13maio
Arquivado em: Notas de Campo

Espantei-me ao lembrar que este texto existe. Não queria publicá-lo por estar meio fora do “prazo da validade”. Afinal, eu atravessei esse maremoto emocional e ficou só o emocional. Ao arriscar relê-lo, não esperava um senso da minha parte, mas sim um Frankenstein. Eu o escrevi no auge da angústia que começou em janeiro deste ano.

 

Normalmente, eu sei que o dia não será leve no instante que abro os olhos e percebo a ausência de vontade de sair da cama. Não é uma revelação extraordinária tampouco uma observação sobre preguiça, mas é meu termômetro diário para apurar sinais de angústia. E os sinais de angústia ressonam no meu ritmo cardíaco. Pesaroso. De maneira a criar confusão mental e deixar minha pele mais sensível que o habitual.

 

Observo a forma como me movo, como respiro, capturando a que nível se encontra a vontade de reagir. Sei que dormir é considerado um tipo de escape da realidade, mas, considerando que ainda estamos em uma pandemia, dormir soa como o “que resta”. Entretanto, esse “o que resta” complica quando você tem coisas importantes para fazer. Como trabalhar.

 

Mesmo consciente de que não quero sair da cama, há algo que me espera e me empurro para fora do quarto. Mesmo que à força, daquele jeito de sair batendo os pés. Consciente de que, naquele dia, eu darei o mínimo de mim. Nem que seja nas coxas e está aí algo que meses atrás movia uma imensa culpa. Hoje, tento ser indiferente.

 

Há coisas na vida que não tem como forçar (e pode servir de argumento para várias coisas).

 

Se não estou bem, qual o sentido de forçar a barra e jurar que estou? Está certo que não posso comunicar isso o tempo todo. Infelizmente. Até porque, quando acordo angustiada, sei que dali em diante uma semana da minha vida será dispensável. Ela passará, na lerdeza, e eu sequer lembrarei. Nem que eu desenhasse me entenderiam. Ou me dariam um tipo de “alta” pela semana angustiada que me deixa petrificada. Imaginem dois meses de “alta”?

 

Tive que lutar contra a parte mais difícil dessa angústia, inicialmente sem roupagem, por dois meses. Às vezes, fico perdida entre datas e afins, por isso ando registrando tudo, mais que o normal. Nessas horas é ótimo ter certas redes sociais, como o Last.fm, pois, quando me lembro do começo dessa fase da minha vida, eu escuto no fundo da mente Funeral da Phoebe Bridgers. O ponto de partida de dias que viriam a ser física, mental e emocionalmente desgastantes.

 

Era apenas 10 de janeiro de 2021.

 

(…)

 

No dia que sentei para cuspir este texto (2 de março de 2021), eu vinha de uma semana boa. Eu consegui comer de três em três horas, voltei a inserir um pouco de fruta no meu parco cardápio, comprei laranja para fazer o suco, já que não ando tomando Sol, fiz exercícios físicos, terminei um livro. Pequenos sucessos que são sinônimos de dias bons para mim atualmente. Significa que eu ainda sou capaz de reagir para ter um pouco de bem-estar. Porém, tem um alarme na minha mente, sempre antecipando a ansiedade sobre a possibilidade da semana seguinte não ser tão boa assim.

 

Pode ser que me avacalho com esse raciocínio limitante, ou o raciocínio é viciado por estar registrado em vários neurônios (virando automático), mas tudo começa com a queda de energia. Vem a melancolia. O looping da falta de vontade. Vem ondas de angústia. E foi no meio da angústia que este texto nasceu. Por isso fiquei surpresa com sua existência. Principalmente porque, mês passado, me dei falta de outro texto e esse sei que foi com Deus.

 

No dia que sentei para cuspir este texto, me lembro de estar em um segundo dia de pura angústia. Um segundo dia de vários outros que já tinham acontecido. Com a diferença de que, no dia anterior, eu acordei ok. Cheguei a arrumar o cabelo, regra de convívio comigo mesma para me sentir menos patética, mas, assim que sentei para trabalhar, eu vi a onda de angústia pronta para me engolfar. Há coisas lá de dentro que você sabe. Digo isso, especialmente, em função de que, quem passa por fases de melancolia, podendo ser por motivos de depressão, mente e corpo se preparam por antecipação diante do primeiro sinal do que vem para afogar. Varrer a realidade por dias ou semanas.

