09jul
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AVISO DE GATILHO: CITAÇÃO DE VIVÊNCIA COM TRANSTORNO ALIMENTAR

 

Se isto fosse um grupo de apoio, eu já diria que sim, eu tenho traumas. Um emaranhado complexo que ganhou mais um emaranhado em 2020. Desde então, não tenho certeza do que faço. Porém, tenho que fazer. E por essas e outras razões que o post de hoje é sobre trauma vs. autocuidado. Há coisas que preciso dividir.

 

Há algo que continua “na moda” é o algo chamado autocuidado. Está em todos os lugares da internet, sempre ganhando buzz em artigos e afins. Dizendo assim, parece que estou prestes a fazer uma crítica, mas não. Meu objetivo com este texto é contar um pouco sobre como é difícil uma pessoa que tem traumas engajar com essa prática. E meu cerne vem de um dos sintomas do depois de um tipo de violência de gênero, como transtornos alimentares. O meu caso. E o motivo de escrevê-lo foi por ter experienciado pensamentos erráticos, pois minha mente ainda entende que me cuidar só é possível descuidando. Ou seja, me punindo. E compartilhar é uma forma de tirar o peso de mim e, quem sabe, informar outras pessoas que passam pelo mesmo (e talvez nem saibam). 

 

Mas, primeiramente, o que é autocuidado? Basta outro rolê na internet e vocês lerão vários significados. Às vezes, um mais esquisito que o outro, como passar batom vermelho e beijar o espelho (e tudo bem se você faz isso, mas não é algo capaz de me ajudar). Contudo, nas circunstâncias que deram vida a este texto, considero o autocuidado como uma prática intencional para atender necessidades emocionais, físicas e espirituais.

 

Não é sobre comprar o rolinho de massagem para o rosto (e isso eu vou chamar de besteira quando o toque é a melhor coisa que você pode fazer no intento de se sentir mais sua), mas sim de comparecer para e por você. Simples e prático, mas não para uma pessoa com um tipo de transtorno mental, por exemplo, visto que as ações que envolvem o autocuidado podem ser sair da cama, tomar banho, cumprir certas atividades, ler, ir para a terapia e etc..

 

Incluindo a briga entre energia e falta de energia para se cuidar, o que já consome energia para ao menos começar.

 

Essa dificuldade inclui sobreviventes de traumas complexos, como violência sexual.

 

E de transtornos alimentares, pois, sim, a experiência é traumatizante. Existe o termo food trauma, ou seja, quando comer vira gatilho. Sem contar que essa doença envolve muito controle e autocontrole sobre a aparência, o que rouba a fluidez de uma rotina de autocuidado. Até mesmo a noção do que seria autocuidado e como autocuidado poderia ser algo bom. Há um trabalho imenso para desempacotar o trauma e se vão anos para a pessoa compreender que é preciso parar de se autopoliciar, que tudo bem relaxar, e que contar calorias não é uma forma de cuidar de si.

 

Usando-me das minhas próprias palavras, há certos resquícios de eventos traumáticos que despertam de diferentes formas, em diferentes lugares, com diferentes pessoas. O corpo registra tudo, mas, muitas vezes, focamos exclusivamente no que há na mente. Os funerais que lá vivem. Dependendo de como você avança, ainda mais quando se conta com tratamento psicológico, é fácil acreditar que se está melhor e mais segura. Então, não é esperado que um dia de autocuidado se revele como gatilho, como quando se come bastante por mero prazer.

 

Imagino que não seja esperado que um dia de autocuidado seja capaz de engatilhar vários tipos de pensamentos erráticos que, no meu caso, me fizeram retornar aos anos em que estive doente por conta de um TA. Muitos anos atrás. Porém, de um jeito que diria do avesso, pois, na doença, me “cuidar” do jeito que me “cuidava” dava uma sensação tremenda de alívio e de estar no comando. Não era bem-estar, pois eu continuava preocupada, estressada e irracionalmente atenta aos meus possíveis erros e deslizes. Desta vez, eu me senti o meme da galinha que está diante do espelho e tem a legenda que pergunta se ela é feia ou patética. Eu me senti essa galinha! 

 

Eu não sabia o quanto ainda me sentia feia e patética dentro da minha própria cabeça. Ao ponto de realmente questionar os motivos de ter reservado um dia para tentar cuidar do cabelo e da minha face. Um questionamento sério de um eco, sempre pronto para me botar para baixo. Principalmente quando realizo tarefas que podem me deixar bem e menos sobrecarregada. Daí, eu começo a duvidar da possibilidade de estar bem e aí vamos de ladeira abaixo. E é fácil cair nessa cilada, pois muitos anos da minha vida foram moldados pela perspectiva de traumas.

