24abr
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Era 22 de agosto de 2018 quando isso aconteceu.

 

Print da minha thread feita no Twitter sobre Taylor Swift

 

E, a partir desse ponto, tudo que envolve Taylor Swift na minha vida tem sincronia. Ou timing, como preferirem. Há sempre um ponto de retorno, independentemente da fase que me encontro. Como a de rejeição que, desta vez, não envolve a história de Taylor Swift.

 

Toda vez que retorno a esse mencionado dia, eu percebo que posso ignorá-la o quanto for, mas ela sempre arruma um jeito de tocar a minha campainha mental para anunciar seu retorno. E eu a deixo entrar.

 

 

2018 foi o início dessa dinâmica de retorno. Era quarta-feira. De manhã. Mais um dia de trabalho. Lembro-me que saía de um furacão emocional acarretado pelo Dia dos Pais e me lembro que pedi home office alguns dias depois, pois sem condições de ir cumprir as demandas do mundo. Era 22 de agosto e o refrão de Out of The Woods, uma das músicas que amo, foi a que tocou na minha campainha mental. Do nada. Entre o café e meu jeito de me arrumar.

 

O refrão fez cócegas na parte do meu cérebro que largou Taylor Swift lá em 2016. Relutei, pois fazia tanto tempo que eu não a ouvia e nem sabia o que ela aprontava. Notei, ao menos, que existia ainda certa frustração, mas não era tão forte quanto na época que a “abandonei”. Também notei que eu sequer desenvolvi afeição firme por ela durante a Era 1989. Não deu tempo e o cancelamento veio com facilidade. A linha tênue entre admiração e frustração — e eu escolho a frustração para me afastar e não ter que sofrer com qualquer nova picuinha (a rapidez do meu ranço).

 

O que faz esse retorno importantíssimo, pois, desde 2016, eu sequer ousei ouvir qualquer música dela.

 

Eu a rejeitei com força total.

 

Até 2018 chegar e está aí um acontecimento que eu nunca me esqueci. Ou não estaria aqui furando a fila do folklore para falar de reputation. Eu precisava manter essa história musical na ordem, pois foi com reputation que meu reencontro com a Taylor verdadeiramente aconteceu. De maneira a grudar e, hoje, tentar vencer algumas novas turbulências. Desta vez, há diferenças, pois o problema da história sou eu. Taylor não fez nada, o que entrega meu exercício de “tratamento de choque” devido aos acontecimentos de 2020. Um exercício para evitar mais perdas.

 

Cogitar escrever este texto aconteceu quando eu abri o Spotify e perguntei como será meu dia de acordo com tal artista. Eu tenho esse costume, como uma pessoa que abre um livro em busca de conselhos. Veio-me a ideia súbita de fazer isso com a loirinha, minutos depois de publicar meu retorno nesta casinha. E fazia meses que não a ouvia como eu costumava ouvir, cantando, prestando atenção e tudo mais. Considero sincronias, especialmente porque a única intenção que eu tenho para 2021 é decidir os posts de acordo com meu fluxo emocional. E o reputation pediu direitos e toda essa experiência aconteceu no iTunes, pois é lá que vive o áudio do reputation Stadium Tour.

 

Don’t Blame Me caiu no melhor de 3. Fazendo-me lembrar de uma das minhas partes favoritas do show. Foi como abrir uma cratera do meu cérebro, que já estava pronta para grudar, secar e abrir uma lacuna. Cantei e chorei enquanto trabalhava, mas foi um choro gostoso: chorar sorrindo. E o sorriso não era de desespero.

 

Ultimamente, eu sinto coisas demais e muitas não fazem sentido. Às vezes, sequer consigo chorar visto que fico paralisada, ocupada com perguntas. Quando eu choro, isso tem acontecido enquanto escuto música. Quando vocal, som e letra me engolfam com o objetivo de me ajudar a articular o que sinto ou para deixar algo ser libertado. Parece intencional de algum jeito. Além de diminuir a sensação de eu estar fora do tempo, já que retorno para o presente.

 

Passada a choradeira com Don’t Blame Me, eu lutei contra a rejeição e coloquei o reputation Stadium Tour para ouvi-lo desde o início. Eu tenho memórias ótimas com esse show (imagino que ainda esteja disponível na Netflix), como ter virado 2018-2019 cantando e chorando ao som dele. Nunca tive planos grandiosos para finais de ano, mas assisti-lo foi meu plano grandioso. Deu muito certo. Mas, ao contrário daquela vez, nesta eu hesitei um bocado.

 

Meu cérebro não retém coisas boas com a mesma facilidade que as ruins. Durante meus passeios na internet, li que isso é meio que normal. O cérebro tem o talento de reter tragédias, mas eu me envolvi demais com as minhas próprias tragédias. Antes disso, eu já tinha descoberto a facilidade de me esquecer das coisas boas. E, quando me lembro, a noção de tempo é maior ao período que realmente aconteceu. Eu poderia dizer que esse é o efeito pandemia, mas não é. As tragédias são meus picos entre os tempos, ou seja, meus pontos de referência. Deles, eu sei de cor. Ao contrário de momentos bons que precisam de algum tipo de prova. Como passagens no diário.

 

Quando a música começou a rolar, houve uma pane no meu sistema. Como aconteceu quando hesitei diante da possibilidade de ver o documentário de Sandy e Junior no ano passado. Em meio às minhas conjecturas, sentindo a nostalgia de 2018 bater fortíssima, percebi que não dava para publicar o que eu tenho pronto sobre folklore sem registrar o quanto o reputation foi (e continua) importante para mim. Mas, claro, eu fiquei diante de impasses.

 

Naquele esquema de não saber se dou ré ou insisto em subir a ladeira, pois relembrar o bom é forçar todas as capacidades do meu cérebro. E estou em um ponto da vida que atuo no mínimo, pois meu cérebro ainda sente tudo que aconteceu em 2020 e se sobrecarrega com as minhas questões que brotam em função desse ano infernal.

 

Subir a ladeira seria exaustivo, além de me fazer cutucar 2018, um ano que hoje sei que foi excelente. Um ano que eu me transformava de maneira positiva. Se eu subisse a ladeira, eu compararia meu hoje com 2018. E sabia que seria dolorido. Porém, eu escolhi subir a ladeira, pois, hoje, começo a entender meu processo de rejeição. Como tantos outros e tento lutar contra. O que é igualmente exaustivo e há dias que me deixo vencer. Abrindo para outros gatilhos. Mas sei que, se eu não lutasse para subir a ladeira, ao menos para botar este texto no mundo, Taylor cairia no meu cemitério mental por motivos injustos. E ela já estava com um pé lá. Faltava eu empurrá-la e tacar a última pá.

 

Anos e anos, eu acreditei que me distanciar de certas coisas era uma questão de “amadurecimento”. Alguns casos sim, como o fato de eu não conseguir mais ouvir um álbum inteiro da Lady Gaga, pois estou velha e cansada. Além de ser superestimulante e eu estar mais triste que qualquer antes. No fim, músicas que marcam profundamente não te deixam. Elas têm seu próprio jeito de viver, até quando você abandona o pop, e a Taylor aprendeu como viver aqui nas minhas redondezas. Parece que todas as vezes que eu tento colocá-la no cemitério mental, ela reluta.

 

Ela inventa uma moda, como me fazer escrever um enorme texto sobre o que eu vivi com reputation.

 

Na hesitação, estava a resposta óbvia: a rejeição não podia ganhar. Há certas coisas que posso impedir que se percam depois das tragédias. Músicas, por exemplo, já que passei anos da minha vida fingindo que muitas sequer existiram. Um aprendizado de 2020 que me despertou para o papel que a música sempre teve na minha vida: transição.

 

Polaroid - Taylor Swift

 

Taylor marcou meu 2020 com o folklore. Um ano extremamente ruim.

 

Só no começo deste ano percebi que não queria vê-la nem tingida de dourado. Nem ouvi-la. Revelou-se o quanto fui ingênua em crer que nada do que aconteceu macularia a experiência de vida que tenho com a loirinha. Bem, maculou. Conclusão que veio quando terminei de revisar o post sobre o referido o álbum e isso serviu de outro motivo para não publicá-lo. Achei que o amor morreu, então, não tinha sentido botá-lo no mundo. Soaria desonesto. Até que este post nasceu.

 

Ver qualquer sinal da Taylor começou a me irritar e hoje eu entendo que ela estava no emaranhado da perda depois da tragédia de 2020. E eu estava de boa em perdê-la, pois se levaria junto um monte de memórias. Eu não ouviria mais o folklore, automaticamente os outros álbuns, e não dançaria entre o luto e os momentos bons. Meu cérebro entendeu, sempre rápido, e logo a loirinha entrou no processo de se transformar em um fantasma. Qualquer sinal dela era o suficiente para eu revirar os olhos. Pedir para que ela sumisse da minha frente se tornou um ritual silente.

