23set
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A prova de um amor intenso está no trincado. Tanto na capa quanto no círculo do CD onde o aparelho de som deve sustentá-lo a fim de rodá-lo sem engasgar. O mesmo para o encarte amassado e as lombadas amareladas. DNA que reflete em repetições. Tão quanto o tempo. Características únicas de … Baby One More Time, primeiro álbum de Britney Spears que entrou e saiu do meu player para acalentar uma alma adolescente incontáveis vezes.

 

Eram fins de 1999 quando o nome Britney Spears atingiu meus sentidos. Só que, no primeiro contato, eu ainda não sabia quem era Britney Spears. O que eu sabia vinha de uma referência: jovem de cabelo castanho, toda vestida de branco, cantando uma música romântica. Um tipo de música da qual estava adaptada graças à Céline Dion.

 

O primeiro encontro se deu em um período de férias. Eu estava na casa dos meus tios – e isso acontecia sempre que eu estava livre do colégio – e não havia muito o que fazer a não ser dormir, conversar com as primas, esperar o almoço para comprar doce depois. Mais tarde, saborear o café das 16hrs com o famoso pão de leite. No meio dessa rotina, sem ter cara de rotina, se incluía muita imersão televisiva. Era a minha internet da época aka a distração.

 

O momento que vi Britney Spears, sem saber que era Britney Spears, foi o primeiro passo para eu saber o que era MTV. Ao menos, é essa a impressão que eu tenho visto que minha infância foi pãozinho com ovo com pitada de alienação, curtindo a Xuxa, os clássicos da Disney e afins, Sandy e Junior, Sailor Moon, Cavaleiros do Zodíaco. O entretenimento se alternava na minha vida e nublava basicamente tudo da minha vida. Era perfeito para mim.

 

Meio que continua assim, pois não se alterou o fato de que o entretenimento supre algumas faltas. Só que, naquela época, a música foi o primeiro lugar seguro que existiu na minha vida e que me fez um dia crer que seria uma cantora também.

 

Normalmente, eu sinto uma angústia tremenda diante do que quero consumir. É uma inquietação sobre ter e pertencer logo. Uma vez que consumo, imerjo, presa ao desejo de estar com aquilo o tempo inteiro. Uma vez apaixonada, eu vivo aquilo intensamente. Fato que entrega uma adolescente obcecada pelos ídolos musicais da época. Eu não respirava sem mencionar ao menos um deles, pois, obviamente, havia o desejo de provar que os conhecia de A a Z.

 

Confesso que ainda sou meio obcecada. Taylor Swift que o diga. Não de um jeito tóxico, pois, como disse, uma vez que descubro algo muito precioso, eu me envolvo intensamente. Torna-se uma âncora na minha vida e não largo até ser decepcionada. E esse comportamento se tornou muito meu assim que a jovem de cabelo castanho e roupa branca cantando uma música romântica apareceu na televisão. Um comportamento que acabou fortalecido, pois eu já tinha Sandy e Junior como obsessão antes de sequer a MTV se tornar a minha razão de viver junto com a locadora.

 

E, claro, Céline Dion. Eu fui obcecada pelo Titanic e fangirl absoluta de Leo DiCaprio.

 

Para quem não sabe, os videoclipes da MTV sempre colocavam o nome do artista, da música, quem dirigiu o videoclipe e etc.. Capaz que ainda seja assim na televisão, não sei, pois vejo tudo pelo YouTube. O infortúnio é que eu peguei o videoclipe da jovem de cabelo castanho perto do fim e os créditos já tinham passado. Começou a busca!

 

Eu a procurei nos dias conseguintes no canal 32. O reencontro não aconteceu. Não naquele período de férias. Contudo, eu captara as informações essenciais do que mais tarde se revelaria no videoclipe de Sometimes. Meu cérebro registrou a música com tremenda eficácia. O mesmo para a voz da cantora. Sem saber, eu já estava obcecada.

 

Passada as buscas falidas, eu não pensei mais sobre. Voltei pra casa. Em algum momento, me dei conta de que eu tinha uma vizinha nova e isso aconteceu quando ouvi a música da cantora sem nome. No andar de cima.