 

O que eu não sabia é que, uma vez traumatizada, o autocuidado tem seu próprio jeito de bater de frente com emoções de vergonha, culpa, inutilidade, não merecimento e pertencimento, fraqueza e perda de controle. Quem lidou com transtornos alimentares, ainda pode se incluir o estresse mental chamado “jogo do convencimento”. Quando se está doente, você se convence, a partir do eco da mente, que é preciso dormir para não comer. E não é dizendo bora dormir!, toda cheia das graças, pois é uma ordem rígida. Da ordem vem a manipulação, pois você passa pelo teste de “provar” que é “forte o bastante” para dormir. Se você escolhe dormir em vez de comer, “parabéns”! 

 

“Parabéns” porque você venceu o desejo por comida – mas só naquele dia. Daí, vem a manutenção da doença que pode acontecer por meio do ato de contar calorias. E assim repete até você perceber que seus comportamentos não são normais ou que seu corpo está definhando ou que tudo chegou a um limite perigoso. Foi surpreendente, e ao mesmo tempo assustador, descobrir que transtornos alimentares são isso mesmo: manipulação mental. É você contra você dentro da própria cabeça. Barganhando o tempo todo. Isso pode passar, mas é uma experiência horrorosa que cria cicatrizes mentais para o resto da vida. Sendo honesta, eu sinto que o TA nunca saiu de mim.

 

É uma doença que deixa marcas profundas e eu tenho várias memórias dos meus comportamentos. Até hoje, essas memórias me servem de medidor sobre meu relacionamento com a aparência e com o que eu como. Não deixa de ser um policiamento também, mas não sou refém. De certo modo, algumas feridas se tornam exemplos do que não fazer. Afinal, se lembra do custo e o transtorno alimentar me custou bastante. Praticamente, 4 anos da minha vida.

 

(…)

 

Era um dia de 2019 quando reservei o sábado para o autocuidado e não foi esperado me ver diante do “jogo de convencimento” depois de tantos anos. Independentemente disso ter batido no meu sistema de um jeito diferente ao que acontecia na época em que estive doente. Veio a atitude de me convencer, mas de um jeito amigável.

 

Repetindo sobre ser uma prática saudável, sem perigo ou intenção de me punir. Uma nova missa, pela falta de uma palavra melhor, que se manifestou para aplacar os gatilhos do ultrapassado transtorno alimentar. Nada novo, pois passo por algo parecido com exercícios físicos. O único gatilho que acreditei que me restara e eu tive que aprender a compreender que me mover não era sobre eliminar as calorias do que comi. E, hoje, eu preciso compreender que me cuidar de maneira geral é para beneficiar a minha saúde mental e amenizar os sintomas de alguns traumas.

 

Nessas circunstâncias traumáticas, o autocuidado se torna uma forma de retornar para o próprio corpo. É sobre se dar o carinho, a presença e a atenção que, possivelmente, falta. Além disso, recuperar o senso de segurança, tentar diminuir o estresse que fica registrado e estar presente (e no presente). A prática constante é uma das chaves para começar a melhorar, pois, devagar, se reconquista os sentidos. Automaticamente, os sintomas se aliviam.

 

Aos poucos, é esperado que você volte a ter contato com sua pessoa. E, bom, isso também pode ser estressante quando todo seu cerne compreendeu por anos que você é qualquer coisa. Isso meio que cancela o sentido de se envolver em uma rotina dessas e daí o segredo está na repetição. E tudo bem se ausentar. Há dias que não dá!

 

O autocuidado também tem seu próprio jeito de engatilhar emoções de autoaversão e de autoódio. Aumentando a impressão de que você não merece cuidado e que você é tão podre ao ponto de se achar feia e patética. Isso piora quando uma das defesas do trauma é você se tornar ultraindependente. Isso complica o aprendizado de pedir ajuda. Afinal, você se virou a vida inteira, por quais motivos pediria ajuda? Você sabe se cuidar, certo?

 

Linha de raciocínio que, às vezes, não é proposital. Acontece por ser uma resposta de trauma. Aliás, há muitas pessoas que acham isso parte de um crescimento forçado por alguma circunstância, como dificuldade financeira (e pode ser realmente). Eu me tornei ultraindependente aos 15 anos e sempre me pareceu uma consequência do divórcio dos meus pais. Sem os dois juntos, houve inversão de papéis. Minha realidade mudou totalmente e, de fato, eu tive que aprender a me virar. O problema é que eu sequer sabia que já havia alguns traumas me corroendo e foi fácil sempre sentir orgulho de saber “cuidar das coisas” quando, ao mesmo tempo, eu desaprendia a cuidar de mim.

