23mar
Arquivado em: Notas de Campo

I.

hoje

 

Tanto tempo que não passo por aqui e nem sei por onde começar. A não ser largar uma pergunta que me persegue desde 2019: o que vem depois?. Uma pergunta reencontrada entre cadernos de ideias e notas esparsas no ano passado (e isso influenciou bastante na escrita do meu conto que está disponível bem ali, na sidebar) e que ainda não tenho uma resposta apropriada. Principalmente quando parece que voltei ao plano de 2020. Um plano que não vivi.

 

Você pode me perguntar de onde veio essa pergunta e se ela encaixa no mundo que vivemos hoje. Bom. A pergunta veio por eu ser sobrevivente de violência. E seu retorno na minha mente não envolve o mundo que vivemos hoje.

 

Há mais de uma perspectiva sobre o hoje em meio à pandemia. Ao menos por aqui, eu tenho duas. Uma em que todo mundo experiencia os efeitos da pandemia. E outra em que há pessoas enfrentando a pandemia + violência doméstica que se manifesta de várias formas, como abuso psicológico. O que posso dizer é que não estou na primeira perspectiva desde que o isolamento social de março de 2020 começou. Minha história sobre o hoje é totalmente a outra.

 

E isso é o máximo que pontuarei, pois preciso dar ao menos algum tipo de contexto. Afinal, este site é reflexo de muita coisa da minha vida e há certas coisas que não dá para fingir que nunca aconteceram.

 

Mesmo achando que não, eu tenho certeza que trabalhei bravamente para fingir que nada aconteceu. O senso de normalidade não me escapou tanto assim e cheguei a acreditar que eu estava bem depois que o tornado virulento se foi. Afinal, eu fiz bastante coisa no 2º semestre de 2020. Talvez, eu continuasse acreditando nisso se não soubesse, bem lá no fundo, que a situação também me fez vítima. Detalhe que eu não sabia até ter conversado com quem entendia do assunto. E, talvez, eu não quisesse me ver nessa posição. Acho que briguei para sair dela, forçando o pensamento de que nada do que ocorreu tinha a ver comigo. Não teve diretamente, mas eu fui consumida pelo que aconteceu.

 

O que eu não percebi e senti no ano passado, ao menos com grande intensidade, eu sinto e percebo hoje. Então, para eu tentar me acomodar aqui de novo, e tentar permanecer, fingir que nada aconteceu não é uma boa pedida. Isso interferiria no contexto que reacendeu o questionamento sobre o que vem depois?. Nada de ser desonesta comigo.

 

Talvez, eu tenha retornado pra cá a fim de descobrir a resposta sobre o que vem depois?. Estar aqui sempre me deu um senso de movimento. De agir. É aqui que coloco o que percebi ser minhas intenções para o ano e que dão meio certo. A diferença da vez é que eu não tenho uma intenção. Só o que eu tenho é o fim de um tempo.

 

Para não haver dúvidas, o depois tem a ver sobre como voltar a viver depois do evento traumático que ainda pulsa dentro de mim. Apontando que minha mente se alterou de novo, que meu corpo tem novas reações e que a melancolia parece que não vai embora. Um evento traumático causado pelo que chamei de tornado virulento, porque eu não quis usar as palavras exatas. Isso foi novo para mim, pois eu não tenho mais tanto receio de botar pingos nos is. É o que dizem sobre negação e os primeiros meses de 2021 podem ser considerados como o ciclo rumo ao fim da negação.

 

Até mesmo da autoalienação. Tenho quase certeza que foi por causa disso que fiz tanta coisa no semestre passado. Durou pelo tempo que eu precisava, acho, pois a realidade bateu e eu saí da minha experiência em suspenso. Vi os escombros. Vi que estava longe do inteira. Eu não funcionava direito. Desmoronei. Agora, eu vejo o vazio.

 

Não sou nova nesse tipo de contexto, se querem saber. Ele se aproxima, parcamente, do que eu vivi em 2019. Por isso eu meio que o domino, seja com ajuda psicológica ou pelas minhas altas conversas comigo mesma. Não significa vantagem, pois, às vezes, sinto que retrocedi. E creio que a ideia de depois me pegou firme dessa vez para me ajudar.

