15set
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Jane Eyre conquistou minha atenção graças às buscas por personagens introvertidas. Eu vivia um período de grandes descobertas sobre minha pessoa e a introversão fez parte desse combo. Em meio a uma quantidade de listas, a personagem de Charlotte Brontë sempre dava as caras e aí não pensei duas vezes em adquirir o livro. Foi uma leitura longa de 2018, regada de muita paciência, até porque eu estava enferrujada, que valeu muitíssimo a pena!

 

Falando em 2018, esse foi o período que notei o quanto me afastei da leitura. Minha rotina nesse quesito decaiu muito, mas, hoje, eu reaprendi novos hábitos que incluem não correr entre as viradas de página. Se o livro me custa dois meses, tudo bem – algo que eu não me sentiria confortável a uns cinco anos atrás. Com isso, nasceu outro hábito, que posso considerar inconsciente, que é pegar clássicos enormes para reaquecer minha leitora interior.

 

E todas as vezes é um tanto difícil. Não pela linguagem, mas porque me distraio com extrema facilidade (e, ultimamente, anda fácil demais se distrair). Houve dias em que eu não tinha uma gota de inspiração para ler Jane Eyre e eu aprendi a lidar com isso também. Afinal, não era uma questão de não gostar do que lia, mas, sim, de respeitar o meu tempo.

 

Inclusive, vale dizer que, no meio do caminho, eu mudei a leitura física pela digital (#kindleunlimited). A edição de bolso me foi útil para não carregar peso, mas as letrinhas representaram outra parte do sofrimento.

 

 

Jane Eyre foi publicado em 1847 e traz o nome da personagem principal cuja história é contada em primeira pessoa. Por se tratar de um bildungsroman, o famigerado romance de aprendizado, os 38 longos capítulos (na minha edição) entregam uma trajetória que parte da infância e evolui conforme a protagonista tem o senso de lar alterado incontáveis vezes.

 

No início, Jane é julgada como uma criança dona de algum tipo de espírito perverso por não ser como os primos. Todos energéticos e de idade próxima (ela tem 10 anos). Para nós, ela seria a “esquisitona”, mas, para sua tia, a Sra. Reed, ela é uma menina má que precisa ser consertada. E os consertos do século 19 eram normalmente uma surra.

 

Muito dessa dita anormalidade de Jane se reflete em Georgiana, a prima que lhe serve como contraposto de comportamento. Ela não passa de uma cobra, mas é elogiada incontáveis vezes pela sua aparência angelical. E aparência é um dos pontos que marca a trajetória de Eyre que é franzina, sem senso estético, temperamental e ousada. A dita futura solteirona por causa da ausência de modos e da suposta falta de interesse. Em conjunção, se emite o sinal de não cumprimento, no que parece anos próximos visto o tempo do livro, do mesmo destino para todas as mulheres da época: encontrar um homem para casar.

 

O impasse, que não é impasse algum, é que Jane é quieta. Ela prefere ler e desenhar. De início, parece ser o que lhe resta visto que ninguém faz questão de tê-la ao redor. A não ser Bessie, uma espécie de babá, que a compreende. A única aliada que diminui um pouco a sensação de exclusão da personagem perante os Reed que deveriam tratá-la como família – mas o sonho da Sra. Reed é se livrar dela e a oportunidade vem como uma graça divina.

 

Jane também não se importa com a aparência. Não há nada que a incomode tanto como a ausência de autenticidade e esse quesito é responsável por algumas de suas explosões. Como acontece diante dos tios, pois a personagem se coloca como sua própria defensora contra uma leva de julgamentos e de mentiras sobre suas emoções e seu comportamento. A criança quieta revela que já engoliu sapo demais e isso rende momentos, de vários, extremamente honrosos. Não para a tia abusiva que a repreende. Como ao colocá-la de castigo no temido quarto vermelho e isso surte em um tremendo abalado no estado mental da protagonista que chega a crer que vê um fantasma.

 

Sem dúvidas, um dos momentos pivotais mais marcantes do livro e que a acompanha ao longo da história (e retorna em outro momento da sua vida, mais precisamente quando vive na casa do Rochester).