 

E ser ultraindependente rende a praxe de você achar que está no controle. Mas, no menor vacilo ou diante de uma preocupação que pessoas mais saudáveis veem como natural, a ansiedade está aí para provar que algo está errado. Na minha mente, roda um filme de que não sei me virar e eu me forço a me virar, pois não quero pedir ajuda.

 

Um exemplo simples: Imposto de Renda. Eu sei que é preocupante, mas creio que de um jeito saudável para várias pessoas. Para mim, o fato de não conseguir preencher os campos traz um sentimento grande de incapacidade. Por ter vivenciado o transtorno alimentar, a leitura sobre várias coisas da minha vida é de uma ultraperfeccionista.

 

Falhas não estão para jogo. E vamos de ressignificar fracasso.

 

E sendo honesta de novo: eu nunca aprendi a me cuidar. Transtornos alimentares deturpam ou destroem o verdadeiro sentido da prática devido ao falso senso de que você se cuida positivamente. Você vai se matando, sem saber que se mata, pois, lá dentro da cabeça, a preocupação com aparência, dietas e afins soa normal. É o que todo mundo faz.

 

Sem contar que é fácil descolar elogios quando você emagrece, outra catapulta que me fez entender que, finalmente, eu conseguia fechar a minha boca (como ouvi dizer). É difícil alguém pontuar que esse comportamento pode sinalizar perda de controle em resposta a algum trauma, como abuso psicológico. Sendo que contar calorias é um intento de retomar o controle. Como fazer sexo e isso confunde as pessoas, pois parece anormal uma mulher transar depois de ter sido abusada. É outra pauta, mas envolve autoobjetificação e, pasmem, tentar recuperar o controle.

 

Deu para notar que autocuidado vs. trauma não se resolve com quotes bonitos do Pinterest e nem com rolo de massagem, né? Às vezes, uma pessoa nem sabe os motivos da prática não “funcionar” e acaba revidando nos produtos comprados. Eu não tinha essa noção até me sentir confusa e desamparada no meu próprio processo.

 

Autocuidado vs. trauma

 

Apesar do que o autocuidado pode engatilhar mental e emocionalmente, sua função real é ajudar a corrigir e elaborar conceitos negativos que nasceram em função do impacto do trauma. É um processo que tem que ser repetido sempre quando dá, especialmente a fim de entender que o que você sente é temporário. O mesmo para certos desconfortos emocionais, como o estresse. É sobre recuperar o poder roubado e que pode ser seu corpo.

 

No meu caso foi a minha percepção de ter um corpo, de enxergar meu corpo como corpo e descobrir como viver dentro dele. O transtorno alimentar ocupou 4 anos da minha vida junto com tudo que acontecia ao meu redor e eu nem sequer tive tempo de elaborar sobre o que é um corpo. Meu corpo se transformou em saco de pancada e isso não acabou assim que voltei a me sentir melhor/mais saudável. Continuei pela vida, mas sem deixar de usar meu corpo como punição.

 

A questão dos resquícios que comentei lá em cima. É como sair de um relacionamento e continuar carregando tudo de ruim que esse relacionamento te provocou. Daí eu penso que não tem como fugir dos gatilhos quando há uma bagagem de assuntos e de marcas que não foram retificados. Eu levei anos para procurar ajuda psicológica.

 

Toda a experiência com o transtorno alimentar foi a forma que meu sistema encontrou para lidar com os traumas sendo que eu lidava com um total de 0 traumas. Inclusive, me deixar em um estado profundo de alienação e de negação. Minha analista ainda disse que foi a resposta de um pedido de ajuda que não aconteceu. E, de certo modo, o sistema familiar do qual vivi fortaleceu meu silêncio. Principalmente porque ninguém manjava do que eu vivia.  

 

Só em 2018 eu comecei a resolver meus traumas. Ainda é muito recente. Toda sessão tem um resquício de trauma para falar sobre. Mas a análise me deu um forte senso de que eu começava a viver uma vida melhor. Além de eu trilhar caminho para ter uma verdadeira consciência sobre minha existência. Então, pensar em autocuidado foi fácil. Eu queria saber como era, pois, pelo menos, já havia certa noção de que praticar exercícios físicos não me “ofendiam” tanto assim (tive que aprender a me exercitar em casa, pois só a ideia de tentar academia de novo me gera dor de barriga). 

