15abr
Arquivado em: Notas de Campo

As coisas continuam confusas e apareço com um dilema comum: intenções com delay.

 

Para quem chega no blog agora, todo ano escolho uma frase ou uma palavra para me nortear por 365 dias. Vocês podem chamar de tema, se assim soar melhor. Há ideias que viram o ano comigo, mas, algumas vezes, atrasos acontecem. 2016 foi porque começara de mal a pior; 2017 foi resultado de um 2016 que nem sei porque aconteceu; 2019 foi porque resolvi de última hora por um layout novo e quis recomeçar no mês de aniversário. E 2022 é resultado de um 2020 e 2021 cheio das tragédias.

 

O tempo passou bastante e configurou minha distância deste blog. De um período longínquo em que eu postava constantemente, agora há esse pingado de posts que não me aproximam tanto deste espaço como antigamente. Nisso, me esqueci desse ritual que começou em 2013. E, quando me reencontrei com essa informação, me ocorreu de retomá-la este ano. Porém, não havia uma ideia da qual me identificasse. Como em 2019, que eu já sabia que 2020 seria sobre Novo Normal (e risos de nervoso, pois nada disso aconteceu). 2021 rendeu nada para mim a não ser mais naufrágios e afogamentos. Logo, nenhum insight para 2022 que começou meio solto, como 2017.

 

Esse ritual também adormeceu em função de uma desconexão profunda comigo mesma e com o mundo. Em 2019, eu já me sentia meio perdida sobre as pautas que abordaria neste blog, pois comecei a mudar em reflexo do meu tratamento psicológico. Vários assuntos perderam o interesse. 2020 veio alinhado com as minhas transformações, mas não ganhei nada além de tragédias e mais mortes internas. Porém, foi nesse ano que pontuei a palavra sobrevida.

 

Uma memória que nos leva para junho de 2020. O entretempo em que acreditei que o tornado virulento chegara ao fim e que eu teria minha vida de volta. A partir de outro renascimento. Continuo a me impressionar com o fato de que consegui escrever bastante nesse mencionado ano, mas foi uma experiência fora do corpo. Ou o famoso piloto automático para recapturar a normalidade. Tirando a publicação do meu primeiro conto, não tenho muitas recordações e experiências desse período (e essa última parte tem a ver também com a pandemia, visto que ninguém saía de casa).

 

Dentre tantas coisas que escrevi em 2020, sobrevida ganhou dois versos diferentes. Ambos narraram minhas emoções nesse ínterim e destaco uma série de reconhecimentos que eu precisaria fazer sobre outro evento traumático inesperado que me bagunçou profundamente. Algo que só aconteceria em fins de 2021, quando me dei por mim sobre a necessidade de encerramentos. Às vezes, acho que meus textos agem como uma previsão, pois sempre o que me parece um pensamento inédito já foi pensado antes por mim mesma. Percebo isso quando, sem aviso, sou norteada para as palavras de um tempo anterior e que se encaixam no tempo presente.

 

Uma constante desde que me entendo por gente. Cada formação de palavras se transforma em ecos distantes até me atingirem no instante que preciso. Ao menos, quando releio os textos, revejo uma parte otimista, que quer acreditar em algo depois das tragédias. Só que minha composição funerária é fortíssima, dificultando o primeiro passo para que minha história, em vários entretempos, se iniciasse. Há outras razões, claro, mas, no fim, culminam no mesmo resultado: nunca segui adiante.

 

Logo, nunca vivi.

 

No começo deste ano, voltei a me sentir como nos versos de sobrevida. Um fato que se confirmou quando reli esses versos recentemente. Veio a conversa interna sobre por que não me envolvi com as propostas descritas antes?, já que me sentia sem eira e nem beira para sequer iniciar uma rotina de autocuidado. A resposta que tenho agora é: eu estava longe de compreender os processos pontuados. O que pode alegar que sou uma grande falcatrua, mas meus textos também parecem um processo adiantado do que nem sequer iniciei. Além de uma expressão de desejos urgentes de determinado período. No geral, isso se registra em mim e, em algum instante, floresce.

 

Fica mais intrincado quando concluí os versos de sobrevida com o objetivo de me inteirar. Simbolizado pelo ato de recosturar os entretempos, pois perdi as minhas noções em função dos desdobramentos de 2020. Pelo menos, sei que iniciei a recostura, ao contrário do alvorecer das experiências de sobrevida. Virou até tema da sessão de análise. Só que perdi o ritmo assim que mente, emocional e corpo decidiram processar os acontecimentos dos últimos dois anos. Tem horas que nem sei se foi isso mesmo, mas é como ainda percebo a situação. Fui arrebatada por uma série de afogamentos, especialmente porque tudo que eu tinha era silêncio. Criando dias mais complicados e, aparentemente, insuperáveis.

