30ago
Arquivado em: Notas de Campo

Outro março com cara de mesmo março.

 

Dei-me conta de que era março quando arrancava a folha do calendário de fevereiro — que minha irmã amigavelmente cobriu a pintura por ser de um palhaço que esperou o Carnaval à toa. Em algum momento, surgiu o comentário de que completaria 1 ano… E minha preocupação navegou rapidamente sobre como seria aquele outro março. O que outro março engatilharia. Uma pausa. Lembro-me que, no dia em que me dei conta de que era outro março, meu cérebro entrou em conflito sobre se espetar ou não com as memórias que eu não queria reviver.

 

(…)

 

O fluxo da vida não tem me importado tanto. Todos os dias parecem longos demais, chatos demais, insuportáveis demais. Outros conseguem ser leves e saio deles com um pouco de autoestima. Mas, depois de praticamente 1 ano de um março passado, que começou com os mesmos sussurros sobre fechar ou não o comércio por causa da pandemia, eu não esperava que outro março me deixaria engatilhada. Por evitar as redes sociais e ter diminuído o consumo de informações sobre tudo, não me dei conta de que certas coisas se repetiam. Quando isso aconteceu, o medo confrangeu meu coração. Um espasmo, expressando o reconhecimento do que eu gostaria de esquecer.

 

Meu exílio de redes sociais e a decisão de não consumir tanta informação se deram graças à constante sensação de looping. Sei que isso não me faz bem, especialmente porque dá a entender que eu ainda estou presa em 2020. Um ano marcado por um tempo anacrônico por estar envolvida no que acontecia fora da realidade geral. Vivendo em um universo alternativo. É fato que sem informação me sinto meio burra, mas, para diminuir a ansiedade e as chances de ser atingida com mais preocupações, me camuflar foi preciso. Uma nova declaração de exílio, mas, desta vez, no intento de melhorar primeiro. De me sentir mais inteira e capaz de retornar em algum momento do futuro.

 

Ainda não tenho o saldo dessa decisão.

 

Mês a mês, me forço a sair das zonas de paralisia acarretadas pelo março passado. Ao mesmo tempo que tento começar de novo na sobrevida. Uma mistura nada adequada, pois não há desejo maior que ficar parada. Sem fazer nada. É a briga entre querer a paralisia vs. querer se livrar dela. O famoso lutar ou fugir.

 

Tentei seguir alguns conselhos da minha analista para me sentir um pouco segura em reflexo dos desdobramentos de março passado. Ela disse que eu precisava construir esse espaço e continua sendo complexo. Ainda tive tempo de me debater em outras ondas de angústia, passar por uma ressaca emocional até chegar a um estado de silêncio interior devido aos desdobramentos deste agosto. Quando chegou outro março, eu ainda tentava recobrar a consciência, não esperando o desafio seguinte. O ano era outro, mas bastou um mês para dizer que talvez não fosse.

 

2020 houve o tornado virulento. 2021 há seus resquícios. O fato se tornou uma sombra na minha mente que parece que se dissolveu graças ao impacto de uma perda recente: o falecimento da minha primeira dog.

 

Mas, falando desse outro março… Pela ideia de me sentir presa, veio um mínimo desespero interno que nunca experienciei na vida. Que configura um medo irracional de que estar presa é igual a não ter saída. Tudo aconteceu aqui. O apartamento se transformou em proteção e território de acuamento. Nada a ver com a quarentena e nem consigo colocar o coronavírus na minha realidade. Afinal, naquele ano, vivi outra coisa. Não participei da narrativa atual. É surreal para mim dar de cara com vacina (e foi ainda mais surreal tomar a primeira dose).

 

Outro março com cara de mesmo março, mas descobrindo os sintomas que circulam no meu sistema em função ao que ocorreu em 2020. Ao ponto de ter temido até deixar a luz acessa do quarto que durmo no dia em que as memórias me inundaram enquanto esfregava o boxe do banheiro. Luz que sinaliza que há vida do lado de dentro. Luz que sinaliza perigo. Luz que, antes, precisava ser apagada em um horário dito adequado.

 

Uma vez consciente de outro março, foi fácil imaginar que os próximos meses trariam a mesma experiência. Cada nova informação parecia criar o mesmo território da tragédia. Aviso de quarentena. Nada aberto. Não há mais detalhes na minha mente, mas escrevi algumas coisas no meu diário. Minha maior bússola no momento. Por ter a sensação de que o tornado virulento aconteceu em um dia, devastando tudo, o resto se tornou um mero borrão.

