11set
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Era 2018 quando eu li Alucinadamente Feliz – Um Livro Engraçado sobre Coisas Horríveis. Um título meio contraditório que, de acordo com minha analista, combina com meu humor sarcástico (e isso foi um elogio). E o humor de Jenny Lawson, a autora, traz várias nuances de sarcasmo em meio à sua narrativa sobre transtornos mentais (o assunto que me fez investir na leitura) e doença crônica. Os recortes principais que também pincelam a ansiedade que se soma a outras angústias que ela sente sobre si e a vida.

 

Por ser um texto de não ficção, eu demorei um bocado para engatar a leitura. Algo que ocorre quando eu não conheço quem escreve e não tenho conexão anterior. O humor foi a parte de lenta conquista, mas eu me vi desconfortável várias vezes e isso não desvalidou a experiência. Tal elemento calhou de ser a forma eficaz para contar uma história cheia de altos e baixos. Que traz partes densas e com risco de gatilhos (que pincelo no final deste texto). E é sobre uma dessas partes densas que eu quero conversar com vocês hoje: a Teoria da Colher.

 

 

Jenny tem uma relação próxima com o marido (um dos principais personagens do livro) e é com ele que ela conversa sobre seus limites. Por causa dos transtornos mentais e da doença crônica, ela tem dias e dias. Há dias que ela consegue trabalhar. Há dias que ela não consegue falar. É aí que entra a Teoria da Colher que a autora julga ser difícil de explicar. Afinal, como alguém compreenderá o fato de você ter apenas duas colheres para funcionar nas próximas horas?

 

É o que ela tem em mãos para justificar quando não há mais forças para continuar e não é fácil admitir. Ainda mais quando se trabalha fora, pois não dá para bater na porta da chefia e dizer: hoje já me custou umas 5 colheres, posso ir pra casa? O que nos faz entrar na parte de que comunicação é tudo!

 

Muitas empresas não se importam com sua quantidade de colheres, mas com a produção (vamos fingir que é uma novidade o que eu acabei de contar). Ampliando o tabu sobre transtornos mentais. Fortalecendo que, apesar de tudo, você tem que aguentar já que precisa do dinheiro (e fazer dinheiro para manter os ricos). E, quando você conta que tem um transtorno mental, ou outro tipo de doença, você corre o risco de entrar no hall da “inutilidade”.

 

Acredito que é nessa hora que devemos relembrar do nosso valor. Que o que a pessoa não entende sobre transtornos mentais não é nossa culpa. E que, com ou sem colher, não podemos desistir de falar sobre o assunto.

 

Nem todos têm o privilégio de comunicar, claro. O mundo é capitalista. Terapias seguem de difícil acesso. Sem contar que há quem não esteja pronto para ouvir que sua energia é mensurada por colheres. De qualquer modo, às vezes, você tem que ir, seja para onde for, e dar o seu dito melhor. E, nesse caos, a Teoria da Colher entra como uma facilitadora pessoal, pois se incita a relação do nosso eu levando em conta o estado mental, físico e emocional.

 

Inclusive, ela entra como uma forma de autocuidado e de autoconscientização sobre como nos sentimos.

 

A partir daí, é possível utilizá-la em cima do que causa sofrimento e falta de energia a fim de conseguir alívio e romper o medo de dizer quando não dá. Fluxo que, neste caso, e de acordo com o livro, se aplica aos transtornos mentais, doenças crônicas e autoimunes.

 

Como funciona a Teoria da Colher?

 

 

A Teoria da Colher foi criada pela minha amiga Christine Miserandino para explicar os limites de uma pessoa que sofre de uma doença crônica. A maioria das pessoas saudáveis tem um número aparentemente infinito de colheres à sua disposição, cada uma representando a energia necessária para uma tarefa. Você se levanta de manhã. Isso é uma colher. Você toma um banho. Mais uma colher. Você trabalha, brinca, limpa, ama, odeia, e lá se vai uma montoeira de colheres… Mas, quando somos jovens e saudáveis, ainda temos colheres sobrando ao deitarmos e esperarmos pela próxima entrega de colheres na manhã seguinte.”