 

Eu nunca pensei que um dia escreveria sobre ser difícil praticar autocuidado. Um difícil que nada tem a ver com falta de tempo ou por ter tantos serviços ao ponto de não conseguir passar batom e beijar o espelho. Na visão externa da minha mente, parecia fácil. Era só comprar os produtos e reservar um dia para começar, certo? Certo, mas…

 

… Quem vivenciou um transtorno alimentar conhece a famosa “voz” que, hoje, eu chamo de eco. Não é um artifício da ficção para pontuar que algo está errado com a personagem e não tem como explicar com ricos detalhes. É uma experiência particular de cada sobrevivente, mas ela existe e é rígida. É uma versão sua dentro da cabeça. E, por mais bizarro que possa parecer, a famosa “voz” parece que costuma projetar uma pessoa do seu próprio convívio. Uma que pode ser extremamente familiar e que não te nutriu. Raciocínios depois de mais uma sessão de análise…

 

É uma narradora extremamente controladora e que se passa de companhia mais positiva do mundo. Ela domina e norteia os pensamentos que fazem a manutenção do transtorno alimentar. Quando olho para trás, parece que tudo era inerente e não há como explicar. Foi como se eu já tivesse todas as informações sobre e as botei em prática – e eu não tinha, já que era começo dos anos 2000, sem computador ou pessoas por dentro do assunto ao meu redor.

 

Eu aprendi sobre um “tipo de cuidado” que envolveu autocontrole, policiamento corporal e cargas altas de atividade física. Um cronograma também, pois eu sentia que precisava de estrutura de horários para segurar meus desejos (e até hoje não consigo viver sem um cronograma, pois venço na estrutura). Era um “autocuidado” regradíssimo, focado na quantidade de calorias que eu consumia em um dia. Sempre evitando a punição, pois, a qualquer hora, eu podia “cair na tentação” e teria que dar meu jeito para tirar o que pareceria muitos quilos de comida de dentro de mim.

 

E tem o lado avesso: comer também se transformou em forma de punição caso uma coisinha falhasse em um dia. Ou para me punir nos dias em que despertava me sentindo profundamente feia e patética. Às vezes, isso ainda acontece, pois é a reação emocional mais presente que eu tenho e que me assombra. Em dias péssimos, costumo comer muito e o dia seguinte quase sempre é sobre a meditação de que amo comer em vez de se poupe de comer, pois poupar era o raciocínio de diminuir pelo tanto que eu comi no dia anterior. Em dias péssimos, eu simplesmente perco toda minha boa relação com a comida. Quando me dou conta, já foi e o máximo que posso fazer é atravessar.

 

O transtorno alimentar me deixou doente e acredito que melhorei pelo medo de morrer. Isso me deixou paranoica com a minha saúde física, mas a contrapartida é que eu ainda não aderi um sistema para cuidar melhor dessa parte também. É aí que entraria o autocuidado geral, mas, a hora que passei óleo de coco no cabelo, no mencionado sábado de 2019, revivi o eco da doença que me ensinou a botar meu valor igual a 0, que não sou atraente e, por isso, pra quem eu deveria me cuidar? E o quem é justificado pelo fato de que autoobjetifiquei meu corpo também por causa da magreza. Isso bagunçou meu estado mental já em caos, pois havia uma linha tênue contraditória.

 

Na minha lógica norteada pela doença, mulheres magérrimas não tinham peito e bunda. Logo, menos atraentes, então, eu tratei de ser como elas. Ao mesmo tempo que eu sabia que o padrão magro era o mais desejado, como eu via com a Sandy e Britney Spears. Não me lembro de um dia da infância/adolescência que não fui chamada de “fofinha” por alguém da família, seguido do conselho de perder peso. A forma “carinhosa” que pontuava o fato de você não ser uma tábua, porque gorda nos anos 2000 era xingamento. O grande impasse é que eu nunca fui gorda, mas o olhar da família e do que eu consumia na mídia me enquadrou negativamente. Piorou quando eu tive meu espaço invadido sexualmente, pois é desse trauma que veio o desejo de perder essas curvas. Sim, virou um nó cego!

 

Por (ainda) não ter firmado uma noção saudável de autocuidado, que vá além das sessões de análise, que é meu autocuidado recorrente e necessário para eu sair da minha cabeça, anos depois eu vejo como aquele dia de 2019 foi impactante. Eu não segui em frente com a ideia de autocuidado recorrente, embora existam memórias de tentativas. E isso pode ser lido de duas formas. Uma em que a prática nunca fez parte da minha vida, como uma rotina de trabalho, sendo fácil dispensar. A outra porque eu fiquei triste de perceber que muitos resquícios de traumas ainda viviam comigo. Não que fosse uma surpresa, mas jamais esperei que isso fosse acontecer. Pelo menos, não desse jeito.

 

Foi aí que comecei a entender meus gatilhos. Eu só falava dos acontecimentos naquela época para minha analista.

