03mar
Arquivado em: Notas de Campo

PRELÚDIO

 

Outro ano. Praticamente os mesmos meses. Nada efetivamente se alterou.

 

Ainda escrevo em cima de uma ferida aberta — que se tornou várias feridas abertas. Sigo consciente de que não preciso escrever sobre alegrias o tempo todo — e tem tido poucas alegrias. Alegria ainda não é a emoção que me acompanha (na maior parte do tempo) e acredito que esse é outro e único ponto que nos coloca na mesma página (porque o mundo continua um completo mar de tragédias e de ansiedades). Continuo a sentir que nada faz sentido para mim, mas preciso fazer o que faz sentido por mim. Nem que seja falar sobre tristezas.

 

Ou das minhas tentativas de (re)descobrir quem sou e trazer de volta o que me dá vontade de viver.

 

Emergi, mas submergi. Talvez, mais fundo que das últimas vezes, mas não me surpreendo mais. As novidades é que encontrei um pouco de vida no início deste ano. De alegria. Ainda não estou inteira, mas, enquanto isso, escrevo por ainda não ter ideia de onde começar a (re)viver… Embora agora eu tenha algumas pistas.

 

Tento exercitar a aceitação sobre meus constantes naufrágios enquanto espero a coragem para saltar do abismo que saltei em 2019. Um salto que começou a me dar os primeiros sabores de liberdade sobre determinados assuntos traumáticos. Período em que achei que, finalmente, seguiria adiante. Porém, 2020 aconteceu e me puxou de volta ao ponto que decidi nunca mais me acomodar. Voltei a ser refém de mim mesma e agora só me resta uma contagem regressiva diferente: o dia que sairei da casa que vivo em definitivo para começar a viver fora de mim.

 

… Não sei se este ainda é meu tempo. Mas sei que é um outro depois.

 

(…)

 

Sinto que este outro depois começou a se manifestar de verdade em fins de janeiro. Quando desmoronei de um jeito que me pareceu sem retorno. Mais fundo, me instigando a deixar de existir a todo custo. Uma angústia, pensamentos repetitivos, buscas insanas na internet e argumentos trevosos. Vi-me renunciando a tudo, mas essa é a praxe. É esperado eu sempre fazer isso, como se fosse a minha forma particular de me machucar e perder a cabeça. Porém, daquela vez, parecia real. Muito mais. Dentro de uma mente que tanto rumina, não havia uma solução aprazível.

 

Senti o convencimento sobre deixar de existir mais palpável. Formigando nas pontas dos dedos. Calculando a rota na mente, mas sempre me falta a coragem do impulso. Talvez, a coragem se aconchegue em mim quando eu parar de reconhecer o desespero — a faca de dois gumes que carrego diariamente. Há dias que o desespero é a motivação para me colocar em contato com as palavras. Há dias que o desespero insiste em dizer que a única saída é desaparecer.

 

Sempre penso que será a última vez que as nuvens acinzentadas afogarão meu cérebro. Eu mesma não aguento mais vivenciar esse tipo de história. Até mesmo contá-la. Eu mesma não aguento mais me observar na mesma situação. Porém, não há muito que eu possa fazer quando o tempo fecha. Fico presa em um lugar dolorido, dizendo e pensando coisas nocivas, esperando a hora de me soltar. Quando tudo clareia de novo, é como se mil anos tivessem se passado e perco mais das minhas noções. Há vergonha, especialmente das coisas que costumo dizer nesses períodos de puro breu. Há certo alívio em um novo retorno, pois reencontro a confiança para tentar não cair no mesmo ciclo. Além disso, ganho a mínima certeza de que posso me virar sem ir tão fundo e tentar não abdicar da minha vida e do que gosto de fazer.

 

É uma roleta-russa também. Quero cumprir a promessa de viver a vida que não tive, mas, igualmente, sumir soa promissor. Ainda mais quando o desespero vem em ondas e vários dias são uma nova canção de angústia.

 

Sobreviventes de trauma perdem a bateria da paciência. Eu já estou no meu limite.

 

I.

 

O irônico é que caí de novo em completo breu quando experienciei a normalidade da vida externa.

 

Não da típica forma de ir ao mercado ou ao restaurante. Dois dias úteis de trabalho. Uma feira. De início, não vi como esse evento poderia ser útil, pois vivenciei o conflito inicial. Ao mesmo tempo que sabia que me faria bem sair da masmorra que vivo atualmente, eu também não queria ficar exposta, nem conversar, nem fingir que entendo e nem passar pelas ansiedades do compromisso. É quando entendo que esse modelo de emprego, definitivamente, não é para mim. Gosto da habilidade de escolher. Se me fosse dada a chance, eu diria que não iria. Simples e indolor…

 

… Esse comportamento é equivalente à lide ou saia correndo.