 

Em outro março, meus pensamentos refizeram várias memórias de março passado. Lá, eu não estava tão preocupada com o coronavírus. Era aquela coisa de ver para crer. Uns dias depois, eu já estava meio que obcecada com a ideia de comprar álcool em gel e máscaras. As notícias que mostravam prateleiras de supermercados vazias, especialmente de papel higiênico, me deixaram um pouco assustada. Parecia um episódio de The Walking Dead, mas sem a parte de zumbis ou de saqueamentos para sobreviver. Mas, por algum motivo, imaginei como seria meu bairro vazio. Um lugar em que o comércio comanda. Foi fácil imaginar lojas sendo invadidas, por exemplo. Doido, não?

 

Eu só ouvia os burburinhos sobre a COVID-19. Mal sabendo que um dos dias de março de 2020 seria o último que eu sairia normalmente. Divertir-me em um lugar bonito. Um lugar claríssimo na memória e que faz bater a saudade de dias de Sol. Havia árvores ao redor. Meu álcool em gel estava em cima da mesa. Foi um season finale adiantado, pois eu estava em meio a uma celebração. E fins de temporada sempre têm a celebração. A catarse. Sem contar que foi a última vez que me senti bem e leve. A última vez que gostei da vida e acreditei que um determinado ano daria certo.

 

As coisas mudaram rápido demais e não foi por causa do coronavírus. No entanto, até isso ser revelado, a última preocupação que tenho na memória é que eu não via a hora de todo mundo ficar em casa. E se há uma lembrança otimista no meio do caos do vírus foi a expectativa de ter tempo de qualidade com minha mãe e irmã, já que cada uma de nós viveu à parte por causa das demandas da vida diária. Uma esperança que sumiu entre os escombros.

 

O tornado virulento veio. Unificando os dias. Como se tudo tivesse acontecido em março. Mas foi em doses.

 

Em outro março, o medo prestou visita antes das memórias de março passado me inundarem enquanto esfregava o boxe do banheiro. Um medo que se manifesta, ou manifestava, algumas vezes na semana, do nada. Não sei descrever, mas meu corpo antecipa algo para me proteger. Viro um gato eriçado e o que vem depois é paranoia.

 

Meu cérebro começa a desenhar cenários e é quando preciso olhar para o outro lado. Lembrar que estou segura.

 

O que é complicado quando ainda se vive no local do trauma. Mas todo dia é um novo tentar.

 

(…)

 

Enquanto eu esfregava o boxe, um súbito sopro sobre ser outro março enregelou meus ossos. A realização de 365 dias depois, com as mesmas medidas que avançaram por março passado. Engatilhando o inferno. Ao contrário das minhas preocupações com álcool em gel e máscaras, de não saber que saudava meu último dia de normalidade, a preocupação que me veio se apresentou como medo irracional de que tudo se tornasse oportunidade para repetição.

 

Veio ansiedade e paranoia. O cérebro traumatizado ficou inventando suas próprias modas, mas o medo irracional me deixou em alerta. Não foi surpreendente voltar a temer as janelas dos quartos e deixei as cortinas do quarto que durmo fechadas. Os sentidos ficaram aguçados sobre vozes do outro lado da rua e vozes pelo corredor do prédio. Lembrei-me das noites em que fiquei vigilante até às 23 horas, porque era o horário perto do fim do funcionamento dos meios de transporte (como se não existisse Uber, mas está aí um ponto sobre não raciocinar logicamente). Eu me odiei por sentir medo. Por ainda sentir uma presença me controlando. Voltei a me sentir presa onde moro.

 

Mas o marco desta vez foi meu medo de acender a luz do quarto que durmo assim que anoiteceu.

 

De um dia a outro, eu mal podia esperar para que março acabasse. Não que isso fosse apagar o que vivi e testemunhei ano passado. Aguardo o instante que essas memórias se tornem apenas isso: memórias. Não fantasmas. Só que é mais fácil acreditar em fantasmas, pois sigo assombrada. Ainda tenho comportamentos estranhos.

 

Ao menos sobre traumas anteriores, sei que voltei a respirar ao sair dos locais em que algumas coisas aconteceram. Foi algo natural na minha história, mas nunca sobre ficar no mesmo lugar e a cada dia me dou conta das memórias ruins que se alojaram entre as infiltrações e móveis que pedem socorro. O bairro também me desperta coisas ruins.

 

Eu não tinha essa noção, pois, de certo modo, onde vivo me manteve segura. Ainda me mantém de certo modo. Hoje, não há o que fazer a não ser seguir o conselho da minha analista de criar espaços seguros e me fazer um espaço seguro. É difícil porque sou pura preocupação. Sem contar que eu nunca soube me cuidar direito, mas tentamos.