 

Ao contrário do costumeiro, o folklore entrou na zona ruim e boa visto que sua função foi me ajudar a dar sentido ao que eu não conseguia raciocinar na época (e isso será melhor explicado no futuro). Dois lados, com reações dolorosas, e que largam a impressão de que haverá sempre luto e nada de momentos bons no futuro. Sempre o cinza.

 

É um apagamento que meu cérebro dá conta desde o primeiro trauma. Parece um tipo de fuga para não haver acesso aos locais doloridos em reflexo de eu sentir dor emocional demais. Sei que isso acontece, mas me faltam explicações detalhadas. A não ser que o que tende a doer mais é a ausência do que foi bom.

 

Com o tempo, eu me convenci de ser uma perdedora e perder um tanto mais nunca me pareceu gerar diferença. Parece só um repeteco que tornou fácil eu abrir mão. Inconscientemente, vou soltando, soltando, soltando até que tudo desapareça. Não desta vez, porque, como diria Bon Iver feat. Taylor Swift: eu vi esse filme antes!

 

Assim como muita gente, eu relacionei música a algo ou alguém, como os filmes que um dia amei. Tudo tinha que ficar perfeito. Sem manchas, pois seriam meus locais seguros. A vitrine de lembranças incríveis. Não é à toa que eu parei de “dar” minhas músicas para alguém, porque, no caso de feridas posteriores, a música não seria estragada pela memória desse alguém. É uma defesa, que expressa o quanto eu elaboro meios de evitar que cheguem perto de mim e me conheçam por dentro. Está certo que eu comecei a me abrir de novo e continua esquisito.

 

As músicas também funcionam como picos na minha linha do tempo. Marcos de orientação que me escaparam ao ponto de, recentemente, eu trabalhar nas trilhas da minha vida. Sequer recordava que um dia fui fã da Xuxa. E meu interesse nisso tem crescido, pois, também não muito recentemente, eu questionei meu pai para saber quem me dava os LPs (os CDs eu sabia que era ele, fielmente Sandy e Junior). Eu quis saber como a música chegou até mim, pois eu tenho memórias fracas de quando era a criança que segurava o Xuxa Vol. 4 fascinada!

 

Como comentei, o cérebro tem apreciação por memórias ruins e as colocam na nossa frente o tempo todo. Daí vem bloqueios e afins. Quando penso no meu ciclo adolescência, só sei que fui atropelada. Não tive tempo de sentir nada. Nem de processar. Eu tive que continuar subindo a ladeira ao mesmo tempo que deixava músicas para trás.

 

Eu silenciei todas as músicas que escutava em entretempos ruins e “botei outras no lugar”. Muitas silenciadas eram do gênero pop. Fato que torna Taylor ainda mais importante, pois o 1989 me empurrou ao caminho de retorno onde deixei de me relacionar com esse tipo de música. Spoiler: não foi porque eu crescia em uma rapidez desapropriada aos 15 anos. Esse era o som que eu amava com todo meu coração. Como aconteceu com a influência do rádio e rádio foi a coisa mais presente na minha vida quando o assunto é música. Foi onde conheci mais artistas, especialmente nacionais.

 

Em algum instante, eu parei de ouvir pop, mas o som nunca deixou de vazar da sala para o quarto graças à minha irmã. Ela manteve o legado Britney Spears que eu comecei e interrompi. Muito do “emo” que ela escutava, eu peguei para mim… Fortalecendo a minha busca de entendimento sobre ter parado de ouvir certas músicas, pois, até ano passado, me pareceu natural. Você cresce e seus gostos mudam, certo? É o que dizem, mas esse argumento não funciona 100% comigo.

 

Sempre fico abismada com a forma que o cérebro lê situações e toma atitude. Parece que ele espera só o sinal que vem do corpo ou de um pensamento intrusivo, como querer desesperadamente esquecer. Talvez, esquecer tenha sido minha principal prece. Resultando no que hoje sei ser uma série de lacunas. O que é bem triste…

 

 

Resgatar a influência da música na minha vida me ocorreu quando participei de um projeto de uma amiga cujo tema foi conversar com sobreviventes de algum tipo de violência sexual. Ela me pediu para levar coisas que me ajudaram a transitar e me vi que nem uma idiota tentando lembrar. Foi difícil, porque não raciocinei sobre o que me aconteceu na época — e o raciocínio só começou em 2018. Eu poderia ter escolhido os períodos que ficava até o fim de tarde no colégio, porque eu não queria voltar para casa. Ou algum biscoito ou chocolate que eu comia aos baldes.

 

Mas, no fim, era música.

 

Fui atrás dos meus CDs. Uma parte existe atrás de uma portinha da cabeceira, enfileirada dentro de uma caixa plástica. Alguns estão enfileirados em cima da tampa. Nisso, me dei conta de que minha coleção de Sandy e Junior não estava toda ali. Por algum motivo, eu pensei se minha versão teen decidiu manter tudo separado. E, bom, eu li essa minha situação como fragmentar o cérebro à base de decisões inconscientes. Acontece em função de traumas e ainda tenho a impressão de que foi isso que aconteceu. Do mesmo tanto que me convenço de que a separação se deu por motivos de falta de espaço. Fato que é mais cabível e me tira do que poderia ser uma “fanfic”.

 

Os demais CDs de Sandy e Junior estavam no armário da cabeceira do quarto da minha mãe. De fato, a separação se deu por não caberem na brecha do meu, mas, no fundo, há certas coisas que você sabe. Eu sinto no meu âmago que a separação foi proposital, pois sou uma genuína perfeccionista. A prova é que os da Britney estavam juntinhos.

 

Quando os trouxe para se unir aos demais, eu me lembrei que há outros na parte superior do guarda-roupa, como os da Xuxa. Não tenho lembranças de ter cuidado dessa parte quando me mudei, mas, seja quem foi, me ajudou a esquecer. O mais misterioso fica por conta do fato que eu comprei o acústico MTV de Sandy e Junior. Quando sequer eu os acompanhava mais (por estar presa no mundinho Linkin Park e Evanescence).

 

Foi um roteiro de descobertas e tanto. Ali, enfileirados, eu vi todos os artistas que me ajudaram a passar por uma série de infernos. Algo que voltou a acontecer em 2020 e me assustei com a quantidade de música que ouvi.

 

Aliás, nessa jornada, eu me lembrei do aparelho de som e que eu ficava sentada no chão ouvindo as músicas. Cantando com o encarte na mão. Tenho a lembrança do repeat de uma música dos Backstreet Boys (How Did I Fall in Love With You) que me fazia dormir chorando e eu nunca soube os motivos de chorar. Eu não sabia a razão de eu chorar tanto naquela época. Não é à toa que eu saí do colégio que estudei quase toda minha vida como a chorona.

 

Só sei que algo doía. De forma silente e invisível.

 

Todas as vezes que volto para as cenas das minhas choradeiras, eu não consigo capturar uma razão específica. A não ser um desgosto tremendo sobre a vida. Poderia ser angústia adolescente? Pode ser, mas eu estava alienada sobre coisas sérias que me aconteceram. Doíam como tragédias ditas comuns, como perder as melhores amigas.

 

E o folklore tem função nessas descobertas, pois eu notei que a música sempre me ajudou a processar. A tentar colocar minhas emoções para fora, mesmo quando eu não sei o nome de cada uma delas. Salvo a raiva.

 

Eu sempre soube que minha raiva era isso: raiva. E é nessa emoção que o reputation se encaixa.

 

Minha analista teria uma opinião diferente sobre isso tudo que contei. Uma vez que ela me disse que eu trabalhava sintomas enquanto assistia Jessica Jones na época que meu jogo virou em 2018. Ela diria que eu trabalhava sintomas lá na adolescência. Nem que fosse berrando o Live in Texas do Linkin Park dentro do meu quarto.

 

Daí, eu entendi que todos aqueles CDs me ajudaram a transitar sem eu saber que transitava. Sem eu saber o que doía e o que me deixava profundamente triste. Aqueles artistas me mantiveram na superfície, embora eu me afogasse em tudo que eu sentia, sem saber articular para me ver livre. Graças ao projeto da minha amiga, eu os recebi de volta e combinei comigo mesma de ouvir cada um diretamente no aparelho (e eu preciso comprar um, inclusive).

 

Você pode se perguntar porque eu disse tudo isso quando parece desimportante. Bom, para o projeto, eu escolhi alguns CDs de Sandy e Junior. Da Britney também. O primeiro do Evanescence…

 

…. E o reputation.

 

Polaroid - Taylor Swift

 

Fui atrás de informações sobre terapia com música assim que entendi a função do folklore na minha vida.

 

Nunca fiz, mas tenho curiosidade.

 

Uma das informações que ficou comigo é que música ajuda a processar traumas. Eu não sabia até escrever o texto de folklore e isso também inspirou a recusa de publicá-lo. Minha experiência com esse álbum da Taylor envolve o meu terror de 2020, revelando não ser uma resenha. Como este texto não é. Minha ideia aqui é começar um diário sobre minha jornada com música. Honestamente, sou incapaz de falar de música sem relacionar o que eu vivi.