 

Eu já me encontrava em agonia sobre o assunto antes da virada do ano. Depois, vieram semanas de agonia, porque eu não queria ir. Só de pensar nisso à época, a ansiedade corroía meus ossos. Comecei a ter sonhos de brigas. Pensei sobre a insanidade de ter que ficar dois dias dentro de um ambiente fechado em meio ao surto de gripe e Ômicron, embora isso não me preocupasse em comparação a estar no meio de pessoas estranhas depois de dois anos.

 

Não sei definir se era medo, mas havia relutância de querer sair. De lidar com um ambiente que seria superestimulado para quem está em “home office” desde fins de 2019. Logo, passei pelo estresse de me imaginar no modo enfrentar a hora de sair e provar que os sintomas do depois de tudo que aconteceu não comandam minha vida. Nessas horas que vejo o quanto tudo me afetou, ao ponto de querer ficar enfiada no lugar que detesto. Que não impulsiona o melhor de mim e tenho uma maior quantidade de péssimas lembranças. Isso me trouxe revelações sobre a necessidade constante de me proteger dos jeitos mais errados, como escolher ficar em casa. Impedindo-me de ter novas experiências para exalar e por achar que fico melhor só. Comportamento que consegui alterar e me desvencilhar sempre que possível em 2018-2019.

 

Aliás, essa prévia despertou a falta da minha versão passada, nascida na timeline 2018-2019, e que dizia vários sim. Ela começara a compreender como os traumas nos privaram da vida externa. Como o nosso tipo de proteção também envolvia uma série de respostas traumáticas. Dando um falso senso de vida, pois sobrevivemos ao redor da nossa coleção de dores sem nomes e elaborações. Tudo pulsou do lado de dentro e não ensinou nada além de achar que estar só era melhor. Dentro do quarto, onde tudo é falsamente inatingível. Tendo a imaginação como espaço de fuga.

 

Ao contrário desta versão que vos escreve que queria dizer não ao evento. Sem pestanejar. Chegou uma hora que comecei a forçar um medo, mas sobre o aumento das contaminações. Eu sabia que a emoção era falsa, mas era como se eu precisasse de um motivo gigantesco para discutir as chances de não ir. Não era uma emoção real, porque não vivenciei a pandemia.  Não diretamente. Eu não tenho as mesmas memórias que várias pessoas, pois minha quarentena foi conturbada com violência. Isso me tirou da narrativa principal e meu cérebro nem sequer a aderiu. Algo que particularmente me incomoda, já que meu universo alternativo nunca ouviu falar do Coronavírus.

 

Não vivenciei os altos e baixos da pandemia. Nem sequer fiz bolos e tirei fotos do céu sem poluição (e eu quis muito!). O que não apaga o fato de que é importante se cuidar e não ser contaminada (as vacinas estão em dia e aguardo a dose de reforço). No entanto, houve o questionamento óbvio sobre todo mundo ter perdido o tato para realizar uma feira em um novo pico. Uma vez ultrapassado isso, percebi que, realmente, esse assunto nunca será meu medo prioritário. Fui consumida por outros medos que levarão tempo para sair do meu organismo.

 

A razão morava em quebrar um tipo de isolamento que existe desde 2019, somado ao fato de que eu não tinha a menor ideia de como me comportar. Quando começou o isolamento social, eu já estava isolada em casa. Assim, logo me veio os questionamentos sobre ainda ser capaz de pegar um ônibus (e se o ônibus passava pelo mesmo ponto), se tinha roupa para isso, se eu ainda conseguiria interagir (como se nada tivesse acontecido) e se eu seguraria bem certos ranços.

 

Como se soubesse que eu precisava de um aquecimento, já que sou a pessoa do preparo psicológico com antecedência, um compromisso residencial surgiu dias antes dessa saideira a trabalho. A primeira coisa que me ocorreu foi não apostar no look mercado de sempre (calça legging com camiseta), mesmo que um Uber me bastasse para chegar ao local. Tentei me “arrumar como gente”. Passei até maquiagem para me sentir adequada. A alegria veio quando as roupas escolhidas couberam em mim, mas pareceram estranhas. Pareciam de outra pessoa. Não sabia se gostava. No entanto, me senti confortável. Impasse 1 resolvido, já que venci o pavor de revisitar meu guarda-roupa.

