31dez
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Clarice Lispector nunca me foi um nome estranho. Eu a conheci entre os meus 16 e 17 anos por causa do cursinho. Época em que A Hora da Estrela estava entre as leituras obrigatórias da FUVEST. Uma experiência gratificante, especialmente porque foi a primeira vez que tive contato direto com a literatura brasileira — e está aí algo que não me recordo de ter vivenciado no colégio. Na adolescência, os únicos livros que me interessei foram a coleção dos Karas de Pedro Bandeira (leitura obrigatória entre a 7ª e 8ª série) e Harry Potter.

 

O cursinho não deixou de ser um período marcante e confesso que não li todos da lista obrigatória. No entanto, tenho lembranças de A Hora da Estrela (e o livro ainda existe). Investi o pouco dinheiro que tinha em uma versão de sebo — e havia um perto de onde eu estudava e lá também consegui uma edição antiga de O Fim de Policarpo Quaresma (outro título que se tornou um dos meus favoritos e não me lembro exatamente o motivo da compra).

 

Fiz notas no livreto do cursinho voltado às leituras obrigatórias e guardei as orientações caso alguma pergunta caísse no vestibular. Participei das sessões especiais que exploravam as obras por meio de palestras. Lembro de ter visto trechos do filme inspirado na última obra publicada por Clarice e creio que nunca o vi na íntegra. Chega a ser estranho ter noção do mencionado livro, das experiências que tive com ele, mas não precisamente da autora. Nunca fui a fundo para saber quem ela foi. Tudo que tive e guardei foi o nome. Até as coisas se alterarem no ano passado.

 

Algo dentro de mim sempre se atrai ao que poderá melhorar meu espírito ou trará uma mensagem significativa ou despertará alguma realização que, talvez, me ajudará no meu salvamento. É assim desde Harry Potter, que cruzou meu caminho no primeiro ano do ensino médio e me acompanhou por muitos anos como uma capa protetora. Foi com a saga que compreendi e aprofundei a necessidade de me relacionar com o que consumo para escapar. As artes sempre me ajudam, dando caminho para recuperar o meu cerne. Hoje tem sido complexo, mas ainda tento.

 

Claro que há oposição nessa ideia e isso envolve a questão de obrigação. Ler A Hora da Estrela foi uma obrigação e não tenho lembranças de ter caído uma questão sequer na FUVEST (e nem me lembro da trama). Se houve, espero ter acertado e sorrido. Por agora, penso que, desde aquele tempo, devia haver um mistério para eu investir só nesse título. Pode ter sido uma questão de dinheiro, provavelmente. De todo modo, só descobrirei quando relê-lo.

 

Desde então, não houve outro livro de Clarice após A Hora da Estrela. Porém, o nome Clarice sempre palpitou ao meu redor por intermédio de outras pessoas. Meu próprio momento com ela aconteceu anos depois. Em 2018.

 

(…)

 

Em 2018 nos reencontramos. Durante um curso de “escrita feminista”. Na sala, atenta ao projetor, a ouvi sendo aclamada pela milésima vez, mas por A Paixão Segundo G.H.. O livro que eu só sabia da barata. Pela influência do curso, comprei, em conjunto ao de outras autoras relembradas na aula. Claro que não li nenhum na época.

 

Até hoje ainda não li, salvo o título que inspirou este post (que não é uma resenha). A motivação veio quando, em um dia qualquer de 2020, abri o YouTube e o feed me indicou a fatídica entrevista que Clarice deu para a TV Cultura. Dei-me conta de que, apesar de o nome ter me sido familiar por anos, eu nunca a olhei também. Nunca coloquei um rosto ao texto. Nem sequer sabia como era o timbre dela.

 

Normal até aí, mas parece anormal quando falamos sobre uma pessoa imortalizada na literatura brasileira. Normal também, considerando que nunca tive interesse pelos livros dela. Sempre fui indiferente, talvez, por achar que não me identificava. No entanto, naquele dia qualquer de 2020, o algoritmo trouxe esse vídeo e confesso que cogitei ignorar a entrevista. Só que a imagem de capa do vídeo chamou minha atenção: ela com cara de tédio, com um cigarro entre os dedos que se apoiam na testa e as sobrancelhas marcantes levemente alteadas. Dei play.

 

O que me lembro desse dia qualquer de 2020: início de madrugada e comecei a relatar o que via para uma amiga. Literalmente, passando mal! De um segundo a outro, me vi sorrindo e acenando a cada resposta de Clarice. Não houve um instante que não me identifiquei com as palavras dela. Seja lá qual era a obra do universo naquele momento, vi essa entrevista coincidentemente em um novo período descrente da escrita. Descrente de mim e do que é meu ofício. Sem contar que, de outro segundo a outro, minha vida se transformou em puro caos devido a um novo episódio traumático. Eu estava perdida, sem sentido, e tentava recuperar um pouco da normalidade. Voltar a ler soou atraente.

 

Eu destrincharia a entrevista, mas digo que a ideia de uma Clarice arrogante e totalmente “cult” desapareceu. Não sei de onde vieram tais impressões, mas é provável que tenha sido pela forma como ela é aclamada. Literatura brasileira clássica sempre me pareceu inacessível. Algo que eu nunca entenderia, então, não havia motivos para pagar “mico”.

 

Fácil de se convencer quando não sou assídua leitora. Ainda mais quando sempre carreguei a sensação de que Clarice era uma Deusa literária e tem horas que me julgo burra. O que também explica meu distanciamento (assim como de toda literatura brasileira clássica). Contudo, ao acompanhar a entrevista, me espantou a humildade com que ela respondeu as perguntas. Senti verdade no que ela dizia. Na presença dela.

 

A qualidade das perguntas do entrevistador me fez descobrir, em poucos instantes, mais da autora que me acompanhou no cursinho. Fiquei encantada com as sobrancelhas que impunham certa tensão no rosto dela, ou até a impressão taciturna. O cigarro para ter com que ocupar as mãos. A rotina de escrita. O fato dela acordar antes do Sol nascer para escrever me fez repensar o meu ritual que também começa pela manhã com os galos, depois do café.

 

A história que nunca acabou e ela rasgou me fez rir. Pensei se em algum momento deletarei o que tenho engavetado, pois não tenho ideia de onde enfiar tanto texto acumulado. Coragem nunca me faltou, mas fico com dó. Há mais, muito mais, nessa mencionada entrevista, mas revelo o ponto que me fisgou de vez e que até hoje carrego comigo: a resposta de Clarice sobre saber ou não desde o início se seguiria carreira na literatura. Ela responde que seu objetivo é apenas escrever, sem foco em público, e comecei a me sentir menos sozinha. Pronto! Estava na hora de ler Clarice.