 

Saber do papel psicoterápico da música me fez notar que esse processo não é novo na minha vida. E que eu não estava errada em ter escolhido meus CDs como o único auxílio que eu tive lá nos anos 2000. Por mais que eu coloque a escrita como meu primeiro amor, a música é meu real primeiro amor. Letras em inglês foram as primeiras que escrevi a fim de entendê-las. E que vivenciei as primeiras histórias que, claro, não aconteciam no mundo real.

 

Quando não havia ninguém para conversar, só havia eu, um aparelho de som, o LP/CD e o encarte. Chega a ser estranho perceber que 2020 me deu essa realização. Indicando o quanto a música perdeu o seu valor porque eu não queria revisitar lugares manchados do mesmo tanto que eu não queria relembrar de lugares bons. Dá certa raiva!

 

De algum modo, eu tive que passar por essa raiva até vir o pensamento de resgatar o reputation. O álbum que tem memórias incríveis. Eu embuti nele o selo de álbuns para ouvir quando se precisa superar algo e, como manda a sincronia, tive que passar por ele de novo para não queimar o folklore. Com isso, não queimar a Taylor da minha vida.

 

Respirei fundo. Afinal, eu tive que me preparar para voltar no tempo. O que tem sido difícil quando envolve situações boas, pois isso me dói demais. Eu tive que respirar fundo e revisitar essa parte da minha história não só com o intuito de não perder a Taylor. Como também para não perder essa jornada em música que representa um capítulo da minha vida em que eu escolhi subir a ladeira. Ser melhor. Recuperar-me. Livrar-me de tragédias antigas.

 

Aprender sobre memórias boas. Elas não precisam doer.

 

 

Com o reputation, Taylor marcou meu período de avanços no tratamento psicológico vs. toda a raiva que eu sentia de onde eu trabalhava em reflexo do chefe embuste (e agora posso dizer isso tranquilamente, pois não devo nada àquele ser e é embuste sim!) vs. toda raiva que comecei a sentir de quem causou os traumas que eu tratava na época. Chega até ser irônico lembrar que cumpri meu último dia de aviso prévio no dia 13 de dezembro de 2018.

 

Atualmente, Taylor é uma das únicas artistas que tenho datas marcadas. Além de participação ativa durante as sessões de análise. A sincronicidade é um negócio que não sei explicar, mas existe. Em seu mistério.

 

Um mistério que teve seu ponto de partida em 2018. Um período também propício para que eu me reconectasse com a arte da Taylor sem interferências. Isso foi possível, pois eu cheguei em fins da Era reputation. Nasceu o afeto e, sem querer, ela me mostrou o que é amar uma artista de música pop de novo, já que as últimas que verdadeiramente amei (e o amor foi resgatado ano passado também) foram a Sandy e a Britney. Daquele jeito de querer ter tudo e respirar tudo 24/7. Sem querer, o modo fangirl voltou nessa área da minha vida.

 

E isso também é importante quando me dou conta que escuto homens em peso.

 

Eu ouvi o reputation sem entender o conceito e eu nem sabia dessa de conceito no mundinho Taylor. Meu primeiro contato com ela, lá na Era 1989, sequer maturou para eu saber de Eras e afins. Então, foi um processo de (re)descoberta. Tanto dela como artista quanto da minha experiência como fã. A parte de mim que eu não sabia que sentia falta.

 

E Taylor foi ousada em tocar a minha campainha mental com Out of the Woods, um tremendo ponto fraco. Ousada em chamar atenção no meu momento de saber o que o artista do dia tinha a me aconselhar na manhã de 23 de março de 2021. Jogando luz em uma história que não estava perdida. Como eu já começava a acreditar.

 

Ao ponto de nem ficar triste com o cancelamento do show dela por aqui.

 

 

Eu tive que revisitar tudo de novo para escrever este texto. Normalmente, eu não faço isso.

 

Porém, algo em mim sinalizou que eu deveria revisitar esse arco da minha vida depois de ouvir Don’t Blame Me e chorar sorrindo. Para isso, eu me preparei psicologicamente para cavar o instante que a Taylor coçou a parte do meu cérebro distante da música, no intento de me fazer encontrar o cordão para acender a luz. Depois, revivenciar como este álbum se manifestou dentro de mim para ter entendimento, além de analisar se minha leitura se alterou. Depois, revivê-lo de acordo com o que eu me recordo, com o que existe registrado e apurar as minhas emoções.

 

Lembrar não é meu forte. Mas, ao menos aqui, eu lembrei que posso ficar bem de novo.

 

Sempre há um momento que fico bem de novo e é isso que o reputation me lembra no final das contas.

 

Look What You Made Me Do

 

Polaroid - Taylor Swift

 

When she fell, she fell apart.
Cracked her bones on the pavement she once decorated
as a child with sidewalk chalk
When she crashed, her clothes disintegrated and blew away
with the winds that took all of her fair-weather friends

 

Eu reentrei no mundinho Taylor Swift pela porta da frente. Com Look What You Made Me Do, assim como todo swiftie. Foi onde a história parou e vi o videoclipe com mais atenção (no lançamento eu revirei os olhos).

 

Foi fácil essa música liderar na minha lista de mais ouvidas de 2018. Eu estava puta da cara com tantas pessoas, com todas as realizações que me botaram do avesso. Na versão do reputation Stadium Tour, a raiva é mais líquida.

 

As Taylors despencando sempre rende leituras diferentes. Contudo, na primeira delas (considerando a experiência contada neste post), tudo que vi foi a necessidade de dispensar as versões antigas para que a sombria tomasse conta. A parte supostamente menos aceitável, porque uma mulher não pode sair dos estereótipos de gênero. Ou seja, não pode perder seus traços de delicadeza e de bondade. Só que uma hora a parte sombria vem à tona e toma a narrativa. Uma parte sem filtro, que quer contar o seu lado da história e não se importa com os outros.

 

Essa cena do videoclipe orientou meu encaixe na Era reputation. Lembro-me que bateu vontade de chorar, mas eu não fiz isso em horário de trampo. Foi abismante me ver totalmente naquela situação. Ainda mais porque, quando você se abre para o tratamento psicológico, automaticamente sombras se revelam. Sombras que querem ter voz ao mesmo tempo que você as retifica. Soa ruim, mas é onde vem o libertar de várias facetas. Incluindo aquelas que lhe deram e que você aceitou sem saber que aceitava. É quando se vê onde você começa e o outro termina.

 

Não é preciso um evento traumático para que essa transição/realização aconteça. Tudo pode começar ao olhar para o que te fere, para pensamentos limitantes, para pré-disposições que foram absorvidas pelo olhar do outro… Ver isso na Taylor é fácil, pois está aí uma artista que coordena Eras aos seus assuntos pessoais e os eventos de 2016 possibilitaram questionar quem é essa mulher de verdade. Parecia sempre haver um plano para chamar atenção e os desdobramentos que deram vida ao reputation a definiram. Não haveria PR para segurar o efeito dominó e a loirinha bem que tentou. Foi-se o controle que ela costumava prezar bastante.

 

Foi-se, supostamente, as versões do passado para que uma única, mais contrastante que as outras, contasse a história. E fosse capaz de se manter longe dos holofotes, pois, para bom entendedor, meia palavra basta.

 

Os poemas

 

Polaroid - Taylor Swift

 

When she looked around, her skin was spattered with ink
forming the words of a thousand voices
Echoes she heard even in her sleep:
“Whatever you say, it is not right.”
“Whatever you do, it is not enough.”
“Your kindness is fake.”
“Your pain is manipulative”.

 

Depois do videoclipe, um swiftie do Twitter me orientou para os poemas. Foi o instante que me lembrei do que me fascinou sobre a Taylor e me fez curti-la na Era 1989: sua habilidade de contar histórias.

 

Nunca me cansarei de dizer que certos encontros, seja com pessoas reais ou artistas, vêm naquele momento que tem que ser. Eu estava em um mês emocionalmente complicado em 2018 e o reputation se tornou meu piso sólido ao longo do 2º semestre. Imperando em 2019 também (e tive dificuldade de aceitar o Lover visto que eu não estava nesse mood). O mesmo para os poemas que descreveram exatamente como eu me sentia naquela época — e hoje voltou a ser assim. Consolidando um retorno tão rápido como minha curiosidade na Era 1989. Coisas que realizei no anúncio do reputation Stadium Tour. Hoje, penso que não haveria outro jeito de encerrar aquele ano.

 

Sei que os poemas deixaram marcas boas em mim. Quase fiquei com febre porque não tinha meios para eu ter as revistas da Era — algo que eu pirei demais, como aconteceu na época das polaroids. Lembro-me que publiquei Why She Disappeared no meu Instagram e esse poema voltou a ser propício em 2021. Há ciclos que retornam para você lembrar do que aprendeu ou para ver se você aprendeu mesmo. E revisitar o reputation foi um mix dos dois.