 

Eu saí outras vezes para compromissos residenciais do ano passado pra cá, mas deixei de comparecer ao ritual de beleza. Como me dedicava para ir trabalhar (porque era a única parte realmente boa, visto que não gostava de estar no ambiente de trabalho). A pandemia transformou qualquer saída como uma ida ao mercado. Qualquer look é look e tudo bem meu rosto parecer mais abatido que uma folha de sulfite amarela. O máximo é lavar o cabelo e torcer para não parecer esdrúxula. 2020 acabou com o mínimo de autoestima que cultivei nos anos anteriores, mas algo estalou durante essa minha arrumação (que pareceu natural): me ver pronta para sair sozinha.

 

Sair sozinha foi uma experiência que cultivei entre 2018-2019. Uma grande novidade, pois vivia em mim esse receio horrível de passear sem companhia. Uma das minhas maiores evoluções que se esvaiu de mim ao longo do ritual de beleza para o compromisso residencial. Com força, pois, nas outras vezes, não dei atenção, já que eu saía do ambiente traumático com pressa, desligada e assombrada. Não que isso tenha melhorado, mas, nesse dia, entendi que desfoquei dos detalhes que importam. Como sair ser algo positivo. Uma proposta que sempre me deixou satisfeita.

 

Essa foi uma das experiências que mais senti necessidade em 2020 para processar minhas emoções. Sair da minha cabeça. Minha analista sempre me recomendava isso e se tornou um hábito em 2018-2019. Os entretempos que, inclusive, eu estava com a terapia em dia. Junto comigo, sempre estava Taylor Swift, tocando nos fones e agora mal consigo ouvir o timbre dela. A pandemia impediu essa minha fuga e sei que isso me prejudicou, porque nada do que eu sentia, e ainda sinto, encontrou espaço de evasão. Tudo virou um acúmulo interno. Um lixo mental, emocional e espiritual. Transformando minhas quedas no breu mais rápidas e as estadias mais longas.

 

Aliando-se a emoções complexas, como raiva e ressentimento de ter me perdido em função de uma nova tragédia. Quem era livre, voltou a ser refém, apagada da vida anterior. Perdendo toda a energia para os traumas.

 

E o que mais revolta é dizer: de novo.

 

Todo esse ritual de beleza foi como receber spoilers dos dois dias de trabalho externo programados no futuro. Eu acordaria, me arrumaria e teria a oportunidade de ficar o dia todo fora de casa. Aos poucos, meu cérebro começou a entender que não seria tão mal assim. Eu conseguiria me virar apesar do problema maior ser lidar com pessoas.

 

O compromisso residencial me fez notar o quanto preciso voltar a sair sozinha. Em doses. E estar bem presente, especialmente para não reassumir o espaço de medo que um dia foi o ato de simplesmente sair (eu sempre ia embora antes do cair da escuridão) e nem angustiar sobre quando um evento de liberdade acontecerá de novo.

 

(…)

 

Naquele dia de compromisso residencial, eu dei zoom na atitude de chamar o Uber e só ir. Às vezes, o medo só está na mente e o medo se dissipou. Havia vento, paisagem, a liberdade para camuflar a inquietação. A melhor parte é que quem me norteava pela liberdade era uma motorista, o que me deixou mais à vontade para apenas curtir.

 

Quando voltei para a masmorra que vivo, a parte decente da minha mente confabulou uma história melhor. Seria bom enfrentar os dois dias de trabalho. Eu só adicionaria mais detalhes: colocaria os fones de ouvido para me sentir segura, iria de ônibus e teria a chance de emendar uma visita ao shopping.

 

A pandemia trouxe essa habilidade geral de esquecer o que foi feito em anos passados. Esqueci-me de que já tinha ido nessa feira, justamente em 2020. Meu diário me contou. Não era nada novo. Porém, depois de anos, pareceu que sim. Parecia uma situação de começar em um primeiro emprego e você entrar no exercício da paciência. Não foi na paciência que me ancorei, mas no encontro do final de semana que me deu coragem e diminuiu as preocupações.

 

Fiquei animada. Ao menos, no que condizia sumir de dentro da masmorra que vivo por muitas horas.

 

(…)

 

Dois dias de trabalho externo. Calor estalando. O mesmo look de sábado. Perder dois ônibus de uma vez. Parecia um capítulo esquecido dos anos antes da pandemia. Estranho é pensar agora que torci para um cancelamento em cima da hora. Apesar desse desejo, impulsionado pelo fato de detestar o domingo em reflexo de ir trabalhar na segunda, eu estava pronta. Meu corpo lembrava de como caminhar. Minha mente sabia que Taylor Swift me embalaria.

 

Uma dança antiga que recordei de coração.