 

Dá vontade de desistir muitas vezes de mim e de tudo, pois penso que preciso de tempo. Ou que não dá mais. Tempo para me sentir minimamente melhor ou mais segura ou com mais energia ou positividade (daquele jeito que você consegue sentar e trabalhar e lidar com as dificuldades no considerado normal). Entender que não dá mais para não ter que insistir tanto em uma vida que não dá descanso. Cobrar normalidade depois de tudo que aconteceu, e diante do mundo que vivemos, é surreal, acho, mas tudo que continua a acontecer segue me desorganizando totalmente.

 

E me incomoda ter vivido um ano da minha vida fora do que todo mundo supostamente viveu. Xingando o presidente. Reclamando de quem furou quarentena. A parte da história que considero normal. Um normal que não tive e só me resta lamentar. Não, não romantizo a história linear do mundo. Eu queria mesmo ter ficado estressada e preocupada sobre os mesmos assuntos. Não presa em um universo alternativo lidando com um tornado virulento.

 

Ainda me sinto nesse universo alternativo e todo dia é uma bomba diferente. É nele que tenho que encontrar meus próprios jeitos de reviver de novo, mas anda complicado demais sequer viver. Mesmo que eu diga que queria estar na normalidade de todos, essa mesma normalidade também me assusta. Eu não tenho o que dizer sobre o vírus. Nem sobre quarentenas. Não fiz bolos e nem biscoitos. Fiz uns cursos, é verdade. Mas eu temo por saber que mudei.

 

Todo mundo mudou, é verdade. 1 ano faz muitíssima diferença, especialmente quando seu estilo de viver se altera abruptamente, como aconteceu com o anúncio do coronavírus e as medidas seguintes para contê-lo o máximo possível em 2020. Fica tenso quando a alteração é traumática, pois, enquanto a vacina dá esperança de um futuro, a ideia de um futuro é praticamente uma aberração para mim. Questiono se vale mesmo a pena voltar à vida, pois, apesar dos medos irracionais, estar onde se está protege da ideia de ter que se mover e articular a vida externa.

 

Pois, automaticamente, terei noção de que minha ideia de viver não é mais a mesma também.

 

Lembrar de março passado me deixou desconcertada. Fui posta na realidade do que aconteceu, embora tivesse passado por uma crise de consciência que envolveu admitir e desmoronar. Não penso mais sobre (ao menos não com a mesma frequência que aconteceu nos primeiros meses deste ano) e quase desisti de publicar este texto. Tenho uma facilidade absurda de dissociar do que me machucou.

 

E já é outro agosto. Um agosto que marcou outra tragédia na minha história. Desviando-me de março passado.

 

Não sei se ainda conto perdas, já me perdi entre elas. Não sei mais de onde vem os instantes que me sinto mal, já que é tanta informação que não lido por não ter tido tempo de processar. Às vezes, não sei se tudo que sinto é por causa do que aconteceu ou se o que aconteceu despertou coisas de mim que eu não sabia da existência. Salvo a raiva.

 

É quando vejo que ainda estou presa no ciclo funerário. Um específico que envolve a morte de vários eus e da minha dog. E continuo morrendo por dentro, sem tempo de processar e daí parece que não passa. Até mesmo entre os dias bons, sempre tem tristeza, ansiedade, angústia, paranoia e outras emoções. Um desejo desesperado de que o tempo se interrompa para que eu tenha meu próprio tempo. Um ciclo repetitivo que me leva à exaustão física, emocional e psicológica. Há dias que me sinto melhor, um pouco mais no controle para administrar minha vida.

 

Meu trabalho tem me tirado da mente. Jogar Candy Crush também. Mas quando volto à realidade, perco o fôlego. De novo, atenta e aguardando a onda de alguma angústia ou o novo sinal de algo ruim. Eu tenho me dedicado às primeiras aulas de nado para não me afogar logo de cara. Ainda me perco na ordem das braçadas, mas volto à superfície. Não é rápido, pois ainda tenho a mania de estender meu próprio afogamento. Mesmo consciente do caminho para a superfície.

 

Não posso dizer que um dia me imaginei imune ao “aniversário de trauma”, mas a súbita lembrança de março passado me botou nessa experiência indesejável, que mais pareceu uma rave no inferno pelo tempo que durou. Um tempo que, teoricamente, se “encerrou” em julho passado e tenho clareza de algumas memórias. Como ficar no mundinho Sandy e Junior, passando pelo que minha analista me ensinou sobre tratar sintomas. Não acho que tratei sintomas. Eu precisava de algo para me segurar e a dupla costumava ter esse papel antigamente. O que pode revelar que, sim, eu trabalhava os sintomas, mas cheguei a outras conclusões. Como me dar conta de que parei de ouvi-los no fim da minha inocência.