 

Quando reconheci a voz de quem eu ainda não sabia ser Britney Spears, eu congelei no meio da varanda. Fiquei parada ouvindo por osmose até a música acabar. Sentindo aquele fogo da emoção de ter encontrado algo.

 

Só que eu ainda não tinha o nome da cantora. E nem conhecia a nova moradora do prédio.

 

Naquela época, eu precisava do nome para ir à loja de CDs e localizar o produto.

 

Com sorte, eu sairia com o produto embaixo do braço.

 

Não sei como minha amizade com essa nova moradora se sucedeu, mas foi ela que me abriu as portas para quem eu descobri ser Britney Spears. E não só isso: o mundo pop de fins dos anos 90. Tanto pela lupa da MTV quanto pela internet que tínhamos na época: aka TV a cabo. A amizade se encaixou e ela me emprestou shows gravados e afins de artistas em ascensão daquela época. Se não me engano, até o … Baby One More Time (o que eu duvido).

 

Não me lembro em que momento eu ganhei … Baby One More Time. Nem quem me deu. Capaz que eu tenha comprado com o dinheiro do lanche, algo que aconteceu com o álbum das Spice Girls e das Chiquititas. Capaz que o tenha encontrado na falecida loja do Gugu que tinha aqui perto, que foi onde eu encontrei o álbum das Spice Girls e das Chiquititas. O que sei é que, uma vez em minhas mãos, eu ganhei uma nova pessoa para me fazer companhia.

 

Sonoramente falando.

 

Não me lembro também quando vi o videoclipe de …Baby One More Time, mas sei que foi o momento mais revolucionário da minha adolescência. Eu fiquei viciada e consigo desenhá-lo até hoje, do começo ao fim, na minha mente. A coisa atingiu outro nível quando eu descobri o que significava Enhanced CD – CDs com informações multimídia. Era o YouTube da época. Só que eu ainda não tinha um computador, mas, quando o tive, vivi com esse CD rodando e rodando porque tinha o mencionado videoclipe. Deve ter sido na repetição que ele foi rachando.

 

Eu sou uma pessoa que, quando se torna fã, se torna mesmo. Como eu disse, eu fico obcecada. Logo, eu já sabia tudo sobre a Britney, comprava os pôsteres, gravava os videoclipes e decorava as coreografias (e ainda me lembro de algumas, mas meu joelho não permite apresentá-las ao público). De um lado havia a Sandy e do outro a Britney. Simples assim. Ambas me deram muitas coisas, como o gosto pela dança e pelo vocal feminino.

 

A diferença da Britney foi me dar um universo. Foi me inserir no mundo da MTV e me fazer parte dele. Ela ampliou o que chamo hoje de espaço seguro visto que minha vida adolescente se tornara um inferno.

 

Memórias por faixa

 

...Baby One More Time - Britney Spears

imagem: arquivo pessoal. não reposte sem permissão

 

Além da minha vivência em fim dos anos 90 na companhia da MTV, eu posso dizer que navegar no mundo Britney me deu o conhecimento que ainda tenho de alguns nomes da indústria. Como o Max Martin que estava em todos os cantos, e isso inclui entre os Backstreet Boys. Inclusive, Taylor Swift. Era um tipo de nata do pop, com os mesmos produtores e até com o mesmo diretor de videoclipe – Nigel Dick.

 

Algumas pessoas que contribuíram para o debut da cantora.

 

E daí temos a faixa-título que acredito que já falei demais. No entanto, não me custa repetir que eu sabia a coreografia de …Baby One More Time by heart e isso me dá certo orgulho de relembrar. Eu sempre pausava a fita para não perder o passo e trocava o lado esquerdo pelo direito. Forma de passar o tempo quando nada havia no colégio e eu me sentia muito bem. De um jeito quase invencível por dominar algo aparentemente complicado.

 

Uma experiência que me abriu para o interesse sobre as coreografias das divas pop – e isso incluiu as boy bands. Eu me senti contemplada na época, pois fui a garota que não vivia sem fazer Educação Física. Eu gostava bastante de movimentar meu corpo, sem saber bem o que diabos eu fazia (para que respeitar o joelho???). Saudade pique!