 

Essas palavras me tocaram profundamente no dia qualquer de 2020. Por algum motivo, eu precisava ouvir isso. Tanta coisa sobre a escrita mudou para mim do ano passado pra cá e essa entrevista me deu autorização para começar a digerir essa mudança. Algo que cheguei a esquecer até minha analista, simplesmente do nada, pontuá-la recentemente. Tornando-a ainda mais essencial, porque, assim como para Clarice, escrever para mim é libertar.

 

Exalar.

 

Tem outra cereja nessa entrevista: ouvi-la dizer que nunca assumiu ser escritora. Que é uma amadora e faz questão de continuar a ser para manter a liberdade. Afinal, ser profissional gera obrigação e os projetos são formas de ela se salvar. Desabrochar. E tem o soco final em forma de pergunta: quando o ser humano se torna triste e solitário?

 

Ela exala e entrega um sorriso discreto. Pede desculpa porque não responderá por ser segredo. Mas, em seguida, a autora emenda a questão de choque (um pouco inesperado) que pode ocorrer em qualquer instante da vida. E essa questão de choque inesperado é a espinha dorsal de A Paixão Segundo G.H.. O livro que retirei do guarda-roupa, no meio do caos de 2020, para saber mais a fundo qualé a da Clarice. E, claro, se não sou tão burra assim #risos.

 

(…)

 

Tudo começa com G.H. matando a barata que estava tranquilinha no armário do quarto da empregada doméstica recém-demitida. O choque inesperado, que acarreta no desligamento do próprio ser e da realidade, culmina no ato grotesco de prová-la (e toda vez que reli esse parágrafo na revisão a cara de nojo se apresentou!!!).

 

Publicado em 1964, pouco se sabe sobre G.H. no contexto externo. A não ser que ela mora no Rio, é escultora, pertence à elite e está sozinha no apartamento. Agora, no contexto interno, a história é difícil de articular. Não é uma trama com reviravoltas. É um raciocínio que gosto de tratar como uma conversa depois do choque inesperado. E, sem dúvidas, o resultado da leitura vai da experiência particular de cada um, mas há o divisor de águas sobre este livro ser o amor de cabeceira ou um pesadelo incoerente. Na entrevista para a TV Cultura, Clarice menciona uma adolescente que adorou a leitura e um professor que compreendeu um total de vários nada.

 

Para mim se tornou um livro de cabeceira. E eu não poderia escrever este texto sem ser pelo viés que vivia na época que o tirei do guarda-roupa. Isso influenciou demais na minha tradução de várias passagens de G.H..

 

Ter traumas em mente durante a leitura me ajudou a acompanhar onde G.H. queria chegar com sua experiência. Sem saber lidar com a nova pessoa que vem após um impacto profundo que desmorona a vida. Traumas rompem e interrompem, distanciando a realidade de quem tem trauma de quem nunca passou por algo parecido. Não digo que a experiência do livro é traumática, pois não é. Contudo, foi impossível minha mente não envolver o que vivi em 2020 para compreender o que lia. Se há algo que acredito é na série de mortes do eu e que a vida mata um pouco todo dia. Pode ser o auge do pessimismo, mas ter essa consciência altera como lido com a realidade.

 

A Paixão Segundo G.H. não é uma história dita tradicional, de começo, meio e fim, mas um caótico e intenso desabafo. Ou relato. Seja como for, há uma linha de raciocínio por meio da retomada do fluxo de consciência. Um monólogo interior conturbado, onde há uma personagem responsável em envolver. Esse envolvimento começa quando G.H. faz uma sequência de pedidos para que você fique e segure a mão dela. Ela quer te levar nessa experiência existencial.

 

E embarquei. Com dificuldades iniciais. Muito em reflexo do fato de que estava sem concentração, já que o que vivi em 2020 tomou isso. Fazia eras que não pegava em um livro também, então, demorei a engatar. Mas, conforme virava as páginas, encontrei uma voz amiga que me ajudou a começar a lidar com o meu próprio choque inesperado.

 

Logo, o livro se tornou companhia. Em doses lentíssimas, cada palavra de G.H. começou a mover o lado de dentro e minha própria despersonalização. A personagem se saiu como a pessoa que eu precisava naquele momento, especialmente para voltar à realidade. Pontualmente, ela entrou na minha vida para ser o exemplo que eu precisava para elaborar a morte interna e o processo necessário para atingir um tipo de estado de graça.

 

Mesmo que momentâneo.

 

O tocante de G.H.

 

Página do livro A Paixão Segundo G.H.

foto: arquivo pessoal. não reproduzir sem os devidos créditos.

 

“Não estou tirando nada de ti. Estou é exigindo de ti. Sei que parece que estou tirando a tua e a minha humanidade. Mas é o oposto: estou querendo é viver daquilo inicial e primordial que exatamente fez com que certas coisas chegassem a ponto de aspirar a serem humanas”.

 

G.H. começa o livro procurando e procurando. Consegui vê-la com as mãos na cintura, indo de um lado ao outro, atrás de distrações sobre o que ocorreu. A negação a faz passar um tempo com o que lhe foi comum, como ser ótima em fazer bolinhas com miolo de pão. Algo dentro dela não é mais o mesmo depois do choque inesperado e ela não consegue articular de pronto. Há um brilho novo, a dita alegria difícil, pois parece haver culpa em se desprender do que se foi. Que é errado ser de outro jeito e não querer ficar no mesmo ciclo que pode ser de vitimização.

 

Vem a súplica. G.H. pede para quem lê não soltar sua mão. O convite para lhe fazer companhia durante a elaboração do ocorrido — e é na elaboração que vem mais questionamentos. Há uma confusão no ar, que se estende na leitura, como se a personagem estivesse em um estado de tontura. A confusão mental é latente no texto, pois, de início, a mulher desconcentrada não tem um raciocínio lógico. Seguro e confiante. Há uma dificuldade de se fazer entender, pois é o efeito do choque inesperado. Há certa dificuldade de engatar o relato, já que o foco é partir do antes. É quando se captura a atração da fala. A sensação de receber o convite para uma conversa secreta.

