15dez
Arquivado em: Notas de Campo

Flores, plantas e afins se tornaram um dos meus encantamentos de 2021. Quando não compro, salvo fotos e, nesse percurso, sakuras (flores de cerejeira) se tornaram minhas novas favoritas. E me apeguei mais quando li que no Japão há o costume de contemplá-las (o hanami), especialmente devido ao simbolismo. Depois do florescimento, as flores de cerejeira duram apenas uma ou duas semanas. Um fenômeno passageiro que representa a efemeridade da vida. Além disso, renovação, transição e renascimento. Fazendo-me lembrar, nesta altura de fim de ano, de algo que escrevi em algum momento do passado: sobre colocar flores entre os escombros.

 

Este ano, me dei flores por uns meses e notei que elas me dão certa tranquilidade. Além de uma sensação de autocuidado. Você se faz presente, rega, bota no Sol, vê se o Sol é o suficiente. Nada mais mágico que acompanhar o florescimento. O mesmo para quando elas morrem, embora eu tenha ficado triste várias vezes. Afinal, elas podiam durar mais e nunca me senti tão tentada em comprar versões de plástico. Só que versões de plástico se associam para mim a um universo oposto, um paralelo. Um universo que o trauma cria, te isolando, onde o tempo não corre, nada se cuida e floresce. Tudo tem um falso senso de transição e a única coisa que nasce e renasce é o sistema de sobrevivência na versão erva daninha, que tem a habilidade natural de se refazer e reconstruir.

 

Mesmo quando você insiste em trocar as flores de plástico e botar outras no lugar.

 

Em algum instante, parei de comprá-las. Vê-las morrer começou a ser um autorreflexo. O sufoco de manter, ou de forçar, o florescimento quando a morte era evidente. Agora lido com fotos e tudo bem. É reconfortante, porque pulsa vida também. Alguém foi lá, bateu a foto, e me trouxe a chance de apreciar a vista. Dá para colocar de papel de parede na tela do notebook e acreditar que fui teletransportada. Mas sinto falta delas. Especialmente agora, depois de uma experiência de sentar e descobrir quais foram minhas novas mortes. No objetivo de despontar de meus silêncios, abrir a redoma e caminhar para fora do universo paralelo regado de novos traumas e despertos traumas antigos.

 

Descobri e relembrei de muitas coisas ao botar os silêncios que mais me confrontaram nos últimos dois anos em várias folhas. Foi inevitável não voltar aos traumas, pois, infelizmente, é o lance de “foi o que restou”. Pode ser que eu tenha evitado esse processo de contemplação justamente por isso. Eu teria que ficar mais próxima a tudo que aconteceu. Muitas coisas de novo, mesmo que de outro jeito. Mas aprendi que admitindo as coisas ficam claras.

 

Um pouco mais fáceis. Porque se captura os espinhos e se inicia o processo de retirá-los. Desta vez, um pouco mais rápido, antes que se acomodem e despejem o veneno em minhas veias para recalibrar o que eu conheço como meu sistema de sobrevivência. Muito se infectou, mas, ao mesmo tempo, revelou duras verdades (como precisar desse período de longo silêncio) e desmistificou mentiras (sobre tipos de amores, amizades, família e assim por diante).

 

Verdades e mentiras que têm a possibilidade de me servir como auxílio para expurgar o que nunca entendi, o que julguei que sempre entendi, o que sempre me pareceu comum. A redoma criada por traumas complexos tem dessas… Te ocupar com um falso senso de realidade, de emoções, criar mitos sobre quem você é. Artimanhas que conquistam espaço entre o que não foi reconhecido, processado, aceito e integrado. Ainda mais quando se pensa em trauma apenas, e exclusivamente, como o resultado negativo de um grande evento. Quando há o micro e o macro.

 

Traumas complexos roubam e apagam o tempo. A realidade é movida por um intricado sistema de sobrevivência avesso, que seu cérebro corrobora, criando o senso de que você está vivendo. Mas você é só uma flor de plástico na redoma, repleta de névoa e desenvolvendo sintomas que, muitas vezes, parecem “reações ou emoções comuns”. Como acreditar que é melhor ficar só quando estar só pode ser uma resposta traumática, porque você aprendeu por grande parte da vida a sobreviver assim. Controlando o espaço, quem entra, quem sai. As coisas tendem a mudar quando se percebe a névoa. Os sintomas. Você quer arrumar tudo, desmoronar falsas realidades, vários mitos. É aí que as coisas tendem a mudar, porque, devagar, o verdadeiro pulso da vida dá sinal. Porém, o sistema de sobrevivência sente e entra em conflito por querer se reconstruir de modo a te assegurar na redoma.