 

E se fica lá embaixo. Submergida. Até tudo voltar a ser minimamente normal ou interessante.

 

Nem dá tempo de puxar o ar antes da onda de angústia engolfar e inundar. Perco o fôlego no instante que a vejo. Pode ser que eu precise aprender a nadar. Ou respirar com rapidez. Mas, depois de tudo que aconteceu, perdi meus jeitos. Se é que algum dia eu tive jeitos, pois me afogo desde que me conheço. Como esses dias em que pensei que perdi meu jeito de escrever e paralisei nessa específica angústia. Quando, na verdade, as palavras se tornaram outras. Eu tinha que encontrá-las.

 

Hoje, percebo que meu corpo e minha mente reconhecem a antecipação da onda de angústia ao dosar meu coração com mais peso. Fico sem lógica. Logo, fico petrificada ao mesmo tempo que tento encontrar os motivos que poderiam tê-la engatilhado. Os segundos avançam lerdos, porque não consigo mudar a minha realidade — como ter autorização para voltar a dormir e ver se me acalmo —, pois, literalmente, fico presa no lutar ou fugir. Por estar no ambiente do trauma, meus níveis de estresse estão longe do normal. Meus níveis de paranoia evoluíram. Gatilhos também. Meu cabelo cai horrores e já nem sei se é falta de ferro, emocional ou do mencionado estresse.

 

Tem dias que não consigo “vencer”. Afogo e me debato em desespero. Em um mundo pandêmico, se ampliou a saudade de ficar completamente sozinha em casa. Meu próprio mundo interrompido, às vezes, é uma bênção.

 

Em um mundo pandêmico também não há cinema, uma das medidas que eu tomava para tentar sair desse ciclo. Não há nada. Somente eu para me carregar no colo em dias assim. Não que nunca tenha sido assim, mas, vendo todo dia o resultado do que aconteceu no ano passado, parece a primeira vez que preciso me puxar para emergir.

 

Conheço-me até que bem para saber que semanas boas e ruins se alternam. Sonho com o dia que será um dia ruim, dentro da minha regra antiga de ficar mal por 24 horas e depois seguir o baile. Olhando para trás, creio que isso se tornou uma cobrança invisível, porque, assim que janeiro engatou, juntamente com meu emprego novo, eu queria mais que tudo funcionar direito. Eu não conseguia. Não estava no dito pronta para começar uma dita nova realidade.

 

Parece meio que verdade essa história de que “coisas boas nos encontram no pior”. Seja lá o que isso signifique, pois não me parece uma teoria reconfortante. Aconteceu algo bom sim, mas não houve um dia sequer que eu não implorei para que a sexta-feira chegasse logo. Tudo devido ao desejo de ficar parada. Centrada nessa transição difícil (sem garantia de sucesso) e tocar minhas coisas quando tenho vontade (leia-se: energia). No tempo que parece propício para não me arrebentar mais ao que já estava (estou) arrebentada. Meu desejo maior é poder escolher, pois tudo de mim continua focado em processar o trauma. Atender as demandas do mundo desse jeito é horrível.

 

Isso considerando a própria consciência do trauma e a saída da negação. Tudo aqui veio ao mesmo tempo.

 

Minhas emoções são maremotos. Resposta do aprendizado de silenciar e disfarçar para manter todo mundo confortável. Além do meu talento de evitamento e de rejeição que são inconscientes, embora não tanto assim hoje em dia. Ainda existem, mas, se me comparo com a versão de dez anos atrás, a que falava um total de zero sobre desconfortos emocionais e rejeitava tudo que estava envolto na cápsula do episódio trágico, posso dizer que melhorei bastante. O problema está no limite. Eu chego no limite. E é meu corpo que sente por não conter os deslocamentos das ondas de angústia. Gerando correntezas de dor por todas as partes da minha existência. Não tem como segurar a angústia e seus efeitos colaterais por muito tempo.

 

Sei disso, mas está aí uma lição que me custa aprender. Não sei o motivo, mas pode ser a minha habilidade de trancar os desconfortos gerados pela angústia. No intento de me manter na superfície o máximo que posso para não perder meu funcionamento “natural”. Afinal, como eu disse, um dia assim tem a habilidade de me fazer “perder” uma semana.  O duro é que eu passei anos da minha vida nesse modo de operação. Antes fosse um dia ou uma semana. A diferença é que hoje eu consigo ter mais clareza do que acontece e isso só se tornou possível graças à minha psicanalista.