 

O poema mencionado poderia servir de Prólogo do livro sobre a minha vida. Lidando com meus próprios ecos que sempre vencem diante das minhas tentativas de preencher as lacunas. Ao menos, costumava ser assim.

 

When she lay there on the ground,
She dreamed of time machines and revenge
and a love that was really something,
Not just the idea of something.

 

A foto acima, editada em um psd de polaroid, é do volume 1 da revista reputation. Eu a encontrei enquanto traçava a linha do tempo deste post e fiquei fascinada. Pensei que essa imagem da Taylor, segurando polaroids diante do fogo, é a perfeita expressão do meu 2018. O ano de expurgação. Incluindo de pessoas e fantasmas presentes em cartas e bilhetes. Lembro-me de ter escutado Clean enquanto botava o lixo no lixo e percebi que essa música prova que expurgar é trabalho constante. Eliminações e isso não dá conforto, pois o passo seguinte é preencher o vazio.

 

E se você é uma pessoa ansiosa como eu, a dificuldade é saber por onde começar.

 

Lembro-me de ter contado sobre a expurgação para minha analista e ela me perguntou: como você vai preencher esses espaços? Estranhamente, ainda não descobri. Está tudo vago e nem fiz a faxina de 2020. E tudo bem. Como eu disse nesse texto, uma hora o que eu preciso para preencher o que esvaziou virá. É a única forma de eu saber quem sou hoje. É a única forma para eu não me esquecer do que me ajudou a transitar em entretempos complicados.

 

Assim como Taylor teve que “se esvaziar” e passar pelo reputation a fim de compreender em quem aquilo tudo a transformou. Como seguir adiante, mas não com os mesmos passos de antigamente. O que aumenta mais o peso do álbum, pois, apesar das trilhas românticas, tudo nele é sobre expurgação e liberação.

 

A obra de arte

 

We think we know someone, but the truth is that we only know the version of them they have chosen to show us. We know our friend in a certain light, but we don’t know them the way their lover does. Just the way their lover will never know them the same way that you do as their friend.
— trecho do Prólogo de reputation.

 

Um dos momentos que vivi com extrema intensidade ouvindo reputation foi ao lidar com algumas realizações sobre quem eu era de verdade vs. o que era meu vs. o que era resposta de trauma vs. o que era dos outros. Por anos, eu escutei que “sou assim mesmo” e aceitei sem saber o que eu aceitava. E, aceitando, parecia real. Principalmente porque eu não sabia que esse aceitar automaticamente criava um espinho. Queimava e criava uma prisão interior, pois, de algum modo, eu tinha que engolir e assumir os jeitos como me chamavam ou me tratavam.

 

Até se tornar automático “aceitar” e vir um remorso anormal na minha mente. Anos depois, vi como concordar torna uma situação verdadeira. É dizer o sim e muito desse sim se perdeu quando comecei a fuçar minhas gavetas mentais. Dentre tantas descobertas, a mais significativa até hoje foi perceber o que não era meu dito traço de caráter. Com o passar dos meses, eu comecei a compreender o que em mim é resposta de trauma e pensamento dos outros.

 

Muitas das palavras que escutei desde a adolescência reagiram como verdades universais no meu organismo. Eu não sabia disso. Como disse, eu aceitei. Até mesmo palavras vindas de amigos e sei que não posso culpá-los. A diferença é quando você desperta para essa leitura, pois é quando você começa a reagir contra. Foi o que aconteceu em 2018 e continua a acontecer aqui do meu lado. Daí vem a parte cansativa: lutar contra o que elaboraram sobre sua pessoa.

 

É aí que, provavelmente, você descobre o que é seu e toma responsabilidade por essa parte. A parte cansativa é ter que mostrar o tempo todo que você não é mais aquilo. A primeira reação, normal, até se compreender que essa responsabilidade não é sua. Você sabe da sua verdade e quem está contigo acompanha suas mudanças.

 

Um breve conceito da minha reputação que nada tem a ver com a da Taylor. Contudo, tudo do que eu vivia naquela época teve sua forma de se alinhar com a história da loirinha, pois durante …Ready for It?, End Game e I Did Something Bad há uma tomada de responsabilidade. Ao mesmo tempo que se pontua as pessoas que provocaram determinados desconfortos (mas não diretamente). Calhando no que ela mesma descreveu sobre este álbum ter sido a maneira de entender o que aconteceu na Era 1989. Toda ameaça nos encolhe até chegar a hora de revidar.

 

Ou de simplesmente falar sobre a fim de deixar a história tomar seu próprio curso e se tornar passado.

 

Tudo que vivi em 2018 ficou entre diários e no colo da minha analista. E essas três músicas basicamente expressam sobre defesas em alta. Muito do que se decide. Muito do impacto que pode ser traumatizante. Muito do mecanismo para dobrar as pessoas que têm visões elaboradas de você, como sair do foco (acenando e sorrindo para não cair em briga). É isso que essa tríade representa para mim. Ritmando dias de revisão mental sobre o que é meu e o que veio por causa de impactos que alteraram minha configuração. E, apesar das mencionadas faixas envolverem uma figura romântica, é fácil se direcionar a quem te fez mal. Incluindo os traumas que nos mudam de dentro para fora.

 

Let the games begin se transformou no grito de guerra que ritma pisada firme, mas nada em comparação a I Did Something Bad. Eu perco tudo em If a man talks shit then I owe him nothing. Essa tríade do álbum é deveras importante, pois são os picos de tudo o que Taylor sentiu em meio às conclusões metafóricas. A raiva, claro, é mais palpável. A postura muda e se canta com o indicador direcionado aos fantasmas que te machucaram.

 

A raiva da Taylor foi chamada de infantil (isso veio em função de LWYMD) e eu já me senti deveras infantil por causa de alguns comentários mentais que faço algumas vezes. É quando começa uma automanipulação, pois não se sabe mais o que é fato depois de tanta ruminação. Mas se sabe que há algo ou você não estaria tão obcecada sobre. E ela apenas diz nessas faixas que houve/há algo, abrindo para vários tipos de interpretações que eu cheguei a ler que se trataram até de um adiantamento sobre o rompimento com a gravadora (que veio em seguida e foi o caos).

 

Quando escutei essas faixas de novo, houve a devolução de lembranças da fase que eu detestei os envolvidos por parte da minha desconfiguração. Eu não achei que isso seria possível, mas minhas defesas subiram conforme eu alterava por dentro. De outro jeito. Algo em mim estalou para dizer que eu precisava proteger aquela pessoa nova, já que eu não consegui proteger ou salvar as anteriores. É, eu tenho um senso de responsabilidade grande com meus eus antigos. Por essas e outras que a cena das Taylors caindo mexe bastante comigo.

 

É difícil eu explodir, mas, quando explodo, só fica a tremedeira! Foi quando percebi o quanto o “apelidinho” e outros “apelidinhos” me machucaram mais ao que imaginei. E eu nunca imaginei, pois só absorvia, concordava, acenava e sorria. Às vezes, eu ficava irritada e essa irritação se afunilou em uma raiva silente. Porém, profunda. Chegou o tempo em que eu teria que quebrar as visões pré-prontas de mim. Contudo, eu notei que não adianta.

 

reputation tem muito isso. Incluindo a busca por aliados que estejam na mesma linha que a protagonista. No caso, quem ainda ficou na vida da Taylor depois de tudo (e sei que isso mudou demais do tempo do álbum até aqui).

 

Polaroid - Taylor Swift

 

Não foi preciso dar um Google para saber o que ocorreu na vida da Taylor de 2015 a 2016. Eu estava lá e a vi desaparecer (e sequer me liguei no tempo de sumiço). Toda a raiva dela, cantada no começo deste álbum, me contemplou e continua a contemplar. Cada faixa dá um jeito de elevar o espírito, mas a base da raiva. Encaixando-se como uma luva sobre o que eu sentia em 2018. Mesmo sem tantas informações, a não ser o que eu registrara até eu mesma cancelá-la, é palpável o quanto esse ínterim de tempo a machucou. E a forma encontrada de lidar foi ao assumir um dos nomes dos quais foi chamada. Sendo o que todo mundo dizia e que não necessariamente era ela. A cobra.

 

Quando o reputation cresceu em mim, notei que a Taylor mantinha certo radio silence. Também achei interessante, pois ainda me é vívido o circo da Era 1989. Em 2018, eu vi que ela entregava sobre a carreira, nada mais que isso. Nada de entrevistas e as aparições se resumiram a videoclipes, publicações de fotos da turnê, reviews e momentos específicos. Criei minha própria opinião, pois era nítido o resultado dos anos anteriores. Nada de superexposição.

 

Uma escolha que a impulsionou a contar o seu lado ao mesmo tempo que dava um tipo de silêncio. Nas entrelinhas, ela retomava sua narrativa, de um jeito limpo e novo. Sem interferências. Provavelmente, consciente de onde ela começava e aquele caos terminava. Para isso, foi preciso se abraçar e escrever em cima das feridas abertas.