 

Pessoas com traumas complexos estão à mercê de várias situações. Por isso ainda defendo aviso de gatilho, pois qualquer pensamento errático pode surgir do limbo da mente. Mas se sua vida começa a ter uma cor mais vibrante, creio que é normal crer na sua recuperação completa. Meu hoje nega essa recuperação completa, especialmente porque vivo o estresse de um novo trauma, sem poder sair do local que aconteceu o novo trauma. E todo dia parece que ganho a visão do que me faltou no período que o transtorno alimentar se enraizou dentro de mim. Deixando-me desamparada por causa de uma profunda falta de controle e senso de tudo que aconteceu. É situação de red flag.

 

Depois desse dia de 2019, eu pesquisei para tentar ter um entendimento do “retorno do eco”. Principalmente porque, com os avanços da análise, eu me sentia mais ajustada dentro do meu corpo. Eu começava a ter uma visão mais amigável sobre a minha aparência e comprei roupas que pareciam mais comigo. O desejo de viver escondida diminuía a passos de bebê. E comecei a investir pesado no meu autoconhecimento.

 

Quando você tem a percepção de que está bem, há mais desejo de manter essa energia. Foi assustador entrar em um campo minado sem saber que era um. Sem aviso, eu capturei a raiz do transtorno alimentar e vi como continua pulsando dentro de mim. Ainda tem veneno e está aí algo que sempre soube, mas não imaginei que me deixaria broxada em um dia de autocuidado. Jamais imaginei que me sentiria assombrada por iniciar o que todo mundo faz.

 

Foi como se eu tivesse voltado todas as casas. Foi fácil cogitar desistência, mas, por algum motivo que nem sei, mantive a compostura naquele dia. Ok que a compostura foi igual à de uma criança chateada, que continua porque começou – com uma vontade imensa de chorar. Coloquei o cabelo na touca, apliquei a máscara da moda na face e fui me lamentar no sofá. Ali, me sentindo desconfortável, lembrei das vezes que dediquei um tempo ao que, no passado, não tenho recordações de ter sido chamado de autocuidado. Vagamente, era uma obsessão por beleza. Meu corpo era a chave principal para eu ter essa satisfação e me lembrei do quanto eu queria chegar aos 49 kg. Era uma frustração diária na academia quando o ponteiro não saía dos 52 kg. Nunca passou dos 52 kg se querem saber…

 

Lembrei de uma das tendências da época: a máscara de pepino da Avon (ainda vendem isso?). Lembro da esperança da pele sair sem tantos cravos (???). Ficava bom. Nunca tive problemas sérios com espinhas, mas uma bastava para me deixar preocupada e querendo dar fim nela. Daí, essa máscara trazia a impressão de um resultado que se direcionava ao fato de me sentir mais bonita. Nada de mais cuidada. Atualmente, sempre há uma brecha em que me pergunto como consegui viver assim. Tem coisas que a gente não sabe como aguenta, né?

 

Há muitas coisas na minha vida que fui ter noção no dito tardiamente e o transtorno alimentar foi uma delas. Um assunto que não se falava no início dos anos 2000. Ao menos, não na realidade da qual eu pertenci. Se falavam, era em forma de piada, como chamar uma garota magérrima de anoréxica. Nada sério, pois transtornos mentais também eram pontuados como adjetivos naquela época e não como doenças sérias. Isso aumentou a minha alienação que dançava junto com várias camadas de negação. Costumo imaginar como seria se eu tivesse noção.

 

E vale dizer que transtorno alimentar também se configura como transtorno mental. A pessoa controla a comida com base em seus pensamentos e sentimentos. Há uma mudança de padrões alimentares por motivos psicológicos, acarretando ansiedade e depressão, por exemplo. É uma doença que pode afetar qualquer pessoa.

 

Em meio ao transtorno alimentar, meu senso de autocuidado era errôneo e perigoso. Estressante de todas as formas possíveis e inimagináveis. Cada produto de beleza ou movimento a favor do meu corpo não era centralizado em meu bem-estar, mas sim para ampliar a trama movida pela doença. Era uma manutenção constante. Uma manutenção externa. E isso me deixou com o já mencionado perfeccionismo. A minha praga pessoal que ódio!!   

 

A partir do instante que resolvi cuidar da minha saúde mental, eu comecei a retornar por esses caminhos a fim de encerrá-los ou reescrevê-los para meu benefício. Sempre descubro novas informações que acabam sendo discutidas com a minha analista, como perceber o quanto o transtorno alimentar ganhou força completa com base nas minhas experiências sobre meu corpo e como as pessoas moldaram essa visão sobre meu corpo. Não sei quem inventou isso, mas a regra de se arrumar para os outros era fortíssima na minha família. Nenhuma mulher ao meu redor passava ilesa e também não deixava outra mulher ilesa. Sem contar que, por anos, eu acreditei que o TA era à parte do trauma sexual, especialmente porque meu cérebro bloqueou por eu não saber que era abuso (eu me lembrava em instantes pontuais). 