 

Ela insiste para quem lê acompanhar o raciocínio e logo me veio a impressão de que lia O Apanhador no Campo de Centeio, pois Holden traz também a sensação de se sentar ao meu lado para revelar como terminou do jeito que terminou. A personagem de Clarice tem o mesmo poder e acarreta uma aproximação imediata. Salvo a diferença, em forma de convite indireto, para me reorganizar junto com ela. Aceitei, especialmente porque queria ver a “cena do crime”, onde a vítima foi a barata, para ter respaldo sobre o encantamento repentino gerado pelo choque inesperado.

 

Me perdi muitas vezes na elaboração do caos (pelos motivos que citei acima). Muito foi entendido ao ler frases em voz alta (especialmente por conta de palavras que tive que ir atrás do significado antes de prosseguir com a leitura). Ouvir-se falando tem um tremendo poder, pois impulsiona a contemplação. Várias vezes me vi assim, analisando e exclamando um uau! antes de dar um tempo para digerir os trechos que me acertaram em cheio.

 

Conforme G.H. desempacota o evento, a dúvida sobre aceitar a nova condição de si, sem querer organizar-se totalmente, pulsa em cada página. Ela sempre questiona e adorei como Clarice retoma uma frase, deixada no fim dos capítulos, para atualizar o raciocínio da personagem no próximo. Para manter o raciocínio da escrita. É o encerramento e a repescagem do que é importante para continuar o relato. Para não se perder diante do novo mundo que se amplia, dando a condição de aceitá-lo ou não, enquanto se revisa sobre ser outra e ter que aprender a viver de um jeito novo.

 

Tudo isso escalda dentro do quarto da ex-empregada doméstica e me vi incapaz de soltar a mão de G.H.. Para além da ficção, eu também precisei que ela segurasse a minha. Minha função foi ouvi-la e aguardar a minha vez. Acompanhando-a na explicação de morte simbólica e como o choque inesperado começou a alterar o seu sistema. Há um norte sobre o que é neutro, inumano, a coisa, o núcleo, a esperança e a beleza. Ela toca nessas nuances, para explicar que algo de si se foi para nunca mais ser, e se vê transições. Mesmo quando a personagem insiste em declarar que não faz sentido e nem quer fazer sentido para não retornar à forma humana. A forma que ela foi antes do choque inesperado.

 

A forma que se sustentava por uma terceira perna e mantinha G.H. como uma coisa encontrável por si mesma.

 

O choque inesperado cria a desorganização que ela tenta organizar em uma espécie de hábito. Para voltar a ser o eu da fotografia, um ponto marcante em A Paixão Segundo G.H., visto que a personagem questiona a própria imagem. Quem ela foi e tudo mais. Um eu que ela deixou de reconhecer e isso me lembrou da minha analista que vivia a dizer sobre botar ordem na desorganização. Não no intuito de voltar a ser organizada, mas sim costurar o que vale a pena e seguir adiante. Por saber que tenho um lance com controle, meu desafio constante é deixar ser e seguir o fluxo.

 

Nessa desorganização, vem a sugestão de experienciar o lado inumano de si. A inumanidade representada pela barata que a envolve em terror e nojo. A projeção dela sobre ela mesma e que, após a fatídica morte, abre para o delírio pós-choque. Formatando o relato de G.H. rumo a um fim que não dá para imaginar qual será. A não ser aguardar o retorno à realidade após provar a gosma da barata. Ato que representa, de certo modo, a quebra do estado completo de estupor. Tudo que ela quer, enquanto segura a mão de quem lê, é encontrar a saída do quarto. A revelação e este livro tem tantas revelações que se encaixaram tão bem em meus sentidos…

 

Como o terror pungente de G.H. em se perder mais ao que parece perdida. Talvez por isso a pressa de dizer o que aconteceu enquanto há o adiamento sobre o que foi realmente descoberto. Desde a demissão da empregada doméstica até provar a barata — a reação inumana que acompanha a desorganização. Um processo onde se vê o falso senso de ser e ser também é um medo, especialmente porque ela teme viver o que não entende. A personagem duvida da desorientação, a atitude inicial de autoproteção, mas a quer. Não há sentido em remontar quem se foi.

 

Recuperar a forma antiga para assumir o controle e voltar a ser a G.H. da fotografia. E chega a ser interessante que essa mulher seja identificada com a sigla do próprio nome, pois fortalece a percepção de desconhecimento. Apesar de claramente ser conceituada na área profissional, nada mais anônimo que assinar o trabalho com duas letras.

 

Depois da barata, G.H. se vê livre e com um novo encorajamento: se deixar perdida e viver o que não entende. Tudo a partir do clichê: começar tudo de novo pelo começo. Um ínterim sem tanta influência sobre ser a G.H. de outrora. Afinal, não é necessariamente um recomeço, pois a personagem deixou de ser e precisa se entender depois do choque inesperado. Ela se encontra em um ponto zero para se autodescobrir e descobrir o mundo sem a terceira perna. Instigando nela a vontade de deixar o passado e caminhar como a pessoa que irrompe do espaço interrompido. Uma transição, que aflora um novo nível de autoconhecimento e que me fez pensar em traumas também. Quando você os endereça, partes de si que paralisaram por conta do que aconteceu descongelam. Abre-se o vazio e aí surgem desejos.

 

Você se nota diferente e o mundo ganha outro sentido. Um sentido que nada tem a ver com a sensação de prisão. É sobre outro clichê de ter consciência de que sobreviveu e que é a hora de viver de verdade. Afinal, sobreviver e viver não são sinônimos. A insegurança seguinte é justamente essa: não saber por onde começar. Tudo é desconhecido.

 

Se há algo que foi encontrado no quarto da empregada doméstica (vale dizer que: a retratação não me deixou contente por conta, especialmente, da animalização, que vem de um ponto de vista estereotipado/racista da época de Clarice) foi a morte de G.H. para nascer outra G.H.. Uma que não quer a coerência do existir ditada socialmente e pela expectativa dos outros. E isso também acontece quando se retifica traumas. Você percebe o que é seu, o que não é, o que veio do meio e de outras pessoas. Principalmente onde você começa e o outro termina. É quando você se liberta das paredes.

 

Além das paredes do quarto da empregada doméstica, há uma nova existência que pode navegar na desorientação, visto que esse eu é novo, não sabe o que quer, não sabe como se move, não sabe como todas as novas funções beneficiarão a nova vida que se apresenta a cada salto de pensamento da protagonista. E o nosso, claro. Entregando a reviravolta final que me fez até esboçar um sorriso: quando ela narra que vai dançar, escolher um vestido e dar trela para um dos homens que tá a fim dela.