 

De todas as curiosidades que fui atrás de saber sobre …Baby One More Time, a que mais me chamou atenção foi a problemática que rolou com o hit me. TLC recusou a música ao afirmar que fazia apologia à violência doméstica e Max Martin, o produtor por detrás do hit, explicou que era um tipo de sinônimo para call me, mas na sua língua (o sueco). Às vezes, eu me pergunto onde eu vivia para nunca ter pesquisado sobre essas coisas. Daí eu me lembro que demorei anos para ter um computador em casa e, automaticamente, acesso à internet.

 

E quando eu tive essas duas coisas, eu só pensava em Harry Potter.

 

(You Drive Me) Crazy tem dois momentos na minha vida. O primeiro se refere à faixa do álbum que não chega perto da versão editada para o videoclipe. Versão essa que me fez ir atrás do filme que levou tal faixa como título: Drive Me Crazy. Esse é um dos meus filmes teens favoritos daquela época, perdendo para Segundas Intenções e 10 Coisas que Eu Odeio em Você. Inclusive, eu comprei a trilha sonora para ter a versão dessa música no que chamam de radio edit.

 

O que me faz dizer que (You Drive Me) Crazy me abriu para o que seria uma das minhas maiores decepções do pop: não ter a versão do videoclipe no disquinho. O que não altera o fato de que esse videoclipe é impecável. Tudo nele segue eletrizante tão quanto a versão da música que eu prefiro – a que Britney berra stop!.

 

Sometimes foi a música que me colocou diante de Britney Spears, como contei. O que não contei é como esse instante se deu: eu estava estirada na cama da minha tia/madrinha, em outro dia de tédio, zapeando a TV. Do nada, a jovem de cabelo castanho me prendeu e eu me estiquei toda, encantada. Era uma figura fofa e, na minha mente, angelical. O auge do estereótipo!

 

Por incrível que pareça, o tempo não apagou o efeito dessa música no meu organismo. Ela ainda me faz sorrir.

 

Confesso que Soda Pop eu ainda pulo, salvo nos momentos em que estou distraída. Eu diria que é a faixa que não orna com o conjunto da obra, mas …Baby One More Time parece um experimento de forma geral. Afinal, o pop não estava no auge ainda. Não possuía uma característica sólida. Oops!… I Did It Again seria o definidor sobre o fenômeno Britney Spears, embora o debut tenha entregue o tipo de comportamento e de padrão esperados para futuras artistas do gênero (como Christina Aguilera).

 

No Enhanced CD, há uma entrevista que Britney conta que o primeiro CD é isso mesmo: um monte de produtores trazendo as músicas. Aka um monte de homens trazendo músicas aleatórias e que não ornam tanto entre si. Daí temos essa salada mista que, apesar das boas lembranças, não é a minha favorita da cantora.

 

Mas eu ainda amo com todas as minhas forças!!

 

Ao contrário de Sometimes, Born To Make You Happy me tira do sério. É aquela música que se canta sentindo as angústias do mundo ou de um amor que não existe. O meu caso de teen angst. Essa é minha música favorita de todo o álbum tão quanto o videoclipe – que nem sabia que existia e agradeço à TV a cabo. Eu acho que nunca o vi perdido na MTV e, por isso, não se apagou a sensação de que houve um salto temporal entre essa música e From The Bottom of My Broken Heart. O mais engraçado de rever o videoclipe foi pensar em Oops!… I Did It Again. O conceito estava ali.

 

A começar pelos cabelos curtinhos que pintaram em From The Bottom of My Broken Heart, uma música que nunca tive uma opinião formada. Acredito que a causa é nunca ter me relacionado com ela. Até porque Born To Make You Happy ocupou todos os espaços junto com Sometimes. Mas eu amo a voz da Britney aqui. Ela realmente expressa o teen angst do fundo do seu coração e o videoclipe, visto em sua época, era a coisa mais intensa do universo.