 

Como pontuado em Miss Americana, o documentário também da Netflix, os lances de 2015-2016 a fizeram cogitar desistência. Justamente porque ela tinha consciência do ódio e não tem como alterar o que já pensam de você. Não havia mais o “benefício” da boa moça e nem da dúvida (se é que um dia houve). Sem isso, só havia espaço para contar o seu lado e a versão sombria tomou conta. Aquela que a gente costumeiramente esconde, porque não é a mais bonita e coesa. Mas ela é importante e tem seu peso transformativo. O que torna reputation valoroso para mim.

 

A figura da boa moça é extremamente perigosa, porque uma hora ela cede e explode. A boa moça vive silenciada, acenando e sorrindo. Engolindo, mas não efetivamente digerindo. Os fatos ficam no meio da garganta enquanto essa pessoa acredita que é tudo o que dizem. Seguindo a vida em suspenso. Até não dar mais e o reputation representa a explosão, que distanciou a loirinha das loirinhas “fofas” e “boas”. O que pode ter sido assustador para alguns, mas eu já vi toda essa transformação “abrupta” antes. Com Christina Aguilera no álbum Stripped. Lá foi sim assustador, pois eu não entendia como uma mulher podia conquistar sua narrativa, ser feminista e que tudo bem ser sexual.

 

No caso da Taylor, tenho memórias do meu grande revirar de olhos, pois ainda sentia ranço na época que o reputation foi lançado. Fiquei: o que essa garota tá enchendo o saco de novo? Eu mal sabia que 2018…

 

Ainda se vive num mundo em que a mulher não pode expor suas feridas. Nem expor sua raiva. Mulheres sempre têm que engolir e lançar um álbum de capa cinza é quase um ritual de passagem entre diversas artistas femininas. Revelando a dita figura que sai da personagem, quando não é necessariamente uma personagem. É a mesma pessoa, mas apresentando outra parte de si que não é costumeiramente exposta. E pode ser que seja a parte mais verdadeira, pois está livre de influências diretas. Há mais proximidade com a essência.

 

Essa é a versão que costumeiramente ninguém está disposto a ver e a ouvir. E que muita artista feminina pop tem medo de assumir, pois sai daquele espectro de perfeição e, automaticamente, da sonoridade habitual. Entregando, inclusive, um álbum que tende a ser o mais experimental da carreira, pois o foco é um leque de experiências muitíssimo específicas e que englobam um desejo de quebrar padrões/amarras anteriores. Para isso, é preciso declarar e emoções são os principais picos. Uma montanha-russa, como se escuta com Christina Aguilera em Stripped. Ou Selena Gomez em Revival (apesar de conhecer pouco o trabalho dela). Aqui, reputation atendeu a mesma premissa, pois, infelizmente, a mulher só consegue ser vista e ouvida quando muda no dito radical e a base da raiva ou rancor ou vingança. Literalmente, quando ela chega no limite e precisa praticamente berrar.

 

Christina e Taylor se diferem pelas abordagens de seus álbuns cinza, mas ambas geraram confusão na mídia e nos fãs. No entanto, ambas se assemelham no interesse de romper as narrativas de boa moça. De exemplos do pop (quando até isso serve de fardo visto que ninguém é perfeito). Elas se expuseram no cru, trabalhando outras facetas que o estereótipo da moça delicada e bondosa não permite. Como expressar sensualidade. Não há nada de doce no sufoco ou na sensação de que você é falcatrua. E isso pode envolver uma tragédia ou a tentativa de se adaptar a algo.

 

Taylor não chegou a ser lançada na indústria da música ultrasexualizada, como aconteceu com Christina. Contudo, a mídia deu seu jeito de tornar tudo sexual por meio do slut-shaming. O que ajudou na discussão da “persona” de reputation ser o “fora da personagem”. Pode ser, mas eu nunca vi essa Taylor como personagem. Ao contrário do que eu vi em 1989reputation trouxe até mim uma Taylor mais palpável. Mais consciente de si mesma. Tomando a responsabilidade, admitindo e fazendo a parte mais difícil que é abraçar suas sombras. Para isso ficar bem exposto, certas emoções precisavam se sobressair com mais efeito. A raiva entre sintetizadores ao longo deste álbum.

 

Não é todo mundo que tem essa coragem. Justamente pelo trabalho seguinte que é ficar com essas sombras e articulá-las de um jeito que você consiga se libertar. Um ponto extremamente próximo de mim, pois sempre silenciei minha vulnerabilidade e a raiva é meu veneno. E raiva não sustenta ninguém. Ela precisa ir, com outros venenos.

 

E, assim como comentei sobre meus vazios, Taylor ocupou o vazio dela com amor. Consagrando um álbum que é a transição de sombra para a luz (aí a abertura de Lover se revela perfeita). A luz dourada que me faz centralizar a música que me trouxe até este post. Don’t Blame Me que, além de ser uma faixa importante para mim, me lembra toda vez do quanto eu fui a jovem cheia de amores românticos. O que se esperar de quem foi (e voltou graças à Deusa) fã de Sandy e Junior e escutava as letras de amor como se o coração fosse partido todo santo dia?

 

Inclusive, o que esperar de quem foi obcecada por Titanic e parecia mais viúva de Jack Dawson que a própria Rose?

 

Meu interesse pelo amor sempre me acompanhou, mas minha leitura sobre se alterou conforme alguns episódios ruins. Como Millennial, eu vivi na época que divórcio era o fim do mundo. Além de ser motivo de vergonha. Isso me marcou profundamente e essa faixa aperta um botão sobre você amar o amor. Ver-se amando ou personificando o amor. Ou, no caso da Taylor, admitir que você não tem o menor receio de se entregar ao amor.

 

Quando a escuto, eu me sinto diante de uma resposta à Blank Space. Lá, Taylor roubou a narrativa de ser “ultranamoradeira”. Em Don’t Blame Me, Taylor rouba a narrativa que a tira da culpa de, talvez, amar e se envolver rápido demais. Ela mesma se absolve e essa música me traz uma reflexão sobre como reformular essa área da minha vida. Afinal, eu passei a temer o amor e a loirinha começou a me dar a visão de um amor leve e divertido para crer. Aquele que eu escutava com as divas do pop de fins dos anos 90. Era bom demais, sabe?

 

Taylor me botou no foco do amor de novo, pois eu sentia vergonha até da palavra. Uma palavra que deixou de existir no meu vocabulário. É difícil até me dar amor e Don’t Blame Me é uma música que assume o amor ao elevá-lo até a última potência. É onde reputation se efetiva como um álbum de declarações (isso pensando que ela vem antes de LWYMD). Uma oração, não é à toa que a sonoridade tem muito de Take me to Church do Hozier. Taylor canta sua saída da autotortura de reprimir o que sente, e que evidentemente gosta de sentir, e se deixa viver o amor.

 

É 2021 e me arrepio todinha! Consequentemente, choro pelo que nem sinto. Ou vivi. Mas tudo bem desejar algo assim, aprendizados com Taylor Swift. Sempre que a escuto fico sem chão e não foi diferente ao longo da revisita.

 

Por meio dela, percebi que gosto da transição rumo à Delicate e Look What You Made Me Do. Músicas que mostram os dois lados de reputation. Apesar de ter um amor na história, Taylor fazia o trabalho mais duro de se recuperar emocionalmente da turbulência de 2016. Além de dar seu próprio jeito de continuar com sua própria narrativa. Como dizem, o passado é um corredor e a loirinha teve que passar por esse. O final dessa história deu em Daylight.

 

O que eu li sobre o amor abordado em reputation se revelou como o autoamor que me escapa. Uma sensação que carreguei por outras faixas.

 

É interessante como o álbum intercala picos de raiva com uma dose de amor. Dá para imaginar que a vida em off da Taylor foi exatamente assim. Uma memória ruim, choradeira e uma pincelada de amor (que não precisa ser necessariamente só do Joe). A figura romântica serve de ponte para narrar o que ninguém via em meio aos relatos de medo, traição, fuga e autodúvida. Uma vez que se é machucada profundamente, a base é destruída. Tem que construir tudo de novo e, com sorte, melhor que antes. O controle se vai e você fica vigilante para que nada se repita. E é difícil confiar, mas ela revela em reputation que há sempre algo que não se pode perder de vista entre as sombras.

 

No caso dela foi o amor, claro, e está aí uma palavra que pode ter diversos significados. Percebi isso conforme as repetições do álbum. Notei minhas dificuldades em criar e solidificar vínculos, por exemplo. Nunca me abri para quaisquer chances de relacionamento e é nessa brecha que entra Delicate. Você sabe sobre sua bagagem, mas não sabe se a pessoa do outro lado vai querer segurar uma das alças. Vem até Midsommar na minha cabeça, viu?

 

Uma bagagem que não é necessariamente bonita, pois há desgastes e feridas do tempo. Incluindo a visão que você formou de si vs. a visão dos outros vs. a visão da pessoa que você espera que te aceite/compreenda seu tempo para se envolver. Mesmo que Taylor admita que ama amar, não quer dizer que fica mais fácil. Sempre algo emperra.

