18set
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Era 2016 quando assisti Quase 18 (The Edge of Seventeen). Pela experiência ter rolado nesse mencionado ano, não foi surpresa eu não ter assimilado a história como ela merecia. Contudo, eu nunca me esqueci do poder de Nadine. A personagem principal deste coming of age estrelado pela minha também querida Hailee Steinfeld.

 

Em um passado distante, eu dava prioridade na busca por histórias adolescentes nas prateleiras da locadora. 10 Coisas Que Eu Odeio em Você até Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado – alguns exemplos que sempre caíam no repeteco. Minha adolescência percorreu ao redor desses e de outros títulos. Era algo que me deixava mais feliz.

 

Conforme fui crescendo, me distanciei e, por um tempo, achei que foi porque eu quis. Ou por acreditar que uma pessoa jovem adulta, que transita para ser adulta, tinha que “amadurecer o gosto”. Independentemente, esse tipo de conteúdo seguiu vindo aos baldes na minha direção e foi aí que eu comecei a me reaproximar. O auge veio quando eu passei outros anos da minha vida resenhando séries teens. De uma só vez. E está aí algo que sinto falta, viu?

 

Devido às resenhas, nasceu um tipo de comprometimento que, às vezes, eu finjo que não existe. Porém, é diante de histórias como Quase 18 que a emoção retorna. Que minha adolescente interior volta a vibrar. E foi natural me ver cada vez mais apaixonada por esta história nas vezes seguintes que a assisti. Hoje, posso dizer com tranquilidade que me identifiquei com Nadine. Melhor, que minha versão teen se encontrou com eficácia em uma personagem teen.

 

Na adolescência, há sempre aquela coisa de caçar identificação com personagem. Algo que não tive muito e estabeleci o padrão inconsciente de sempre curtir as vilãs – e, às vezes, acho que isso foi motivado pelo fato de que as vilãs tinham o cabelo escuro, como eu. As vilãs, como Kathryn Merteuil, eram perfeitas do meu ponto de vista.

 

Elas tinham controle sobre tudo (e vamos de ignorar um pouco a questão de caráter).

 

O que realça a contrapartida, pois personagens com cabelo escuro também eram as ditas “feias”. Eram os patinhos feios que o boy popular se apaixona depois de perceber que foi idiota. Largando a loirinha.

 

Em Quase 18, Nadine é felizmente apenas Nadine. Uma adolescente que passa por uma série de reviravoltas que a tornam uma aparente melodramática. Uma aparente mimada. Ou uma aparente chamadora de atenção do pior jeito possível. Isso aos olhos da mãe e do irmão, figuras que esboçam a pungente falta de paciência de lidar com ela.

 

Quem assumia esse job era o pai. Ele sabia articular as emoções e mostrar que Nadine é uma pessoa.

 

Até o pai falecer embaixo do nariz de Nadine.

 

Quase 18 - Nadine

 

Seguindo o pressuposto de jovem melodramática e que chama a atenção do pior jeito possível, Quase 18 abre com Nadine ameaçando atentar contra a própria vida. O anúncio vem em efeito de uma ação já ocorrida e que não é revelada inicialmente. Gerando um impacto que eu sempre torcerei o nariz, pois, evidentemente, não tinha necessidade de começar uma história assim.

 

Eu poderia abrandar ao dizer que tal comportamento é “muito adolescente”. Contudo, no transcorrer do filme, acredito que Kelly Fremon Craig, roteirista e diretora, poderia ter usado outro tipo de gatilho para prender a atenção do professor que escuta a tagarelice angustiada sobre o pior dia da vida de Nadine. Até porque não passa de um comentário de choque para segurar quem assiste já nos primeiros minutos.

 

As entrelinhas sobre o “desejo de morrer” ficam no ar, pois o roteiro nos encaminha para o passado no intuito de entendermos um pouco os motivos de Nadine agir como age no presente. É o momento que Quase 18 desafia a questão de que todo adolescente é dramático apenas pela necessidade de ser dramático. Justamente porque os adultos acreditam que é frescura. Que é questão de dar gelo no aborrecente e deixar passar. Que é questão de chamar a atenção. No caso de Nadine, há uma história de choque que a abalou mentalmente: a perda do pai em mais uma noite em que ele a fazia se sentir relevante. Episódio que a consumiu por 3 anos e deixou um vão dentro dela.