 

Especialmente por retornar à intenção que escolhi em 2020: novo normal. O plano que não vivi. Palavras outrora soltas, como tantas outras, e que uma hora ganham utilidade. Como sempre acontece.

 

Novo normal foi a intenção de 2020 que seguiu a regra de todo ano eu ter um ponto de partida e a escolha veio graças ao meu interesse em saber o significado de normalidade. Inclusive, do meu interesse de viver sem tantos maremotos e alguns funerais. Eu nunca senti que minha vida foi normal. Eu nunca me senti normal também.

 

Além disso, eu queria me compreender como sobrevivente de uma violência passada e descobrir quem eu era sem uma boa quantidade de escombros, espinhos e infiltrações causados por conta disso. Desejos novos provocados por melhoras psicológicas. Um tratamento que me dei em 2018 e desejo nunca deixou de ser pauta. Eu nunca dei trela aos meus desejos. Sempre me pareceram supérfluos. O que traduz no meu talento de me achar supérflua também.

 

Relembrar da intenção de 2020 me deixa triste. Devido à minha exposição ao evento traumático de 2020, eu passei semanas refletindo sobre ter falhado e retrocedido. Depois, me veio a sensação horrorosa de que não saí de 2020 e que tudo se repetirá. Eu fui interrompida indireta e bruscamente, o que provoca um misto de várias coisas. Como raiva e pena de mim mesma. A parte da pena é nova e é parte do meu funeral. E, todo dia, eu visito o cemitério de versões antigas de mim que reside na minha mente. Ecos que representam o que eu senti praticamente a vida toda: sempre lamentar pelo tanto que me perdi e perdi por causa de algo incontrolável e que não tenho culpa.

 

Vivo flashbacks de quem eu fui antes. De novo. Fato que esclarece um tanto mais sobre minha leitura da perda e da morte. Vem o lamento da perda do eu anterior, o que gera rejeição visto que outra pessoa entra em cena. Revelando a perda de sentido, pois, de alguma forma, é sabido que você mudou profundamente. Só demora a saber o quanto.

 

Um ponto que me fez pensar mil vezes se valia a pena insistir neste site. Se eu já tinha dificuldade de me identificar antes (e isso veio do reflexo das melhorias que eu conquistei em 2018-2019), agora eu tenho muito mais (pois é a estranha que escreve). Eu comecei a mudar muito rápido de 2018 pra cá. Uma mudança escalada na outra, avessa à outra. Automaticamente, alterando gostos, perspectivas e afins. Refletindo no como eu escrevo, no porquê e o que quero escrever. No passado, isso acontecia em seu tempo, devagar. Hoje, a velocidade me deixou desorientada.

 

Sem nada nas mãos, a não ser a bagagem que prometi preencher em influência da intenção de 2020, posso dizer que a principal razão que me trouxe de volta é: eu preciso me derramar em algum canto. Para isso, eu tive que admitir para mim mesma o que aconteceu. Admitir que isso me afetou mais ao que gostaria. Admitir que eu posso falar sobre e trabalhar a minha vulnerabilidade. Uma das minhas principais respostas de trauma é empurrar o evento para o fundo da mente e não me deixar sentir o que tenho que sentir (porque eu quero voltar a funcionar depressa). Ou seja, admitir.

 

Só que o corpo sente e isso sobrecarregou todo o meu sistema. Daí, eu preciso esvaziá-lo antes de reconfigurá-lo de novo e eu me sinto segura neste meu canto na internet. Até porque nunca me larguei da sensação de que falo sozinha. Esta é a experiência mais bonita em comparação aos papos com as paredes do meu quarto.