 

Quando a sexta chegava, eu via o prazer enorme de ficar sem fazer nada. Pensar é uma das causas da minha profunda exaustão. Principalmente quando minha mente começa a lutar para encontrar saídas. Hoje, posso estar menos angustiada, mas torço ainda pelas sextas. E pelos feriados. Justamente porque quero gastar a energia que tenho comigo mesma. E isso eu chamo de reviravolta, já que sou famosa por me autonegligenciar.

 

Talvez, eu deveria ter me preparado, pois sinais de que eu afogaria não faltaram. Em dezembro, eu já sentia um peso esquisito. O cansaço físico. Sei disso, pois consultei meu diário. Não levei a sério, ou não olhei atentamente, pois, nos dias finais do ano, eu estava dedicada em escrever e publicar sobre 2020. Distração e tudo bem.

 

Entre janeiro, fevereiro e março, meu corpo e minha mente pediram pelo direito de processar tudo que aconteceu no ano passado. Tudo de mim me empurrou para as fases do luto que, para sobreviventes de violência, costumam ser: culpa, vergonha, mais culpa, raiva, lamentação, medo e ansiedade. Não havia jeito de interromper. Feliz ou infelizmente, eu tinha que viver isso e mais. Por isso peço tempo. Um tempo que corra devagar junto comigo.

 

Certo senso de responsabilidade sempre me tira da cama, mas tenho histórico de dias em que entreguei o jogo (como pedir home office na época que trabalhava na última agência da minha vida). No meio do desespero, provocado pelo desejo de tirar a angústia de dentro de mim, imagino o poder de ser uma pessoa relaxada (e pode ser por preguiça), ao ponto da cara nem tremer para justificar atraso e trabalho malfeito. Não é um elogio, mas esses últimos meses me fizeram pensar como seria ser assim. Péssimo, mas, considerando que nada meu estava no lugar nesses mencionados meses, poderia ser um alívio. Um mecanismo para quem precisou reagir à força estando do avesso.

 

Senti-me atropelada, mas, por outro lado, penso que não haveria uma motivação maior que um emprego para me tirar da cama (uma viagem, talvez?). Provavelmente, eu nunca teria saído. Estaria grudada, porque, em um quadro geral, não tem nada para fazer na pandemia. Os dias são iguais. Nada melhora. Dormir seria a solução.

 

Continuo a reagir de alguma forma. Mesmo quando não quero. E eu gostaria que esse não querer fosse apenas uma birra. É fácil resolver uma birra. Basta enumerar porque isso ou aquilo é importante e derrubar as próprias defesas. Mas o que continuo a sentir é a necessidade de me defender contra mais coisas que podem me sobrecarregar.

 

Há um ponto na vida que você sabe o quanto pode aguentar. Hoje, isso está mais claro do que nunca.

 

(…)

 

Li que a angústia depois do trauma, por exemplo, é normal. Seja pela ausência do senso de existência ou por não saber como recomeçar a viver. As minhas duas ondas de angústia que me quebraram em janeiro, fevereiro e meados de março. Faz parte do processo, porque tudo de você mudou. A realidade. Como você vê as pessoas. Tudo. É uma lista enorme de mudanças e eu tenho fama de ser apressada.

 

Eu desejei funcionar logo. De preferência como antes. Isso foi veneno para essas minhas duas angústias que vieram ao mesmo tempo. Fazendo-me realizar que, pouco a pouco, eu retornava ao ponto do vazio que me pegou em 2019. A diferença desta vez é que eu não queria encontrar nas ruínas uma dor específica para ocupar o espaço da dor que limpei naquela época. Desta vez, avistei o desespero de parar de sentir o que eu sentia. Pensar em tentar melhorar foi o passo seguinte. Do mesmo tanto que o desejo de ocupar o vazio com coisas que prestassem para algo positivo.

 

Também li sobre “pavor emocional” (emotional dread). Dentre os tópicos que engatilham isso estão experiências traumáticas ou que alteram a vida profundamente (esse aqui cabe ao viver em uma pandemia). Isso trouxe um pouco mais de senso para essas minhas angústias. Ambas querendo ser crosta para avolumar e firmar minha inexistência.