 

Episódio que, no flashback, dá a base sobre a existência de Nadine até seus quase 17. E vamos de laudos: ela se sente invisível (antes mesmo de perder o pai), à parte e esquisita. Ela sofre bullying. Sua mãe não tem paciência com sua pessoa – e Nadine não faz por onde. Sem o pai, que foi a cola da família, ela se sente mais sozinha ao que já se sentia. Afinal, era ele que a incluía já que a mãe vê o irmão mais velho como a criança especial e não problemática.

 

É esperado que as coisas melhorem depois de uma fatalidade, mas a fatalidade distancia os Franklin. Nadine segue como o poço de estresse (às vezes proposital) da matriarca. O irmão mais velho é quem a personagem busca pela atenção masculina ausente, mas ele é o bem-sucedido e popular que não diz coisas incríveis – e ela o provoca do pior jeito. Do nada, por assim dizer, Nadine se vê excluída entre forças duais que nunca a escutam e a botam pra baixo.

 

Krista, a melhor amiga, é sua última âncora. A fuga do meio familiar que dá a Nadine uma percepção de normalidade ao ponto de conseguir ser um pouco ela mesma. Sem se sentir um grande alien. Ambas são grudadas desde que eram pequeninas e as coisas mudam em uma festa de pijama. Krista acaba sendo flagrada na cama do irmão que Nadine tanto odeia e assim se inicia outro famigerado fim dos tempos para a protagonista. Poderia não ser, claro, pois, em um primeiro instante, a situação é manejável. Nada como uma conversa. Mas conversa não é a melhor aptidão de Quase 18.

 

Quase 18 - Nadine e Krista

 

A força de impacto do flagra reverbera o quanto a protagonista não começou de novo e não ultrapassou o luto. Além de ter horror de ficar sozinha. Mesmo depois de três anos, ela continua presa no incidente do pai. É um trauma que, sem querer, Krista deixa em carne viva. Seja pelo medo de Nadine em perder ou por crer que nada de bom fica ao seu lado.

 

Nadine não quer saber de Krista e nem como Krista se sente. Replicando o comportamento dos mais velhos ao seu redor. Tudo piora quando a BFF e o irmão engatam um relacionamento sério, pois o autocentrismo da protagonista estala. Aumentando o vazio e a raiva de uma adolescente que sente que seu resto de mundo foi roubado. E dói mais porque o ladrão é o irmão. O garoto que ela mesma diz que quer absolutamente tudo e consegue ter absolutamente tudo. O ranço entre ambos é palpável.

 

Um dos vacilos de Nadine é ferir como ninguém quando suas necessidades não são atendidas ou quando não sabe reagir adequadamente a situações estressantes. Defensivas que a tornam dúbia. Por se sentir ferida e traída, ainda mais porque parece que todo mundo prefere o irmão a ela, a personagem ataca a melhor amiga e abre a decisão de escolha: ela ou ele. Krista não diz nada, mas a amizade se “encerra”. Uma nova perda para quem não lidou com outra perda e isso é veneno na mente da protagonista.

 

Tudo se esparrama e dá aval a emoções sem controle. Inicia-se, assim, a falsa prova de que a personagem consegue se virar por conta. Ainda mais quando está rodeada por pessoas vacilonas. Abre-se uma trajetória solitária, com mancadas comuns de uma adolescente praticamente desesperada por atenção.

 

Quase 18 - Nadine e Erwin

 

Sem Krista, Erwin, o garoto da carteira ao lado, se aproxima de uma solitária Nadine. É quando Quase 18 muda seu tom, pois não se trata mais de melhores amigas contra o universo. As coisas se voltam para o cerne romântico, mesmo que seja platônico – e a protagonista é a rainha do platonismo. Os dois iniciam uma amizade muito bacana, abrindo mais para a personalidade confusa da adolescente que mantém as piadas e as sugestões de mau gosto.

 

O encontro dos dois funciona, pois infiltra uma transição positiva ao filme. É um ponto de leveza e que destaca que Nadine não tem interesse em se apaixonar. A jovem quer ter companhia e isso esboça mais do que lhe falta. Como o diálogo já que, uma vez que abre a boca, ela não para mais. Inclusive, a já mencionada figura masculina visto que Erwin é um exemplo de quem abre outros caminhos para uma protagonista sem muita referência e suporte.