 

Como não tenho para onde ir também, me resta aqui. Um canto que eu costumava chamar de casinha. Não sei se estou em casa, pois nem me sinto dentro de mim. Mas me sinto dentro de mim o suficiente. Suficiente porque um ano se passou e muito parece com frames da cena final de Midsommar. Vendo tudo queimar. Eu ainda não sorrio diabolicamente, mas uma hora eu espero chegar lá. Consciente de que me expurguei do evento traumático e de todas as coisas negativas que descobri sobre o que me rodeia.

 

Um ano depois. Hoje, eu me sinto até que ok por dentro. Não muito resistente, mas resistente o suficiente para ainda não soltar a minha própria mão.

 

II. 

flashback

 

Cena de Midsommar em que Dani está tonta

 

Eu preciso dar um pouco do contexto de 2020. Da intenção mais precisamente.

 

Em 2020, eu me comprometi a vivenciar a ideia de um novo normal. Um duo de palavras que me pegou em 2019 e ficou largado entre cadernos de ideias e notas esparsas junto com a pergunta sobre o que vem depois?. Eu queria muito fazer algo com essas ideias, mas somente uma acabou tendo função. Tornando-se a intenção do ano.

 

O duo de palavras ganhou poder depois de uma epifania em fins de 2019 (graças à insistência de ter continuado a escrever a história da Alice). Eu não sabia, mas, naquele entretempo, eu já era outra pessoa. Meus pesos anteriores não comportavam mais dentro daquela outra pessoa que terminou o milésimo rascunho da mesma história e abriu o berreiro ao som de Lose You To Love Me. Aquela outra pessoa percebeu que queria e merecia muito mais.

 

Tanto nessa época quanto em 2018, eu me vi exposta a desejos que um dia eu tive. Tive porque os traumas e outros eventos negativos os engoliram. Com as comportas abertas, me vi revisando minhas próprias decisões. Como algumas terem nascido para me proteger de outras tragédias. Percebi o quanto me privei, o quanto me protegi, o quanto eu não tinha uma voz. Eu transitei em função de um sistema de sobrevivência e nada disso foi culpa minha.

 

Coisas que notei por conta de quase três anos de análise e a análise fortaleceu meu olhar pra dentro (que consta em páginas de diários e conversas audíveis demais). Eu gosto dessas áreas de autoconhecimento, psicologia e afins. É onde eu tento obter respostas sobre as “falhas” no meu sistema. É assim que elaboro os traumas que acolhi por anos como se fossem minha própria verdade. Meus próprios traços de personalidade. Minha própria visão da vida.

 

Parece uma coisa… Quando eu tenho que desmoronar, é de uma vez só. É difícil aguentar e, às vezes, acho que não aguentarei. Contudo, meu desmoronar em fins de 2019 foi bom. Foi o famoso chorar para limpar. Eu limpei o que sobrou em reflexo de resoluções vindas de 2018. O ano que comecei o trato das carcaças e fui me sentindo mais leve.

 

Um entretempo importante antes desse mencionado desmoronar de 2019. E volto sempre para esse entretempo por sentir falta de quem eu me tornei lá. Ou para resgatar as lições e a energia daquela realidade para ao menos começar a me reajustar em 2021. Ou para capturar uma brecha de sentido de mim e da realidade que posso reescrever. É triste também, pois há outro senso de perda que se manifesta como um grande roubo. Eu fui tirada daquela linha do tempo e lamento por quem, às vezes, acho que não sou mais. Na esperança, penso se ela não está sob disfarce ou se de algum jeito ela é o eu de hoje. Muito disso tem a ver com as minhas reações depois de passada a negação.

 

Incluindo o reconhecimento do vazio que me encontro. Um vazio que se apresentou pela primeira vez em 2019, bem antes do episódio do berreiro, e que eu soube do seu significado muito recentemente. Um vazio que não aponta para minhas constantes fases de melancolia. É um vazio que se assemelha a estar diante de uma estante novinha em folha e não saber o que botar lá. Em função da história da Alice, eu descobri que esse vazio é comum entre sobreviventes de violência, porque envolve a ausência do saber sobre como viver depois de tudo. É o buraco do novo normal.

 

O que traduz o significado de novo normal nessa minha perspectiva: sobreviventes seguindo adiante.