 

Quando olho para trás, vejo que perdi todo meu senso de existir. De novo o papo de cair da espaçonave. Até dentro do quarto que durmo, com meus objetos, que não pareciam mais meus. Nem os textos que não conseguiam sair. Mesmo que algo em mim já soubesse, o trauma toma o existir e, entre os desconfortos emocionais, fiquei revoltada. Eu estava de novo em um lugar infelizmente familiar. A diferença é que eu mantive um pouco da razão depois da tragédia. Como? Não tenho a menor ideia. Porém, eu disse para minha analista que parte disso aconteceu devido ao tratamento psicológico.

 

Tratamento que eu não contei no primeiro trauma da minha vida. O primeiro que concentrou outros. E queria concentrar o que vivi no ano passado, sendo que sua função tinha sido resolvida. De uma maneira que não me controlasse mais para que eu pudesse viver de verdade e aprender a ser exclusivamente minha. Tudo quis voltar em uma única onda, ricocheteando dores do passado que intencionaram se afunilar com as do presente. Isso se eu pensar em pautas que não tratei ainda, pois sempre fica o resquício de algo. E o resquício nunca é claro. É a erva daninha que aguarda o instante para avisar que existe. Como vi em meus períodos de raiva. Eu acreditei que não sentia mais raiva e foi uma experiência horrorosa perceber como cada músculo meu trabalha para contê-la. É um inferno.

 

Norteei-me ao autocuidado. Quando as angústias sobre quem sou, o que faço, para onde vou entram em cena, sentir que cuido de mim dá certo alívio. Como fazer análise. Arrumar o cabelo. Não é um resultado 100%, pois, às vezes, depois do exercício físico, fico pilhada e, consequentemente, não consigo dormir direito. Isso felizmente mudou.

 

O que me favoreceu também foi abandonar o Twitter. Eu precisava aumentar o silêncio ao meu redor e eu não sabia o quanto isso me ajudaria. Inclusive, para colocar 2020 totalmente em retrospecto de dentro para fora.

 

Dias e dias que se moveram dentro da ausência do senso de existência e de não saber como recomeçar a viver. Sair das profundezas dessas angústias não é uma vitória, mas não deixa de ser quando continuo disposta a tentar seguir em frente. É uma briga repetitiva, exaustiva e chata. É inevitável não se aborrecer em algum momento. Você está dentro do seu próprio corpo. Não tem para onde ir a não ser atender suas necessidades. O mesmo para a mente. Não há como se arrancar de dentro de si e eu desejei demais por isso.

 

Olho para os meses angustiados e vejo que eu precisava me desbloquear do lado de dentro e voltar à superfície. Re(e)xistir visto que a dor me fecha. As angústias me fecharam e cheguei a questionar sobre o fim da minha simpatia por vulnerabilidade, pois me vi desesperada. Entre soltar, afogar ou segurar. Processo que aumentou as correntezas da dor uma vez engolfada. Sufocando e subindo os níveis de desconforto. Hoje, vejo que era necessário abrir meu corpo e deixar ir. Mesmo que rendesse mais dores e desconfortos, pois nada do que testemunhei se vai de uma vez. Sempre fica o resquício de algo, pois a memória vive e, provavelmente, viverá sempre.

 

Eu tive que deixar as ondas de angústia me engolfarem e lidar com as correntezas de dor. Deixar o corpo tomar o curso. Mas, até isso acontecer, eu segurei as angústias nas mãos fechadas. Segurei até as comportas do meu corpo cederem.

 

(…)

 

Apesar dessas angústias não pesarem como no passar desses mencionados meses, ainda me sinto sobrecarregada. Cheia de perguntas. Procurando algum novo leme para iniciar minha nova vida. Tentando encontrar um pouco de autocontrole. Por outro lado, meu desejo maior é por calmaria e contemplação. Nem sempre dá certo, claro, mas me remete ao status que me coloquei no começo de agosto do ano passado. Imaginei que vivia meu próprio folklore.

 

Ainda há dias que quero manifestar pelo direito de ficar quieta sem ser punida. De dizer que meu cérebro não comporta o que você quer de mim hoje. Eu deveria me sentir aliviada pelo home office e de certa forma me sinto. Se eu tivesse que me apresentar por todos esses dias que vivi, pode ser que tenha rolado um colapso. Felizmente, os últimos meses se passaram entre mim e o notebook. Alguns dias cansados. Outros chorosos. Outros atentos.