 

Nadine é deslocada do mundo feminino e dança conforme o vazio de duas perdas. Quando não está com Erwin, ela se vê em boa parte do filme perambulando na vizinhança. Ou enchendo o saco do professor. Ou indo atrás de Nick, o desejo platônico. Demonstrações do quanto ela se sente perdida e descontente. Quanto mais a protagonista avança sozinha, mais se vê que ela quer ser ouvida e vista. Sem esperar nada em troca. Como seu pai fazia.

 

Isso fica mais evidente quando ela critica duramente como os jovens não conversam e se diz uma alma velha. Quando esse comportamento é na verdade de alguém que não tem escuta. De quem viu ao longo do crescimento que suas birras e outros comportamentos não foram debatidos e corrigidos. Todo mundo passou por cima dela e ela também faz isso consigo mesma. E muito do que a protagonista faz é no intuito de chamar atenção para sua dor.

 

Vale destacar que a protagonista compara demais a sua vida com a do irmão, que tem os amigos mais badalados do colégio, é bem-sucedido em tudo que faz, e passou a “ter” sua melhor amiga. Soa-lhe deveras injusto. A mãe, nem se fala, pois ela tem viagens e tentativas de date para tapar o vazio. Nadine nada tem e é crível a possessividade com Krista depois da “trairagem”. Ela não quer perder de novo e o vácuo deixado é tão novo quanto o anterior.

 

Em vez de se dar espaço para lidar, Nadine começa a tour de piores decisões para preencher o seu tempo (vazio). É quando a vemos seguir por caminhos erráticos e que acarretam seu “desejo de suicídio” entregue no início desta narrativa.

 

Mas não é esse o momento definidor de Nadine.

 

Quase 18 - Nadine e Nick

 

Como eu disse, Nadine é rainha do crush platônico. E nada poderia piorar se não fosse a obsessão juvenil por Nick – a causa do “desejo de suicídio”. O famoso garoto cilada, mas que impele o romantizado senso de correr riscos, de ter uma vida romântica intensa. Mas, como eu também disse, a personagem não demonstra interesse pela trajetória amorosa. Não é à toa que, além de querer ser ouvida, ela tem interesse em sexo. Mesmo na impressão de que a ela articula sobre isso para soar cool, a sensação que fica é que se trata de outro tipo de validação.

 

Ela acha que não acontecerá, mas Nick corresponde graças à mensagem escrita no ímpeto da raiva e enviada sem querer. Dizendo coisas das quais a personagem morre de vergonha depois. Por não ser seu true self. A resolução da abertura do filme que não a impede de se colocar em risco sem saber que se colocará em risco.

 

No encontro com Nick, mais nuances da verdadeira Nadine vêm à tona e transar em um carro não é o que ela quer. O que ela quer é o que mencionei ao longo deste texto: ouvir, ser ouvida, compartilhar vidas mutuamente.

 

O date dentro do carro é quase um aceno para as conversas que Nadine tinha com o pai (e há várias cenas no carro, especialmente com a mãe que não age como o falecido marido). É o vazio clamando pelo que falta e que, provavelmente, se transformou em daddy issues na vida da protagonista lá no futuro. Tudo começa bem, mas Nick afunda o resto do emocional dela. Rompe-se a última âncora, dentro dela mesma, e se entrega a falsa verdade de que ninguém quer mesmo se conhecer. É quando sua montanha-russa descarrila de vez e não há consolo em ninguém.

 

Nadine perde o parco equilíbrio sendo que, ao longo da trama, ela já estava descompensada. O perigo soa como a adrenalina faltante em busca de algo. No caso, a validação que amenizasse o quanto ela se sente uma droga. É no vazio que comportamentos tóxicos e nocivos nascem. E Nadine flerta com esse caminho e tem chance de retorno.

 

Quase 18 - Nadine

 

O caminho se abre durante a discussão entre Nadine e o irmão que torna fácil se compadecer pelo irmão. Os fardos dele vêm à tona, ponto que, para quem passou por uma inversão de papel, ou seja, assumiu o lugar do adulto quando era para ser somente o filho, é transparente desde o início da trama de Quase 18. Ele se torna o responsável por Nadine e pela mãe, mesmo que aparente ser um completo ausente. Além de outro egoísta (o que não é mentira).