 

Em 2019, eu não lia esse vazio de tal forma. Era algo estranho, como se sujar de algo e não conseguir limpar. Foi a fase de desorientação sobre não ter mais certas carcaças influenciando totalmente o meu existir. Por vezes, me ocorria o pensamento de perda de identidade. Ou que eu deveria pegar tudo de volta para funcionar. É inexplicável!

 

Sinto-me assim, sem identidade. Porém, não quero pegar nada de volta para funcionar. Eu caí de novo no ciclo de ausência de sentido, de descobrir quem eu me tornei depois e tentar (re)viver sem tudo que me queimou e me apagou. Pontos que, vale dizer, dificultaram bastante meu retorno pra cá. Sem mim, foram-se os assuntos.

 

É aí que lembro de um conselho rúnico que não me canso de mencionar: preencher e transformar o vazio. Isso engataria o que hoje eu chamo de outro depois. No entanto, ainda não sei como, pois parece que tenho duas estantes para serem preenchidas. Uma que surgiu em 2019. Outra que surgiu assim que saí da melancolia dos eventos de 2020. E estou naquela fase de perambular ao redor delas, sem saber suas utilidades. Ao menos, este texto constará nesse espaço, saindo da minha bagagem diretamente para o que pode se transformar em uma biblioteca do depois.

 

Eu nunca ouvi falar sobre novo normal. Meu primeiro contato aconteceu por meio de um episódio de The Bold Type, o 1×10 que traz duas personagens sobreviventes de violência sexual. Um episódio que, em português, se chama “carregando o peso”. No caso, o silêncio e a falta de justiça. Inclusive, a impressão de que você “tem que se virar”, pois parece que todo mundo só te escuta quando a coisa aconteceu. Perto do fim da trama, uma delas menciona o novo normal. Explicando que é impossível se sentir normal depois disso e que todos os dias é um novo normal.

 

Ela diz exatamente assim:

 

Mas você encontra um novo normal. E funciona tão bem que, às vezes, você nem percebe que não é.

 

Com uma nova bagagem de realizações, conquistadas nos entretempos 2018-2019, decidir pelo novo normal foi automático. Mesmo que não fosse, pois não se apaga a realidade dos fatos. Talvez, eu só quisesse brindar o que conquistei durante o tratamento psicológico. Eu me sentia animada, inspirada e à vontade. Apesar de ainda haver tristeza, instigada pelo meu próprio funeral e de outras inseguranças, eu sabia que tudo que começou em 2018 queria se acomodar em solo seguro para evoluir. Tendo o pontapé no meu desejo de mudar a direção apesar de me sentir perdida.

 

Perdida de um jeito bom. Como ser largada em um parque de diversões vazio e ter a liberdade de escolher por qual brinquedo começar. Músicas antigas voltaram. A luz do final feliz. Apesar de contar as perdas (efeito de conversas comigo mesma e escritas em diários), eu ambicionava um recomeço verdadeiro. Uma jornada em que, pela primeira vez, eu estaria presente. Eu enxergava paixões visto que não havia uma espécie de condicionamento em mim. Eu me enxergava de outro jeito. E eu comecei a querer capturar o que rejeitei e ainda amava. Foram-se nuvens pesadas e eu vi que me tornava outra pessoa. Uma melhor para mim e que queria se afastar de tudo que a limitou no passado.

 

O antes não era mais minha dita verdade universal. Eu poderia não me sentir totalmente livre, e duvido que um dia eu me sentirei totalmente livre de tudo que me aconteceu até aqui, mas meu desejo primordial era preencher o vazio. Sem nem ao menos saber o quanto esse vazio tem um peso diferente e necessário. Como minha analista aconselhou: eu tinha que criar o que fazia sentido para mim. E eu quis começar do lado de fora.

 

Na intenção de novo normal, nasceu a ideia de explorar. Experimentar. 2020 seria uma reconstrução. Uma regeneração de verdade. Seria. Veio a pandemia para alguns. Vieram tornados virulentos para outros.