 

Nada que é ruim está passível de não piorar e piora quando Jane confessa ao senhor Lloyd sobre a infelicidade de viver em Gateshead. É aí que entra a mencionada graça divina, pois ela transita desse inferno para outro tipo de inferno – a Instituição Lowood. A dita escola de caridade que nada mais é uma espécie de internato para garotas órfãs. Um futuro aparentemente promissor e a Sra. Reed não hesita em “apoiá-la”, mas não sem antes garantir que as queixas da sobrinha não passam de uma grande lorota. Abrindo outro espaço de conflito para Jane soltar o verbo.

 

A última fala para uma tia que não encontra sua “nobre valentia” a fim de colocá-la em seu “devido lugar”.

 

“Eu não conversava com ninguém, nem ninguém parecia ter prestado atenção em mim. Fiquei quieta no meu canto estando acostumada àquela sensação de solidão. Não chegava a me oprimir.”

 

A vivência em Lowood foca na transição de Jane da infância para a adolescência. O amadurecimento propriamente dito. Apesar de não parecer tão contente com a experiência, ainda mais porque fica a sensação de que há um isolamento maior em comparação à Gateshead, é no internato que ela obtém outros tipos de interação. Além disso, a protagonista explora mais seus talentos artísticos, como pintar, e faz uma única amizade. Tudo corre bem entre regras tão rígidas quanto às da casa de seus tios. Ou quase, pois há miséria, sofrimento e abandono no local.

 

É lá que Jane vê que a vida é bastante complicada e tem que aprender a se virar. Até porque, assim como as outras garotas, ela não tem com quem contar fora daquelas paredes que começam a sufocá-la com o passar dos anos. Se a personagem achava que sua convivência com os Reed era péssima, nada se compara ao tratamento deplorável na instituição. Ao ponto das garotas adoecerem de tifo e não há nada para reverter isso, pois parece natural.

 

Tão natural quanto os rótulos, regidos por agressão verbal, que Jane continua a receber e que jogam luz ao passado. Parece que não importa para onde ela vai, pois ser chamada de mentirosa, e até de pecadora, será sua sina. Realização que fortalece um contimento interior que também não impede mais opiniões preconcebidas sobre seu caráter e sua personalidade. Restando-lhe o foco e isso traz a impressão de que as palavras negativas não a machucam.

 

As pessoas ao redor dela, especialmente as mais rígidas, não compreendem a natureza que, mesmo silente, não se acomoda e tem sempre alguma coisa para questionar. Jane era para ser como todas, uma mulher acomodada ao destino do casamento. Só que a personagem centraliza tudo de si no que hoje chamamos de plano de carreira.

 

Os anos em Lowood a formam como preceptora – que seria a professora particular. O passe de saída de uma jovem que está entediada e quer uma vida nova. Uma vida regada de liberdade e de aventura. Inclusive, o amor que nunca experienciou. E isso acontece por meio de um anúncio no jornal que a norteia para Thornfield.

 

A casa é de gente rica e de um senhor chamado Edward Rochester. Um homem descrito com antecedência como alguém de natureza duvidosa. E isso não importa no primeiro momento, pois Jane conta sobre sua nova adaptação como preceptora de Adèle. O quanto se sente mais livre e valorizada. O quanto se sente mais digna e útil. Ela está satisfeita.

 

O que não desaparece é a sua sina: as suposições sobre sua pessoa. Sua quietude chama a atenção do patrão que também aparenta ser aquele de poucos amigos. Ele a questiona, como se a desafiasse o tempo todo. Ela responde, deixando-o aturdido. Ambos se transformam em um enigma e é durante uma festa que há o descortinamento.

 

“Mesmo em tais circunstâncias nada seria capaz de amenizar ou matar o amor que eu sentia, o que só me provocava desespero. Havia ali, como o leitor constará, muita razão para despertar ciúmes. Isso, se uma mulher da minha posição tivesse presunção de ficar enciumada de alguém como a Srta. Ingram. Mas eu não sentia ciúme, ou só raramente. A natureza do sentimento que experimentava não podia ser definida por tal palavra. A Srta. Ingram estava aquém do ciúme. Ela era um ser inferior demais para despertar esse sentimento. (….) Ela era muito exibida, mas não era verdadeira.”

 

Passado o tempo, Jane se vê apaixonada pelo patrão. É nessa abertura que a personagem percebe que não é uma mulher dita socialmente desejável, pois não há nada a oferecer a não ser o que sente genuinamente. Logo, ela começa a se antenar na própria aparência e na ausência de dotes. Ser inteligente não parece o bastante. Nem o seu amor.