 

O roteiro dá uma deslizada nessa cena, pois se tira a credibilidade da protagonista. Nadine se sente horrível e culpada. Sua saúde mental não é levada em conta. Esse momento dá a ele todos os créditos que eu nem sou obrigada a dar. Primeiro porque falamos do agressor Bl*k* J*nn*r. Segundo porque o irmão nunca parou de humilhar a irmã.

 

Ao longo do filme, o cidadão não faz nem o mínimo e ele só vai atrás da irmã porque a mãe telefona, totalmente descompensada também, deixando-o possesso visto que sua vida novamente foi interrompida pela “falta de noção de Nadine”. Por ter se tornado o adulto cedo, o rapaz já tem características de quem nem se lembra mais do que é ser adolescente. Parte da culpa é da mãe que deixou de assumir seu papel de mãe ao nunca “reunir forças” para lidar com a própria filha (o papel que o pai assumia e ela se acomodou).

 

É dentro desse pico dramático que Steinfeld dá tudo de si para anunciar o quanto sua personagem se sente perdida e se autodeprecia. É tocante vê-la dando voz a uma Nadine que admite que não gosta de quem se transforma e que não sabe como parar. Quando se cresce em um espaço sem escuta, em que tudo de você é inferiorizado, ao ponto do mundo parecer não ser feito para você e que Deus nem te escuta ao ponto de não ter papel higiênico no banheiro, há a sensação de que você não existe e nem deveria existir. E é isso que Nadine sente e sua família de certo modo contribuiu.

 

A cena se salva pela atuação de Hailee, pois o irmão soa como a vítima e o salvador que nunca salvou nada. Quem sofre é Nadine graças à ausência de responsabilidade emocional da família. Ao menos a parte da culpa é compreensível, pois ela verdadeiramente se sente culpada pelo desconforto de geral. Muito disso vem do quadro deprimido que não é mencionado por ninguém ao longo do filme. Só há um sinal nos comprimidos que a personagem consome quando está em um dia ruim para sequer respirar.

 

Por um lado, não tocar na depressão foi bom, pois não é o foco central da sua narrativa. Entretanto, o roteiro deixa um pouco a entender que ela age assim porque quer e quem não entende de transtorno mental com certeza raciocinou dessa maneira. Uma parte das ações de Nadine definitivamente corresponde a “agir assim porque quer”, mas não exatamente as partes que impelem o drama do filme. Como esse momento entre irmãos que entrega o auge de Quase 18.

 

O momento de desabafo entre os dois muda o universo da jovem. É a conversa de impulso para Nadine “voltar ao normal”. Ela não cobra nada do irmão, pois, finalmente, a atenção dele é chamada. Caindo por terra a ideia de que ele não a ama do mesmo tanto que ela o ama. No fim, a limpeza da energia fica por conta dela e o incômodo vem diante da realização de que a trama segue como se ninguém da família tivesse contribuído para algumas angústias da adolescente. É como se o estado mental dela só precisasse de um afago para desaparecer.

 

Ficou como se o reajuste na dinâmica da família dependesse dela. Sendo que o irmão ainda precisa trocar de papel com a mãe para a mãe voltar a ser mãe (e isso leva bastante tempo). Na moral, os Franklin precisam de terapia!

 

O lado positivo é que Nadine ameniza. Dá a entender que ela reconhece suas falhas e não quer ser realmente a pior pessoa de se conviver. Ela sai da zona momentaneamente cinza que a fez acreditar que não há espaço para falar e ser ouvida. Que a fez acreditar sobre não ser amada. Porém, é evidente que há processos visto que a adolescente precisa cuidar da saúde mental.

 

Quase 18 - Nadine SMS

 

Não tem como negar que Nadine é desrespeitosa em vários momentos. Ela é o puro suco da adolescente que torna coisas pequenas em hecatombes. Algumas com razão. Outras nem tanto. Mas, de certo modo, a trajetória dessa jovem nos permite ver como a forma que flertamos com o mundo pode render experiências nada saudáveis. Neste caso, nada beira à toxicidade, mas incomoda o suficiente já que a mãe e o irmão dão de ombros para a dita aborrecente. É correto? Não, porque instiga sentimentos de rejeição.

 

E Nadine se sente muitíssimo rejeitada e isso escala quando Krista começa a namorar com o irmão.

