10set
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Ela respirou fundo. Sugando o ar pela boca. Prendeu-o. Contou até 7.

 

Liberou-o. Sentiu seu coração pulsar gradativamente. Sua mente se desanuviar. Seu corpo reagir.

 

Não tinha afogado, mas era como se tivesse — de novo.

 

Foram muitos meses perdida no meio do tornado virulento.

 

Até encontrar uma brecha para emergir — de novo.

 

Que tempo era aquele?

Ela não sabia.

 

 (…)

 

Aos poucos, ela tomou consciência do que acontecera antes do tornado virulento. Um exercício complicado, pois parecia que tal antes sequer existiu. Mas, graças às notas de campo, penduradas do lado de fora da bagagem rente aos seus pés, ela se lembrou de que caminhara um pouco. Que possuíra a vontade de reconstruir sua narrativa. Que quisera viver um depois em um novo normal que, concluiu, se transformou em outro novo normal. O cenário parecia um replay, mas com a diferença de que não era totalmente sobre ela.

 

Constatação que deveria ser no mínimo aliviante. Não era. Não quando se tornara parte indireta da violência.

 

(…)

 

Sentada entre os escombros, ela costurou o passado. Refletiu sobre as outras vidas e do quanto vivera submersa em meio a elas. Cogitou que poderia se deixar afogar de novo, pois tudo doía. Nada fazia sentido. Nem aquele mundo.

 

Mas havia algo diferente no ar. Um cheiro pungente de queimado.

 

Raiva — que jazia nos desconfortos de ser incapaz de controlar as suas sombras.

 

O tornado virulento despertara as suas antigas versões de uma só vez.

 

Colidindo-as até entre lembranças das quais deixara para trás.

 

(…)

 

Viu-se confusa e perdida. Buscou o senso de paz já que, aparentemente, o tornado virulento se dissipara — o que não lhe dava confiança. Aguardou, por outros longos meses, mas o senso de paz não veio. Só havia o agridoce do caos.

 

E ela no agridoce do caos, sentada no mesmo ponto, sem o interesse de ir descobrir o que significava aquele novo normal. Sem a inspiração para continuar a preencher a bagagem. Não havia estímulo para reagir.

 

Logo, se viu no dito sistema de sobrevivência. Parada, vigiando, amedrontada e em silêncio. Convencendo-se de que deveria ser forte para ao menos passar pela vida — de novo —, mas sem ter a consciência dela.

 

Padrões de sobrevivência que ela se viu querendo extirpar. Não cabia àquela “ocasião”. Nada cabia àquela “ocasião”. Nem a vitória, pois o tornado virulento poderia retornar. E, caso não retornasse, o tornado virulento seguiria registrado na memória e na memória do corpo. E, talvez, levaria uns anos para que seu efeito se assentasse. Ao menos, o suficiente para que desconfiança e incerteza deixassem de ser “as únicas coisas que restaram”.

 

Nada novo para ela, mas terrível de todos os jeitos possíveis e inimagináveis.

 

(…)

 

Tudo estava diferente naquele novo despertar, menos o céu de brigadeiro que a vigiava intensamente — e ela sabia que o céu de brigadeiro testemunhara tudo. Sentiu mais raiva. Sentiu mais raiva da claridade que contraiu sua visão.

 

Tudo era piorado daquela vez, apurou, ao ponto de se convencer de que era melhor ficar entre os escombros.

 

Não havia para onde ir de qualquer maneira.

 

(…)

 

Tal resultante se assemelhou a sensação anterior de que tinha capotado por engano. A diferença é que não estava sozinha. Havia duas mais ao seu lado. Derrubadas pelo mesmo tornado virulento que escolhera uma delas para dizimar sua violência. Nada cabia àquela “ocasião” a não ser a vontade de revidar.

 

Foi quando ela se deu conta de que também testemunhara a ação do tornado virulento. Nunca vira nada parecido. Não tão perto e do lado de dentro. Nem em seus próprios tornados virulentos, pois os padrões de sobrevivência agiram rápido e se aliaram à alienação. Uma alienação que não existia mais. Tornando-a capaz de nomear o tornado virulento. Saber de onde o tornado virulento vinha e seus objetivos. Realizações que não apagaram o agridoce da conclusão: um nome não protegeu e nem impediu que os escombros se tornassem minas engatilhadas.