 

Escolher o novo normal partiu também do que eu nunca notei: ter vivido um monte de novos normais. O plot twist é que todos foram falsos, pois eu nunca segui em frente. Eu lancei tudo atrás de comportas e as mantive fechadas por mais de dez anos. Entregando que eu passei pela vida presa aos traumas da adolescência. Sem nenhuma resolução. Atitude que nunca impediu as transformações internas que me tornaram minha pior inimiga. E que me fizeram crer de que eu era isso e aquilo e ponto, sem chance de mudar. Eu demorei mais de dez anos para botar os pingos nesses is.

 

Ao contrário das personagens de The Bold Type, superconscientes sobre o que aconteceu com elas, como aprenderam a (re)viver junto aos sintomas do depois, eu me tornei a sobrevivente adulta que quebrou o silêncio no que chamariam de tarde demais. Meu relato é o dito “passou da validade” e só havia uma resolução: eu aceitar por mim.

 

É muito recente o fato de ter passado pela negação, autoalienação, raiva, culpa e funeral de traumas da adolescência para cair no mesmo ciclo por um motivo que, de certo modo, não deixa de ser o mesmo. Desta vez, a diferença vive na minha autoconsciência sobre o ocorrido em 2020 e por eu não ter sido o alvo direto. No entanto, eu vivi tudo, absorvi tudo e tenho gatilhos novos. Passei pela mesma experiência funerária e achei que nunca mais sairia dela.

 

Pois tudo estava perto demais. Eu testemunhei transformações ao contrário de quando eu tinha 14/15 anos.

 

Eu deveria ter me acostumado a desmoronar de tanto que desmoronei ao longo da vida. Mas é quando volto para a vulnerabilidade que representa desconfortos emocionais sobre não me sentir funcional e não aguentar estar dentro do meu corpo. Desmoronar é um efeito avesso ao que compartimentalizo em excesso e vou me afogando. O tempo afogada parece linear, mas uma hora é preciso de ar. E aí eu consigo emergir, me sentindo menos funerária.

 

Não muito, mas o suficiente para tentar tomar algumas decisões. Como ter recuperado a pergunta sobre o que vem depois?. Ela não me desafia, mas me bota em 2019. Na lembrança de eu ter decidido por um novo normal que, hoje, chamo de outro depois. E aqui há o mesmo vazio que me dei conta naquele entretempo.

 

Há ondas de desespero de não saber como (re)viver. Mas tenho tentado estar no agora. Mesmo com a sensação de que caí da espaçonave quando, na verdade, eu não estou mais em suspenso. E o curso da viagem se alterou.

 

Nesse vazio, reside quase todas as mesmas coisas que descobri em 2019, mas com uma quantidade maior de receio. Certos traumas te roubam profundamente e é normal sentir medo de que ocorra de novo. Daí, o comportamento é se prevenir e eu já estive nesse lugar antes. E tem horas que volto para ele, com pavor de ser interrompida de novo.

 

Especialmente quando 2021, de maneira geral, parece 2020. A única emoção que tenho alinhada com todo mundo. O looping e eu não posso me dar ao luxo de juntar o looping de todo mundo com o meu. Então, eu decidi congelar o tempo. Uma hora eu estarei no tempo cronológico. Sem que eu note.

 

Eu retorno depois de um ano em suspenso. O exílio no isolamento que acredito que rompi ao passar por algumas fases funerárias para dar de cara com o vazio de novo. Um vazio que, hoje, finalmente, eu sei o significado. Sacá-lo foi como sair de uma espécie de anestesia, pois deu mais sentido a tudo que senti nos últimos dois meses. Vergonha, raiva, culpa e melancolia. O caminho nas chamas rumo à resolução. Uma palavra que prefiro mais que aceitação. O que não significa que não há mais dor. Ou que o que eu vivenciei foi embora. Tudo fica e tem seu próprio jeito de viver.

 

Mas esse vazio não deixa de ser uma segunda chance. Que pode se transformar em uma terceira. Em uma quarta. Vários outros depois. Recuperação mental e emocional não vem fácil. Um detalhe que, quando penso sobre, também machuca. É cansativo ter que se refazer o tempo todo para sobreviver.