 

A normalidade se apresentou pela primeira vez depois de dois anos e se encaixou certinho em um dos vazios que existe dentro de mim. Em algum instante, meu tempo naquele presente se desmembrou. Fui deixada para trás e me tornei mera telespectadora da versão passada de mim que achei que morrera em 2020. A que me ensinou a sair sozinha, escolher as roupas mais legais, botar uma maquiagem, selecionar as melhores da Taylor e se levar ao shopping.

 

Outra melhor parte de mim que se revelou assim que comecei a tirar vários escombros de traumas passados entre 2018-2019. Uma versão confiante, a da bagagem vazia, com uma estante cheia de oportunidades para inserir novas histórias. A versão que pulou do abismo para conquistar a liberdade, para não repetir o enredo, e que acabou capturada sem sequer iniciar os primeiros passos. Ela naufragou e achei que a tinha perdido em definitivo. Por vários meses, pensei que ela surgira em vão, pois toda sua programação de viver caiu por terra no segundo seguinte.

 

O naufrágio. Apagando todas as luzes recém-descobertas.

 

Uma versão que aprendeu a sair o mais rápido possível para longe de tudo que nos sufoca. Longe dos pensamentos intrusivos. Ela só não era muito hábil em sair de perto da morte, porque, ao desvendar os traumas, vem um período de elaboração que pode ser difícil também. Arrancar o esparadrapo tem um jeito próprio de doer. E doeu, junto a outros hábitos limitantes que se foram enquanto outros ainda pulsam em nosso organismo. Como a autossabotagem.

 

Vê-la nortear o caminho foi como se nada da nossa vida tivesse se alterado drasticamente. Havia um senso de familiaridade, com direito a sorrir várias vezes por trás da máscara. Lembrei-me de como era me sentir bem como há muito tempo não me sentia. Absolutamente minha. Como se não houvesse enormes preocupações.

 

Sem prometer, o primeiro dia de trabalho devolveu um pedaço de mim que perdi entre novos escombros. Uma versão que contou com uma série de funerais quando reli os diários de 2018-2019. Quando toquei no que ela gostava de fazer e de usar. Quando vi as fotos que nem sequer consigo me reconhecer nelas. Revisitas e ondas de tristeza. Muito silêncio. Era um tempo de sobriedade.

 

Eu tinha o convencimento de que ela se fora e isso impulsionou vários rodopios. Perdi o senso de mim. Dos meus gostos. Ela foi interrompida na largada, nem se acomodou em um banco quando chegou a hora do embarque. 2020 abriu uma nova cratera entre os abismos que, pela milésima vez, ela teria que escalar de novo. Na companhia de uma versão que, às vezes, até ela detesta. A versão que vos escreve. A versão traumatizada dita como permanente desde o início da nossa origem.

 

O segundo dia me fez lembrar de que tenho um corpo. Algo que acontecera no dia anterior, pois cheguei na masmorra que vivo com a minha cabeça explodindo de dor. O evento era daqueles de ficar em pé o dia todo e a sedentária em mim sentiu a exaustão em curto espaço de tempo. As solas dos meus pés estavam doloridas e queimavam. Sentia-me meio lerda também, porque deitei cedo demais e parecia que o efeito do remédio nem tinha passado.

 

Contagem regressiva para acabar. O momento feliz foi saber que não seria necessário comparecer ao 3º dia de feira. Naquele ínfimo instante, a revelação rendeu um motivo a mais para sorrir, pois, apesar do 2º dia ser a última chance de ir ao shopping depois, essa experiência entra na categoria de que minha vida poderia tranquilamente passar sem. Um alívio — que não me alertou sobre o dia seguinte, onde a mesma sensação sumiria e o breu cairia sobre mim brutalmente.

 

Para minha sorte, o segundo dia foi mais agitado e o marco, que nem tinha prestado atenção no dia anterior, foi sentar na praça de alimentação para almoçar sozinha. Antes, isso também gerava emoções erráticas, como confirmar minha exclusão ou a antipatia (quando só sou introvertida e exausta demais para ficar de fofoca). Até que quebrei esse tabu e me lembrei dos dias bons da versão passada que resolvia do nada sair, pegar o cinema no horário dos idosos e comer algo depois. Provavelmente, um prato caprichado de macarrão e foi exatamente isso. Penne.

 

As horas passaram. Deu certo fingir que eu era a mesma pessoa de anos atrás, pois mantive o mínimo de conversa decente. Caiu um toró, o que prolongou um pouco a estadia no evento. Não houve desistência do propósito de prolongar a fuga da masmorra que vivo. A cada passo destemido, comecei a concluir que aquela versão do passado sabia como me assumir. Confabulando ideias diferentes para estender ao máximo a nossa liberdade em prazo de expiração.