 

É quando Georgiana se sombreia na única mulher ao redor de Jane que nada mais é a dita “rival” de um triângulo que não nasce. Ingram que, além de belíssima, é podre de rica. O par perfeito para um lascado Rochester.

 

Não demora para que Jane questione sobre esse amor aparentemente impossível. Mais desdobramentos acontecem e o pedido de casamento vem. É quando as reflexões sobre classe social se iniciam, pois ela percebe que gosta do simples enquanto Rochester esbanja. Ela não tem interesse em ser como Ingram, impecável e fútil – o mesmo sentimento que Georgiana provocava. Só que o futuro marido a paparica e a protagonista se vê dando uma sequência de negativas por ter consciência do que não quer. Ou seja, ser moldada.

 

Jane até tenta se moldar, mas ocorre outra explosão. Libertando seus valores a fim de não diluir uma natureza que preza suas vontades que, ao menos no desenvolvimento do casório, são mais importantes ao amor pelo patrão.

 

É quando se vê o quanto ser chamada de mentirosa não passa de um desvio da parte de quem a vê, pois, para Jane, não há nada mais importante que a verdade e ser verdadeira. Algo que Rochester revela não ser em novas viradas de página.

 

Vale até dizer que muito dos princípios e dos valores da personagem são interligados ao catolicismo, o que a faz queimar na linha tênue sobre ficar ou partir. No entanto, tudo dela sabe que não pode ficar com o mentiroso Rochester. Não há como ceder ao amor de forma desonesta. Simplesmente porque para Jane não há espaço para péssimo caráter e injustiças.

 

Sendo assim, o segredo de Rochester a despedaça. Tão profundamente ao ponto dela crer que nunca vivenciará amor em sua vida. Ou qualquer coisa boa, pois a vida não lhe dá um mísero desconto. Sempre à frente para colocá-la no quarto vermelho, presa entre fantasmas e sozinha com seus medos íntimos. O desencadeamento é triste e é esperado que a protagonista revise seu comportamento. Afinal, é fácil crer que o problema é ela. Só que, de alguma forma, ela sabe que não e carrega sua palavra para fora de Thornfield. Rompendo com quem parece ser seu último amor.

 

O interessante é que a trama começa revelar o background de Jane a partir do segredo de Rochester. É quando se descobre mais sobre os parentes Eyre e o quanto, possivelmente, ela não está tão sozinha no mundo. Mas, antes disso acontecer, a acompanhamos em seu último arco. A linha do tempo que o livro se tornou interessante para mim.

 

Sem a cobertura de Thornfield, Jane se joga em um caminho desconhecido. Não há um plano a não ser caminhar e contar com a ajuda divina. É a terceira transição de um canto a outro e que expressa a falta de senso da protagonista de pertencer a algum lugar. Sente-se na ponta dos dedos as suas agonias mais particulares e ela não cede.

 

Ela se mantém firme em sua verdadeira natureza. Mesmo que isso lhe traga um incontingente sofrimento.

 

“Ainda me sentia como uma caminhante diante do imenso mundo. Mas tinha um pouco mais de firmeza e confiança em mim mesma, em meus dons, e era muito menor o temor que sentia face à opressão. A ferida aberta provocada por meus erros agora estava praticamente curada. E a chama do ressentimento, extinta.”

 

É no percurso longe de Thornfield que é possível vê-la de verdade. Senti-la. Inicia-se a jornada de uma vida, inicialmente, perene. Ela não tem para onde ir. Nem tem muito dinheiro. Toma chuva e sol, mas não retorna para o lar que saiu. Ela ora e pede misericórdia. Logo a luz divina se apresenta em forma de uma casinha cujas pessoas não são meramente ilustrativas. A casa Moor. É quando se pensa no quanto cada pessoa que entra na nossa vida não é por acaso.

 

A luz divina (que logo se revela quase infernal também) é John Rivers, o homem que a resgata em um momento que dá para crer que a personagem falecerá. Ele é um clérigo que, aos poucos, vai se aproximando dela até revelar seus intentos sobre casamento. Juro que tive um troço quando essa ladainha começou!

 

Sem programar, Jane dá de cara com uma nova chance sobre o amor já que Rivers quer desposá-la. Contrário a Rochester, que é libertino, ele é pastor – pronto para a missão de missionário. E o que ele vê na heroína é uma mulher ideal para acompanhá-lo (inspirado no fato do quanto ela se preocupa com a comunidade).