 

Hoje, vivo outras angústias, como o pavor de não haver algo bom no futuro. Pavor que é normal também para a minha condição. Considero-a mais leve, pois agora tenho noção da minha existência apesar de ainda não saber como viver a vida. Ainda há ondas menores de desconforto emocional. De breves afogamentos. Da falta de macetes para lidar com as ondas que ainda conseguem ser mais rápidas que minha captura de sinais para me proteger.

 

Sou totalmente a favor de ficar com suas emoções a fim de compreendê-las, mas eu acredito que sento por tempo demais. Ter reconhecimento de que isso “sou eu há tanto tempo” piora um pouco. Desanima, pois, assim como o raciocínio de que uma semana boa tem que ser “recompensada” com uma ruim, parece que esse ciclo é o único lugar que conheço. Minha analista sempre falou para ressignificar os lugares ruins, as memórias ruins, mas é difícil quando parece que só há um botão funcionando dentro de mim. O que repuxa, sem chance de respirar e te afoga.

 

Mas sei que preciso quebrá-lo de alguma forma. Ao menos de maneira que eu não sofra tantos desconfortos. No fim, é uma briga da qual ainda tento aprender como lidar sem sofrer tanto. Seria bom aprender o mínimo para parar de me afogar várias vezes. Isso requer algum tipo de autocontrole, talvez. E o segredo está em não impedir o inevitável.

 

O que é complicado, pois não sou leve. Parece que nasci preocupada. Melancólica. Tensa. Ansiosa. Rígida. Segurando o mundo nas costas. Mas muito tem a ver com outros traumas, onde parte desse muito tem a ver com respostas dos traumas. Não sei o que é relaxar e deixar as coisas fluírem — nem quando tive grandes lições sobre isso ano passado.

 

Outra angústia atual é que não me sinto pronta para a realidade. Não uma pós-pandemia, embora se inclua. Há aquela sensação de que não quero responsabilidades para ter meu tempo de melhorar, sem nada me atrapalhando. Basicamente, um dos cernes deste texto. No fundo, sei que preciso do movimento. O movimento me ajuda mais que ficar parada. Minha analista nunca errou sobre eu me ocupar e fazer o que faz sentido para mim em dado instante.

 

Deve ser por isso que volto para esta casinha, pois, quem sabe, a missão seja realmente escrever sobre as feridas abertas. Mesmo quando nuances de mim parecem intensificadas e a carne viva resplandeça. Mesmo quando noto verdades e resquícios. A verdade de algo. O reconhecimento do resquício de algo. Processo duríssimo.

 

Penso, logo sinto, e ultimamente sentir tem sido sobre todas as fases do luto que mencionei neste texto. Quando acho que é hora de seguir em frente, como tenho sentido atualmente, há uns passos de retorno que colocam tudo em retrospecto. Creio que isso é normal também, especialmente porque envolve abrir mão de pessoas e coisas. Aprender a deixar minhas mãos abertas para não segurar firme o que não serve. E ser vulnerável para não me fechar por dentro. Fins sempre trazem algum tipo de revisão e a torcida é que fique tudo bem. Que o tempo volte a ser bom.

 

Hoje, depois dessas específicas ondas de angústia, vejo que tinha que me render. Isso não é tão óbvio na dor e no desconforto. Uma hora o aviso vem e você só respira fundo. Você afoga e retorna. Na superfície, o funeral. O contar das perdas, pois, ao menos nas minhas circunstâncias, não tenho ganhos para celebrar. Não há nada a se celebrar depois de tudo que aconteceu. Vejo as mudanças, mas sempre digo que elas poderiam ocorrer de outro jeito.

 

As angústias que inspiraram este texto diminuíram, mas continuam a me visitar. Tento não afugentá-las com minhas mãos de novo e nem transformar meu corpo em comporta. O que é difícil, pois preciso do seu sumiço para que nada de mim saia mais do lugar. O depois de meses quebrando de dentro para fora, em silêncio e respirações profundas, me fez notar que desaprendi a ser eu. Ao menos, não temo a ideia de quem eu poderia me tornar depois de tudo. Eu mudei e preciso acompanhar essas mudanças. Ao contrário do meu eu adolescente, há a escolha de um caminho mais seguro e saudável.

 

E ver esse caminho na minha superfície rende pavor. Parece errado desejar um caminho melhor e é nesse raciocínio que vejo o quanto me prendo em caminhos ruins. A luta de agora é recosturar o meu processo interrompido para não me descolar dos eventos positivos até então.