 

Resumindo o quote: cada colher é um tipo de energia. Pessoas saudáveis acordam com colheres ilimitadas, ao ponto de nem pensarem sobre, enquanto quem tem transtornos mentais e doenças crônicas ou autoimunes pensam muito mais sobre como e onde usá-las para funcionarem em um dito adequado na rotina diária.

 

E isso envolve tudo que se faz. Desde ir à padaria até tomar banho.

 

Daí vocês perguntam: tomar banho não é obrigação? Bem, sinto dizer que há dias em que pessoas deprimidas não conseguem se mover pra fora da cama. Assim, tomar banho é motivo de angústia e de sofrimento. É um quadro que, por vezes, é confundido com preguiça e má vontade, quando a pessoa só não consegue reagir. Essa pessoa adoraria fazer tudo que lhe é pedido ou o que tem vontade, acreditem em mim!

 

Como sair de casa e não digo isso apenas pela pandemia. Quem tem depressão automaticamente se inclina ao isolamento que aliena as pessoas ao redor que julgam pelo pensamento de “a pessoa sempre agir assim”. Não é proposital, pois, de novo, é uma possível reação ao sofrimento e, às vezes, há vergonha de dizer. Dessa forma, sair de tal cenário, nem que seja para tomar banho, é vitória que, às vezes, é temporária. Ou nem acontece, pois não há colheres o suficiente. Tarefas simples não são simples nesses casos. É importante ter isso em mente.

 

Quem tem um transtorno mental trabalha o triplo para ter um dia minimamente bacana. A pessoa tem que carregar ao longo de um dia pensamentos negativos, ruminação, desconforto e assim por diante. Tudo estala sem aviso e sei que vocês também podem dizer: mas todo mundo passa por isso. Sim, mas não em comparação a quem tem uma doença mental ou crônica. É fucking exaustivo ter que estar em lugares quando tudo de si está paralisado.

 

Quando você sente que está prestes a falhar tão profundamente que chega a ser insustentável testemunhar tal fato.

 

 

Usando-me de exemplo, eu me via com mais ou menos 10 colheres para atuar em uma agência, no falecido ano de 2018. Mais da metade pertencia aos níveis da minha ansiedade que tinham que caber nessa rotina e serem seguradas diante dos sustos gerados pelo cliente (o que nem sempre dava certo). Só nessa contenção, umas 7 colheres iam embora, especialmente quando eu segurava o choro entre os lábios. Lá, não dava para dividir a agenda, saber das coisas com antecedência, pois qualquer hora era hora para uma tempestade acontecer.

 

Até isso começar a me consumir e me botar no hospital várias vezes no início de 2018. Eu entrei em um ciclo bizarro de resfriados psicossomáticos. Foi tão forte que reencontrei, depois de anos, a famosa benzetacil. Sem condições!

 

Meu corpo sentiu tudo que eu continha e alcançou o limite. Ultrapassando o limite, algo se esvai e meu corpo resolveu me deixar doente ao nível de ter que tomar uma benzetacil na traseira. A minha garganta fechou de um jeito tão horrível que eu não conseguia beber água direito. A água saía pelo nariz, meu próprio afogamento.

 

Ficando doente, eu saía de um ambiente que me fazia mal (e que continuou a me fazer mal até minha demissão). Um ciclo que minha analista traduziu como: você tem que aprender a falar. O problema era sempre a garganta e eu tossia como se eu precisasse expelir fumaça consumida em um incêndio. Bom, eu estava em autocombustão naquela época.

 

Hoje, sem trabalhar em agência (e atualmente pausada na carreira de freelancer), eu consigo me organizar melhor entre o que quero fazer e o que será penoso de fazer. Isso me dá perspectiva, porque eu me livro do que é penoso primeiro para ficar só com o que eu gosto ou tenho mais afinidade. Parece lindo, mas uma hora, ou no outro dia, eu posso ficar anuviada. Ao ponto de eu só querer saber de dormir, porque tudo pesa.

 

Respirar parece o esforço de 10 colheres que eu poderia usar para lavar o banheiro.