 

Mas penso que os meses mais difíceis passaram. Meses que ninguém vê. Meses que me empurraram para este hoje, ainda incerto, mas, ao mesmo tempo, novo. Talvez, fizesse parte do processo. É funeral de qualquer forma e é bom ter uma gota de claridade. Sentir-me um pouco mais minha. E com menos vergonha do desmoronamento ao meu redor.

 

Todo dia é uma denúncia do que mais mudou nas pessoas ao meu redor, em mim, das perdas, do quanto o evento traumático apertou incontáveis botões e se afunilou a marcas permanentes de outros traumas. Já diziam que a recuperação não é linear. É bonito ler sobre quando, talvez, você não é obcecada por um controle linear. Ou quando não é autoexigente demais ao ponto de ser sua própria vilã e cobrar funcionalidade toda hora.

 

… É difícil se reerguer depois do fim do seu próprio mundo.

 

O mundo que pulsa do lado de dentro.

 

III.

hoje

(…)

 

Midsommar - cena do ritual de sacrifício

 

Agora, vocês têm o contexto.

 

Eu entrei na missão de autorresgate e que pode ser que renda os posts futuros. Especialmente porque, dentre tantas coisas que me incomodam, está a impressão de que eu retrocedi todo meu tratamento psicológico. Soa como traição, pois meus esforços soam como desvalidados. Porém, vejo isso como uma reação traumática de nível normal visto que vem daquela sensação de que perdi o controle e preciso retomá-lo em algum ponto. Fico contente que a parte boa de mim tem pensado bastante em autocuidado. Eu nunca fiz isso em toda minha vida. Não de um jeito saudável.

 

Se há algo que me move agora é a vontade de me cuidar e isso me atingiu em cheio quando reli meu diário de 2019. Uma versão reclamando sobre não conseguir se cuidar. Ficando no “básico” e achando o suficiente. Isso me deixou bem triste. E, considerando que ainda vivemos na pandemia, me cuidar é a única coisa que eu tenho para me reivindicar. Para poder sentir que posso começar a seguir em frente sem queimar etapas. Resta-me esperar para ver se tudo fica ok e sei que essa espera levará tempo. Paciência, outra coisa que preciso exercitar.

 

Como eu disse, não dava para retornar rejeitando essa parte da minha história. Foi duro sentar para admitir, pois é o mesmo que admitir que, de certo modo, você perdeu. Que houve algo de errado. Que você precisa aceitar as facetas vulneráveis tão quanto as emoções amargas. Não é à toa que fiquei enroscada neste texto por mais de um mês. Eu não queria compartilhar demais, como também não queria compartilhar de menos.

 

Honestamente, eu não queria registrar essa parte, mas é inevitável. Quem sabe, eu ajude alguém no processo. Uma pessoa que esteja perdida no vazio ou não percebeu seu outro depois. Mesmo que a percepção e o sentir sejam diferentes. Afinal, meus sintomas do depois e minhas formas de reações não são uma regra.

 

São apenas minhas. E elas não tiram a minha verdade.

 

Entre meus suspiros pesados, penso em 2018-2019. Anos que representam entretempos que eu comecei a aprender a não me rejeitar tanto e creio que essa é minha outra missão depois de tudo. Especialmente para me agarrar a algo que foi bom (normalmente, acontece o oposto na minha mente). Eu preciso aprender a não me rejeitar tanto. A me manter por perto mesmo que machuque. A aceitar minha vulnerabilidade pra valer e que tudo bem não funcionar em alguns dias. É possível, especialmente quando a minha urgência diminuiu pela ausência de porquês.

 

Às vezes, eu sinto o frio na barriga e o pensamento dispara sobre o dito dever de acelerar. Correr rumo ao tempo que perdi. Um comportamento reativo também e que sei que me deixará com lacunas mentais. Por isso, eu tenho me importado muito mais com registros visto que minha mente parece mais fraca que o habitual. E com as estantes vazias que preciso preencher. Apesar de envolver um entretempo difícil, esse entretempo também é meu. Infelizmente, eu preciso respirá-lo, mas, como descobri dois anos atrás, não posso deixar que me queime para sempre.