 

Desejos que vêm quando se sai da paralisia e me reconheci nessa parte da narrativa também. Desde que comecei a análise, removi o peso de alguns choques inesperados que vivenciei e que tomaram conta da minha vida por duas décadas! Certo dia, comprei um sutiã de rendas, pois queria me sentir sexy e, bom, empoderada. Hoje, espero que algo assim se repita, porque houve novos choques inesperados do ano passado pra cá. E me encontro de novo na desorientação, sem autoestima. Como afirmou minha analista, os acontecimentos de 2020 me desorganizaram profundamente e não sei se sou nova ou a mesma que foi interrompida antes das tragédias do início da pandemia.

 

Sei que soo esquisita, mas essa foi uma das formas que G.H. me provocou. Eu ainda não olhava para dentro. Talvez, por não estar pronta para admitir que tudo aconteceu – e, sem seguida, desmoronaria pela milésima vez na minha vida. A leitura, ao menos, me inspirou a dar uma espiadinha, porque foi interessante vê-la no processo de desmoronamento enquanto desejos mais profundos vinham à tona. Criando esse espaço que cheguei a conhecer em 2018, mas me foi tomado devido a outras tragédias, ocorridas nesses últimos dois anos: a realização do movimento da vida que nunca foi minha. A saída do transe que pertence à personagem também e que encerra o monólogo interno.

 

Sempre há o instante de pura ruminação e, depois, de puro silêncio. É quando se costuma realizar que algo mais profundo se alterou e é preciso lidar com isso também. Como aprendi na série Sorry For Your Loss: quando se fica sóbria, você volta a evoluir a partir do momento que a vida congelou. Você retorna ao processo de amadurecimento. Acredito que G.H. atingiu esse ponto de partida, pois nada é mais como antes. Ela descongelou após o choque inesperado. Não tem terceira perna. Em vez de retroceder, cheia de medo e desesperada em encaixar uma nova terceira perna, ela segue para fora do quarto e em frente. Largando ideias anteriores que não servem para aquela G.H. e o novo mundo que se amplia.

 

Uma parte da experiência que este livro proporciona, e que fica explícita quando se debate sobre a carência de tudo, é a que envolve o futuro já ser e já sermos algo. Conjecturas que, definitivamente, não nos damos conta quando tudo está em seu devido lugar. Ou quando não passamos mais tempo no presente, onde cada hora é um frame do futuro. Justamente porque, feliz ou infelizmente, no desmoronamento que paramos e nos voltamos para dentro. Que nos damos conta de que há outra vida e que a vida que temos não é vivida. O choque inesperado, em uma rotina cheia de obviedades, sem nenhuma perturbação, desarticula. Desmancha-se a vitrine para ver o outro lado em uma luz crua.

 

E se pode comentar até o fato de que G.H. não passa de uma dondoca, com conjecturas banais, mas sequer levei o status em conta. Ela chegou e acessou meu íntimo. Encontrou e segurou precisamente até o fim o meu nervo que se envolveria na narrativa prontamente. Ok que me deu vontade de corrigi-la em vários instantes. Como já no mencionado tratamento da empregada doméstica que me deu vontade de largar o livro. Mas voltei. Várias vezes.

 

Uma leitura de meses que se transformou parte da minha coleção de preciosidades que me ajudaram a transitar.

 

A baratinha

 

Página do livro A Paixão Segundo G.H.

foto: arquivo pessoal. não reproduzir sem os devidos créditos.

 

Primeiramente: deus me free de barata! Tenho nem coragem de dar a famosa chinelada e nunca mais olhei para uma do mesmo jeito. Um dia bate a coragem de ser G.H., pois digo com tranquilidade que ainda corro para longe.

 

Mas, bom, o que dizer sobre a experiência de G.H. com a barata? Considero uma metáfora sobre o que morre por dentro e como isso desorganiza. Você deixa de ser antiga para ser nova e não sabe o que fazer com essa pessoa nova. O impacto te tira do ciclo habitual, do próprio senso de conhecimento, e nem sempre isso é bom. No processo de desmontagem, você começa a lidar com outros desconfortos, pois, como eu disse, você saiu do congelamento. Há sobriedade e isso gera emoções complexas. Como apontar culpados e insistir em voltar ao normal que não existe mais.

 

A única opção é seguir em frente. No caso de G.H., sair do quarto da empregada doméstica.

 

Desmembrar-se por causa de um choque inesperado é um processo amargo e gosmento, como todo o desenvolvimento narrativo ao redor da barata. O conhecimento sai do modo geral e, quanto mais se tira a gosma, mais vazio se revela. Um espaço neutro, que pode ser um quarto que testemunha a paralisia que dança com a desorientação sobre si e o mundo. Ou algo mais fundo, do lado de dentro, onde um silêncio contemplativo impera. Dando um ínterim para reconhecer que algo realmente morreu e analisar como o ponto de vista sobre a vida (e o viver) deixou de ser o dito comum.

 

G.H. está descompassada sobre as mudanças e sobre a paixão — a parte que não ficou muito clara para mim. Há uma crise existencial que, como é dito na filosofia, começa a se desenrolar a partir de questionamentos. Ela faz vários em meio à análise metafórica sobre a morte da barata e isso se estende pelo raciocínio escrito por Clarice.

 

Mesmo consciente da existência da barata, eras antes de sequer cogitar que um dia leria este livro, a menção me deixava com nojo. Jamais imaginei que a descrição do fatídico momento que torna A Paixão Segundo G.H. popular seria tão detalhista (a boquinha, pelo amor de Deus, Clarice!!!). Gráfico. Foi o famoso ler entre caretas! Mas, fora isso, a metáfora é ótima. Ainda mais quando penso na piada de que no mundo só as baratas sobrarão. Isso me dá a leitura do tanto de coisas, não necessariamente sobre nós, que deixamos viver por se crer que controlamos tudo.

 

Sempre sendo a extensão de outras pessoas e não a própria extensão por quem se é. Deixando-se contaminar e inflamar por uma realidade que não é necessariamente sua, mas você pegou aquele trem de qualquer forma. O choque inesperado tem o talento de revelar essas verdades também e você precisa se afastar, analisar, se autoanalisar e, de novo, questionar tudo que parece incoeso (dentro e fora). E o passo seguinte clama para ser diferente do costumeiro. No caso, se nortear pela rota menos percorrida para tentar se descobrir além das siglas do próprio nome.

 

Sair de vez daquela rota batida em que as coisas que se enxergava e o modo de viver, muito em função de outros olhos, não servem mais. Porque a chinelada foi dada nas suas baratas. G.H. é a pura demonstração dessa transição. O primeiro momento auge da personagem que trouxe para mim a identificação de morte do eu e que foi oficializada em todo o processo de lidar com a barata. Ela precisava eliminar algo, o acúmulo interno enojante e desconfortável.