 

E 2016 teve seu próprio jeito de emperrá-la e eu acredito que Taylor não conseguiria seguir realmente em frente sem a existência deste álbum. Mesmo que aconteçam coisas boas em meio às trevas, isso não serve de enganação permanente sobre onde dói. Tudo tem seu próprio jeito de se instalar e viver. O reputation foi a saída, pois o silêncio, ou o dar de ombros, seria uma escolha que não mudaria a realidade. Até porque ela não assumiria a responsabilidade de que errou também, incontáveis vezes. Kanye foi o primeiro dominó que realçou o que já circulava ao redor da loirinha e ela tinha que sair desse constante efeito em cadeia que só serviu para deixá-la insegura o tempo todo.

 

Menos digna do trabalho dela. Menos digna de ser mulher. Menos autorizada a expressar suas emoções. Detalhes que se fortalecem na matéria 30 Things I Learned Before Turning 30, em que ela afirma, inclusive, que é importante reconhecer as cicatrizes da infância e trabalhar para corrigi-las. Justamente porque essas cicatrizes são ecos que atraem os mesmos comportamentos. O exemplo simples é o famoso “dedo podre” quando pode ser uma ferida da infância sobre rejeição ou abandono.

 

Meu primeiro pensamento quando li essa parte da matéria (que revela bastante sobre o impacto da Era reputation assim que Taylor entrou no Lover) foi sobre o squad, pois a loirinha nunca teve a mesa cheia de pessoas.

 

Polaroid - Taylor Swift

 

Desde 1989, Taylor infiltra em mim sensações que eu só tive lá na adolescência quando ouvia pop: alegria, chance de imaginar romances doidos e cantar sorrindo e chorando. Sou a pessoa que tem uma música triste embaixo da manga e a loirinha me deu um caminho de retomada para quando eu precisar de mais leveza e tranquilidade. Lembrando-me que a música em si ainda possui suas partes descompromissadas e divertidas.

 

Aí caio em Look What You Made Me Do, que não considero o maior pico de raiva, pois deixo na conta de … Ready for It? (especialmente a versão ao vivo) e I Did Something Bad (que é insuperável). Essa é a faixa mais clara sobre tudo, que gerou um comeback que foi incrível. O trigger da resposta que faltou junto com os poemas. Encapsulando toda a história e que lutassem para desvendar. Como dito no Prólogo. Cirúrgica, como tudo que vi sobre os desdobramentos desta Era.

 

Mais cirúrgica que isso, só as faixas sensuais e que amo demais! Sei que Taylor nunca visitou tal área em suas letras e nunca soltou um palavrão antes do 1989. Fortalecendo em mim o quanto a Taylor de reputation é preciosa.

 

So It Goes… entra na atmosfera sexy e, na minha fanfic, é o começo do que rende em Dress. Aparentemente intencional, o jogo de ilusões foi propício nesta Era. Mexendo com o imaginário, especialmente da mídia que não tinha nada para falar a não ser da carreira dela. Deixando quem escuta questionar. Algo que aconteceu comigo, mesmo com pouca experiência no mundo da loirinha na época, pois não há tantos indicadores de outras pessoas. Não com a clareza de antes (e isso pode ser influência da minha escassez de informação no momento em que escutava o álbum).

 

Com So It Goes… ficou claro sobre ela manter certas partes em segredo, se abrir de um jeito refrescante e que ocupasse os cantos seguros da narrativa. A resposta para diminuir a abordagem sensacionalista, impulsionando a atitude de que há certas coisas na vida que não se revela. Concordo. Se há áreas que deveríamos proteger, especialmente por questões de energia, é dinheiro, projetos e relacionamentos (contando para quem merece saber apenas). A parte que ela canta “prisioneira das minhas emoções”… Sempre me pega e fico sem fôlego.

 

Gorgeous parece um delírio pela sua leveza, ou uma faixa que seria facilmente do Lover, pois So It Goes… e Don’t Blame Me são intensas. Entram embaixo da pele por sua sensualidade fora do comum. Isso, pensando no enredo da Taylor nos outros álbuns. Ambas são superiores no que querem contar. Porém, há um detalhe superválido em Gorgeous que, hoje, a cancela da categoria “destoa do resto”: inocência. Muito embora reputation esteja longe de ser um álbum de inocência, pois narra a perda dela, a loirinha é otimista quando o assunto é amor. E soa esquisito quando ela só escreveu sobre heartbreak (ao menos antes do Lover acontecer).

 

Vamos pensar em Love Story. Taylor precisa ter uma faixa que a faz cantar sorrindo. Gorgeous é essa música e seu peso é valorizar a inocência que se esquece durante a tormenta.

 

O que reforça meu raciocínio sobre considerar o reputation como uma coleção de declarações. Criando uma oposição sobre o intento da Taylor em querer dizer um total de 0 coisas sobre o antes vs. contar mais de 10 sobre o momento que ela começou a viver enquanto estava na turnê e organizando o Lover. O álbum se tornou o máximo que teríamos sobre como ela superou os eventos que culminaram no seu cancelamento e isso também foi ótimo. Há quem diga que contar a história repetidas vezes ajuda na recuperação e superação, mas pode ser que seja diferente quando se é uma figura pública. Ou Taylor Swift. Mas, considerando 2020, ela superou e está ótima.

 

Depois dessa, vem Getaway Car que retorna para minha leitura de autoamor. Eu a ressignifiquei intimamente. Simplesmente aconteceu. Uma leitura que se fortaleceu ao assistir o reputation Stadium Tour, pois há a introdução do poema Why She Disappeared. Óbvio que chorei bem ali, pois é o meu favorito e que percorre todo este post. Circulando, de novo, como se fosse a primeira vez. O poema que esteve em meu 2018. Abriu meu diário de 2019. E pesou mais quando percebi que o palco da turnê é um grande X. O ponto X que levei para minha vida naquela época.

 

Apesar de amar quase o álbum todo (quase por motivos de This Is Why We Can’t Have Nice Things), Getaway Car complementa I Did Something Bad na minha narrativa. Elas abraçam tudo que senti/vivi em 2018, como um começo e um fim. Sempre vivi correndo (às vezes me vejo correndo), me fragmentando no tempo e me tornando a figura aparentemente por si só. Eu sou minha própria traidora e assim me coloquei como a personagem da música que se tornou um monólogo interior. Onde questiono sobre ser a primeira a cair fora, tentando lembrar de onde tudo se partiu, sempre escapando de dentro para fora, se deixando em algum canto enquanto outra versão assumia.

 

I was riding, I was crying, I was dying. Eu em 2018, mas freei. Parei de dirigir a mil por hora, pois isso nunca me trouxe coisas boas. Sempre chorando, às vezes, sem saber o motivo. Porém, consciente de que era porque uma parte de mim doía e chorar era o único alívio. Sempre morrendo, pois eu acredito na morte que vem de dentro.

 

A inserção do poema no reputation Stadium Tour, antes da música começar, só me deu mais profundidade ao que eu já sentia. O fim daquele ano era um perfeito ponto X. Vendo-me pela primeira vez. Não sabendo o que fazer com as outras partes suspensas no tempo. Eu precisava parar de morrer, mas mal sabia que morreria de novo em 2020. Olhando para baixo e vendo tantas versões de mim tentando subir a ladeira para não se desgrudarem de mim. Afinal, elas sou eu. Não há motivos para abrir mão, mas é preciso deixá-las em paz. E na parte do goodbye de Getaway Car eu sorrio, pois é o ponto de paz que quero estar com as outras versões de mim.

 

E essa experiência entrega o quanto reputation criou função na minha vida.

 

Quando essa faixa acaba, me vem à mente minha irmã dizendo que o álbum perde a graça. Mas, assim como Delicate, eu amo King of My Heart. É melhor que Gorgeous no quesito inocência. Há mais claridade sobre o desejo de acreditar na possibilidade de algo bom depois do tornado, como o amor. Nem que seja a possibilidade de ficar bem com você mesma. A experiência de que algo incrível está acontecendo, se expandindo e explodindo é palpável. O amor dourado da Taylor e não tem como não se animar!

 

Dancing With Our Hands Tied é a música que aprendi a gostar devido à versão acústica no reputation Stadium Tour. Eu a aprecio em seu sentido literal. Há também claridade, mas sobre a dificuldade da Taylor em engatar uma nova relação. O amor que começou de mãos atadas devido à vida pública que a loirinha tem. Sempre agitando o olhar alheio. Já Call It What You Want reforça o objetivo de declaração do reputation, com nuances do desaparecimento dela em fins de 2016. No meio de todo o caos, deu para transformar os espinhos em flores saudáveis ao focar no que importa. E essa frase serve para mim como o pulso verdadeiro que representa todo este álbum.

 

Há aquelas histórias de superação que envolvem viagens astronômicas quando, às vezes, a recuperação pode ser feita ao começar a aprender a ser mais gentil com você mesma e descobrir quem são seus verdadeiros aliados. De novo, mesmo sendo uma letra com uma pessoa específica em mente, eu a escuto como se estivesse no background de um evento enorme. Apreciando a vista e percebendo que há acolhimento. Mesmo que pareça incerto, pois, dependendo do que você passou, demora um tempo para se sentir segura dentro de si e com os outros.