 

Hoje, sinto que existo. Há mais silhueta e palpabilidade. E o início desta vida tem se dado em contato com as coisas que amo. Como resgatar reputation, álbum da Taylor Swift, que foi extremamente importante para a minha trajetória em 2018. Vivo entre anseios pelo que se perdeu e, aparentemente, há itens que não podem ser recuperados. Há muito essa sensação de que algo importante se foi e isso pode ser confundido com nostalgia. Deve ser uma reação de um fim.

 

De não ter como voltar no tempo.

 

As dificuldades seguintes são sobre (re)viver, pois é preciso recuperar a existência completa. Assim, acredito que seja possível ocupar o vazio com coisas boas para diminuir as ondas de angústia. Tomar mais atitude sobre meus pensamentos e emoções. Agir para me acalmar e esquecer dessa teoria de que sempre preciso me render primeiro.

 

E não falar tão mal de mim quando eu submergir de novo. Faz parte, pois vivo em zigue-zague. Uns instantes no presente. Outros em meus mundinhos imaginários para me poupar (leia-se: mecanismos de defesa como continuar a escrever a história da Alice). Seguindo no intento de lidar com as novas angústias sem me contorcer tanto dentro de mim. O mais urgente: anular essa incoerência sobre uma semana boa ter que ser “recompensada com uma ruim”. Essa ansiedade mental precisa sumir, pois, no fim, há sempre algo brilhante entre as ruínas. E é isso que vale a pena.

 

Quando acordo angustiada, eu tenho que lembrar que, dali em diante, pode ser que o dia não seja tão bom. Porém, pode haver algumas coisas legais nas entrelinhas e que devem pesar um tantinho mais. Mais que a ideia de que o primeiro pisar em um dia angustiado me renderá outros seis da mesma maneira. Não é uma questão de que depende de mim para tudo ficar melhor, especialmente porque não tem como eu sair de onde o trauma aconteceu. Depende de mim ao menos sair da cama para não perder um dia da minha vida. E seguir pelo melhor caminho.

 

Muito dos últimos meses envolveu angústias pós-trauma que mexeram no como me vejo, me sinto, me percebo e percebo tudo ao redor. Angústias que, de qualquer tipo, se complementam na tristeza e se entremeiam, ou atiçam, outros questionamentos. Hoje, gosto de pensar que estou no início da minha recuperação. No estado de contemplação para me ter de volta. A mente, divagando, enquanto espero voltar ao meu corpo. Conectada por dentro.

 

Segura por dentro.

 

(…)

 

Não me lembro como o dia 2 de março terminou (o dia que este texto nasceu), mas hoje digo que lá foi o início da minha tentativa de sair dessas ondas de angústia. Escrever tem sua forma de reorganizar e, ultimamente, é isso que se baseia a minha escrita. Com o objetivo de soltar de vez a história de 2020 para tentar seguir adiante (e eu acreditei que tinha feito isso quando publiquei o conto e creio que o conto deu realização do ocorrido). Não há grandes promessas, pois minhas emoções sempre se atualizam. Mais rápido que o esperado. Nem sempre é bom, mas, ao menos com elas, percebo coisas novas que podem me ajudar. Como pentear o cabelo e passar um creme.

 

O que sei, agora, é que as mesmas mãos que seguram as angústias precisam ser as mesmas que me confortam. O único esforço que interessa, pois não sou mestre em me cuidar. Nem me salvar. E preciso aprender a me salvar, independentemente de ter feito isso incontáveis vezes. No entanto, cada ação de me salvar foi a base do medo de novas dores. Hoje, eu quero consciência do que faço, registrar tudinho e me acompanhar. Pois sou eu no fim de tudo.

 

O que sei, também agora, é que preciso aprender a segurar o fôlego antes de certas ondas de angústia chegarem para não perder a consciência totalmente. Como também abrir as mãos para deixar as angústias irem antes do meu limite, pois assim não sentirei tanto sofrimento e desconforto no meio das correntezas. E, depois, não tentar encontrar alguma nova dor nas minhas próprias ruínas para fortalecer o poder dos meus afogamentos, de maneira a torná-la a minha única verdade para preencher o vazio. Quando não há nada desse tipo nas ruínas para preencher o meu vazio.

 

O vazio que tenho é outro. Um que reconhece que as cinzas das ruínas só servem para prender no passado.

 

Um que pulsa a orientação de que há algo adiante. Sempre.

 

Imagem em destaque: Nattu Adnan (via Unsplash)

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Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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