho a impressão de que a frase se altera conforme as necessidades da escritora desistente da vez.

 

E essa é uma frase que pode não funcionar sempre, mas serve de lembrete para os dias em que é possível agir sem pensar em desistir da escrita.

 

Não desista da escrita.

 

(…)

 

Faça o que faz sentido pra você! ❤

 

A frase que eu colei na parede do meu quarto depois de ter minha carteirinha de escritora de volta.

 

 

Materiais mencionados: 

If You Suffer From Writing Anxiety, Here’s How Write Anyway

Your Art Will Save Your Life

 

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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