 

Shopping. O entretenimento. O prolongamento da liberdade. Uma vez lá, essa versão de mim revelou que sabia o que fazer. Como alimentar a súbita saudade de tomar um café na Starbucks e comprar um Donut de doce de leite. Dane-se o calor do inferno até porque ar-condicionado é capaz de salvar pessoas que detestam o verão (e não detesto, o que não gosto é a sensação térmica). Isso aconteceu no primeiro dia. Tomei o café e guardei o Donut para o café do dia seguinte. Como antigamente. Acho que me ocorreu até o meme do nunca fui triste, mas a tristeza era o relógio que avisava a hora de voltar.

 

No segundo dia, saí convicta por um sorvete. Ultimamente, sorvete tem efeito calmante. Emenda nessa necessidade de ser livre. De ter um pouco de leveza. De ser um pouco infantil. O marco foi entrar na livraria e comprar livros desnecessários para prolongar o flerte com o vendedor (e não lembro do nome dele).

 

Ao menos, saí do shopping rindo. Como aquelas cenas de séries adolescentes em que duas amigas se dão os braços, apertam o passo e fazem chacota uma da cara da outra. Havia uma sensação de euforia. Satisfação. Trocando a química. Dentro do táxi, o viaduto, que sempre traz a sensação de estar na montanha-russa (nunca fui em uma). O vento forte, espanando tudo. De fundo, alguma música do Evermore e me dei conta de que deu para ouvir Taylor desde 1989 até o último álbum (excluindo as regravações), pois foi assim que começamos. O timbre dela não me incomodou.

 

A euforia foi diminuindo, porque a versão que vos escreve, que sobrevive entre quatro paredes e dança com o desespero entre as falhas da iluminação, foi despertando. Vi que o táxi me levava de volta para onde eu não queria estar. Minguando a liberdade a cada farol. Apagando, pouco a pouco, aquela versão de mim que eu não queria abrir mão. Queria ficar aconchegada a ela, mas senti seu último suspiro assim que a corrida terminou.

 

Ao menos, teve confiança renovada. Foram dias bons.

 

Foram dias que encontrei o que procurava: a versão anterior a essa que vos escreve, que achei que estava morta, entre meus escombros. Confesso que fiquei surpreendida, pois ela ainda parecia comigo. Assim como hábitos antigos, que sabemos de memória, ela irrompeu de mim e consumiu tudo o que podia. Como se soubesse do tempo limitado.

 

Na melhor das explicações, ela agiu como uma droga que aliviou a angústia e dois dias foram o suficiente para me viciar. Fazia muito tempo que não me sentia tão bem. Segura dentro de mim. Esperançosa com a possibilidade de haver mais ao que vivencio atualmente.

 

Até o dia seguinte acontecer. Essa versão boa de mim me deixou em estado de abstinência.

 

Eu queria ser ela de novo.

 

Acordei e pensei que imaginara tudo. Meu cérebro estava esgotado. Por um momento, pensei que era uma questão de ter doado muita energia e, como introvertida, eu precisaria de tempo para me recompor. Veio o segundo dia. O terceiro dia. O quarto dia. Rodopiando. Cada vez mais fundo. Não deu para controlar os níveis de tristeza, pois, mesmo que não falasse, a versão passada revelou que algo realmente falta dentro de mim. Eu mesma. Mas fujo de mim ao escolher dormir, comer demais, beber demais, falar de menos e querer sumir imediatamente.

 

Não veio revolta. Veio um novo desespero.

 

Nunca desejei tanto desaparecer. Tornou-se a inquietude daqueles dias depois do evento — e chega a ser mais confuso quando, antes de bater no fundo do poço de novo, eu tive outro dia bom, outro dia besta, dentro de um longo passeio de carro. A briga interna. Foi impossível racionalizar logicamente para me agarrar aos dias bons (já que agora os vejo com clareza e dá para se agarrar um pouco). Eu disparei ao meu encontro, no espaço comum de tristeza e me aconcheguei. A desesperança nunca foi tão palpável em meus sentidos também. Duramente, concluí que acabou.

 

Eu não conseguia mais brincar esse jogo. De ver que há uma vida lá fora e eu não estou nela.