 

Da visão da família, parece que tudo que ela diz é ataque e o que sente é temporário. Ninguém vê o que é óbvio: uma adolescente que precisa de suporte psicológico e emocional. Por não quererem se aproximar e ver além da linha tênue, já que o irmão e a mãe também se autocentralizaram em suas próprias dores não tratadas, a ausência de reciprocidade é gasolina às emoções não elaboradas de Nadine. Krista nem tanto, pois ela some depois de assumir a relação com o irmão da BFF (e isso me deixou triste).

 

Não há impulso no roteiro que faça os adultos questionar e motivos não faltam. O fim da trama chega como se o conflito gerado pelo encontro de Nadine com Nick fosse imaginário.

 

A real é que Nadine é uma adolescente traumatizada, enlutada e com um tipo de depressão. Isso torna sua vida mais complicada. Pesada. Nublada. Ela se tornou reativa e avessa. Enquanto nada de afeto e de acolhimento vem em sua direção, tudo que restou foi reagir de algum modo para aliviar a dor física, mental e emocional – e nem sempre isso acontece da forma dita esperada ou positiva. Entregando, no fim, o quanto é difícil lidar com a perda e se ver ausente no mundo.

 

Famílias disfuncionais pecam. Demais se querem saber, pois todos estão autocentrados de alguma maneira. Os Franklin podem não ter sido tão ruins, porque, felizmente, não há manipulação emocional a fim de “controlar” Nadine. Cada um decidiu se fechar e seguir como acharam conveniente depois da perda. Desconectando partes que já estavam desconectadas. A ausência de um revelou a erva daninha de tudo e a mãe é o verdadeiro impasse.

 

Imaginem ser deprimida e ter uma mãe que diz que tudo bem você estar na merda porque tá todo mundo infeliz??? Fala que gera risadinhas desconfortáveis visto que tal comentário é para barrar o “drama” adolescente. Um tipo de “conselho” que não se dá a quem tem depressão. Afinal, você deprimirá mais a pessoa. Só que a mãe nunca se preocupou com o estado mental de Nadine ou sequer capturou as mudanças entre os tempos depois da perda do marido. Ela se mostra disposta a dar qualquer coisa para a filha a fim de interromper o chororô. Excluindo o fator conversa – que é o que a protagonista quer e é interrompida várias vezes porque os adultos se acham mais importantes.

 

Por essas e outras que Nadine gravita entre Erwin e Nick, como se fossem a chave da compreensão ausente. E quem a compreende mais é o mentor. Sempre necessário em filmes adolescentes.

 

Quase 18 - Nadine e Erwin

 

O final de Quase 18 não deixa de ser um tanto milagroso, mas não menos aprovável. A mãe desperta do seu sono interior profundo que a fazia desviar de Nadine a todo custo. O irmão deixa de ser babá das duas e “consegue” o passe de namorar com Krista. Todos voltam a assumir os verdadeiros postos e a protagonista volta a se encaixar.

 

Sobre Krista, bem, é onde mora minha insatisfação, pois Nadine e ela não trocam uma ideia no final sobre tudo que ocorreu. E tudo basicamente começou com a relação delas até se transformar em uma grande treta familiar. Além do irmão sair como a vítima da irmã, eis aqui outro ponto de insatisfação que não cancela Quase 18 da minha vida.

 

Só em partes por causa do Bl*k* e eu não consegui mais rever esse filme. Que ódio!

 

A ausência das amigas no final piora mais porque Erwin meio que ocupa esse espaço. Ele é a bola fora da curva, que está a fim de Nadine. Porém, o que interessa na realidade é como a união de mundos tão diferentes serve para que a personagem finalmente se encontre em outro mundo. Para mostrar que ela consegue sim se envolver com outros grupos e se ajustar. Que ela encontrará sim conversas relevantes. Que há pessoas que a escutarão. Que tudo bem a BFF não estar inclusa já que isso não fará ninguém menos BFF.

 

A cena final é bem bacana, pois joga luz ao momento que Nadine foi a festa com Krista e o irmão. Ela é chamada para o meio em vez de ficar de fora. Entregando que, além do desejo de ser ouvida, a jornada também é sobre encontrar, ou reencontrar, um espaço que é seu no meio da turbulenta adolescência. E, assim, amadurecer, pois a jornada ainda não terminou. Mal sabe ela como é a vida adulta!