 

Eu jamais alcançaria a ideia de sobrevida, de reconhecer meu renascimento, sem passar por essa fase angustiante (começou em 2021). Sem ultrapassar uma sequência de fases do luto que também se adicionou a novos eventos trágicos inesperados. Conclusões de agora também. Foi uma repetição que quase me engoliu por completo e me senti desafiada pela constante de desistir de vez. Hoje, até entendo que fui norteada para o mais fundo das minhas feridas para iniciar esse processamento — que continua e abre outras feridas não tratadas. Mas morrerei dizendo que eu não precisava disso para descobrir que quero viver. Rancorosa sim, visto que descobri essa necessidade em 2018.

 

Pelas mãos invisíveis que escrevem minha jornada, responsáveis por conflitos que dispenso daqui em diante, eu tive que passar primeiro pelos funerais para depois ver a sobrevida. Funerais que continuam a ter seus momentos e, às vezes, penso que me acompanham desde que nasci. Tornando-me uma embarcação frágil, sempre na beira do naufrágio e do afogamento. Mas esses dois últimos anos foram barra pesadíssima. Não tinha como exigir maestria para alinhar uma rotina de recuperação, por exemplo, mas eu exigi. Pela impaciência, por não aguentar mais me sentir mal o tempo todo. Chega a ser estranho estar aqui. Menos atormentada, mas atormentada o suficiente para querer agir.

 

Chega a ser estranho também estar um tempo considerável observando a dança entre fases de ondulações funerárias e inércia direto da superfície. Por mais que meu desejo por vida tenha estalado e ganhado força de 2018 pra cá, havia outras prioridades na transição 2021 para 2022. E eu só saberia disso assim que essa transição terminasse.

 

Foi depois do afogamento que considero o mais drástico até o momento da minha existência. Janeiro 2022. Vi-me injuriada de sempre estar tão mal. Da vida não acontecer. De sempre ter algum tipo de estresse e estresse anda complicado de lidar. De sempre acontecer uma tragédia no minuto seguinte. De não conseguir me manter. Quis desaparecer de uma vez por todas, pois só assim eu pararia de sentir todas essas ondas de angústia ao mesmo tempo.

 

Antigamente, nunca me ocorreu a ideia de que havia uma resposta adequada para eu me retorcer tanto entre os funerais. Até iniciar a análise e compreender. Minhas tragédias mudaram toda minha química e, desde então, instigam meus desconfortos emocionais e mentais. Não aprendi a lidar com essas ondulações internas com leveza. Sou arrebatada sem direito a prender o fôlego e me retraio pelos cantos internos. Enquanto permaneço em um estado autocentrado e alienado que me desvia. Em algum instante, percebo o isolamento em meio a um estado quase entorpecente — quase porque, às vezes, batia (bate) a irritação —, já que tem uma hora que essa angústia passa.

 

Conjunção que se tornou a única música no meu cemitério mental.

 

Passado o afogamento que considero o mais drástico até o momento da minha existência (e orgulho por sustentar fevereiro e março, apesar das ondulações), se abriu o raciocínio sobre estar sempre conectada com as minhas mortes. Mortes que sempre velei, mesmo sem ter noção disso — e a prova vem da frequência dos meus funerais. Esse súbito despertar clareou um fato decisivo: seria impossível pensar em sobrevida quando levo mais em consideração as vezes que morri. E focar nas minhas mortes é negar que eu existi e existo.

 

Penso que minha primeira morte aconteceu quando nasci e sei que soa dramático. No entanto, é aquela parte triste que inseri um pouco de humor duvidoso. Foi um parto fórceps, que me custou por certo tempinho minhas pernocas, e nem consigo imaginar a dor infernal que deve ter sido. Nisso, nasceu a piada sem graça (que tinha muita graça para mim), lançada entre a família na menor oportunidade: fui retirada à força, a mal-educada atualização do não pedi para nascer adicionada à ficção de que me esforcei para não sair das entranhas de minha mãe.

 

Laudo da piada sem graça: eu já sabia que viver seria in-su-por-tável. Inteligência pura. Fontes? Não foi preciso!