 

Depois de Sandy e Junior, a vida se tornou cinza e perto do insuportável. E assim seguiu.

 

(…)

 

E veio outro agosto.

 

O mês que me faz questionar se vale a pena tentar alguma coisa no mundo real assim que eu tomar a segunda dose da vacina, pois tenho medo do que tem mais de ruim. Tenho até medo de expressar alegria e tive uma conversa interessante sobre isso com a minha analista. Não tem como não temer alegrias quando só se conhece tristezas.

 

Insisto em funcionar em meio a um mesmo universo alternativo. É o que tenho para me dar a sensação de que sigo, ou ao menos tento, adiante. Navego nas perdas. Tento procurar coisas que possam substituir o que perdi, a angústia e paranoia, além de um tratamento psicológico. Já vi meu próprio filme sobre como traumas me transformaram. Não sei ainda sobre a morte. É a primeira vez que lido com uma perda bastante significativa. Uma perda que me policio para não ficar ressentida. Ou rígida para tentar ser maior que a vida que continua a não amolecer. Até porque, ao menos nessa parte da história, eu posso pensar em alegria. Porque minha dog me fez muito feliz.

 

Riso entre lágrimas. Ao menos sei que estou no circuito de um cérebro zerado, que só entende o comando lutar ou fugir – e escolho quase sempre fugir. É quase como se nada mais comportasse aqui e preciso esvaziar para dar mais espaço ao vazio que tento preencher de outras formas, como comprar flores sempre que posso. Ah. Parei de comprar flores.

 

É automático me largar de mão depois das tragédias, mas, ao contrário dos efeitos de março passado, em que me esqueci, este agosto me botou em um estado desperto. Não sei o que isso significa.

 

Em março passado, o marco foi o quarto escuro que durmo. Fiquei em pé dentro dele, em meio à guerra de acender ou manter a luz apagada. Olhando a escuridão, me lembrei dos dias que eu esperava ser perto da madrugada para tentar dormir, sem ainda sacar que estava em vigilância constante.  Despertando no dia seguinte para a surrealidade de ultrapassar mais um dia em segurança. Jamais temi pela morte, a não ser quando entro em um avião ou em brinquedos de extrema altura, mas sempre pensei nela. Simbolizando as várias formas de fugir da realidade.

 

Em agosto passado, houve um dia por aqui que pareceu o depois de um funeral, com direito a café. Olhando assim, pareceu um prenunciando para outro agosto. Este agosto que penso e lido com a morte propriamente dita.

 

Antes deste agosto, minha analista me lembrou de que estou viva. Lembro que me emocionei quando ela disse isso. Deu um mínimo gosto de tentar viver, mas, hoje, há o início de uma indiferença. Não sei se indiferença é o material essencial para viver em um fluxo, mas, de qualquer maneira, sinto que nunca pertenci à vida de qualquer maneira.

 

É como desejar alguém que não te quer.

 

Há o silêncio e o silêncio sempre me quis. Contrariando todas as ondas de angústia, pois estou de pé, na superfície. Contemplando meu próprio oceano. Sinto-me ancorada, mas não tão fixa. Questionando porque insisti neste post, que passou por alterações para ficar acordado com um tipo de timing. Mas ainda é o fim do meu mundo e observo. Perguntando o que mais de mim, e do meu mundo, será queimado e suas cinzas levadas pelas correntezas.

 

Continua sendo difícil se reerguer depois do fim do seu próprio mundo. O mundo que pulsa do lado de dentro.

 

Mas tento escrever em cima de novas feridas abertas. Percebo que me perco, pois não há nada que dizer.

 

Somente sobre tristezas.

 

(…)

 

Depois de ter esfregado o boxe, o medo quis vencer de novo. Ao ponto de eu sequer ter coragem de acender a luz do quarto que durmo por medo de anunciar que há vida do lado de dentro. Veio-me um misto de emoções e, às vezes, posso contar com a minha raiva. E com a minha constante de me sentir patética.

 

Naquele março, acendi a luz. O medo vence no escuro e se contrai no sinal de que há vida do lado de dentro.

 

E depois veio agosto…

 

Há um meio-termo por não acreditar na claridade que entrecorta a janela do quarto que durmo, pois algo mais se foi. E continua a ir. Restando o silêncio de dentro, minguando as promessas do que poderia vir depois.

 

Imagem destacada: Dil via Unsplash

Tags: .
Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
Você pode gostar de ler também Deixe seu comentário