 

Tudo ao meu redor dizia que eu estava do avesso, mas, até certo ponto, minhas falhas eram sobre não resistir a uma semana dentro de um regime. Quando o transtorno alimentar surgiu, a falha de não resistir ao regime se transformou em estresse psicológico visto que eu começava a ser “aceita” por estar magra. Eu aprendi, só o universo sabe como, policiar meu peso e eu não via como um comportamento estressante. Eu emagrecia, logo, vencia.

 

Há essa sensação de que agi por conta. O que reforça o que eu disse sobre transtorno alimentar ser transtorno mental – e esclarece mais sobre a “voz”. Apesar de ter tido um trauma como gatilho, a doença se espelhou na minha vida também. Principalmente no que eu consumia, sendo mais uma adolescente obcecada pela Sandy e pelo tanquinho da Britney Spears. Tornando tudo mais complexo ao ponto de eu me ver diante do espelho questionando meu valor e meu merecimento sobre coisas que comprei para me cuidar em pleno 2019. Fui desaplaudida, como dizem por aí, e nem me lembro como esse dia terminou. Só tenho a prova em forma de uma selfie que enviei para uma amiga. Usando a máscara e a touca.

 

Talvez, uma tentativa de inserir humor no que me deixava desconfortável.

 

Sou a famosa paciente que ri enquanto conta as coisas tristíssimas, acreditem! 

 

(…)

 

Contei tudo isso porque, lá em 2019, descobri esse gatilho que sequer tinha noção de que existia dentro de mim. O gatilho do autocuidado. Parece até que estou “inventando moda”, mas queria que fosse. Seria mais fácil.

 

E chega a ser contraditório eu ter pensado, assim que passadas as ondas de angústia em função do meu trauma mais recente, em autocuidado como bote salva-vidas. Me conhecendo, e levando em conta meu passado, o esperado era algum comportamento autodestrutivo. Eu estava em uma completa espiral de desespero, porque havia o desejo de parar de sentir como me sentia. Um trapo seria a definição amigável sobre meu estado físico, emocional e mental de janeiro a março deste ano. Foi como se eu tentasse me segurar com as minhas próprias mãos para evitar que as emoções intensas eclodissem e me afogassem. Não seria nada novo, dava para soltar minhas próprias mãos, mas, como antigamente, veio um terror da vulnerabilidade. De ter que me abrir.

 

Pois seria o mesmo que admitir que algo aconteceu e que esse algo me mudou profundamente. Admitir que houve outra violência, mesmo que indireta. Admitir que há resquícios de traumas do passado que se uniram aos sintomas recentes. De janeiro a março deste ano, eu me ouvi repartindo ao mesmo tempo que me continha. Até não dar mais.

 

Eu tive que me soltar e abrir as comportas. E afoguei.

 

Mas, quando voltei ao meu parco cerne, a primeira coisa que fiz foi estudar um pouco sobre óleos essenciais e aromaterapia. Comprei um e uso até hoje. Um primeiro passo que não diminuiu o volume sobre a dúvida de ser capaz de me cuidar visto que não tenho referências positivas. Mas foi reação de oposição ao que já vivi em função de traumas.

 

No passado, eu consegui manter as comportas fechadas e demorou anos para que eu desmoronasse. Realizasse e admitisse. Comportas essas que me transformaram na ultraindependente. Intensificando traumas sem saber que eu estava traumatizada. E o transtorno alimentar veio como o falso bote salva-vidas no intento de me fazer crer que me cuidava. Que eu sobrevivia. Que eu tinha controle de tudo. Mal sabendo que me aniquilava um pouco todo dia.

 

Ir atrás de soluções veio no meio do desespero de não saber o que fazer comigo depois de tudo o que aconteceu em 2020. Sei que me aprofundei sobre quem sou e acho que essa consciência me ajudou a reagir um pouco. Especialmente quando vi que os sintomas recentes abriram portas mentais antigas e me recolocaram em situações que não quero pertencer de novo. Como o ressentimento diante da possibilidade de retroceder no meu tratamento psicológico. De voltar a ser uma versão de mim que gosto menos, aquela que entende demais sobre punição.

 

Algo em mim não quis. Não quer. Embora pareça que eu esteja em retrocesso o tempo todo. Deve ser porque os dias são iguais.  E são esses dias que tornam o autocuidado mais difícil. O lugar que vivo também abriga o fantasma da versão de mim que narrei neste texto. Memórias ruins do passado alinhadas com novos estresses…

 

Há dias que eu consigo comparecer para me cuidar. Há outros que não. Há dias que me pergunto para quem.

 

Há dias que consigo responder por mim.