 

(…)

 

O outro depois preza o mesmo que o novo normal: a intenção de sobreviventes seguindo em frente. Apesar de dizer que não há intenção para este ano, bom, descobrir a resposta sobre o que vem depois? não deixa de ser uma. E estou aqui porque tudo que aconteceu vaza pelas minhas comportas. E eu tentei segurar. Eu não queria admitir.

 

Admitir traz meu depois marcado pelo fim da negação. Não há mais colapso no tempo. Meu tempo congelou, embora os dias não se pareçam com um só. Ainda me sinto anacrônica, mas nada como um calendário.

 

Eu estou entre os escombros assistindo um tempo que uma hora reinicia. Tentando costurar minha história e processando a tragédia. Refletindo sobre as outras vidas e as perdas. Hoje, não sinto vontade de me afogar e as lágrimas têm sido um tantinho mais leves. Tudo ainda dói. O silêncio é pesado e tento me acostumar a ele de um jeito positivo.

 

A versão desconhecida de mim perambula e pensa. Avisa que é melhor pensar em pequenas missões para reconstruir nosso lar. Feitas em doses, sem pressa, de dentro pra fora. É o máximo que podemos hoje. Sem grandes promessas.

 

Eu estou em um lugar que não conheço, mas, ao mesmo tempo, conheço de cor e salteado. Com uma pessoa que conheço menos ainda. Há alguns desejos que continuam firmes. Outros que descobri do ano passado pra cá. Ainda há movimento. Ainda penso nos outros entretempos e no quanto parece que me distanciei uns 10 anos da pessoa que fui em 2020. Uma pessoa renascida que queria seu outro depois enquanto tirava os demais funerais da própria mente. As outras carcaças. Uma camada de cada vez. Mas eis o ponto zero para (re)viver e (re)inteirar.

 

O início de um processo solitário. Cheio das partes feias. E eu precisei estar menos feia para marcar um entretempo que não espero muita coisa. Estou saindo do meu cemitério mental enquanto lido com o atual funeral de um ano depois. De certo modo, eu morri e digo isso porque acredito na morte de dentro. Uma hora, eu voltei para a vida e notei que não sei como vivê-la. Vendo-me como meu próprio fantasma. Com a sensação de que sou o experimento da minha própria realidade. Presa no looping de ter me perdido e ter que dar um jeito de me (re)encontrar.

 

(…)

 

Estou aqui, escrevendo em cima de uma ferida aberta. Consciente de que não preciso escrever sobre alegrias o tempo todo. Alegria não é a emoção que me acompanha e acredito que esse é outro e único ponto que nos coloca na mesma página. Nada faz sentido para mim, mas eu preciso fazer o que faz sentido por mim. Nem que seja falar da tristeza.

 

Ou das minhas tentativas de (re)descobrir quem eu sou e trazer de volta o que me dá vontade de viver. Eu emergi. Ainda permaneço do outro lado do abismo para continuar de onde parei. Uma hora encontro a vida. Uma hora eu me reconheço. Uma hora eu serei inteira. Enquanto isso, eu escrevo por não ter ideia de por onde começar a (re)viver.

 

Eu preciso partir da minha própria promessa que nasceu e se perdeu em 2020. Preencher a bagagem e colocar as coisas nas estantes. Em plena vista para eu não me esquecer. E, caso venha uma nova tragédia, eu terei um lugar bom para escapar e relembrar ao mesmo tempo que cuido de antigas e novas cicatrizes. Endereço novas infiltrações. Dispenso o veneno das comportas para recuperar a ordem cronológica entre os tempos. Lido com os bancos vazios…

 

… No fim, o fim de um tempo abre para outro. E pode ser que este seja o meu tempo. O outro depois.

 

Imagem: Midsommar/Reprodução; Gifs via Tumblr.

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Stefs Lima
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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