 

Que pulsa e confunde a existência. A própria maneira de se nortear pela vida. A atitude de G.H., que mais parece um rompante, traz o imaginário silêncio seguinte e ela o preenche ao começar a contar o ocorrido. Revelando uma linha de tempo e espaço que foi um tanto confusa para mim. Às vezes, achei que ela narrava depois do choque inesperado. No quarto, soa como o momento prestes a acontecer. Vem aí a releitura em um futuro que desconheço.

 

A barata é o passaporte de transição. Toda a interação no quarto bateu perto de casa. Fiquei rendida, apesar das dificuldades iniciais da leitura. Isso aconteceu consideravelmente cedo, pois, nas primeiras páginas, não sabia quem estava mais confusa: G.H. ou eu. Passada a estranheza, meu foco se prendeu nos vieses de retomar a forma antiga, caber no sistema organizado e o árduo intento de não inventar outra forma de si. Revelando que, no fim, é sempre sobre parar de se renovar para caber e ter que voltar sempre ao que era antes. O que não é simples, pois o antes conhecemos bem. O antes parece mais seguro, mesmo depois do choque inesperado. Sabemos como funcionamos no sistema anterior, antes da tragédia acontecer, o que dificulta o primeiro passo em direção ao desconhecido.

 

O espaço neutro livre das automatizações da vida anterior.

 

A barata também representa a libertação das inquietações. Para alcançar algum ponto que pode ser divino. Um estado de graça. Ou, como preferirem, é somente outra epifania de Clarice. Concluindo que todo o percurso de G.H. é morte e retorno para uma forma ainda sem forma. Totalmente desorganizada. A saída do delírio, da despersonalização, por saber o que se almeja e isso começa no desistir. Ela decidiu deixar de ser.

 

Como ela mesma diz: “a perda de tudo o que se possa perder e, ainda assim, ser”, pois “tudo o que me caracteriza é apenas o modo como sou mais facilmente visível aos outros e como termino sendo superficialmente reconhecível por mim. Assim como houve o momento em que vi que a barata é a barata de todas as baratas, assim quero de mim mesma encontrar em mim a mulher de todas as mulheres”. Fora do contexto pode não soar tão compreensível, pois, lá no quarto, só há G.H. e a barata. E muita autoanálise. Contudo, mesmo nas perdas, há alguém. A única pessoa que realmente terá que lidar com os escombros, os resquícios e os endereçamentos internos. O que a personagem vive é um começo, onde ela poderá construir e descobrir essa mulher, não se apoiando na terceira perna. Ela é livre.

 

G. H. escolheu se lançar na nova vida a fim de compreender sua nova forma, seu sistema. No intento de ser, em algum momento, inteira. Ela apenas é, concluindo que passamos por anos da vida sendo algo para alguém e para o mundo. Os espasmos, que a personagem especifica, vêm para nos colocar para dentro. O encaixe que dá mais peso a essa leitura ruminativa que, a cada pausa, me prendeu em minhas próprias ruminações. As que eu escapava, pois já tinha passado por uma série de desmoronamentos e não queria passar por isso de novo. Porém, é inevitável.

 

Sempre um desmoronamento acontece. O mesmo para choques inesperados. Você fica um tempo entre os escombros, analisando tudo. Tendo que abraçar versões antigas enquanto o resultado do choque inesperado se esvai. O que não garante a resolução imediata, pois autoconhecimento, ou tratamento psicológico, é processo longo. Porém, há resultados positivos, como alcançar o que Clarice chamou de alegria difícil. No meu caso, essa alegria difícil sempre vem quando passa o cinza do luto – resultante de admitir e começar a aceitar para assim seguir. Desde o início do livro, G.H. revela, admite, endereça. Não significa que tudo deixa de existir, que se perdoa ou que a recuperação é rápida depois da conversa interna. Não é e o livro comprova a lacuna na continuidade do silêncio.

 

Um tipo de silêncio que surge assim que se fecha o livro pela última vez.

 

Toda história, especialmente as traumáticas, marca o DNA. Altera desde a raiz. Quanto mais se busca por resoluções e respostas, mais se abre para outras situações. Direcionando para a libertação da pessoa que sempre quis viver e acabou na redoma pós-traumática enquanto outra, a terceira perna, norteou o caminho para sobreviver. Chega uma hora que, ao perceber que a jornada foi só sobre sobrevivência, é preciso ter coragem para tocar na coisa, no núcleo, na massa — só não recomendo comer seja lá o que for — para expurgar venenos, tirar as gosmas. Libertando quem você poderia ter sido — isso para melhor, claro — desde o início.

 

E isso larga a tontura de quem você pode ser fora da redoma. Do quarto. Deixando de ser sua própria refém. Até lá, há espasmos de estados de graça que, normalmente, se iniciam ao absorver o ar renovado e fresco para dentro do sistema atualizado. Com sorte, também se vê que há possibilidade de escolher dessa vez. Sem atrapalhar o fluxo da vida.

 

A morte interna

 

Página do livro A Paixão Segundo G.H.

foto: arquivo pessoal. não reproduzir sem os devidos créditos.

 

Esse é um assunto particular que despertou ao longo da minha leitura. Bom de livro é isso, né? Você tira alguma mensagem do seu jeitinho e não é nada surpreendente para mim falar sobre morte. A morte interna, que soa ruim, mas, depois de um tempo, quando se compreende as causas, vem à tona uma nova pessoa que quer ser incrível.

 

Há certo alívio, porque se remove o peso de versões antigas que foram coordenadas por uma gama de tragédias. Não rende uma epifania digna de Clarice, porque essa transição tem curso próprio. Pode demorar. Mas, por experiência própria, abre para o neutro. Inclusive, para os rompantes de desespero de não saber lidar com a nova existência sem tudo que aconteceu de ruim. Isso, no nível traumático, pois, ao sentir a diminuição da influência de alguns episódios (por intermédio de tratamento adequado), se sente leveza junto ao sufoco de reconhecer como você passou pela vida sem endereçar nada do que aconteceu. E esse sufoco é um sistema de sobrevivência complexo e é dele que é preciso sair em ordem de ter uma vida. De viver mesmo. Só que traumas repuxam. É uma briga constante.