 

A caótica Nadine

 

Quase 18 - Nadine e Krista

 

Passado o flashback que abre o filme, Quase 18 revela um céu acinzentado que recai sobre a figura esgotada de Nadine. A claridade vem quando ela encontra Krista. E assim se vai trocando as cores.

 

A metáfora do cérebro deprimido.

 

Nadine não tem um papel na família. Ela não é vista nem como filha e nem como irmã. Somente a aborrecente que desrespeita os adultos – o que não está de todo errado. Suas defesas se moldam em cima do luto pelo pai, da autodepreciação e da depressão. O que dá margem ao sarcasmo – que é o meio para chamar a atenção. Suas falas não são simpáticas (salvo para Krista que é a pessoa que Nadine age em seu natural), o que traz o efeito em cadeia: se ela não se sente ouvida, ser desvairada é o dobrar da meta para ver se alguém da família nota sua existência.

 

A parte que se encontra enlutada da personagem a torna uma esquivadora de emoções e de pensamentos. Apesar de precisar de escuta, Nadine não facilita a entrada. Aliás, ela reage muitas vezes como os adultos, colocando os adultos para baixo sempre que tem chance. É quase uma vingança particular que a protagonista poderia evitar.

 

Mesmo nessa guerra, a busca dela é por pessoas mais velhas, ou figuras masculinas no geral, que a escutem e a enxerguem. Mas, de um segundo a outro, todos se tornam estranhos e a adolescente segue como a completa alienígena. Ela não tem espaço. Seu mundo está congelado. Ela não sabe se libertar de dentro para fora.

 

Dessa forma, Nadine faz questão de não dar folga. Ela debocha. Ela cutuca as feridas porque é sua resposta quando não notam que ela também está machucada. Ou que a machucam de graça. Ou que ela machuca porque quer atenção. Por ser vista apenas como a aborrecente, que logo tudo passa, seus sentimentos são rebaixados a mero drama dentro da família. Mãe e irmão não enxergam uma jovem que só quer ter seu espaço de escuta correspondido.

 

Parte do autocentrismo de Nadine vem da depressão e isso acontece com muitos deprimidos. Não é consciente e muito desse comportamento se fortalece justamente em comentários como “ela é assim mesmo, não fala com ninguém e pipipopopo”. É aí que suas ações calham de ser agridoces, insolentes e afins. O medo principal aqui é perder mais do que já perdeu, o que torna a “traição” de Krista um fato dolorosamente imensurável. Abrindo-a para o julgamento de ser egoísta e melodramática. Sendo que há algo maior acontecendo com a protagonista. Por dentro.

 

Quase 18 - Nadine

 

Quase 18 traz o desafio de ver a protagonista com mais empatia. De notar que há algo de errado. Afinal, ela não é uma adolescente mimada e 100% vilã. Na real, a personagem é perspicaz, interessada e articulada. Ela sabe jogar com tudo que cai sobre sua existência. O que pega é o problema de saúde enquadrado no luto não ultrapassado. Detalhe que, eventualmente, é esquecido pelo roteiro já que o irmão vira herói. Sendo que há uma adolescente em sofrimento e que não sabe conversar sem atacar (já que se sente atacada).

 

Isso não vale de passada de pano, pois depressão não dá passe para ser desagradável. E a protagonista é muitas vezes desagradável quando poderia escolher não piorar a situação.

 

Mesmo que o filme se use de um humor sarcástico e de um tom, por vezes, carrancudo para combinar com sua protagonista, a montanha-russa emocional é o que pega no nervo. É evidente que essa jovem precisa de um olhar mais atento. Até porque Nadine é sua própria figura de bullying. Sua própria nota de repúdio. Ela levou absurdamente a sério que há algo de errado consigo mesma e não conseguiu se desprender disso.

 

Por ter tanta informação no cérebro e no coração, ser passivo-agressiva é a principal defesa. Um modo de operação que é irritante para os adultos que colocam tudo na justificativa de melodramática. Sendo que, de novo, há uma adolescente pedindo ajuda. Da garota supostamente desagradável, o “monstrinho difícil de conter”, logo se entende que há uma jovem com problemas desvalidados e o roteiro quer fazê-la se sentir melhor. Além de fazer com que a família pare de botá-la para baixo – e isso só seria possível quando ela parasse de fazer o mesmo.