 

(…)

 

O que aconteceria agora?

Sumiria de novo?

Estabelecer-se-ia?

Não era mais necessária?

Silêncio.

 

Não havia respostas exatas, pois poderia submergir do mesmo tanto que emergir.

 

O fluxo da vida que se diferia entre tornados virulentos.

 

(…)

 

Levantou-se e olhou ao redor. Não havia nada além de um mar de distanciamento. Porém, continuava a ser oceânica. Cheia de oscilações. Agitações. Com diferentes picos da maré. Vivendo entre os colapsos do tempo e do espaço.

 

Não havia tanta beleza.

Dentro e fora.

Fora e dentro.

 

Quis respostas.

 

Um tornado virulento jamais acontece em nome de um bem maior.

Violência não tem justificativa maior. Nem um bem maior.

 

(…)

 

Mais raiva despertou o desejo dela em reconstruir o próprio navio do jeito que dava e navegar sem freio, pois, de novo, a vida se mostrara nem um pouco segura — nem dentro da própria casa. Ela queria romper os efeitos do tornado virulento e assim decidiu que os padrões de sobrevivência não a conteriam. Vontade e decisão que se entrelaçaram aos seus próprios tornados virulentos que despertaram em efeito do despertar de suas outras versões.

 

Raiva rompe.

Deixa o rastro de que não há nada mais a perder.

Ainda mais quando o resto já parece tomado.

Restando isso mesmo: nada mais a perder.

 

Por pouco, ela estabeleceu um novo mantra.

 

(…)

 

Ela escolheu submergir. A realidade era difusa e, ao mesmo tempo, insustentável.

 

Refletiu sobre o fato de que não havia essa de lição a ser aprendida. Nem de aguardar mudanças positivas que surgem em cantos assombrados. Nada disso apaziguaria ou apagaria outra marca eterna, com novas infiltrações e com o mapa de cicatrizes ampliado graças ao impacto do tornado virulento.

 

Mas havia mudanças, com certeza. E ela demoraria a saber quais visto que o mundo externo ainda não é transitável.

 

O que sabia é que não havia garantias contra o tornado virulento a não ser esperar e observar. Essas foram as condições que a deixaram mais tempo submersa. Esperando a resolução. Esperando que a terra ficasse menos movediça. Esperando a chance de romper o silêncio. Esperando por um fim que não viria tão cedo.

 

Até que ela emergiu.

Não totalmente intocada.

— de novo.

(…)

 

Isolamento entre os escombros.

 

Ela decidiu lidar com parte das mudanças incoesas.

Dentro e fora.

Fora e dentro.

 

Algumas nem um pouco novas, como se sentir presa e não saber o que fazer para libertar todas as partes.

 

Mas precisava agir. Construir um novo navio. Sem pressa.

 

(…)

 

Levou-se um tempo para ela revisitar a bagagem aos seus pés.

 

Havia algumas coisas que a acalmaram, pois se relembrou de que, em algum momento, ela existira.

 

Um novo calendário com desenhos feitos a tinta. Cadernos que registraram o início de alguns estudos e alguns poemas que capturaram as emoções difíceis. Poucas notas de campo, mas suficientes para redirecioná-la.

 

Redirecionar… Foi então que ela olhou para trás e avistou o ponto do qual saltara para estar naquela exata posição. Um salto que não acontecera devido ao poder de algum tornado virulento, mas sim porque era hora de deixar outros tornados virulentos para trás. Os seus próprios tornados virulentos.

 

Ela finalmente emergira e saltara. Para longe deles. Deixando o que podia ir. Aceitando o que não podia mudar.

 

Mas, daquela vez, ela não foi o foco direto do tornado virulento. Por isso, ela não precisou saltar de novo e deveria ser por isso que não submergira como antigamente. Que emergira mais rápido que o costumeiro.

 

No entanto, não queria dizer que sentia menos dor e que não reconhecia que vários danos seriam permanentes.