 

I Will Be There tem uma memória afetiva muito grande. Eu pensava na minha melhor amiga da época e é provável que eu tenha dedicado a letra a ela em alguma cartinha. O que denuncia uma adolescente intensa – e isso não mudou na vida adulta. Embora tudo nela reflita amor, como o álbum inteiro, eu ainda penso em amizade quando a ouço.

 

Meu coração parava com I Will Still Love You e foi surpreendente meu coração parar ao ouvi-la depois de tanto tempo, como se fosse a primeira vez. Eis o puro suco da angústia adolescente. De novo, muito disso tem a ver com os vocais da Britney e ela está simplesmente incrível. E, a título de curiosidade, eu não sabia quem era Don Philip até a ideia de escrever este post e fui pesquisar. Dei com a polêmica do X-Factor e fiquei sem palavras. De todo modo, quando eu a escuto, eu fico o meme do Chandler de Friends abraçado a um disco e de fones de ouvido.

 

Aliás, eu sempre imaginava como seria o videoclipe de I Will Still Love You. Era moda da época ter duetos, especialmente para promover artistas femininas. É algo que continua, mas, antes, era o famoso mal necessário – como Christina Aguilera e o cara do Limp Bizkit no mesmo palco do VMA, 100% nada a ver. O pop não era levado a sério, muito menos as jovens envolvidas que eram xingadas e objetificadas o tempo todo. Era dito que associá-las a outro homem era um dos meios mais fáceis de elas ascenderem na carreira. Britney não precisou disso. Nem Aguilera.

 

Um viés que era muito mais zoado em comparação aos tempos atuais. Desonesto para dizer o mínimo.

 

Deep in My Heart, Thinkin’ About You… Eu gosto delas, mas totalmente esquecíveis. Daí vem E-Mail My Heart. Uma música que me deixou com um Q de confusão, pois eu não usava e-mail na época. É o marco de fins dos anos 90 em que muitos da minha geração começavam a explorar a internet e a se esquecerem dos números de ICQ.

 

Na parte detrás deste álbum, há algumas referências de emojis das antigas, tipo ^^, e eu sempre achei fofo. Além de entregar que …Baby One More Time foi uma transição entre séculos e que poderia ser esquecido.

 

Felizmente isso não aconteceu.

 

Tudo que me lembro de The Beat Goes On, salvo engano, foi a presença dela no Rock In Rio (que me desencantou) em 2001. Tenho a vaga recordação da Britney pendurada pelo vestido e subindo e subindo… Se há algo incrível de revisitar um CD das antigas é que você se renova com a percepção da letra. Eu digo com tranquilidade que essa música teria sido meu hino da época. Mesmo nas intempéries, a vida tem que continuar. Tem que manter o compasso.

 

É uma regravação da música com selo Sonny & Cher. E a Cher sempre soube de tudo!

 

Essas são as faixas que existem no meu CD. Pelo Spotify, há a inclusão de I’ll Never Stop Loving You e Autumn Goodbye. Duas músicas que não marcaram minha fase com a Britney e, provavelmente, eu não teria acesso a elas. Havia um comportamento de vender faixas extras, por assim dizer, em CDs separados e eles nem sempre chegavam ao Brasil.

 

Mas, o que sei, é que ambas não ornam muito. Não deu para ouvi-las até o fim. Talvez por ausência de afetividade.

 

Limpando as feridas

 

...Baby One More Time - Britney Spears

imagem: arquivo pessoal. não reposte sem permissão

 

Há algo que eu não fazia ideia na época em que enfiava o CD de …Baby One More Time repetidas vezes no player (e outros CDs): ler o artista. Não que eu seja genial nesse quesito, mas foi bastante reveladora a questão de que este álbum é a venda de uma imagem de pureza. E o auge dessa pureza está em Sometimes que confronta Born To Make You Happy e From The Bottom of My Broken Heart, os videoclipes que Britney tem contato direto com figuras masculinas. Isso esclareceu ainda mais as partes que eu capturava e não compreendia na época, como o caos da capa da Rolling Stones e as perguntas sobre virgindade direcionadas à cantora. Era o mesmo tipo de obsessão visto sobre a Sandy.

 

Ela era boca virgem? Pousaria para a Playboy? Com quem está namorado? Já perdeu a virgindade?