 

Nadine termina mais iluminada depois de capturar o quanto se perdeu dentro dela mesma. O que torna Quase 18 um perfeito quadro existencial. Abrindo a brecha para se discutir onde começa e termina a aborrecente. Onde começa e termina os comportamentos de chamar a atenção e a intenção de encontrar um lugar no mundo que seja seu. Ela precisava sair do estado autocentrado para ver que sua vida é possível, que não é necessário magoar para reivindicar seu espaço de escuta e que as pessoas são temporárias.

 

Quem realiza um enorme papel nessa transição é o Mr. Bruner que reflete a figura paterna que Nadine não tem mais. Ele compreende o estado de humor dela. Dando realmente para crer que aluna e professor são igualmente infelizes e insatisfeitos. Além de dramáticos, porque ele, na tentativa de fazê-la se sentir melhor, concorda com a visão dada de fracassado. Esses personagens ecoam o falso senso de vitimização e ela se choca quando vê que aquele que usa também de saco de pancada tem uma vida normal. Que o homem passa pela vida muito bem, obrigada!

 

Costumeiramente, filmes e séries adolescentes atuam no vazio que parece nascer do nada. Como acontece em Euphoria por intermédio de Rue e em vários personagens de Skins. O desejo em Quase 18 é tapá-lo e Nadine corre atrás disso. Aprendendo que, primeiro, ela precisa se sentir segura dentro dela mesma. Só assim para saber o que exigir dos outros. Meramente porque há pessoas que são indisponíveis e a culpa não é nossa.

 

Nadine precisava enfrentar suas próprias dificuldades e ter um suporte para combatê-las. Para encontrar saídas. A separação de tudo foi a resposta para que ela reencontrasse o pertencimento que não tinha. O amor. O fim vem das reticências de quem pareceu disposta a começar de novo. Com mais clareza. Percebendo que ninguém é seu inimigo.

 

E que ela não precisa ser sua própria inimiga.

 

Concluindo

 

Quase 18 - Nadine e Mr Bruner

 

“Nem eu gosto de mim.”

 

Um ponto interessante de Quase 18 é que Nadine se desmembra dos aspectos femininos. Há a verdadeira impressão de que estar entre os garotos é a melhor coisa que acontecerá em sua vida. Ainda mais se transar com um deles, porque se provaria algo que, feliz ou infelizmente, não é dito no filme. A personagem tem mais homens ao seu redor e isso cria a impressão de que não dá para confiar nas mulheres – e isso se reflete na mãe e em Krista. Há uma jornada da heroína em ação no roteiro (que não segue a regra da jornada do herói).

 

Legal, mas, por mais que eu tenha adorado o professor de Nadine, é meio cansativo ver um homem aconselhando uma adolescente. Como se só o homem fosse sábio ou o único a compreender o que uma jovem lida.

 

Nadine não tem vaidade, embora se meta em cilada por achar que quer algo a mais com o bad boy do colégio. Ela não vê a mãe como uma pessoa (e vice-versa). Seu irmão é a figura de autoridade que não quer nada com sua figura e ela ainda quer um tipo de aprovação que também não fica muito claro. A única verdade é que a adolescente é gatilho de tudo.

 

O gatilho em meio ao luto que desestruturou a família e ninguém lidou. Ninguém fala sobre, nem quando Nadine aperta o botão. A perda do patriarca mudou totalmente como cada um se enxerga (se um dia se enxergaram) tão quanto os papéis que passaram a representar. O irmão vira o pai. Nadine a filha aborrecente. A mãe é a criança que precisa de cuidado o tempo todo porque não consegue lidar com a outra criança (que é Nadine).

 

Olhar para Nadine e analisar suas respirações lentas, a dificuldade em reagir apropriadamente, e ouvir seu autocrítico que a bota para baixo, foi uma experiência dolorosa. Tudo ao seu redor não a inspira a se botar para cima. Tudo é simplesmente insuportável e ela não consegue reagir contra. A personagem é perseguida pelas próprias sombras e brutalmente se odeia. O que torna fácil imaginar que ela se sente culpada pela morte do pai. Entrelinhas e entrelinhas que encontram seu alívio no humor e na caracterização de uma garota de língua ácida que exala aos anos 80.