 

“Mas falsidade não é um dos meus defeitos.”

 

Porém, ao contrário do que se espera desses livros, em que o casamento se torna o cerne de tudo, a jovem se revela novamente dona de opiniões fortíssimas. Mais maduras, inclusive. O sofrimento certamente a endureceu, mas não ao ponto de anuviar seu julgamento. Não ao ponto de colocá-la em silêncio. Passado o tempo, Jane se torna mais vocal e sua verdade se lança sobre Rivers. Convicções inquebráveis e há um senso de que ela confia no que diz.

 

Tão quanto confia em seus reais desejos, algo não tão novo perto do fim do livro visto que a jornada da protagonista tem muitas escolhas. Escolher sair de Lowood. Escolher casar com Rochester. Escolher negar Rochester. Escolher negar Rivers. Acima do amor, Jane tem um desejo genuíno de fazer parte da vida, mas livremente.

 

Ela quer ser livre, mas, diante de Rivers, há uma zona de verdade tão quanto de dúvida. A personagem não se torna imune aos próprios sentimentos que transbordam pelo medo de ser burra e perder alguma chance (o que a faz cogitar esse casamento). Jane tem uma bagagem tão negativa cuja constante é descrer.

 

Ao menos descrer das pessoas, pois, de alguma forma, Jane sabe quem ela é e o que quer. Todas as dificuldades a tornaram mais solitária, mas não menos atenta às suas necessidades. Claro que ela se sente insegura, pois não se apaga o fato de que ela é uma mulher sem casamento. Uma mulher podre. E Rivers reverbera o mais próximo de segurança amorosa, financeira e até religiosa para que não sofra mais. E ele não mente como aconteceu com Rochester, mas isso não faz diferença. Ela ainda ama o ex-patrão e essa é sua verdade. Ela não se trai.

 

Já que ninguém parece muito preocupado com seu bem-estar, Jane se transforma nessa pessoa. Uma pessoa que não deixa de questionar. E questionar de certo modo a fortalece e não quer dizer que quem recebe a mensagem ficará contente. Várias vezes ao longo do livro Jane é repreendida por contestar e ela nunca para de contestar.

 

Na linha do tempo com Rivers, Jane deixa claro que quer muito manter sua voz tão quanto ser ouvida. Afinal, desde a infância, ela é impedida de se resguardar e de falar o que pensa. Ela compartimentalizou emoções e isso justifica a perda de estribeiras diante da tia. Chega uma hora que não dá para suportar a imagem que pintam de sua pessoa, porque não é real. E o real assusta as pessoas que preferem alienar outras com suas presunções. De um jeito que sua própria verdade nunca se manifeste. A história de Jane.

 

Felizmente, ela tem um compasso moral fortíssimo e esse é meu ponto favorito. Ao longo dos obstáculos, a personagem conquista forte respeito. Ela não desiste de suas necessidades, não silencia diante de algo errôneo. As grandes interações dela vêm de dois homens que poderiam tratá-la como nada e obrigá-la a fazer o que não queria. O que não é o caso, mas não quer dizer que seja cômodo. Afinal, há a nesga em cada um sobre “domá-la” devido ao intento de tê-la como esposa. Casamento não deixa de ser o meio de controlar a mulher (e a autora não toca nesse assunto).

 

De certo modo, cada discussão com Jane os faz vê-la como uma pessoa e não uma mulher a ser dominada. Ela tem pleno poder justamente por ser honesta.

 

É sentido no livro o fato de que Jane é meio que perseguida por ser enigmática. A quietude a torna misteriosa, como acontece com pessoas introvertidas. Ela é um segredo que ao menos Rochester quis saber “o que esconde”. Não de um jeito sexual, mas dentro do tema de Brontë sobre a verdadeira natureza de seus personagens vs. a protagonista.

 

O fascínio ao redor dela fica mais latente na presença de Rivers que, para mim, não a amava de maneira alguma. Ele só precisava de uma esposa para ter a família tradicional. Atitude que condiz com a época.

 

E eu digo que nenhum deles a merecia. Ambos são intragáveis e, óbvio, que é uma opinião ordenada pela época da história. Conforme eu chegava perto do fim da leitura, eu só ficava Jane, go solo!, mas a personagem tinha um vazio. Como todos nós. Mesmo sendo figuras independentes, há sempre algo que falta. Aqui era o amor.

