06jul
Arquivado em: Fique Bem

Da série: preservando a inocência.

 

Creio que este texto foi escrito em 2018 e posso estar enganada. A publicação aconteceu no falecido site Contra as Feras e decidi republicá-lo. Há certas notas sobre si que precisam ser mantidas para sempre! ❤

 

 

Eu tenho a singela sensação de que, neste momento, nossos pensamentos se entremeiam no mesmo ritmo a fim de encontrar um sentido para a existência. Uma reflexão que tende a ser constante, especialmente quando a nossa própria existência parece fora do lugar. Fora de tom. Sem nexo algum.

 

É provável que você sinta aquela forte e incompreensível angústia. Que conquista tangibilidade e pungência ao se perceber que não há uma resposta exata para esse questionamento. E por não haver uma dita resposta exata, nos vemos naquela espiral regada de estrelas ou de trevas que martela em nossa mente com outras indagações que podem aguçar ou entorpecer os nossos sentidos.

 

Tudo com base no como vivemos agora.

 

Sei que você, assim como eu, faz as seguintes perguntas:

 

O que faço aqui?

Qual é minha pertinência?

Qual é meu valor?

Qual é minha missão?

Que eu sou?

 

Assim como você, eu também me pego em indagação, especialmente quando a fixação é descobrir o que faço aqui. Por quais motivos existo. Perguntas que parecem que são da nossa fase adolescente, aquela cheia de lamúrias. Feliz ou infelizmente, não paramos de fazê-las conforme crescemos. E, conforme crescemos, tais perguntas se tornam um tantinho mais complexas porque, na maioria das vezes, nos esquecemos do que é importante.

 

Inclusive, dos motivos que nos faz existir e seguir existindo.

 

Indagações como as mencionadas sempre voltam a perpetuar nossa mente. Principalmente diante da chegada de um próximo ano (ou quando estamos relativamente mal por algo). Na véspera desse evento, é comum nos martirizarmos diante de retrospectivas ou de listas de coisas que não foram cumpridas. Eu também fico um bom tempo pensando sobre o que fiz ao longo de 365 dias e o que farei nos próximos, apreciando a tinta branca do teto do meu quarto. É difícil ficar/estar satisfeita com tudo, eu sei. Porém, vivemos este tempo que é o acréscimo que dá sentido à nossa existência.

 

Cada dia é um ponteiro. Se olharmos para cada um atentamente, notaremos onde nosso coração esteve o tempo todo.

 

Projetos. Família. Amigos.

 

Ou a dor. E está tudo bem.

 

Eu também passei um ano inteiro centrada na minha dor.

 

Em 2016, tudo que vi, senti e vivi foi a dor. Em 2017, tudo que vi, senti e vivi foi a luz no fim do túnel. O espelho da transição de uma existência que se alteraria e se alternaria se eu me permitisse a me mover junto com o evento. Se eu me deixasse ser norteada rumo a galáxias que aguardavam sim alguma reação da minha parte. Aliás, aguardavam também meu interesse de voltar à tona para ser melhor que minha versão anterior e dar valor a quem eu sou inteiramente.

 

E uma hora você também perceberá isso. Não se preocupe!

 

Eu também fui aquela pessoa que queria o sentido puro da existência. Tangível. Queria as respostas rápidas e exatas para os impasses que me cercavam e que chacoalhavam negativamente a minha existência. Um norte de pensamento que também é válido para as ditas crises sobre quem sou, o que faço, como vivo e para que viver. Algo que, nos últimos anos, denunciou que sou uma caçadora de propósito. É tendo um propósito que me movimento.

 

Nem sempre isso ocorre. Afinal, não barramos os dias ruins. Eles acontecem e nos testam. O importante é sempre tentar de novo, mesmo que rastejando. E, se você não conseguir, peça ajudinha. Nossa existência sem ninguém é pesadíssima, confie em mim.

 

Propósito não é qualquer propósito. É aquele que nos move e move todos ao redor. É um propósito que indireta e/ou diretamente acarreta em um impacto. Uma colisão. Ato que torna o meu existir menos solitário e menos desimportante.

 

O meu existir menos “inexistencial”.

 

Pessoas precisam de pessoas e aprendi isso do jeito mais difícil.

 

Em mais um ano em que eu quebrei os recordes de sofrimento, tive que impulsionar minha transição da dor para a luz ou jamais seguiria adiante. Processo que acreditei piamente que seria impossível de se desdobrar, mas não foi. A prova foi contrária. Uma hora conseguimos sair da escuridão e recuperar, pouco a pouco, o melhor de nós.

 

E você também pode.

 

Você também é astronauta da sua própria vida.