 

Autocuidado para aliviar sintomas do trauma

 

Não é dito com frequência por aí, então, aqui vai a verdade: autocuidado pode ser aflitivo para quem tem trauma. Às vezes, sinto uma angústia tremenda, pois tem dias que preciso brigar com o agridoce dos funerais na minha cabeça. Daí, eu começo com as minhas próprias “missas” para comparecer, pois tenho para mim que vou conseguir a base da repetição. Ao mesmo tempo que preciso aprender a ficar de boa quando não quero reagir.

 

Vejo essa situação como estar há anos com uma pessoa sem conhecê-la de verdade, sem noção de amor, respeito e, óbvio, autocuidado. Sem saber como nutrir e ser responsável emocionalmente por essa pessoa. Essa pessoa sou eu, que conhece com excelência espaços de sofrimento. Sempre tentando se convencer de que está tudo bem quando não está. Tentando se convencer de que metade das coisas pensadas é fanfic quando são as verdades indigeríveis para não machucar mais. O eco que faz na minha cabeça… Por isso que há dias que simplesmente durmo.

 

Depois daquele dia de 2019, demorou quase dois anos para eu comprar produtos de autocuidado e acreditar que eu conseguirei. Mas eu preciso entender que o autocuidado para mim é sobre processar e amenizar os sintomas dos traumas. Não é sobre beleza, mas sim de me sentir cuidada e nutrida. Nem sobre transformar em uma falha os dias que eu não comparecer. Eu preciso parar de ser cruel comigo e creio que essa prática tem tudo para me ajudar.

 

Totalmente a adaptação do meme: se organizar direitinho eu consigo me cuidar.  

 

Por ter ultrapassado o transtorno alimentar e ter decidido meses atrás em investir no meu processo de autocuidado, não significa que tenho um esquema afiado ou que estou prestes a me tornar mestre no assunto. Eu não tenho esse olhar de cuidado e preciso desenvolvê-lo. E, se preciso desenvolvê-lo, eu preciso também compreender o que necessito e o que me ajuda a ficar na superfície. E daí vem a prática, sem sentir que preciso bater meta ou tratar essa rotina como a confirmação de que meu dia foi bom.

 

Quando há várias coisas legais que acontecem em um dia e está aí outra lição de 2021 para euzinha aqui.

 

Estar presente dessa forma gera um pouco de estresse também, por ser um tipo de relacionamento comigo mesma que nunca tive. Eu mesma me dou ghosting tem horas. É um estresse diferente do piloto automático em forma de TA, pois agora eu vejo e eu tenho que aprender a me carregar de uma forma mais saudável. E isso começa entrando em um acordo com os pensamentos erráticos até que esses pensamentos erráticos se transformem em vapor. Eu tenho plena consciência de que isso levará tempo, mas a ideia de tentar é motivadora (e conto isso em outro post).

 

A cada creme novo, eu ganho mais informações de como minha mente funcionou no passado e isso me assusta. Eu ainda tenho a leitura de que autocuidado é sobre punição e não uma demonstração de afeto que se dá. E eu vi isso de um jeito aproximado quando não consegui fazer a tal da prancha durante meus exercícios físicos. Vi que mente e corpo estavam desconectados. Parecia que eu tentava levantar um caminhão e não um corpo, sendo que fazer a tal da prancha sempre me foi fácil. Eu quase chorei deitada no colchonete, pois meu cérebro entendeu o erro.

 

E meu cérebro sabe como trabalhar quando captura erros.

 

O grande lance é que, durante meus novos dias de autocuidado, que se desdobram este ano, percebi que eu nunca senti afeto por quem sou. O que torna esse lance de receber elogios, por exemplo, mais complicado que o charme de dizer que não precisa. Eu voltei para a bendita leitura de qualquer coisa e não tem como tentar se cuidar quando se diz pra mim tanto faz. Uma veia extra que pulsa mais que todas as outras que brigam para, realmente, manterem meu corpo saudável. Pois é a partir dessa linha de raciocínio que minha realidade se transforma em autopunição.

 

Pelo simples fato de que aprendi a me ver como coisa e não como pessoa.

 

Eu poderia desistir, mas, quanto mais eu leio, mais entendo que autocuidado é para ajudar pessoas com traumas (e traumas complexos). Não é como se vê no Instagram e pode não trazer o aconchego de um quote do Pinterest. O ato de se cuidar, além de ser uma demonstração de afeto, é para relembrar que você existe. De recalibrar os sentidos, como o tato (que tem sido uma das coisas mais importantes para mim ultimamente e por isso dispenso o rolinho de massagem facial). De relembrar como respirar e se botar na cama na hora correta. Há os cremes, claro, mas não tem nada melhor para mim que conseguir meditar antes de sair da cama. Ou simplesmente me deixar ouvindo música.