 

Outra música que me dá a mesma sensação de assistir algo grande no background é New Year’s Day. A música que encerrou 2018 em um momento que hoje eu vejo que foi confuso. Foi a primeira vez que eu criei relações legais em um ambiente de trabalho. Ao ponto de pensar que, talvez, eu entrei lá para aprender isso. Foi lá que retomei a tradição esquecida de escrever cartões de Natal e eu nunca me esqueci das reações. Nem das fotografias dos cartões pendurados nas árvores natalinas que recebi na véspera. O coração chega aperta quando penso sobre…

 

Esses dias, eu dei de cara com uma frase, de um poema que acabou sendo alterado mil vezes pela internet, que dizia para deixar as pessoas com as palavras boas. O que calha em uma frase de Maya Angelou que diz que as pessoas nunca esquecerão como você as fez se sentir. New Year’s Day traz esse raciocínio e bota as lembranças em retrospecto para dar zoom no que foi bonito. Para se agarrar ao que serviu positivamente. A parte que me corta é a que Taylor pede para a pessoa não se tornar uma estranha. A risada pode ser reconhecida de qualquer lugar, como ainda ter um rosto desenhado nitidamente na mente. Sinalizando que, apesar do receio de perder alguém, não tem como evitar que esse alguém saia da sua vida. Tornando-se um eco.

 

Vê-la em um mashup com Long Live cortou meu coração todinho na noite de ano novo de 2018. Eu sentia muito por algo que hoje sei que de certa forma eu não perdi. Apenas foi como tinha que ser e há algumas pessoas que ainda estão comigo. Mas não tem jeito. Às vezes, me pergunto se tenho culpa pelas pessoas partirem, se não foi minha ausência de cultivo, mas eu aprendi que até isso é assumir responsabilidade demais. Metade é paranoia.

 

O exercício é lembrar dos momentos bons. Além de não deixar que essas pessoas que trouxeram tantas coisas legais se transformem em estranhas na mente. Ainda mais quando se tem o talento de tornar todo mundo estranho, pois parece doer menos. Nascendo, assim, um grande cemitério mental de quem se foi e que, às vezes, dói porque dá saudade. Sendo que algumas faltas não precisam ser necessariamente doloridas. Como Long Live e New Year’s Day expressam e ensinam sobre fins mágicos e esperançosos. De chorar sorrindo e agradecer pela jornada.

 

Sempre haverá um fim e não sabemos quando. E o tempo atual escancarou isso. Não há tantas memórias boas, várias relações mudaram e cada um vivencia um tipo de decepção ou tragédia. Cabe a nós criar o jardim. Como Taylor fez ao longo de reputation ou não teríamos o Lover.

 

Depois de tudo, este álbum larga a entrada do que seria Lover. Tudo tem seu ponto de virada. Sempre tem. E se espera que seja melhor, como aconteceu com a Taylor que transitou no escuro para se reencontrar na luz. Consciente de querer ser recordada não pelas coisas que odeia, mas sim pelas coisas que ama. Trecho do álbum seguinte, da faixa Daylight, que serviria de conclusão do reputation por ser a narrativa do aprendizado geral de passar pelo inferno e sair dele. Com sorte, dando um suspiro de alívio. Sem perder de vista que a transformação, com suas realizações, demora para assentar. Mesmo sendo algo que você pode tomar conta ao chamar suas partes de volta, tomar sua narrativa e se recuperar.

 

Perceber quem ficou e rumar para o que importa.

 

E não deixar que a tragédia seja tudo de você.

 

Why She Disappeared

 

Polaroid - Taylor Swift

 

When she finally rose, she rose slowly
Avoiding old haunts and sidestepping shiny pennies
Wary of phone calls and promises,
Charmers, dandies and get-love-quick-schemes

 

Eu não escutava o reputation desde 29 de dezembro de 2020. Quem lê assim, parece que o curti demais no ano passado, mas quem ocupou esse espaço foi o folklore. Uma mudança e tanto visto que o álbum que rendeu este post gigantesco pertence à minha lista de bíblias pessoais que vivem no repeat.

 

Mudanças. Deve ser porque eu ultrapassei a fase que este álbum entrou na minha vida e restou memórias de diários, de posts no Instagram ou propriamente da minha cabeça. Ao mesmo tempo que parece que retornei para a história de 2018 a fim de tentar me salvar de novo. O resultado foi de emoções divergentes, como não sentir tanta raiva. Eu esgotei meu poço de raiva no ano passado e ficou apenas resquícios que pulsam entre gatilhos.

 

Olhando para trás, vejo que as emoções divergentes se devem ao fato de que, muito além ao que eu enxergava, me libertei do que me assombrava desde que eu tinha 15 anos. Não quer dizer que aceitei, mas eu tive que admitir que aconteceu em ordem de seguir em frente consciente e para valer. Como admiti, no começo deste ano, que os eventos de 2020 aconteceram. Eu sou craque em me alienar e crio uma zona falsa de proteção. Lá no fundo, a verdade é que nesse modo de operação lido com absolutamente nada.

 

E não sigo em frente. Eu rodopio nas mesmas questões. Atraio as mesmas coisas e pessoas.

 

Para escrever este texto, eu tive que dar play depois de quase 3 meses (comecei a escrevê-lo em 25 de março de 2021 e o tempo de demora para postar é sinônimo de revisões em doses) e ouvi-lo na íntegra (algumas faixas escaparam em janeiro, mas isso aconteceu em função da história da Alice). Foi o desafio depois de um período que marca meu afastamento de tudo que envolve Taylor Swift e acredito que eu esteja assim ainda. Uma emoção que tenho intenção de explicar melhor no texto de folklore que, para minha sorte, está pronto e em duas partes.

 

Acreditei que o distanciamento entre Taylor e eu acabaria, mas, enquanto revisava este post, sequer me interessei por Fearless. Sei que essa situação é passageira, pois possuo várias coisas para entender e processar. Como compreender que certas músicas dela, tocadas em certos momentos, com certas pessoas, não é ruim. É ótimo.

 

São memórias boas que ficam na berlinda de se perderem devido ao novo trauma que desmoronou o sistema que eu comecei a construir em 2018-2019. Todo o cerne de mim foi tomado em menos de quatro meses e sinto tudo agora.

 

Pelo tamanho do texto, também não me custa dizer que se tornou questão de honra registrar a minha jornada com este álbum, pois este álbum me deu praticamente tudo. Assim como todas as músicas que tenho escutado e que espero compartilhar aqui (ainda este ano). Fez-me perceber que música sempre me ajudou e que eu me afastei daquelas de épocas difíceis, porque eu queria me manter distante de certos funerais. Elaboração, como diria minha analista. Ou trabalhar os sintomas, pois escrever sobre o reputation me deu mais compreensão de certas coisas. Como não aceitar o que parece uma perda como oficialmente uma perda. E não deixar desaparecer o que foi bom.

 

Não dá para aceitar algumas perdas. Como das músicas que eu amei e ainda amo. Dos álbuns que me ajudaram a transitar ou que cutucam memórias incríveis (que infelizmente desvanecem com facilidade do meu cérebro). Não escrever este texto soou para mim como admitir que tudo e todos que comecei a combater em 2018 venceram. E que os fatos de 2020 também venceram por me tirarem mais. Sendo que eu nem sabia que tinha mais para ser retirado.

 

Basicamente tudo que eu amo, e sei que amo, entra lá no fundo do âmago e gruda. E arrancar dói demais. Eu tentei arrancar a Taylor. Uma mão invisível ainda tenta enquanto eu acredito nessa sincronia. A loirinha sempre volta. E ela volta quando estou distraída ou quando acredito que a esqueci. E este texto sai como prova disso.

 

Além do fato de que eu não podia publicar o texto sobre folklore antes do reputation. Daí, eu vejo outra coisa que se revelou durante o processo de revisão deste post: eu tinha que voltar para o começo. Revisitar minha história. As partes boas. As partes que eu venci e superei. As partes que ainda acredito e amo. Avanços de quem não fazia isso.

 

Mas serve de resposta sobre a minha constante de crer que o ruim fica e vence.

 

Quando o ruim não precisa assentar em mim com propriedade. Não como antes de 2018.

 

Quando o que faz bem tem que ser a prioridade a ser mantida por perto. Sempre.

 

 

Polaroid - Taylor Swift

 

When she stood, she stood with a desolate knowingness
Waded out into the dark, wild ocean up to her neck
Bathed in her brokenness
Said a prayer of gratitude for each chink in the armor
she never knew she needed
Standing broad-shouldered next to her
was a love that was really something,
not just the idea of something.