 

Quanto mais o livro se aproximava do fim, mas eu pensei no quanto os eventos em Thornfield a mudaram profundamente. Não só nessa fase, claro, porque as marcas dos maus-tratos da infância a acompanham. Ela tem traumas e isso se reflete em algumas questões, como a impressão de que ela não merece determinadas coisas.

 

E a principal determinada coisa é o amor. Jane deixa a entender que não acredita ser capaz de tê-lo ou de vivê-lo. Não depois das intempéries. Não depois de ser “tão burra”. E essa falta de amor também joga luz ao passado, pois ela não tem nem senso de família – e está aí algo que Rivers oferece sem necessariamente precisar do casório.

 

Daí vem mais reviravoltas, como a revelação de que ambos são primos. Respondendo ainda mais a situação que brotou nos dias finais de Jane em Thornfield e se conclui. Infelizmente, isso abre espaço para o retorno de Rochester.

 

E eu digo infelizmente porque, como disse, sou da campanha Jane, go solo!

 

Concluindo

 

“Eu me importo comigo mesma. E quanto mais solitária, sem amigos e sem sustento, mais eu me respeito.”

 

Apesar dos sofrimentos, que não são poucos, Jane compreende que quanto mais for fiel a si mesma, mais se respeitará.

 

E essa ícone literária está corretíssima!

 

Tudo ao redor de Jane é presunção sobre seu comportamento. Tão quanto sobre sua aparência, sempre escrachada por terceiros. Ela chega a duvidar até da sua inteligência. Não há paz na vida dessa personagem e os conflitos a ensinaram sobre ser a única pessoa com quem contar. O único compasso moral. Mesmo sem querer, a protagonista de Brontë contribui para a ótica de se colocar em primeiro lugar. Mais precisamente na questão emocional.

 

De uma criança silenciada, ela aprende a se impor. Na hora certa e, com sorte, na medida certa. Até porque a mulher daquela época tinha seus comedimentos e essa personagem aprendeu tudo isso e mais um pouco em Gateshead.

 

Mas o seu silêncio nunca foi negociável. Muito menos suas decisões. Jane é ousada e destemida. Rompendo, ao longo da história, o pedido de Bessie sobre “ser boazinha” sempre que tem chance. E é um frescor.

 

É Jane quem escolhe ir para o internato, porque se sentia infeliz. É a personagem que sai do internato para ter uma vida diferente e termina em Thornfield. É a personagem que decide sair de Thornfield e vagar sabe-se lá para onde a fim de curar seu espírito de uma profunda decepção amorosa. Escolhas que não prometiam felicidade automática.

 

O que ela queria era escapar do sofrimento de dado lugar. Era uma forma de ambição, pois ninguém merece permanecer onde se sofre. E, junto a essa ambição, está uma vida dentro de seus valores. De maneira que sua natureza não se rompa. Hoje chamamos isso de autenticidade e Jane tem autenticidade de sobra.

 

Apesar de ouvir muito sobre sua aparência, personalidade e comportamento, a jovem não muda para satisfazer ninguém. Ela refuta o social tão quanto o status quo. Refuta pérolas e vestidos elegantes. A única coisa que ela não nega é amor. Simplesmente porque ela nunca o teve. Sendo dispensada o tempo inteiro como roupa de segunda mão.

 

É bonito ver como a personagem cresce individualmente, embora a narrativa não fuja da predestinação final de Brontë que é o casamento. A parte que não curti, pois as duas opções de homem eram péssimas. Eu que lute e perca!

 

Mas, como eu disse, as mulheres tinham um destino na época do livro e muito desse destino se encontrava no casamento. Era a forma de muitas existirem socialmente e é o caso de Jane, embora ela já existisse. A personagem dá explicações profundas que ilustram o timing daquele século, pois mulheres tinham que ter status e esse status vinha do homem. E a jovem estava muito bem com seu próprio dinheiro e seu próprio destino, que poderia ser somente servir à comunidade.

 

Só que quem controla o amor romântico, né?

 

“Mas eu continuava viva, e a vida, com suas necessidades e dores e responsabilidades, me chamava. O fardo precisava ser carregado, as necessidades satisfeitas, o sofrimento enfrentado, as responsabilidades assumidas. E eu saí dali.”

 

De uma infância infeliz e cruel, a heroína quer seu lugar no mundo. O puro pertencimento. É encantador e assustador ver o quanto Jane sempre ficou à parte do meio dos outros, mas nunca da sua narrativa. A personagem compartilha sua história que rende uma evolução interna e isso explica o motivo desta obra se encaixar no romance de aprendizado. Ela teve que passar pelo inferno, pegou fogo e se ateou fogo, para manter a sua verdade.