 

Sequer sentindo que vivo. Foi muito doloroso realizar que, depois daqueles dias, eu ainda estava no mesmo lugar. Sentindo as mesmas coisas ruins. Temendo qualquer nuance de esperança, porque o desespero informa que não há mais saída. Que eu devo me conformar e esperar para ver se sumo logo de uma vez. Alguns resultados de 2020 e que, às vezes, abrem o caminho de retorno para as experiências positivas que importam. Turbinando uma nova confiança sobre ser capaz de lidar melhor em dias de nuvens acinzentadas apagando as claridades. A repetição de 2021, e de um intercalar de outros anos, que conflita no meu ato de colocar uma afirmação sabotadora em seguida.

 

Duvidando que eu consigo. Abrindo para emoções pesarosas que me roubam mais do tempo que já se foi. Colocando-me de volta na rota com a ansiedade de correr. Um ciclo que só muda a causa. Agora, a cobiça do normal.

 

Tudo trouxe a sensação de voltar para casa depois do playground. Você quer ficar mais no playground, ainda mais se você reconhece que a própria casa não é um local bacana de se estar. Detalhe que me assombra desde a adolescência, pois sempre vinha uma canção fúnebre no instante em que encarava a estrutura do prédio. Era um completo pesadelo.

 

Agora, eu vejo que foi importante sentir a vida além da minha janela. Meu corpo teve a chance de sentir outro tipo de exaustão. Minha mente foi medicada com doses de genuína alegria. Meu coração parecia meu e não esparsado em preocupações que não são minhas. O resultado era para ser o equilíbrio. A âncora era para ser o meu reviver, pois recebi a resposta que tanto quis há dois anos: ainda sou fácil de encontrar. A partir disso, eu deveria começar outro exercício: abraçar esses dias bons para me revigorar, alimentar a esperança, porque eu vi que ainda existo.

 

Mas há essa parte de mim que escolhe morrer e escolhi morrer de novo.

 

Veio a espera.

 

II.

 

Penso que esses dois dias bons me deixaram confusa, porque fazia anos que não os tinha. O mundo pesou. Voltei a me sentir engaiolada. Sufocando. A notícia de não ter um 3º dia me deixou infeliz. Ao menos, do ponto de vista de ter uma razão para sair, pois, em qualquer realidade, eu tentaria encontrar meios para não comparecer ao evento.

 

(…)

 

Os dias passaram e a única razão de sair da cama foi o trabalho remoto. Nada positivo, porque essa interação se transformou em outra fonte extra de estresse para quem já tem estresse acumulado de dois anos. Queria ter atestado de um mês, mas só sobrou a escolha de cumprir o que podia enquanto o ácido de pensamentos negativos afetava a potência mínima do meu cérebro. Escaldando o que espero religiosamente no fim de toda sexta: o espaço para fazer nada.

 

Ter que comparecer à realidade nessa situação me deixa mais reativa e pra baixo. Tudo se transforma em uma perturbação exagerada e me dá vontade de enfiar a cara na parede. Mas foi em um desses dias que veio o sussurro de uma voz amigável, rara na minha mente, confidenciando sobre o tempo de espera. Percebi rápido, pois havia sentido. Tudo que me aconteceu nos últimos dois anos me deixou em modo alarmado e urgente para mudar a minha realidade. Agora, vejo que essa era uma das lições que eu precisava compreender de uma vez por todas.

 

Esperar para parar de ir tão fundo no meu caos emocional. Minha analista dizia que me afogo nas emoções e que era necessário encontrar formas de não me entregar tanto assim. Uma delas foi criar uma rotina, mas, desde a pandemia, tento me acertar em algum tipo de movimento meio que a força. Para recuperar o senso de normalidade.

 

No meio da espera, novas conjecturas vieram. A verdade de que me tomaram tanto que não sobrou nada para mim. Por não sobrar nada, não há fôlego. Nem vontade. Tornando tudo mais difícil, especialmente quando vejo que preciso me esforçar o dobro para realizar o mínimo (e me culpo de ter feito o mínimo). Pensando no quanto seria bom fazer nada enquanto o dinheiro entra magicamente na conta. Seria pedir muito? Penso que não e adoraria essa vitória.

 

Realmente, não sobrou muita coisa, porque eu tenho que tirar das entranhas algo que continue a me mover. Os nervos do meu cérebro vibram atrás de soluções. Eu tenho que inventar as âncoras para me manter na superfície e consigo. A parte difícil é me manter junto a elas. Como hoje tento manter uma rotina de skincare.

 

No meio dos dias de skincare, uma decisão muito natural, já que o autocuidado pululou na minha cabeça no ano passado ao me dar por mim que nunca me cuidei como uma pessoa que merece cuidado, os dias clarearam. Foi a primeira ideia de reação que tive após os dias de nuvens acinzentadas. O tempo começou a abrir, em doses lentas e quase imperceptíveis, e logo me veio à mente algo que li em algum lugar e que ficou marcado em mim: questionar meus desejos. Como me perguntar se quero acordar cedinho para tomar café da manhã, escrever um pouco ou só esperar.