 

Uma segurança que nem resmungo tanto se eu pensar em algumas coisas da minha vida. Por outro lado, há mais clareza sobre como esse sistema de sobrevivência me vetou de estar entre as flores reais. Ser uma flor real. Porque muito de mim se transformou em vigilância, paranoia, ansiedade e assim por diante. O controle sempre me pareceu uma proteção junto com a frequência de forçar estados mentais e emocionais, como dizer que estou bem quando não estou. É o famoso nem ganhar, nem perder, mas vai todo mundo perder. Hoje, realizo que perdi bastante. Tem quem culpar? Sim e não. Uma bifurcação que revela que eu só tenho uma escolha acima de todas: aprender a me cuidar e me perdoar. Porque, entre todas as culpas, várias delas são minhas, pois criei a redoma para tentar evitar mais mortes e tragédias.

 

Com isso, desaparecendo, sem ter a chance de me conhecer, de saber me amparar e desenvolver meus desejos.

 

Quando se captura os erros e as contradições desse sistema de sobrevivência, a briga inicia diante de uma nova realidade incomum, que se revela quando parte do sistema desmorona e você começa a reconfigurá-lo para beneficiar a versão que ficou depois de tantas mortes. Para sair do elaborado núcleo criado por versões antigas em ordem de apenas sobreviver. Versões antigas que não têm culpa. Elas fizeram o que tinham que fazer para criar esse universo paralelo pós-traumático, sem o conhecimento de que isso acarretaria sintomas e respostas de traumas que terminaram condensados. Distanciando cada uma da experiência de viver entre as flores reais. Ser a flor real.

 

Quando se percebe esse espaço dotado de muita ordem, muito controle, outra briga também se inicia. A briga em querer se libertar tanto do sistema de sobrevivência quanto da ideia de que você é apenas os traumas. Vem o desejo de querer viver uma vida diferente, porque tudo que se movimentou no universo paralelo pareceu verdadeiro. Um senso comum de quem lá vive e que inclui formas de amar, formas de ter amizades, formas de querer. Impedindo várias experiências em um falso senso de proteção absoluta. Coordenado por reações e emoções que nunca foram “comuns”. Nada que potencialmente me elevou, mas é relevante. Abre para a oportunidade de curar e isso eu tenho referência.

 

Ao despontar de um dos meus silêncios, vários desejos silenciados em tempos passados se revelaram embaixo dos escombros. As flores reais, apagadas e esquecidas, revelaram suas sementes – e ainda querem sair de mim.

 

Querendo florescer entre o alívio de remover parte da névoa e objetivar, finalmente, a direção da vida real. No entanto, o desmoronar de cada peça desse sistema de sobrevivência é dolorido também. Talvez, mais dolorido que reconhecer os traumas que o construíram. Porque você começa a retificar tudo que uma versão menos amada, menos confiante, que teve a inocência roubada a força, menos compreendida, que nunca soube expor desejos e ideias, que sempre se sentiu deslocada e sozinha, construiu. É outra tragédia, porque se vê o quanto você morreu ao longo do tempo em função de exclusivamente sobreviver depois dos eventos que acarretaram os traumas.

 

Um percurso, onde percebi que meu caminho de retorno se inicia quando o silêncio se encerra. Parece que sempre foi assim e tudo bem. Demora para acontecer, especialmente porque preciso aceitar que mergulharei de novo, desmoronarei de novo por ter que reexperienciar tudo que aconteceu em dado ínterim. Mas sempre tem o timing e assim sentei com todos os silêncios para obter realizações novas com foco em limpar, renovar, botar novas sementes internas e florescer de novo. É um processo lento, que terá resultados lentos, ainda mais quando eu tinha dois anos para conversar (que se encontraram com anos anteriores e que abriram para várias outras feridas vividas).

 

O pouco que posso dizer sobre resultados é que vem a realização da possibilidade de uma vida fora do sistema de sobrevivência. E a oportunidade de regar a mente para que sakuras brotem e substituam as ervas daninhas.