 

A vida é o foguete que nos lança nas adversidades. Que nos empurra para longe da zona de conforto para assim vivermos.

 

E assim existirmos.

 

Esse foguete testa quem somos. Testa o que queremos cultivar. Testa quem queremos ser contra a gravidade. Testa diferentes pontos, mas a conclusão sempre será a mesma: existir é a nossa missão tão quanto fazer dela a melhor possível.

 

Existir nos últimos tempos tem sido difícil. O mundo está caótico e tudo parece desesperançoso. É aí que devemos lembrar que existir é nosso bem mais precioso. É a nossa missão depois do lançamento de encontro à vida, cuja meta é fazer a diferença com essa existência e fazer dessa existência inesquecível. É nosso passe em comum para tornar a nossa vida, diariamente, um pouco melhor. E acredite quando digo que não é preciso bolar planos mirabolantes para isso.

 

É nosso passe em comum para tornar a vida do outro, diariamente, um pouco melhor. E acredite quando digo que não é preciso bolar planos mirabolantes para isso também.

 

As medidas são bem simples: comece o dia se elogiando e deseje um bom dia ao cobrador de ônibus. Simples assim.

 

Enquanto pensamos sobre a existência, nos esquecemos de uma palavrinha mágica: gratidão. Gratidão por estarmos aqui.

 

Sou grata por estar aqui.

Sou grata por você estar aqui.

Sou grata por estarmos aqui.

 

Gratidão não é uma emoção permanente. Pede cultivo. Pede que, especialmente nas trevas, recordemos que nossa existência não está perdida. Pede que recordemos que nossa existência é válida e que podemos dar o sentido positivo que quisermos a ela.

 

Raciocínio que não vem sem um pouco de luta. Como aprendi recentemente, somos responsáveis pelos lugares que ocupamos. Então, em que ponto você quer manter sua existência?

 

Como também aprendi recentemente: se há vida, tem jeito. É a verdade!

 

Estamos conectados neste exato momento e adoraria ter um walkie-talkie para trocarmos algumas ideias. Seria incrível cada ser humano ter um item desses. Imaginem o quanto de pedidos de socorro poderíamos atender? Quantas crises poderíamos minimizar? Quantas pessoas se sentiriam pertencentes de novo?

 

Um walkie-talkie seria maravilhoso, mas não dependemos dele para agir. O que isso significa? Muito simples também. Não precisamos esperar para agir a fim de dar significância à nossa existência e à existência do outro. Para causar impacto de maneira geral. Se quer saber, o que fazemos agora impacta o resto. E, como disse, dá significado ao fato de que existir não é solitário. Somos uma galáxia de vidas e, querendo ou não, estamos conectados. Até o fim dos tempos.

 

Existimos e precisamos existir. Precisamos batalhar por quem somos e pelo que queremos. Estamos nessa onda cósmica intimista regada da verdade de que somos raros em um mundo que quer que sejamos iguais.

 

Não somos iguais.

 

Brilhamos distintamente e é lindo. Pensamos distintamente e é lindo.

 

Somos assinaturas que existem neste mundo.

Lindas na individualidade.

São nossas diferenças que nos tornam únicos.

E existir é uma preciosidade única.

 

Fitando o teto do quarto, acompanhando o ritmo da respiração, sei que você quer algo maior que si para se agarrar. Algo mais forte. A dita razão exata de fazer com que sua existência valha a pena. Eu também sinto isso na quietude do meu mundo e, às vezes, fica sim a sensação de que o que faço não é o suficiente. Mas, se eu ir mais a fundo, se eu analisar tudo que foi construído, e até desvanecido, verei ali, em meio à poeira interestelar, o propósito que diz que vale a pena existir. Que ainda vale a pena participar desse lançamento diário para a vida e descobrir o seu sentido.

 

Um sentido que é individual para cada um.

Afinal, somos pontos de vista também.

E pontos de vista são discrepantes, porém, se complementam.

 

Por isso que somos seres que, juntos, formam um livro detentor de existências que se fundem. Existências que vão dos mais lindos enredos aos mais tristonhos. A vida é um ciclo e cabe a nós transformá-lo, ainda mais em épocas de dor, desamparo e desesperança, em um conto de fadas.

 

━━━ ❤ ━━━

 

Vamos fechar os olhos por alguns segundos. Vamos pensar naquelas pequenas coisas construídas e conquistadas ao longo de mais um ano. Esqueça a lista de metas porque claramente ela não te faz feliz (e eu sei porque estive nesse ponto e sei que fracassar machuca demais). Esqueça também o que fez ou o que deixou de fazer. Pare de pensar na sua vida mensurando a do outro. Sua mente está limpa agora?