 

Isso revelou a razão sobre o tempo de espera: eu precisava parar de me cobrar a melhora em curto espaço de tempo. Como também compreender que preciso me acalmar. Que a vida ainda existe. Não está fora do meu alcance e posso dançar com ela quando quiser. Acima de tudo: que eu ainda sou fácil de encontrar e que preciso parar de tocar nas linhas que foram desenvolvidas por várias versões de mim como se fosse um funeral. Elas existiram. Elas são a referência. Os lembretes de que um dia eu fui melhor. Eu estava bem. E que posso conseguir me inteirar de novo.

 

Como diz Taylor Swift em happiness, eu não conheço meu novo eu e ninguém conhece o meu novo eu também. Isso me frustra e me atordoa, porque não consigo ter a visão 360º de como me ajudar. E não é para ter essa visão 360º. Não tem como e é algo que discuto todos os dias para não navegar nas ondas de angústia. Para tentar minimizar o impacto da tristeza — que hoje escolhi chamar só de tristeza que é para ser tão natural quanto a alegria.

 

Quando voltei minimamente à superfície, realmente, eu não conseguia me ajudar e nem prolongar o cuidado quando parecia certo. Nem encontrar referências que me motivassem. Não havia ponto de partida, nem ao criar um em alguma data, de algum mês. Tudo parecia uma questão urgente, especialmente porque preciso sair da masmorra que vivo. E eu não queria, como ainda não quero, mais o rótulo de sobrevivente. Percebi que isso me é totalmente limitador.

 

Sobreviver requer mais esforços e eu alimentei isso, sem notar, por décadas.

 

Eu quero viver daqui em diante.

 

No tempo de espera, há a interrupção para diminuir um pouco o sofrimento emocional, as crises existenciais e o desgaste mental. Questionar meus desejos é o mesmo que vasculhar sobre o que preciso agora e não imediatamente. Esperar cancela o futuro, que lancei nas mãos de forças superiores no meu último voto de confiança.

 

Esperar e questionar são os resultados desses dois dias bons e que, infelizmente, me encontraram depois de dias horrendos. Dizendo-me para largar mão de controlar a realidade, de me controlar em cronogramas. Ainda dá vontade de sumir pelo desespero de que as coisas não estão mudando depressa, mas tento me manter entre as âncoras de quem fui e das notas de campo espalhadas em vários cadernos sobre como me salvar após outra tragédia. Ainda há conflitos, pois não há nada que eu mais queira no momento que sair do ambiente onde o trauma aconteceu.

 

Eu não morri totalmente. Embora camadas de mim continuem a morrer. Seja porque preciso seguir sem elas. Seja porque elas precisam ser desligadas para seguir adiante. Creio que foi aí que vi o início do meu outro depois e tenho medo de anunciar em voz alta, em texto pronto, porque aprendi tão lealmente a colocar uma afirmação sabotadora em seguida. Como dizer que começo hoje para amanhã estar no breu de novo. Não tenho medo da falha, não como antes, porque 2020 transmutou medos anteriores para representarem outros tipos que enregelam meus ossos.

 

Equilíbrio. Esse era o intuito de tudo. De maneira que a versão bonita não derrube a horrorosa e vice-versa. Uma precisa da outra. E, na enquete diária comigo mesma, se abriu espaço para um pouco de esperança de que eu consigo melhorar, pois tomo de volta a habilidade de escolher e um pouco do senso de autoridade sobre a minha vida.

 

Houve essa decisão natural de ser positivamente surpreendida enquanto faço o que posso, com o tempo que tenho e dar um jeito de espiritualizar isso. Enganando meu cérebro para me sentir menos confusa e para que ele não tome muita consciência do que faço para não me sabotar. Pode ser outra forma de fluir, pois não há muito que eu possa fazer a não ser tentar enquanto espero. Enquanto acredito sem apelar. Tentando botar limites na tristeza, ser alguém que me satisfaça. Me cuidar para não desenvolver doença psicossomática, algo que aconteceu dias depois da feira, instalando uma falsa gripe que não era vírus. Começou pela garganta. O local onde se acumula as minhas palavras e angústias.

 

Era só janeiro de 2022 e sigo tentando driblar o desespero de achar que não há saída.