 

Quando essa retificação começa, os resultados tendem a ser muito bons. Porém, não quer dizer que dói menos. Inicia-se o processo de desmoronar o que o trauma construiu, nublou e programou na mente, no corpo e no espírito em função de te defender da vida. Incluindo a forma como você se vê e se tratou uma vez entregue aos sintomas traumáticos. É duríssimo! É aí que também se abre para o luto, pois se começa a processar o resultado dos choques inesperados. Por isso que me relaciono com esse lance de morte interna. Minha vida toda parece que foi sobre isso.

 

De qualquer maneira, o choque inesperado causa uma morte em G.H.. No livro, a sugestiva morte de dentro. É inevitável e traz realizações particulares para cada pessoa. No caso da personagem, ela reflete sobre a vida livre ao que foi gerado a partir de experiências organizadas. Debatendo minúcias, como ter malas com o próprio nome e não se reconhecer na fotografia. Há um senso de perda sobre quem ela foi como indivíduo.

 

É pungente como ela revela a mudança a partir da raiz da existência e fui norteada para reconhecer um ponto interrompido da minha vida assim que a pandemia começou (e outro trauma aconteceu). O caminho rumo ao espaço neutro e que me encontrei certa vez depois de meses de tratamento psicológico. Há nada. É uma transição sem gosto de transição, pois, no primeiro instante, se fica igual G.H.. Ponderando, se debatendo, tentando retomar uma forma e um normal. Quando se tem que seguir e abrir mão do que mais não é. Pontos que também não são tão simples assim.

 

Digo isso porque aprendi algo muito interessante meses atrás: tirar toda a gosma da vida passada também machuca. Há vícios, artimanhas, padrões de pensamento, dependências, sensos e mitos que não necessariamente te pertencem ou são realmente você – além de muita coisa ser projetada em você.

 

Neste livro, há a proposta de não reassumir a versão antiga e ficar com a que surgiu depois do choque inesperado. Voltar ao antes é igual a criar uma nova terceira perna. Que não dará chance para a pessoa livre se autodescobrir. Tomar o cerne. G.H. foi alterada por um evento ao acaso, que eliminou a ideia de terceira perna. Houve a quebra de uma mulher que deu várias vezes a entender que se espremeu para caber no esperado. A fotografia traz esse tocante e senti que foi a primeira vez que ela se enxergou. Um zoom que a faz questionar e as siglas do nome tem o mesmo peso.

 

G.H. mostra algo que acredito e que ainda não domino com excelência: sempre dá para se achar na confusão. Ou alcançar uma conclusão que seja o suficiente para nortear o passo seguinte, como decidir sair para dançar e flertar. Pode demorar, mas uma hora acontece. É difícil essa espera, pois, não sei vocês, quando acontece tanta tragédia, em tão curto espaço de tempo, o passo seguinte é fechar as comportas. É inevitável não temer que aconteça de novo. E temer a alegria.

 

Entre tantos funerais, a morte interior tem a chance de proporcionar o encontro do verdadeiro eu. É algo que acredito, porque você abre mão e sai do transe da vida organizada. Sai do transe gerado pelos traumas, como se achar indigna de amor ou descobrir o que sempre foi seu. Em contrapartida, longe de mim crer que é sempre bom uma tragédia para arrancar a terceira perna. Para amadurecer. Se dependesse de mim, esse processo seria leve, como dar uma chinelada na barata (para alguns seria assim porque eu mesma nem tenho coragem de levantar o chinelo).

 

A angústia de G.H. gera um fluxo de pensamentos que acompanha cenários do presente, do passado, até mirar no futuro – que já o é, segundo a personagem. É diferente para cada um, mas sempre vem com questionamentos. O que é ou não é. Se o eu de agora é verdadeiro ou terá outra morte em breve. A mudez da mente se dissolve na fala, pois falar é uma forma de se organizar (e isso aprendi durante as sessões de análise). Ela tateia o próprio ser e o quarto vazio é o confessionário. Ou o deserto, como descreve, sendo vigiada pela barata morta. A voz é um modo de se ouvir de verdade. Mesmo entre desconfianças e a certeza de que se viveu no meio-termo. Pela metade e ao avesso.

 

O choque inesperado a coloca no início que, talvez, deveria ter sido sempre. Eu acredito nessa tese. Como retornar ao início de tudo, antes da vida se transformar de um jeito que não nos reconhecemos mais na fotografia. Ou não nos lembramos de quem fomos antes dos traumas. Abrindo para esta experiência que parece complicada pela forma escrita de Clarice, mas é uma experiência muito nossa. Todos os dias, pois, assim como G.H., somos “um dos espasmos momentâneos do mundo”. E o que faremos com essa função?

 

O interessante é que a tese de insignificância não a desmotiva, mas engrandece. Isso entrega o raciocínio desconhecido para, finalmente, se agregar ao que se desconhece. Passamos pela vida com praticamente tudo orientado, mesmo que muito pouco se realize, e G.H. me pareceu a mulher cheia das regras e influências externas até chegar um instante da vida para lhe mostrar a fissura na forma de uma barata distraída no armário. Uma vez diante da barata morta, o eco de um espaço vazio vibra. Sem vida. O choque inesperado que a impulsionou a terminar de se romper ao degustar da gosma do inseto. A tirar o invólucro sem fingir, em seguida, que nada daquilo a impactou.

 

Concluindo também que o mundo independe dela. A sua confiança final, além de um novo existir. E que ela adora logo de cara, junto com a garantia de que nunca compreenderá o que diz, mas dá para entender bastante. Do próprio jeito, claro, pois essa experiência é, literalmente, segundo G.H.. Você pode se identificar com ela ou não. Como qualquer outra história que pode ser contada por uma pessoa amiga, parente, e etc.. Senti certo conforto e terminei a leitura como se eu mesma tivesse aniquilado a barata. Ou estivesse ao lado dela, analisando outra morte do eu. O fim da terceira perna.

 

Além da morte, há paixão, porque a morte tende a gerar um novo olhar sobre a vida. A paixão de G.H. me fugiu a compreensão, mas soou como uma espécie secreta de estado de graça por querer viver diferente. De um jeito desorganizado e totalmente sem forma. De um jeito “não humano”, que “é o centro irradiante de um amor neutro em ondas hertzianas”. Ela sai do sonambulismo. Do transe. Sai da renegação da própria pessoa ao se reconhecer nem um pouco à altura da própria vida. O ponto de encontro é onde tudo que é não é e quem ela ainda não é, uma hora pode ser.