 

Naquela época, a Teoria da Colher me deu conhecimento sobre esse equilíbrio necessário entre a vida e os efeitos de transtornos mentais. Claro que o que me ajudou mais nesse processo foi a análise que se tornou minha maior colher (que me ajudou demais sobre a famosa química do meu cérebro). Hoje, eu não me consulto por motivos financeiros, mas, se eu refletir bem, todo dia eu tenho 5 colheres. Muito pouco e ficar em casa tem sido a grande culpada.

 

Ao menos 4 colheres se esgotam pela manhã (que é meu melhor horário para qualquer tipo de atividade). Daí eu tenho que usar a que sobra e acionar as colheres extras, porque ainda há a casa que precisa de um tapa e eu preciso tentar me cuidar já que eu estou isolada (como me exercitar e me alongar). Nem sempre funciona desse jeito.

 

De certo modo, eu me habituei à ideia metafórica de ter 5 colheres de chá extras (o que me bota de volta ao contexto de 10 colheres). Isso me impede de fechar totalmente o sistema, pois não se sabe de onde surgirá uma interrupção ou uma urgência (uma vez acostumada com pique de agência dá nisso). Quando não há nada, elas acabam direcionadas a atividades que não requerem muito do meu estado mental. Como ler ou só patinar na maionese.

 

Às vezes, eu gasto essas colheres me martirizando em alguma rede social e eu decidi parar com isso.

 

Se é para ter colheres extras que tal usá-las sabiamente, né?

 

 

Tudo tem uma leitura pessoal e a Teoria da Colher se tornou uma chave para se compreender limites. Ela me deu apoio para comunicar que, ao menos hoje, não há energia suficiente e que não se trata de preguiça ou de corpo mole. Ela me inspirou a ver que nem todo dia é dia e a fazer as pazes com isso. Tirar o fardo gerido pela culpa, especialmente para quem tem muito forte a questão de produzir o tempo inteiro (eu fui essa pessoa, vale dizer).

 

De quebra, me inspirou a um olhar mais atento à rotina. Uma parte que sou falha e minha analista viveu de repetir que ter uma rotina me ajudaria devido à ansiedade. E, nesses tempos, ter uma rotina ainda é essencial.

 

Para quem continua em casa, talvez, há mais chances de compreender as colheres. Há uma chance entre as pausas para voltar um olhar para si e analisar de onde exatamente brota sentimentos de angústia, a ansiedade e o que está fazendo tanto mal. E, se estiver muito difícil, procurar uma ajuda profissional que orientará esse processo de delimitar a quantidade de colheres metafóricas para todas as atividades do dia. Tanto para dias bons e ruins.

 

Nada disso tem a ver com controle. É direcionamento da sua energia e das suas emoções.

 

E, falando em emoções, a Teoria da Colher nos ajuda a ouvi-las e articulá-las.

 

Com as colheres metafóricas em mãos, você pode ver onde as de sopa precisam estar, as de chá, as de sobremesa e etc.. As de sopa servem para atividades intensas, como o job de segunda a sexta. As menores para coisas leves, como ler.

 

Haverá dias de muitas colheres. Haverá dias de poucas colheres. Haverá dias sem colheres.

 

Daí você tem que repetir: tá tudo bem!

 

As colheres são suas aliadas

 

“Se você está doente ou sofrendo, sua exaustão muda você e o número de colheres que tem. Doenças autoimunes ou dores crônicas como as que tenho por causa da artrite eliminam colheres. Depressão ou ansiedade eliminam ainda mais. Pode ser que só restem seis colheres para se usar em um dia. Às vezes, menos ainda. Aí você pensa nas coisas que precisa fazer e percebe que não tem colheres o bastante para fazer todas elas. Se limpar a casa, não terá mais colheres para se exercitar.”

 

Há muitas pessoas que vão trabalhar e que não foram diagnosticadas com depressão e ansiedade, por exemplo.

 

Muitas possuem ao menos um transtorno mental e não sabem.

 

Na pandemia, pesquisas já apontam para o aumento da depressão (especialmente por causa da solidão).