 

Cada pessoa sabe o impacto do seu trauma. Cada pessoa tem seu próprio eco. Provavelmente, há quem não tenha problemas com autocuidado mesmo consciente do seu episódio traumatizante. No fim, não há cartilha na internet que atenderá pessoas traumatizadas de maneira geral. É quando percebo o quanto isso é particular. Você vai descobrindo enquanto faz. O que torna toda essa “campanha” da internet bastante surreal para mim. Ela não me atinge, mas fico de olho nos produtinhos. E eu tenho uma influencer para agradecer no momento: Nátaly Neri.

 

Como eu disse, há muita coisa para desempacotar e minha esperança atual é que essa prática me dê uma forcinha. Principalmente para eu entender o que é bem-estar pelo prazer de me sentir bem. Afinal, neste caso, o autocuidado é para diminuir as emoções de me sentir não merecedora de cuidado e de amor.

 

E meu foco com o autocuidado é esse: voltar a me sentir segura dentro do meu corpo. O que aponta para muitos anos sem ter reconhecimento de que tenho um corpo, que vivo dentro dele e que ele serve para algo bom.

 

E, infelizmente, não são todas as pessoas que podem começar um projeto de autocuidado ou têm acesso aos produtos. O que deixa claro a obviedade de que autocuidado, ainda mais com todo o glamour da internet, é privilégio. Crítica que não convém agora, embora fosse ideal ver essa prática acessível. E informação também, já que uma caminhada é sobre se fazer presente e promove, nem que seja por algumas horas, a sensação de cuidado.

 

Autocuidado é tentar (re)aprender como se dar amor e desenvolver uma relação positiva com sua própria pessoa. Para mim, se tornou caminho para me recuperar e me reconstruir de todos os meus traumas. Para me autoconectar novamente. Me conhecer e descobrir o que é esse papo de #selflove. Tem dias que consigo manter um ritmo. Tem outros que não e aí vem comportamentos que não gosto. Mas, como nunca fiz isso, eu preciso ter paciência. Como minha analista explicou esses dias, quando conversamos sobre medo de ser feliz, autocuidado é um relacionamento, que tem um início e tem que ir com calma quando você tem tantas defensivas e tanta falta de experiência. 

 

Se nem relacionamento amoroso eu já tive na minha vida, imaginem me relacionar comigo mesma. Não que um precise validar o outro, mas os dois têm quase a mesma função na minha mente. Tornando o autocuidado um desafio que tem seu próprio compasso e é importante encontrar esse compasso. Encontrar o que funciona e ir anotando, pois isso pode servir no futuro. Você, assim, construindo sua própria cartilha de autocuidado.

 

Depois do trauma, pode haver um senso enorme de que falta algo. Isso quando você passa pelas fases do luto. Muitas vezes, é sua própria presença e aí entra um processo de (re)descobertas. Talvez, aceitar essa pessoa depois da tragédia e não tentar ser como a antiga. Iniciar o trabalho que faz bem, como ouvir música antes de dormir. Respirar. Ou arrumar o cabelo mesmo que em casa (por causa da pandemia). Ou beber água. Apesar da porrada de produtos que vendem online e das mensagens positivas, há um grupo de pessoas que sufoca mais e, às vezes, que acredita que isso não funciona. Quando há algo mais complexo envolvido e é aí que autoconhecimento também se faz importante.

 

Basicamente, o processo de observar a própria existência e o autocuidado se tornou um estudo de campo para mim.

 

Pelo autocuidado também ser lido como ajuda para processar e tentar amenizar os sintomas do trauma, não significa que uma máscara solucionará os problemas. Ela está ali para tentar suavizar como você sente. Assim como a música que pode te ajudar a articular as emoções, especialmente sobre o que não é dito. No fim, o importante é tentar comparecer, de um jeito que seja leve, agradável e sem cobrança. Acima de tudo, com segurança (e digo isso mais porque não consigo me imaginar no dia de autocuidado com várias pessoas ao mesmo tempo, tem que ser só).

 

Repetindo, sempre que puder, porque a gente merece cuidado e afeto. Eu acredito que autocuidado é sobre se reconectar depois da tragédia, independentemente do tempo do trauma. É um sopro no autoconhecimento para perceber quais sintomas são apaziguados com essa prática e quais precisarão de ajuda especializada, pois o autocuidado para pessoas com traumas é a forma de voltar a ter acesso a si e dar o que se precisa em dado instante.

 

De tentar. De lembrar da sua própria importância.

 

Mesmo quando o eco pergunta: tá fazendo isso para chamar a atenção de quem?

 

E só há uma resposta para esse questionamento: o quem que é você.

 

Imagem em destaque: Sudipta Mondal via Pexels

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Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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