 

Depois da morte da barata, há um processo de rendição. E, na rendição, há fluxo. Por mais que seja singelo e, talvez, rápido demais quando se dá conta, pois tudo neste livro me evocou emoções de perda e de transição. De integração também, pois todo o ambiente se torna parte dela. Toda a verdade do choque inesperado se encapsula por dentro. É nessa integração que também é possível seguir, pois não se nega. Admite-se e se acopla. G.H., provavelmente, não terminou de elaborar depois da epifania. Largando um luto que também é questionável.

 

Dizem que a morte tem seu jeito de inspirar mais vida. Não sei. Pode ser. Eu mesma me vejo em um momento que quero sentir que vivo e quero viver diferente, sem contaminações externas. Até isso acontecer, é preciso continuar se movendo, trabalhar nesse outro mundo como essa nova pessoa. Desconhecida. Que quer vivenciar a própria história desse ponto de alta revelação e repartição.

 

Considero que G.H. encontrou a mulher que deve ser. Mesmo que ela ache que não a encontrou. Creio que há uma versão esquecida da gente e que foi interrompida pelo mundo. Por outros desdobramentos. A versão da história de origem que, para várias pessoas, sequer deu sinal de pulso ainda. No livro, uma nova mulher sai do quarto pronta pra próxima, crente de que aquele mundo não depende dela. Não para ser alguém em um meio nada neutro.

 

A morte interior é a carta da neutralidade. Um interior que evoca a nada e isso retorna para a entrevista de Clarice, onde ela afirma que escreve para se salvar. Para sentir e transbordar. Feito isso, ela se sente oca. E assim se aguarda outras informações para continuar tirando algo de dentro. Hoje, incluo o silêncio. O silêncio retumba vazio e pode ter mais a dizer que as ruminações da própria mente. Dentro de um quarto. O silêncio é contemplação para capturar o único palpitar que interessa: o retorno da própria existência.

 

Tudo que senti, além da perda de G.H. sobre a G.H. da fotografia, foi um renascimento que soou mais como nascimento. Identifico-me, especialmente porque foi o único processo que me acostumei. Contudo, sequer tive oportunidade ainda de reagir depois desse nascimento. Sério, nunca pensei que me sentiria como uma protagonista de Clarice em vários instantes. Principalmente quando, no período que aconteceu a leitura, eu não tinha sentado com nada do que me aconteceu. Nem muito menos estava envolvida com as coisas que costumava adorar (e prezo muito essa questão de identificação, seja com personagens, textos ou um enredo). Nem estava dentro de mim.

 

Nem sabia quem era Clarice.

 

No depois de G.H., há a alegria difícil. Uma que entendi ser regada de culpa pela própria liberdade. Pela própria atitude de parar de ser sua própria refém e refém do mundo organizado. Falar de alegria, especialmente quando se é sobrevivente de traumas, parece como validar as tragédias quando não é esse o propósito. Você pode, e deve, se sentir bem, pois os traumas continuarão a viver no organismo. Rendendo outros tipos de espasmos. Aceitar a alegria, mesmo que difícil, é se dar a oportunidade de ter outra narrativa e reduzir a influência dos acontecimentos.

 

Na leitura, G.H. mostrou a minha coleção de baratas. Não todas que eu preciso dar uma chinelada, mas as que eu precisava começar a dar umas chineladas em 2020 para sair do meu próprio transe. Para elaborar o que aconteceu e isso não traz a ordem de volta. Não como antes. É só o início de outra desorganização, a desmontagem para longe de choques inesperados e os efeitos colaterais. Sempre esperando que as coisas melhorem ou suavizem por dentro.

 

Há tantas fases. Fases que G.H. passa em poucas páginas. Páginas intensas o suficiente para carregá-las no pensamento. Na vida real, o processo é tão longo. Há tantas ondas de angústia se entremeando sobre as questões de ser. O gosto forte do luto sobre coisas compreensíveis ou não. Sempre me vi como uma pessoa totalmente capaz de manter tudo sob controle. Crendo na possibilidade de antever até um iceberg. 2020/2021 aconteceram tão cheio de acontecimentos que ainda não processei totalmente. Mas já fiz o que me detive em 2020: rever os desdobramentos.

 

É difícil estabelecer uma confiança interna e tentar se reconhecer como outra pessoa entre tantos escombros. Sempre vem a questão de quem eu seria se nada tivesse acontecido. Sem necessariamente deixar tudo o que existiu. Porém, tento abraçar essa alegria difícil, pois há sim uma versão de mim mais humana fora de tudo isso. Ao contrário de G.H., minha jornada gerou catapultas que me desumanizaram. Nunca me vi como uma pessoa, com desejos e sonhos.

 

Os choques inesperados me tornaram inumana. Acreditando nos argumentos dos outros, nos ecos dos traumas, de me conformar com eventos ditos comuns da vida e que criaram uma versão de mim falsamente organizada. Eu mesma tive várias terceiras pernas, pois nunca soube como me deixar ser. Sem precisar ser inteira.

 

Eu insisti nessas pernas enquanto G.H. decidiu de pronto abrir mão delas. Mesmo sem ter consciência dessa insistência, até notar que é preciso aprender com o desequilíbrio. Para voltar à tona, a morte tinha que ser completa para assim renascer. Não fica claro o quanto mais ela abdicou. Naquelas horas no quarto, que a levaram para vários cantos no ápice do delírio do choque de matar a barata, a personagem declinou o suficiente para aquele instante. Não na tentativa de se organizar, mas para definitivamente ser desorganizada, livre do ego, e ver o que acontece.

 

Uma alegria difícil porque envolve uma margem de luto. O luto de um eu que se foi, mas que existe em fotografias e no imaginário de outras pessoas. Um eu que não é mais nem dela e nem do mundo – que nunca discutiu sobre ela ser de tal forma. Naquele ambiente, a personagem realizou o quanto a organização a poupou de se ver de verdade.

 

E vem o vômito. A expurgação final após provar a gosma da barata. Que direciona ao que ela despreza por dentro. É a limpeza, mais impactante que dar um mergulho na piscina, como acontece direto em filmes adolescentes. Tornando o quarto um ambiente neutro, onde pulsa o atípico silêncio que ecoa sem esclarecer o que deseja.

 

É preciso se mover. De dentro pra fora. Esperar que a alegria difícil se torne mais fácil. Um hábito livre de culpa.

 

Concluindo

 

“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas.”

 

Mil anos sem escrever um texto longo e achei que tinha superado essa fase.

 

Claramente não. Mas essa parte é a conclusão de tudo.