 

E a Teoria da Colher é uma ideia de ajuda sobre delegar. Sobre pensar bem onde gastar a energia.

 

Eu gosto de ideias de ajuda e esta ideia calhou quando eu começava a entender minha saúde mental e a falta dela. Hoje, eu aceito os dias que não estou legal e o máximo que posso fazer é deixá-los passar. Tal ato gira uma chave no meu cérebro sobre usar a única colher em forma de cérebro para algo importantíssimo. E, normalmente, é o trabalho.

 

Hoje, eu desaprendi muito sobre controle (e dou amém por isso!) e isso me fez buscar outras formas para que as coisas do meu lado continuassem a funcionar. Ter uma agenda voltou a ser essencial, mas não daquele jeito de ter 220 coisas para cumprir em um dia. Eu a uso para lembrar. Para ter a noção de ordem, pois a minha ansiedade brota na sensação de que não faço nada e lá se vai energia pensando em besteira.

 

Sem contar que é ótimo para quem precisa saber das coisas com antecedência e ter prazo para cumpri-las (eu!). Isso respeita meu tempo e, com isso, eu forneço a energia necessária para a demanda.

 

Daí entramos na roleta sobre o que eu aprendi anos depois de ler sobre a Teoria da Colher: antever com intenção. É por isso que o controle tinha que sair, pois esse senso de controle me gerava desconfortos e paranoias. A agenda, que me serve de norte ao apontar as atividades do dia (como dia de lavar roupa), me âncora e me dá rotina.

 

Vale mencionar os pontos de evasão emocional. No meu caso, isso reside no diário. Lançar minhas emoções incoesas em algum lugar abre espaço às colheres extras. É um exercício que renova a energia ao se elaborar o pensamento/emoção, pois, nesse espaço, que se torna vazio ou meio vazio depois do desabafo, as colheres brotam. Sem tamanho específico, pois depende do meu humor (e isso também não acontece sempre).

 

Muito desse reconhecimento aconteceu por meio do meu tratamento psicológico. Que começou em 2018, inclusive.

 

Em suma, a Teoria da Colher é um chacoalhão sobre nossos limites e limites também são autocuidado. Ninguém é obrigado a usar todo seu limite de bateria (mas, infelizmente, sabemos que acontece). Como aprendi recentemente, você não tem que se tacar no fogo para deixar todo mundo quentinho e confortável. É importante que reconheçamos nossos limites. Que compreendamos nossa energia tão quanto o peso mental/físico/emocional do dia.

 

Que estejamos sempre em contato com nossas emoções.

 

Se você tiver com quem conversar sobre essas colheres metafóricas, faça isso. É importante ter ajuda para organizá-las do jeito que calha melhor na sua vida. E tem que ser de forma positiva e leve.

 

Justamente porque a Teoria da Colher é também sobre organizar a desorganização.

 

E você pode saber mais dela ao ler Alucinadamente Feliz – Um Livro Engraçado sobre Coisas Horríveis. Eu recomendo!

 

 

Alucinadamente Feliz é o motto de Jenny para passar pela vida depois de se ver diante de uma nova intempérie (e aí entra spoiler). É sua reação contra o fato de se sentir sempre deprimida. É a exposição da sua frustração em querer ser alucinadamente feliz e, às vezes, não conseguir. Tudo que ela quer é viver sem tanto medo.

 

Quem não se identifica, né?

 

Literalmente, a autora usa o nosso meme mais conhecido como “pagar de doida”. O que soa negativo, mas, ao ler este livro, eu percebi que foi o modo de cope que ela encontrou para ser ela mesma quando possível.

 

Principalmente quando não há um número de colheres suficientes.

 

Jenny só quer ser alucinadamente feliz. E acredito que deveríamos praticar isso também.

 

A propósito, o livro segue muito querido aqui desse lado e estou pensando em relê-lo.

 

Stay strong! E se cuidem direitinho.

 

PS do bem: este livro narra experiências da autora com depressão, suicídio e automutilação. Isso pode ser gatilho para futuros leitores.

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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