 

Por mais que toda esta história tenha recomeçado com o 1989, do ponto que começou lá em 2014, o reputation foi o álbum que me abraçou e me segurou no decorrer de todas as experiências de 2018. Muitas delas oriundas de descobertas durante o tratamento psicológico, o que fez da raiva um tipo de emoção que precisava se manifestar. E a música tem seu poder de nos ajudar a articular muita coisa, especialmente por ser livre de leituras.

 

Você entende do seu jeito e meio que não importa tanto o que o artista pensou. E digo isso mais especificamente porque eu demoro um tempão para saber as intenções do artista, pois quero ter minha experiência em primeira mão. Ter minhas conclusões. Como aconteceu com o reputation cujas faixas criaram função para mim e me despertaram para outras emoções que há muito tempo eu não refletia sobre. No caso, amor, relacionamentos e afins.

 

When she turned to go home,
She heard the echoes of new words
“May your heart remain breakable
But never by the same hand twice”

And even louder:
“without your past, you could never have arrived –
so wondrously and brutally,
By design or some violent, exquisite happenstance
…here.”

 

Jack Antonoff encapsulou tudo que senti ao longo de reputation. Ele disse que o álbum é intenso e que você pode sentir que vai conquistar o mundo ou se sentir um chernobyl. Eu senti os dois, mas muito mais sobre conquistar o mundo, recuperar meu poder depois de tanta turbulência. De começar a me dar coisas novas que só seriam esclarecidas ao som de Lose You To Love Me. Sobre o chernobyl acredito que, a essa altura, seja autoexplicativo.

 

Hoje, o que sinto pelo reputation é uma memória boa. Especialmente porque eu não sinto mais a raiva que me impulsionou a ouvi-lo fielmente todos os dias. Não quer dizer que eu não sinta mais raiva. Eu sinto. Raiva é algo muito intrínseco a mim, mas, passado o tornado, só se observa os danos. E da raiva se fica triste, como em folklore.

 

Apesar de notar as minhas mudanças durante a revisitação, que não se alinham tanto com a Stefs de 2018, eu ainda acredito em Don’t Blame Me, a música que me trouxe até aqui. Eu ainda acredito em Delicate, So It Goes…, King Of My Heart, Dress. Eu ainda acredito em Getaway Car e New Year’s Day, as músicas que levarei para a eternidade.

 

O passado teve seu jeito de moldar minha vida e eu acreditei fielmente naquela afirmação de abandone o passado. Hoje, vejo que não é bem assim, embora eu caia de vez em quando nessa mesma armadilha. Não tem como deixar ir o que não se lida. Vive em você, lá dentro, criando uma zona de espinhos que é trabalhoso eliminar.

 

E reputation é isso. Tirar o que não presta para impedir que viva para sempre e seja tudo que você é. Um álbum que Taylor reflete sobre o passado, uma trama do seu tempo, e escrevê-lo foi sim necessário. Não somente para a loirinha marcar essa história, mas para liberar as emoções negativas que precisam de validação para se seguir adiante. Ao entregá-lo, ela fez uma das partes mais duras: admitir que aconteceu. Era o fim da negação.

 

Fatos que me impedem de ver essa Taylor como uma persona. Porque não é. É ela no nu e no cru e isso pode ser capturado em algo simples: a vulnerabilidade feminina que não envolve o estereótipo romântico. Taylor ilustra a reação defensiva para se manter em pé. Sua raiva tão quanto sua habilidade de ainda crer em amor e inocência. Criando a ilusão de que todas aquelas Taylors não seriam mais ela. Quando ainda são, mas ela precisou descobrir quem era Taylor Swift sem todas elas. Incluindo o peso da mídia que a cantora não perdeu de vista no seu shade.

 

Polaroid - Taylor Swift

 

Quando se admite é preciso pensar no que vem depois. Não é sobre virar o rosto, como muita gente imaginou que a Taylor fez ao sumir. Longe, ela desmoronava e assim reputation se tornou uma obra honesta. Mais junto da ferida. O amor foi o que ela encontrou de solo seguro e eu acredito que algo sempre se manifesta para te manter em pé. Pode ser um amor, um emprego, não sei. Algo vem para ao menos dar motivo para você se levantar. Mesmo quando os dias são difíceis, pois, no fim, é tudo sobre this is me trying.

 

Dependendo do caso, você realmente aprende o que priorizar e, considerando uma figura pública, pode-se dizer sobre amadurecimento que vem ao reconhecer que você precisa se defender. Preservar-se. Uma hora a Era de sorrir e acenar tem que acabar para você mostrar mais dentes. E o reputation é cheio de dentes, a libertação da voz da Taylor sobre uma dor que não deixou de ser exposta. O mundo assistiu o over party. Ela lançou o cancelamento.

 

E tudo dali em diante era sobre recuperação e ainda me parece difícil visto que a jovem não tem um minuto de paz. Mas ela parece bem, segura e saudável. E isso é ótimo!

 

No fim, o reputation é lembrar do que faz bem entre picos emocionais. Acima de tudo, lembrar que certas emoções, como o amor, são possíveis de continuar acreditando apesar de tudo. Mesmo que pareça errôneo, pois não orna com o tempo da tragédia que você vive. Por enquanto, eu quero ser capaz de romantizar a minha vida, como me convidar para tomar um vinho e comer uma massa enquanto o cheiro de lavanda toma o ambiente. É, eu sou assim piegas!

 

O que me faz mencionar o silêncio que, às vezes, não está aqui para ser inimigo. Pode ser ensurdecedor, mas pode ajudar na travessia. Você se separa do mundo, abrindo a chance de descobrir o que é seu. Quem é você. Taylor fez isso por meio de duas linhas de silêncio: a quebra dele e a apreciação dele. A quebra porque Swift deu as respostas que tinha que dar sobre tudo que aconteceu e deixou de livre interpretação. Era o seu lado. O lado que meio mundo não quis saber. Inclusive eu, o que tornou a experiência na sua literalidade muitíssimo interessante lá em 2018.

 

A apreciação dele porque Taylor simplesmente sumiu. No documentário, ela diz que o silêncio, o sumiço, a colocou no centro do que importa. Seu trabalho, seus fãs, a família e o Joe. Há sempre um meio-termo sobre o silêncio e o reputation cai bem nessa linha. Sobre o que você tem que dizer em ordem de ser livre. E o que você não precisa dizer em ordem de manter sua vida protegida. Era basicamente esse equilíbrio que a loirinha não tinha ainda.

 

A verdade da mulher costuma ser menos digerível do ponto de vista social. É um choramingo, uma chance de se aparecer ou falta de amor. Não me custa repetir isso, pois, quanto mais uma mulher fala sobre suas emoções, o que passou e o que tem feito para melhorar, ela está menos passível de perdão ou de escuta em comparação ao homem. O que torna o silêncio traidor também, pois você pode falar desde que não fale muito. E não faça tanto alarde, pois logo passa. O reputation ensina que tudo bem (re)descobrir a vida desse jeito. Na quietude.

 

Mas sem apagar sua verdade. Sem se esquecer que as emoções negativas de uma mulher também são válidas.

 

E eu dou valor demais para mulheres que expõem suas feridas e escrevem sobre cada uma delas. Sinto-me inspirada a fazer o mesmo, embora eu falhe por me policiar. Por também acreditar que o que tenho a dizer não é importante. Em contrapartida, hoje eu entendo melhor que não se pode passar pela tragédia sem enfrentá-la. Como mencionei, o passado é um corredor. Uma vez do outro lado, é um pouco mais fácil deixar ir e não se transformar por ele. Porque há sempre chance de ser melhor e encontrar o que é melhor. Mesmo que a base da apreciação do silêncio.

 

Revisitar este álbum foi mais fácil que o esperado. Deve ter sido porque me planejei psicologicamente, pois eu teria que trilhar de novo os caminhos que fiz em 2018 para chegar no afeto com relação à Taylor. Resgatando as emoções que senti, como não ter demorado tanto tempo para comprar o CD, que acabou sendo levado para representar o pedido da minha amiga e do projeto dela. Eu relutei em escolhê-lo, porque não se associava ao que eu tinha para dizer. Mas eu vi que se associava, porque o reputation foi a expiação. O fim. A resolução da parte 1 da minha vida.

 

Não totalmente, mas o suficiente. Foi com este álbum que voltei a imaginar o que eu imaginava na adolescência. Taylor foi me abrindo, mudando o circuito, me empurrando para o outro lado a fim de me tirar da bifurcação que eu sempre caminhei. Claro que a música não me ajudou exclusivamente. Houve muito trabalho e ainda há.

 

Taylor me relembrou do papel que a música tinha na minha vida. Ela ativou um circuito que se apagou. E até hoje eu sou grata por isso. Principalmente porque reputation é meu mundo seguro que recuso a perder. A loirinha é exímia em criar esses mundos para mim e aqui segue como meu mundo de função sobre o silêncio, a raiva, as memórias e o amor. O que se pode manter. O que se pode deixar.

 

E, definitivamente, como se excluir da narrativa para criar a sua própria.

 

And in the death of her reputation,
She felt truly alive.

Crédito das imagens: Taylor Pictures

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Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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