 

Parecia que eu já sabia que a vida seria estimulante demais para uma dita essência funerária. Logo, estar aqui já era a famosa morte terrível. Fim do humor duvidoso.

 

É real: das minhas mortes sei de cor. Parece que sou uma viajante no tempo treinada para coletar os dias que morri e marcar no diário de bordo. Isso aumenta a minha sensação de temporalidade, pois continuo não me sentindo como parte do meu tempo. Nem do tempo de outras pessoas. É um misto agridoce e fascinante — pois o fascínio revela quantas vezes retornei à superfície. Sem consultas, sei pontuar precisamente os espectros de eventos que me derrotaram e se tornaram as únicas referências pós-morte. Um falso senso de vida no minuto que resfolego.

 

Construiu-se ao meu redor um sistema de sobrevivência que agiu como única verdade ao apagar as memórias do antes das tragédias. Relampejando sintomas do depois que demoraram décadas para serem elaborados e retificados. Prendendo-me no durante e dando a entender que vivia. Quando nunca senti a vida se expandir dentro de mim.

 

Virou-se uma redoma que me encaixou perfeitamente para sobreviver com uma máscara de oxigênio. . Esse foi o único espaço que conheci por uma enorme parte da minha existência e tem um peso enorme na forma com que lido com os funerais (segundo a analista). O canto que me manteve refém e só o notei em 2018. Até lá, se alterou a química. Interrompeu-se o desenvolvimento de quem eu poderia ser. O tempo parou de se mover em reflexo de cada silêncio que ampliou o poder desse lugar. Largou-se a sensação de ausência constante de algo e a degradante busca sem resultados por um ponto de partida.

 

Entre tantas mortes, meus renascimentos foram afugentados pelos funerais. A sobrevida foi isolada e selada em uma gavetinha no fundo do meu cérebro. Seu brilho e intensidade não ornavam com os acordes cromáticos de cinza, sendo esquecida pela falta de compreensão sobre mim mesma, das causas das mortes e como isso poderia se resolver.

 

Algumas (e longas) conjecturas de um sábado recente, onde caí na real de que nunca olhei com o mesmo rigor para os entretempos que vivi. Desde 1986, meu sistema conheceu e reconheceu mortes. Assim, nasceu um imenso cemitério mental, onde minhas antigas versões nunca descansaram em paz.

 

Eu nunca descansei em paz.

 

Sobrevida → presente

 

Nunca me dei conta de estar de novo aqui em todas as vezes que a sobrevida me foi dada. Apenas existi. Sem noção dos próprios sentidos. Do meu corpo. Da minha voz. Das claridades que contrastaram suavemente contra a minha redoma — sinais da oportunidade de agregar mais vida. Nem sequer ouvia meus batimentos cardíacos, nem ousei quando esses batimentos ficaram doentes, pois tudo de mim se concentrou na potência destruidora do meu cérebro.

 

Tudo de mim se concentrou nos funerais acarretados por tragédias e pelas vezes que morri. Assim nasceu um ciclo vicioso: submergir, emergir, confiar, morrer. Na parte do confiar, sei que é um suspiro gentil do coração. Dando-se ao direito de acreditar em uma sobrevida além.

 

Um suspiro que rende a euforia de retornar e agir para melhorar meu estado. Prometer que os afogamentos não se repetirão — ao menos não com a força que me larga tempo demais submersa ao ponto de perder minhas noções. Nesse espaço, se move, sempre, uma ínfima esperança. Instigando a intenção de escrever algo diferente, ser diferente, seguir outro rumo. O impasse é que essa euforia é volátil. Perde a potência ao som dos primeiros acordes do funeral. Uma música formulada entre décadas sem elaborações e retificações que pudessem me manter por mais tempo na superfície. Brigar um pouco mais contra as correntezas e as tempestades ao menor vislumbre das memórias trágicas.

 

Quando a euforia se dissipa, vem a descrença. As mortes me ensinaram a não ancorar em mim e propagaram o gosto de desvalidar meus objetivos, mesmo quando não estão claros. Cada morte gerou comportamentos de retorno à redoma, o falso acolhimento, pois era a confirmação de um eco do passado: eu não conseguiria ir para canto algum.

 

Logo, fiquei presa no mesmo canto. Não indo além dos mesmos trajetos e o sintoma do depois seguinte foi aprender a desistir. O refrão dos funerais. Viver nunca me pareceu interessante, pois eu estava presa dentro de mim. De um jeito muitas vezes tóxico e alienante. Eu não me percebia e sempre decidia continuar como minha própria refém. Isolada. Vendo muito da vida por fotografias de terceiros. Um falso conformismo, pois eu sentia pequenos espasmos de raiva de não estar onde eu queria estar. Mesmo não sabendo exatamente onde eu queria estar.