 

Eu me lembro até da “polêmica” sobre a tatuagem da Britney na altura do quadril assim que a era Oops!… I Did it Again começou. Era insano! Não se falava sobre outra coisa a não ser jovens virgens e, hoje, digo que foi horrível! Afinal, a TV ditava o comportamento da minha geração. Automaticamente, o comportamento dos meus pais.

 

Havia a romantização de casar virgem da parte dos Boomers. Havia a separação entre as garotas no colégio – as que pareciam virgens (automaticamente as garotas legais e, óbvio, feias porque ninguém quer), e as que supostamente não eram (as garotas autorizadas a serem xingadas e objetificadas). Eu via isso direto e não havia tanta consciência como há hoje.

 

Pensar que vivi nessa época ecoa estranhamento agora, pois tudo era escancarado. E, ao menos ao meu redor, ninguém dizia nada. Só normalizava essa ideia de jerico sobre o valor da virgindade e eu caía, pois ingeri demais a mídia normativa e patriarcal (que automaticamente reflete nas atitudes dos meus pais) dos anos 90 e início dos anos 2000. Mulheres eram absolutamente nada. Totalmente seres inanimados. Objetos livres para chacota e assédio. Não que isso tenha se alterado, mas a coisa era muitíssimo surreal (como a banheira do Gugu na hora do almoço).

 

Esse tom de inocência de …Baby One More Time casou com tal fase da minha adolescência. O marco de um período leve, sem grandes responsabilidades e com platonismo amoroso (a angústia só existia na minha cabeça, vejam bem). Um álbum ideal, de fato, de uma artista que deixou de ser ideal por motivos de bagunça na minha autoimagem. Um dos pontos que me afastou da Britney e que fez este post ser uma ótima ideia. Afinal, eu escrevi a retrospectiva de vários artistas que gostei neste site, mas jamais sobre ela. Havia feridas que eu não tinha noção de que eram tão profundas até sentar e ouvir este disquinho por inteiro (e consequentemente ouvir os outros).

 

Feridas de eu para mim, pois, conforme me aventurava na revisita, vi o quanto eu não queria retornar para as lembranças que foram incríveis. Doía demais. E esse bloqueio mental largou a sensação de que nada do que vivi entre os 13/14 anos existiu, como a própria inocência. A fase que eu ainda era inteira. Uma impressão que se aplica à Sandy também, mas eu compartilharei esse fato em outro post.

 

Duas artistas que amei tanto na adolescência foram do espaço seguro para o inseguro. Todo o consumo desenfreado de mídia me deixou mal sobre a maneira que me via e, somado aos aspectos ruins que se desdobravam ao meu redor naquela época, me reconhecer na Amy Lee, do Evanescence, foi imediato.

 

É verdade que Britney me deu um universo, mas também ela “apontou” sobre o “tipo” de garota que “eu não era”. Isso aconteceu com a Sandy também (o grande evento do cabelo liso e que rendeu a morte dos cachos por causa da escova progressiva). A obsessão se tornou tóxica e criou outras feridas que me sombrearam sem eu sequer ter noção. Tornando a revisita um meio de colocar tudo em carne viva para limpar e deixar curar naturalmente.

 

Ter acesso a este disquinho (infelizmente pelo Spotify porque ele só toca a partir da faixa 6 se não estou enganada) me deu a chance de rever feridas profundas. Não sobre a Britney, pois ela só foi um gatilho ruim. Elaborá-las me mostrou que tudo bem retornar para tal fase em que eu fui inteira. Tudo bem rememorar as partes inocentes que me fizeram bem de alguma forma. E que, sim, eu vivi coisas boas e essas coisas boas podem ficar à frente do ruim.

 

Por meio deste álbum, e da experiência recente com Sandy e Junior, eu notei que preciso parar de reunir memória Chernobyl, pois claramente nunca me ajudou. Eu dei adeus para minha primeira diva teen gringa (e a diva brazuca). Ao ponto de eu me esquecer o valor da música na minha vida (já que muito começou com elas, Céline Dion e o consumo de rádio).