 

(…)

 

Eu poderia dizer que seria melhor não ter saído, inventado uma desculpa, mas algumas experiências têm motivos misteriosos para acontecerem. Fato que impulsiona uma contradição particular, pois longe de mim tirar motivos positivos de tudo que vivenciei e que me afetou mental e emocionalmente. E ainda vivo nas reminiscências. Contudo, ainda dá para ter essa conversa quando se encaixa em situações banais e comuns, como ter sido necessário eu sair para lembrar da vida que eu tinha antes e honrava. Não com dor, mas com deslumbre. E que ainda vivo.

 

Quando se quer viver, o sobreviver se torna um fardo. Minha narrativa é muito mais sobre ser sobrevivente e virei o ano dizendo chega. Contudo, nada é como queremos. Só que esses dois dias de liberdade plena agora são fragmentos positivos de vida, que servem de exemplo de que, uma vez dentro da gaiola que me sufoca, não é necessário torná-los péssimas referências. São referências e lembretes de quem fui. Do que quero de verdade e a melhor parte de mim estará lá, pronta. Quando esses dias acabarem, o sofrimento não precisa ser o passo seguinte.

 

Porque sempre tem mais um pouco de vida. É aí que surge o que raramente tenho: paciência.

 

Eu entendi que não preciso correr para me sentir “normal”. “Normal” não sou há tempos. Também não preciso me esquivar tanto quando me sinto horrorosa. Dá para falar de coisas ruins, mesmo que, no segundo seguinte, me questione sobre a tamanha besteira de ser vulnerável. Nem colocar uma pressão psicológica de que só posso produzir quando estou contente para transparecer só o contentamento, quando não é essa a verdade que vejo e sinto o tempo todo — é raro e peculiar.

 

Apesar das incertezas e dos medos que ainda pulsam em todas as áreas do meu corpo, eu ainda quero viver tudo que nunca vivi. O que traz a verdade mais dura de admitir: sobreviver é a muleta que preciso agora. Isso mexe com toda minha pretensão de nunca mais ser a sobrevivente, pois sobreviver faço há anos. Reconhecer tudo que você foi capaz de construir em resposta traumática é desnorteante e gera uma sequência de lutos diferenciados. Era uma falsa proteção. Uma falsa vida. Onde tudo nesse sistema consome, te anula e não te dá ferramentas para melhorar.

 

É um incômodo que preciso lidar, porque essa versão que sobrevive não se arruma em casa, mas, às vezes, tenta e começou a tentar de novo. Ela não elabora looks do dia, mas tem aprendido a não depender de uma agenda. Sem aviso, se abriu uma relação entre mim e essa versão anterior que irrompeu para me dar o recado de que sou ela e ela sou eu. De que não precisamos começar de novo, pois o ponteiro da bússola não mudou o início do trajeto — que sequer começou. Tampouco o breu apagou as claridades antes descobertas, porque todas reagem meu sistema para continuar tentando.

 

O que torna desistir desconexo, mas o desistir vem de não querer mais lutar. Deixar o espaço aberto para ver o que acontece. Ainda mais quando cansei de me afogar. De estar melancólica. Eu não quero mais lutar para sobreviver quando sobreviver sempre gira em torno de alguma espécie de dor traumática que, na verdade, precisa ser eliminada. E eu tive essa lição, embora muitas vezes me esqueça. Na época que a terapia estava em dia.

 

De certo modo, estar com a terapia em dia me ensinou muito mais sobre viver. Não tem como apagar o percurso que me tirou do status de sobrevivência. Hoje, eu, como aquela versão melhor de mim, não quero saber das mesmas reações e atitudes que nos impulsionam a ser fisgadas como reféns em um só corpo.

 

(…)

 

Antes desses dois dias, em meio à faxina, me veio a lembrança do que demorou a aderir no meu cérebro, mas sempre agiu como uma lanterna. A intenção de 2020. Está acesa de novo, pois a história parte agora da interrupção — depois de dias escalando a mesma cratera para alcançar a superfície do mesmo abismo e saltar para o outro lado da narrativa. Como minha versão do passado fez. Prometendo preencher a bagagem e colocar as novidades nas estantes. Em plena vista para não me esquecer, pois, caso venha uma nova tragédia, terei um lugar bom para escapar e relembrar, ao mesmo tempo que cuido de antigas e novas cicatrizes. Endereço novas infiltrações. Dispenso o veneno das comportas para recuperar a ordem cronológica entre os tempos. Lido com os bancos vazios.

 

Agora sei que este ainda é meu tempo. O outro depois. E embarco. Adiante.

 

Esperando que os próximos meses sejam diferentes dos outros anos.

 

Imagem em destaque: Daniel Frese no Pexels

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Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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