 

A vida se tornou um item que tinha que se esgotar logo.

 

Muito desse desgostar da vida tem a ver com a ausência de aprendizado sobre alternativas de emergência para me acalmar e com a falta de realização sobre a necessidade de desengavetar traumas e eventos erráticos. O mesmo para meus comportamentos erráticos. Dentre tantos sintomas do depois, gerados por conta disso e muito mais, compreendi que lido melhor sozinha. Até 2016 acontecer e eu perceber que precisava de ajuda profissionalizada.

 

Nunca foi o suficiente ter conversas paralelas com as paredes e com personagens de escrita (embora ambos me tragam realizações, já que vocalizo o que ganha volume nos meus silêncios). Sempre faltou algo, mesmo consciente de que posso sim me ajudar sozinha. Porém, minha leitura de “sozinha” era peso morto, embora palpitasse (e ainda palpita) na ferida que não se dava por satisfeita com comida, compras online ou bebidas. Esse “sozinha” foi selado com a desculpa de amo estar só quando era muitas vezes a resposta desconhecida de uma tragédia não resolvida dentro de mim.

 

O famoso adolescente se vira tão bem, mas, na verdade, fica por conta para manter o que sobrou inteiro. Ou se transforma no próprio centro, desenvolvendo artimanhas de controle para se proteger de iminentes tragédias e de qualquer perturbação externa (e essa pessoa sentirá o dobro da dificuldade de lidar com qualquer coisa que atinja a redoma).

 

Nunca deu certo me ajudar completamente sozinha e está aí algo que quero aprender para me tratar com mais compaixão e gentileza. Para apaziguar os momentos em que me sinto muito só e bate a sensação de que é isso. Jamais terei uma pessoa para dividir uma bagagem pesadíssima comigo enquanto fazemos skincare. Isso cai em um campo de ilusões românticas.

 

No fundo, sei que não estou só. Mas, quando espiralo nesse tipo de ausência, parece que é verdade. Sendo que, amém, não passei pelos últimos dois anos à mercê da minha própria companhia. Tenho muita gratidão por quem esteve ao meu lado e me permitiu (e permite) ser a energia negativa da sala. Não gosto muito, não como antes, porque sinto que sobrecarrego quem me ouve e já sei que esse é outro problema em ascensão. Discretamente, penso que incomodo.

 

Nesses últimos dois anos, também tomei consciência das minhas relações. Do quanto me trato tão pouco, aceito migalha como validação, qualquer relacionamento (inclusive de emprego) para sentir que existo e tenho relevância. Registros enervantes que me fizeram crer em grandes besteiras do ponto de vista de como eu me tratava e era tratada. Tudo porque sempre foi assim. Desde os primórdios. Outros trajetos que me mantiveram presa dentro de mim, sem prestar atenção no necessário: irromper dos silêncios. Silêncios são a catapulta para eu me afogar dentro de mim.

 

Ponto que revela que também sou responsável em roubar as minhas sobrevidas. Em comunhão com as tragédias e eventos erráticos que badalam o funeral em meu cemitério mental. Até que 2018 aconteceu e senti, pela primeira vez, que havia algo errado. Havia muito de mim dentro do meu próprio corpo. Sem saber, eu precisava me esvaziar com urgência para exalar. Arrancar a máscara de oxigênio que se tornara insuficiente em reflexo de descobertas feitas nesse ilustre ano.

 

O ano em que comecei a nomear tudo que me fugiu do conhecimento, desde início dos anos 2000. Os espinhos. As reminiscências de venenos que me alteraram em todos os âmbitos. O momento em que vi os escombros que sempre estive e decidi inserir flores. O momento que relei na redoma que começou a trincar a cada silêncio quebrado.

 

Meu cérebro recebeu as informações que sempre foram necessárias para o tempo “desparalisar” ao meu redor. As ferramentas para me manter por mais tempo na superfície. Os conselhos para brigar um pouco mais contra as correntezas e as tempestades ao menor vislumbre das memórias trágicas. Minhas emoções sentiram o impacto positivo, suavizando, mas não sem instigar fases do luto que nunca vivenciei. Um luto normal, comum, como velar o tempo perdido entre os sintomas do depois de traumas e eventos erráticos — e que consumiram anos da minha vida e me apagaram.