 

Transformando. Aliviando. Porém, tem um agridoce específico: quando se percebe que a vida que se viveu não era verdadeiramente uma vida. Mas retificar é isso: reavivar o tempo e ir atrás das flores reais. Mantendo a consciência de que tem mais para reconfigurar e retificar. E vai doer. Vai ser injuriante em vários momentos. Seja pela descoberta de necessidades não atendidas na infância até o que você pessoalmente criou para se manter como sua própria refém. Ao perceber que você ainda vive em um limbo traumático, que pode ser um rombo dentro do seu ser ou o local que você vive – e ambos podem não parecer sementes de trauma. Tudo ordenado para que você, supostamente, não precise do ar fresco, nem da contemplação, nem da possibilidade do amor e de ser sua própria pessoa.

 

Mas você precisa. E negar essas necessidades é fogo. E flores de plástico são inflamáveis.

 

É um processo que não sei se tem fim. Ainda mais quando se escuta que flores de plástico não morrem. Morrem sim, mas é preciso sair da redoma para enxergar. O autorreflexo. Sem vida. Imóvel. Nem sequer respira direito. Nem sequer sabe o verdadeiro funcionamento da mente e do corpo. Não era importante de qualquer forma no sistema de sobrevivência, pois esse espaço sempre se pareceu com o mundo natural. Até se notar que se viveu sem nada e quase nada. Nem sequer conheceu as flores reais. Mas o lado bom de sair da redoma é ver a oportunidade de se transformar em uma flor real.

 

De sentir os espasmos da inocência. Onde tudo é estranhamente novo. Onde medo e euforia se chocam.

 

Porque você quer viver e viver é ser presente. Regar, medir a quantidade de Sol, conversar, nutrir, navegar. O que pode ser difícil quando tudo que você entendeu como parte de sobreviver é desaparecer completamente.

 

Quando se limpa a névoa, algo transmuta. Dá certa calmaria, porque se abre um vazio. Um vazio que é aterrorizante de início, porque revela a vida. A vida que você nunca viveu e é aqui que normalmente o medo pulsa. Principalmente quando arde no âmago a dúvida de como viver depois que se perde tantas vidas. É quando se vê como você nunca aprendeu a estar na vida, tendo os sintomas do trauma como única bússola. E o medo do que vem depois é pungente e torna tentador voltar para a redoma – porque foi o único lugar que você conheceu a vida toda. Só que chega um momento em que viver é um desejo quase desesperador. Porque você volta para a inocência de querer o que nunca teve.

 

É bom também. Mostra que você quer trocar a bússola. Seguir pela outra via.

 

Hoje, tento entender, especialmente quando um dos pavores de quem tem trauma complexo é isso: que tudo aconteça de novo. Isso fortalece o controle de entrada e saída, incluindo o controle do eu – ao ponto de você se tornar uma mãe maligna que decide o que vale a pena viver ou não e, na maioria dos casos, é nada também porque é melhor se manter em segurança. Está aí algo imprevisível, pois não está sob meu controle e aprendi tanto sobre controle nesses últimos dois anos… E vejo o quanto esse sintoma é quase como minha paixão por vinho. Boa e ruim.

 

Quando acontecem tragédias e mortes parecidas de novo, ou não, vem a terrível impressão de que você é uma pessoa de única narrativa. A chance de salvação que aprendi é reconhecer como tudo me afetou, micro ou macro, mas não para me tornar um impedimento. É para alcançar a saída. Ser livre para construir e descobrir, porque traumas complexos tomam o tempo, a noção e criam opções de sobrevivência duríssimas. A pessoa que sai da redoma, uma vez consciente, não é a mesma da que ficou presa. E é preciso se relacionar com ela, da mesma forma que com as flores: tentando ser presente para checar as necessidades, regar, botar no Sol, ver se o Sol é o suficiente.

 

O pouco que acumulei de conhecimento sobre esse processo me fez notar que o tempo descongela. Há o pulso verdadeiro da vida. O cuidado fora e dentro. E, no durante, é preciso passar por todos os estágios não vivenciados do funeral existencial. Para se dar a chance de encerramento. De colocar flores entre os escombros. Abrir para a possibilidade de contemplar as sakuras, ou qualquer outra flor, e seguir o caminho após o término do silêncio.

 

Imagem: Oleg Magni via Pexels

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Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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