 

A separação foi tanta que eu nem sequer sabia da tag #FreeBritney. Ironicamente, eu me senti mal, pois dificilmente eu abandono quem eu amo de paixão no entretenimento. A não ser que a merda seja enorme aí não tem jeito.

 

Hoje, olhando para a Britney, e depois de ler uma matéria da Rolling Stone que diz que …Baby One More Time foi a entrada do pop e I Want it That Way a saída, eu vejo a artista que me levou para um mundo de sonoridades que me deixaram feliz. Que me permitiram ser eu mesma, independentemente de ser entre 4 paredes já que eu não ousei dançar na frente de qualquer pessoa as coreografias da cantora. Que me deu a música como principal âncora para atravessar o início de uma era difícil. Eu tinha orgulho de ser a garota que amava pop e essa garota desapareceu. O que torna os disquinhos que amei novos. Intocados. E tem sido terapêutico, pois eu não invisto no que não gosto.

 

E continua assim. Por essas e outras que ainda tenho preferência por disquinhos.

 

Revisitar este álbum foi como experienciá-lo pela primeira vez. Mais consciente de que Britney tinha 17 anos e que, naquele período, havia uma obsessão por garotas aparentemente inocentes. Ela transborda emoções o tempo inteiro. Mesmo não acreditando que o álbum seria relevante por causa das canções genéricas, ela se entregou totalmente e dá para sentir na grande maioria das faixas (I Will Still Love You sempre defenderei). Eu sinto sua força enquanto eu cantarolo as letras, como se fosse a sua mais pura verdade e fiquei estarrecida de passar por isso de novo.

 

separador de post

 

Time will take us apart that’s true but I will always be there for you

 

O trinco perto do círculo do CD. Eu não sei como apareceu, mas ele ainda impede o disquinho de avançar.

 

Tê-lo em mãos me fez notar que ainda desejo ter a versão com a capa de fundo rosa. A que está no Spotify. A minha é a de fundo branco, a clássica em que Britney está com as mãos em prece e um tanto irreconhecível se querem saber.

 

O tanto de scrobbles que hoje eu tenho com Taylor Swift certamente seria da Britney (e muito mais considerando que estamos em 2020). Mas eu me distanciei. De um jeito bem distanciado. Daquele jeito que eu mudaria de calçada ao menor sinal da Britoca. Às vezes, é ótimo encontrar o caminho de retorno, sabem? E aqui foi ótimo!

 

Mas tenho que dizer que o sentimento com relação à Britney ainda é incerto para mim. Não como artista, mas como quem marcou uma fase da minha vida profundamente. Não envolve decepção, mas receio e quem testa muito desse receio é minha irmã, que pegou o bonde Britney e continuou a adquirir os disquinhos. É incrível o quanto ela consegue ser mais emocionada que eu, embora eu tenha chorado quando revi o videoclipe de Born To Make You Happy depois de anos (e isso aconteceu bem no meio da quarentena). Foi aí que eu tirei o pó deste disquinho.

 

Cancelando uma culpa por associação, pois Britney sempre foi vital na minha vida. Ainda o é.

 

Até na hora de malhar!

 

Eu queria muito escrever sobre os CDs que um dia amei (e que possivelmente ainda amo) e não havia ninguém melhor para começar que Britney Spears. O que eu não esperava foi o abrir de feridas. Tão quanto realizar que o tempo arcou de apagar a cantora da minha vida. Como se ela nunca tivesse existido. No fim, eu notei que preciso capturá-la de novo e torná-la permanente.

 

Circulando em meu organismo como no dia que a descobri sem sequer saber seu nome.

 

(…)

 

A propósito, eu não sei onde foi parar a nova moradora do prédio que me deu a mão rumo ao mundo pop e à descoberta de Britney Spears. Eu briguei com ela e está aí uma das coisas que mais me arrependo. Tornei-me o trinco do seu passado e essa é uma das realizações que me deixou triste durante a revisita deste disquinho.

 

Eu espero que ela esteja bem. Inclusive, que se lembre de …Baby One More Time como um evento incrível.

 

Porque foi sim e ele ainda vive dentro de mim. Mesmo com singelos beats de tristeza.

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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