 

Então vamos para alguns reais questionamentos:

 

Quais foram as coisas que lhe trouxeram contentamento? Um evento? Um bolo? Um comentário positivo? O que você fez que tornou sua existência mais significativa? O que pode ser feito para melhorar algo dentro de si e nos arredores? O que pode ser feito para compartilhar um “eu também” quando alguém se encontra em completo estado de desamparo e de sofrimento? Ou quando alguém se encontra em grande alegria?

 

Resumindo tudo em uma pergunta: o que te fez feliz no ano passado?

 

O que te faz feliz agora?

 

O que dá sentido para você estar aqui?

 

Podem ser muitas pessoas. Muitas coisas. Ou apenas uma de cada opção. Independentemente, acredite em mim quando digo que é o bastante. Passou no vestibular ou chegou perto? Sim, foi você quem conquistou isso, se dê os parabéns. Iniciou a terapia para cuidar da sua saúde mental e do que mais lhe aflige? Isso é sensacional! Viajou para um lugar inesperado? Fez a compra do ano? Está no relacionamento que sempre quis? Estou muito contente por você!

 

Tudo que você tem agora é o bastante.

 

Transforme isso um pouco mais.

 

Se sua visão estiver nublada ainda, desenhe todas essas conquistas contra a escuridão do céu e você verá: todas essas estrelas dão forma e sentido a quem somos. A nossa existência. Menos pode ser sempre mais. Pode ser o que você precisa neste instante para sentir bravura e seguir adiante para conhecer e desbravar outras galáxias.

 

━━━ ❤ ━━━

 

Qual seria o sentido da existência? Penso que o reconhecimento do quão raro e lindo é existir. Algo que demorou anos para que eu acreditasse. É difícil suprimir e dissolver a sua dita própria verdade de não merecer estar aqui. Eu também me sentia assim. Sei que você também se sente vez e outra. E quer saber? Não desista!

 

Eu não pensava sobre minha existência ao longo da adolescência. Minha vida era ocupada com as amigas, o crush do ano e o que a MTV passava aos baldes. Não tenho uma recordação concisa de ter realmente me indagado sobre o que eu queria ser ou o que queria fazer. Em quem gostaria de me transformar. Deixei que a vida me desse um norte e não nego que foi basicamente assim que essa busca incessante pela resposta do meu existir se deu. O que ganhei foi o leme do meu navio e quem se incumbe de norteá-lo sou eu mesma.

 

Obviamente que isso levou anos e muito enfrentamento de dificuldades. Mas estou aqui. Agora. E sou grata.

 

Anos e anos se passam e milhões de pessoas buscam a cada segundo uma razão específica para existir. Alguns vão muito além e pensam em grandes missões que, por vezes, são completamente inalcançáveis. Outros fazem dos pequenos gestos uma completude para esmagar a vazão, que pode se tornar a sua própria humanidade, do existir e assim impedir a falta de sentido nela.

 

Cavamos, e cavamos, e cavamos não apenas para dar coesão à existência. Também queremos compreender quem somos em meio a essa imensidão.

 

Por que existimos?

 

Somos parte de um plano maior – e não é preciso de cunho religioso para crer nisso. Somos o que há de mais sagrado neste mundo e este mundo depende das nossas mãos para mover o comando chamado vida. Uma vez em movimento, escrevemos novas histórias e podemos reescrever antigas. É atraente, não é? Ter esse poder quanto à sua própria existência?

 

Agarre-se à sua existência e siga em frente. Você pode não compreender em dado momento o porquê do seu existir, mas é verdade que toda a existência tem propósito. Independentemente do seu motivo, sua existência está entremeada a tantas outras. Juntas, elas encontram sua própria conexão. Dá-se sentido em cima da verdade de que precisamos uns dos outros.

 

Está tudo bem. Você ficará bem. O sentido da sua existência uma hora aparecerá. Enquanto isso não acontece, se pergunte: o que te faz feliz?

 

Uma pessoa. Um cachorrinho. Um passeio. Reencontre-se nessas nuances.

 

Na incessante busca por esse sentido é comum que você se sinta como a única estrela contra a escuridão do céu. A esquecida. A perdida. A sem nexo. Mas ninguém está só. Ao mesmo tempo em que você pensa sobre existência, eu também estou, e, lá no fundo, sabemos perfeitamente o que temos que fazer: construir novas narrativas para que essa busca de sentido nunca se esvaia de nós. Pois é esse sentido que nos impulsiona adiante.

 

Que nos mantêm vivos.

 

Obrigada por existir. Você está fazendo um ótimo trabalho.

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Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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