 

Mesmo que morresse por isso. O que não é lindo de se dizer.

 

O que me faz pincelar outro ponto inspirador deste livro: a determinação de Jane. Ela segue, mesmo quando é evidente que o cenário é passível de desistência. Ela continua sem saber se há um futuro, pois há o auge da agonia amorosa e do reconhecimento da falta de pertencimento. Detalhes que não a interrompem de procurar novos caminhos. Ela sempre quis algo melhor para si e foi atrás. Perdendo-se e se encontrando em todos os percursos.

 

Na queda ou na subida, Jane fortalece algo valioso sobre si: a escolha. Ela permanece leal aos seus valores e à visão que tem de si (que é a mais correta). Ela aprende a não se calar, pois o silêncio sempre lhe pareceu errado (e sempre a apagou). Tão quanto os rótulos que combate. Ela tem várias nuances e eu acabei apaixonadinha.

 

“As pessoas muito reservadas em geral precisam de uma discussão franca a respeito de seus sentimentos e dores, mais do que aquelas que não expansivas.”

 

Definitivamente este livro atendeu meus sonhos de introvertida. Eu me identifiquei bastante com Jane.

 

Ela prefere a companhia de poucos. Não tem paciência para grandes socializações e nem para o famoso small talk. Ela gosta de falar sobre livros e arte – e ser reconhecida por isso. Gosta de explorar sua visão de mundo. Gosta de transmitir seus conhecimentos. Há uma diferença importante entre solitude e solidão, embora essas palavras colidam o tempo inteiro na trajetória de Eyre. Ela prefere a solitude a ter que interagir com Rochester e seus amigos. Em contrapartida, ela é solitária.

 

Embora se afirme de que esta história tem muito da vida de Brontë, o que vi em cada rica descrição é o puro suco da introversão. O que Jane tem está em seus pensamentos. Está ao seu redor. Dizendo por mim e por ela, podemos nos sentir à parte, mas observamos tudo. Observação que torna um tanto mais fácil se envolver com o meio e com os próprios extrovertidos. Algo que Jane tem que lidar a torto e a direito por conviver na fase jovem adulta com a elite.

 

E, claro, por precisar de dinheiro para seu sustento.

 

Mas o que me marcou é essa busca de lugar no mundo. Depois de anos de maus-tratos, de solidão, tudo que a personagem quer é isso: uma vida que vale a pena viver. Seja com um marido ou não, a personagem continuou a caminhar e enfrentou tudo de ruim que veio ao seu encontro. Com empatia, inclusive, que a torna ainda mais firme em suas convicções que não cedem. Nem mesmo quando há o famigerado reencontro com a tia abusiva.

 

É a partir de Jane que começa a nascer um universo do qual ela pertencerá. Um avanço e tanto se considerarmos a época em que o livro foi publicado. No fim, tudo que a personagem passou ganha sentido e não tem como não encerrar a leitura contente por alguém que venceu. Uma verossimilhança atemporal que traz a lição primordial: muito se diz sobre quem somos diante das intempéries. Jane deixa de lição de que tudo pode ser temporário. Não quer dizer que não vá doer. Vai doer e pode parecer uma dor interminável.

 

Jane também deixa a lição de não há necessidade de mudar para se tornar encaixável na vida de alguém. E esse é um ponto igualmente importante, pois, ao longo da jornada, ela cresce. Ela não se encolhe para ser aceita.

 

Enfim. Jane Eyre é um clássico da literatura inglesa com direito a nuances de mistério graças aos elementos góticos de Brontë. Parece que a atmosfera e o tempo climático são acinzentados o tempo todo, salvo pelas pinturas coloridas da protagonista. Mesmo eu não curtindo os homens, eles foram importantes para confrontar tudo que Jane acredita. Ambos são extremamente úteis tão quanto responsáveis pelas escolhas-chave dela.

 

E, para lidar com a solidão, Jane precisava se encontrar dentro dela mesma. É nisso que ela prospera, pois é dentro dela que mora a confiança. O instinto. Traços que fortalecem sua autenticidade jamais bem quista naqueles tempos e que rendem seu puro estado de graça depois de tanta penúria. Jane Eyre, conte comigo pra tudo!

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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