 

Quase 18 atua nas feridas da sua protagonista que nada mais são feridas de um alguém que se sente incompreendida. Uma incompreensão que nada tem a ver com ela curtir papear com pessoas mais velhas, mas porque ela não sabe o que ocorre dentro de si mesma. Ela não compreende o que se perdeu e perde o rumo.

 

E, além do intuito de abrir para a escuta, o filme também é sobre Nadine ser vista e tratada como uma pessoa. Não um alguém descartável que é algo que sua família faz ao longo da trama e é de inflar os nervos.

 

Apesar de poucas insatisfações, o que gosto neste filme é como ele entrega suas problemáticas com facilidade. Além de esparramar com coesão a dificuldade de se lidar com o que não se entende nessa idade, como o luto. Principalmente quando não se tem suporte emocional. Há uma naturalidade no roteiro que não exige mais drama além da própria existência de Nadine. Ela caminha rumo a uma bifurcação entre choque e solução.

 

É possível rir e se sentir desconfortável em Quase 18, porque se vê uma adolescente fora do controle. Correndo em círculos. Como adulta, tinha horas que eu revirava os olhos e foi esse comportamento que eu prestei atenção. Afinal, é o que a mãe de Nadine faz em vez de ouvi-la e propor uma contrapartida. Se há algo a se aprender aqui é: olhar com mais empatia a quem está ao seu redor, pois pequenas reações e discursos podem indicar que algo não vai bem.

 

Quase 18 - Nadine

 

Ao contrário do que se pensa, adolescentes não acordam do nada querendo chamar a atenção ou simplesmente vazios. Muitos nem sabem que seus comportamentos mais petulantes expressam o desejo de atenção – como a própria Nadine. Nem sabem que flertar com o tóxico é para tapar o vazio, por vezes, sem nome. A protagonista acha que tem razão e é desagradável por conta própria. Muito é armadura que lhe deixou a dita verdade de “ter nascido assim” e ninguém contesta. A não ser o professor, mas não com palavras diretas. Ele a pirraça também.

 

O choque da perda do pai e o luto expuseram os desconfortos que Nadine já percebia sobre si. Que a mãe já via desde a infância dela. A partir daí, a personagem lida com todo tipo de estresse acarretado por ela mesma porque não encontra em quem desmoronar sem correr o risco de ser chamada pela milésima vez de dramática. Ou de ser abandonada. Ou de ser rejeitada. Assim, como todo coming of age, há o desafio de articular os motivos de uma adolescente ser irritante e de fazer lembrar que todo mundo foi adolescente. E Quase 18 consegue virar o espelho para os erros dos comportamentos adultos.

 

Este é de longe meu filme favorito ao longo dos últimos anos (empata com Booksmart) por ser focado em questões existenciais. De como você existe junto com um tipo de dor interna e de como você se vê aos 17 anos. Ainda mais depois de uma tragédia. Certamente minha versão de 17 anos teria amado e alugado o DVD dezenas de vezes.

 

E o melhor do filme é ter uma adolescente em destaque. É chato sempre ver o garoto no centro da adolescência quando garotas também têm dores e desprazeres. Muito além de um coração partido por um crush.

 

Quase 18 é sobre existir e se sentir errada o tempo inteiro. E não saber como sair dessa ao ponto de crer que as soluções estão sempre nos outros. Chamar Nadine de dramática é aliená-la. Desvalidar suas emoções. Quanto mais se rebaixa, mais machucados nascem. Inclusive, as verdades absolutas que são endossadas pelo autocrítico abusivo – que a protagonista sequer escondeu. No fim, ela escolhe melhorar e isso só foi possível porque o veneno foi cuspido.

 

O que a traz de volta para as nuances femininas. Ela responde a mensagem da mãe. Volta a falar com Krista.

 

Eu me emociono porque eu peguei Hailee Steinfeld no colo e fiquei muito orgulhosa de vê-la neste filme. Um filme dono de uma história sensível sobre o que espelhamos. Sobre como achamos que nos veem em uma idade tão conturbada. Do quanto o afeto é necessário e que amizades podem ser extremamente frágeis quando uma das partes é frágil. Nadine começou a aprender do jeito mais difícil e a esperança final é que ela tenha ficado bem.

 

Para seu próprio bem.

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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