 

Se há algo que guardo de coração é uma afirmação que minha analista me disse uma vez que contei que assistia certas coisas no intento de me “machucar mais”. Como me expor a gatilhos. Só que ela me disse que ver essas coisas é uma forma de elaborar meus sintomas. Validar as emoções que não entendo e que são compreensíveis pelo olhar de uma série ou de um livro ou de uma música. O que eu achava que era escapismo de autopunição, nada mais era que outra forma de me pôr à tona. De expurgar para voltar à vida. Inalar e exalar.

 

A Paixão Segundo G.H. chegou em minhas mãos em um instante de trabalhar outros sintomas, como um dia aconteceu enquanto via Jessica Jones e lia Jane Eyre. Uma por escolha de afogar na bad (???). Outra porque eu atravessava a verdade de que não aguentava mais os mitos que as pessoas (ainda) carregavam sobre mim e que desmontei em alguns meses de tratamento psicológico. G.H. entra nesse hall de cutucar sintomas e ela não exigiu nada de mim. Sinto que exigi mais dela. Que ficasse e me contasse mais sobre o que descobriu naquela confusão.

 

Este livro me amparou inesperadamente depois de meses me sentindo errada. Sozinha na minha própria desorganização e no meu próprio silêncio. A adulta triste e solitária em meu quarto, sem poder ir a canto algum para espairecer por conta da pandemia. Restando eu e minhas conjecturas que tento elaborar por meio da escrita, já que minha mente é um ninho de baratas. Creio que poderia ter me sentido triste, mas lembrei do suspiro de alívio. Um direcionado ao fato de não querer mais a vida de antes e quem fui antes. Mas não entendo esta vida e quem sou agora.

 

A personagem poderia ter me dado tristeza, algumas partes meus olhos chegaram a suar, mas, no fim, encontrei uma mulher que assentou minhas dificuldades de até mesmo aceitar a alegria difícil e a confiança esquisita que me abordou em fins de 2020 (ao ponto de eu ter publicado meu primeiro conto para externar tudo que houve). Só não abracei isso ainda, pois atravesso vários funerais. Ainda estou naquela parte de recuperar o senso enquanto a confiança tenta desabrochar. É confuso. Porém, todas as vezes que abri este livro, foi como convidá-la para contar seu acontecimento enquanto eu propriamente analisava minha situação dentro do meu quarto. Fez valer, porque eu precisava das exatas 175 páginas para encontrar uma nova porta de saída.

 

Há sempre uma saída, mesmo quando a emoção mais forte é a estranheza sobre a vida. É algo que preciso acreditar, especialmente diante do meu desejo de viver melhor. De merecer mais. O que soa como vingança depois de ter perdido tanto, mas choques inesperados também rebatem em sistemas de sobrevivência que pessoas com trauma organizam, sem perceberem. É onde se esconde desejos. É onde se esconde o luto de perdas em função do que aconteceu. É onde está o gancho para tentar superar e seguir.

 

Na abertura do livro, há uma nota de Clarice. Lá, ela diz que espera que quem ler esta obra tenha um pouco de alma. Uma alma já formada. Um elemento também presente no livro, que cria seu próprio ritmo quando G.H. se apoia no divino para tentar ter mais discernimento sobre o choque inesperado. Não sei se o sofrimento é parte da formação de alma. Não romantizo o aprender sofrendo, pois, como disse lá em cima, eu gostaria que o amadurecimento e o aprendizado acontecessem sem tragédias. Contudo, a tragédia é um choque inesperado e desmonta por meio do sofrimento.

 

Não sei se minha alma é formada, mas sinto que compreendi G.H.. Tão bem a meu modo, visto que essa desconfiguração do ser e não saber mais quem se é me é pessoal. Coisas que tenho notado do último ano pra cá, pois o impacto de tudo que vivi, e tenho vivido, pede para matar uma barata todo dia. E, bom, é exaustivo pra cacete!

 

Foi fantástico encontrar uma obra que me tocasse certeiramente, depois de tanto tempo sem ler. No momento que eu precisava de um pouco de orientação para sair de dentro de mim, como outros títulos adorados meus – O Ano da Leitura Mágica e O Apanhador no Campo de Centeio. Este de Clarice já promete uma relida. Principalmente por ser um tipo de livro que sempre terá um entendimento diferente, conforme o que você vive, as emoções do momento, ou o tanto de alma formada em dado instante. Em 2020, eu começava a ver os escombros e precisava de luz para retornar.

 

Confesso que fiquei um pouco surpreendida de ter gostado tanto de A Paixão Segundo G.H., apesar de alguns detalhes problemáticos, pois, honestamente, não esperava ausência de pensamentos e comportamentos da época. A não ser confirmar o que eu supostamente já sabia: que seria um parto ultrapassar páginas claricianas com uma linguagem difícil de absorver no ato de uma história complexa. Mas o laudo é: talvez, Clarice não seja tão cult.

 

E pode ser que eu não seja tão burra como acho que sou de vez em quando. Autoestima é #tudo! Mas é fato que sempre ouvi dizer que ler Clarice é complicado e foi uma decisão esbaforida pegar este livro quando eu estava a mil anos sem ler. Ano passado, perdi todo meu foco, embora em 2021 eu tenha engatado a fase de recuperação (e não sei mais quais livros me interessam). Esta obra foi tão assertiva para mim quanto o filme Midsommar (que entrou na minha vida em 2020 para mostrar uns lances sobre relações). O olhar intimista sobre deixar de existir, a dor, voltar a existir de outra forma, e como você se desfaz para alcançar uma confiança desnorteante, me agradou bastante.

 

(…)

Na entrevista que me inspirou a ler este livro, Clarice disse que entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir. De entrar em contato. E G.H. é tudo sobre contato, experiência, ver tudo da sua perspectiva. Deixar-se levar e dar espaço de escuta. Sinto que ainda não saí do quarto dela, pois aquele quarto também é meu. Mas, devagar, sinto que volto a respirar um pouco adequadamente. A perceber que nunca estive sozinha e que ainda posso me identificar com histórias distantes, especialmente as que traduzem melhor que eu a minha vida.

 

Clarice estava correta sobre o sentir, porque sinto antes de raciocinar e foi difícil soltar a mão de G.H.. Acho que ainda a seguro para me lembrar de que está tudo bem. Que eu consigo ordenar a desorientação e posso seguir desorganizada. Sair do quarto. Acima de tudo, adiante. Uma hora a vida se encaixa em mim de novo e torço para que seja uma vida melhor. Livre para eu poder dançar um pouco. Feliz ou infelizmente, às vezes, é a esperança que resta.

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Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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