 

Mas não a paralisia.

 

(…)

 

Ela relembrou das suas outras versões — de novo.

Havia um luto de maneira geral.

Pensou como se encaixaria em um mundo que não fazia a menor ideia de como funcionava.

 

(…)

 

Ela não tinha a menor ideia, mas, entre suas fases de submersão, forças ao redor de si, que despertaram antes do tornado virulento, continuaram a trabalhar. Inteirando-a entre os escombros para minguar a paralisação.

 

Antes daquilo tudo, outro tudo existia e esse tudo aumentou a claridade. E essa claridade não contraiu sua visão.

 

Pouco a pouco, o caminho interrompido se revelou.

Um caminho que poderia ser retomado quando ela estivesse pronta.

Mesmo que minimamente.

 

(…)

 

Diante do caminho, ela sentiu tudo em ondas. Crescendo, se avolumando, cobrindo-a.

 

Não viu beleza. Não tinha como.

Era puro anticlímax.

 

Mas tinha que reagir e, por um momento, ela julgou ser um desejo oriundo da atualização de seus padrões de sobrevivência. Antigamente, outra parte de si escolheria se interromper. Encolher-se para caber nos escombros.

 

Colapsando até submergir totalmente.

 

Mas precisava reagir.

Colocar-se junto ao tempo.

Ao menos por dentro.

Mesmo que minimamente.

 

O caminho ainda estava aberto.

A bagagem ainda a esperava.

O tempo não lhe tirara a chance de (re)aprender a (re)viver.

 

(…)

 

Uma nova chance.

 

Ela já conhecia a batalha de autosalvamento e teria que continuar. Sem repelir nenhuma parte de si. Sem se afogar tanto.

 

Ainda dava tempo de se diferir de suas outras vidas. Sem abrir mão delas, pois elas lhe cederam a cartilha do que fazer:

 

Ser como o oceano.

Seguindo, mas sem esquecer.

E, não esquecendo, saberia a melhor maneira de se regenerar.

 

(…)

 

Quem sabe, ainda escrever a história de onde se interrompeu.

Mudar o rumo, pois novo normal não tem mais nexo.

 

(…)

 

Um dia de cada vez era a única frase pronta que a cobria de sentido.

 

Bastava ela partir da promessa de meses atrás:

 

Focar em preencher a bagagem com o que podia. Cuidar das novas cicatrizes. Endereçar as novas infiltrações. Dispensar o veneno das comportas para encerrar seu colapso entre os tempos. Lidar com bancos vazios devido ao seu tempo que se dissociara do todo. Retornar a ser de si…

… Consciente de que estava tudo bem caso precisasse submergir, pois, após o tornado virulento, a vida deixa de ser a mesma. Tão quanto os sentidos e o senso do resto.

O senso de si.

 

Cuidar de si para conseguir cuidar do resto.

Reaprender o que é segurança a fim de se assegurar dentro dela mesma,

Mas não do jeito como suas versões anteriores fizeram — a base do silêncio.

 

(…)

 

Ela não tinha a menor ideia do que viria depois, mas nunca se esquecera da sua função. Não sabia se tinha espaço para exercê-la ou se ainda estava no comando.

 

As oscilações dentro dela seguiam intensas tão quanto os padrões de sobrevivência do passado que queriam congelá-la entre paranoia, medo e vigilância — que não sumiriam tão cedo.

 

Mas aquele tempo ainda era seu. Desde o começo.

Ela era a responsável em nortear suas outras vidas. E a sua vida.

No fim, ela seguia sendo a parte que sempre resistiu e que continuaria resistindo sempre que puder.

 

(…)

 

E era no mínimo duvidoso que aquilo estivesse acontecendo.

Mas acabara por encontrar o que escreveu depois do seu salto:

 

Ancore-se em mim.

E tudo ficará bem.

Eu sou sua bússola no meio do caos.

O primeiro pensamento, não o segundo.

Eu sou você antes de tudo começar a ruir.

Eu sou o motivo de você ter sobrevivido.

 

Inteirar-se – a bússola para escrever uma história que sequer sabia por onde começar.

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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