 

Pela primeira vez, eu me movia para fora de mim, pois eu também empacava meus processos. A diferença é que eu teria que passar esse tempo fora para retornar melhor de volta para mim.

 

Foi quando eu finalmente emergi. Ao menos para me dar conta da possibilidade de ser diferente.

 

Viver diferente.

 

 

Era 2018 quando decidi resolver meus assuntos por meio de um tratamento psicológico. Automaticamente, dar fim na redoma. Foi uma decisão pontual no meio de outro eu não aguento mais. Senti que atingi o limite e mal sabia que atingiria outro limite dois anos depois.

 

Naquela época, senti em cada nervo, cada artéria, cada poro a exaustão de me carregar tão cheia do que não prestava. Com rara determinação, comecei a desengavetar traumas e eventos erráticos para a minha analista. Quanto mais eu quebrava um silêncio, mais as gavetas se esvaziavam. A cada gaveta esvaziada, um falso eu começou a se estilhaçar. E gaveta é a metáfora criada nas sessões, pois eu sempre dizia que escrevia e colocava tudo lá. Minha analista pedia para eu fuçar e rever. Isso se tornou um meio para eu organizar os temas que queria conversar uma vez na sala dela.

 

2019 chegou e trouxe a inquietação de não saber quem eu era, pois parecia que algo importante se perdera. Veio o objetivo de começar do começo, mesmo sem saber por onde começar. Intenção que apliquei no primeiro dia que sentei no sofá da minha analista ao contar sobre o primeiro trauma que tenho consciência de que me mudou completamente. Um de vários, pois as tragédias, que culminaram nas minhas mortes, se acoplaram nos nervos. Ardendo no mesmo ponto — em cima da gavetinha onde a sobrevida sempre esteve, carregando as memórias opostas às que morri.

 

Conforme cada ponto de morte era elaborado e retificado, aos poucos eu conseguia ter espaço para alcançar o puxador da gavetinha da sobrevida. Ainda mais quando minha analista propunha desafios para escrever sobre a infância, por exemplo, e era quando me dava conta de que não tinha lembranças. Até hoje ecoa o que ela disse: ah!, a gente lembra!. Lembrei por meio de fotografias. Elas eternizaram a passagem no tempo e as vivências de várias versões que fui.

 

O mais importante, e demorou para eu compreender, é que haveria outros afogamentos nesse processo. As mencionadas fases do luto e foi esquisito passar por esse período décadas depois do meu primeiro trauma. Isso porque chorei na primeira sessão depois desse silêncio quebrado e o choro seguinte vinha absolutamente do nada. Como se algo tivesse realmente morrido. Depois, comecei a me sentir esquisita, mas de um jeito agradável. Traduzido em peso a menos.

 

Traduzido em claridades. De um contraste forte. Descobri que posso sair da redoma enquanto algum assunto se atenua.

 

Veio tudo de uma vez, como poeira, mas sem intenção de me sufocar. Foi quando espiei por cima do meu ombro. Compreendendo que o passado pode ser uma travessia para o presente, mas desde que você resolva os conflitos.

 

O desafio de elaborar traumas e eventos erráticos, ao menos para mim, foi entender que não preciso voltar para eles. No mais clichê, eu não sou eles. Tenho sintomas do depois, mas também a consciência do tempo emaranhada nos espinhos e absorvendo as reminiscências venenosas das tragédias. Jamais esquecerei, nenhuma parte de mim irá, mas nesse afoga e emerge, senti, mais do que vi, a possibilidade de existir sem tanta influência desses acontecimentos. Sem tanta necessidade de retornar à redoma que acinzentou meu mundo e criou uma existência que nunca apreciei.

 

Realizações de muito tempo depois e eu poderia dizer que me renderam as maiores aventuras desde então. Contudo, e tirando um pouco o peso de 2020, sempre me faltou ousadia para ultrapassar os Prólogos. Há uma necessidade de delimitar o ponto de partida. O lugar, a música, a primeira linha de abertura. É o essencial para todo início de história, mas não desenvolvi a habilidade de escrever a minha. Fato que me enrijece, mas sei que não tem como roteirizar tudo.

 

Não sei de tudo. Por outro lado, eu posso começar, sem saber por onde começar.

 

Vale dizer que, nesse processo de resoluções de traumas e eventos erráticos, cada caso é um caso. O que me veio rápido pode levar anos para outra pessoa. E o que demora para mim pode ter sido questão de segundos para outro alguém. Não sinto que o primeiro trauma que tenho recordação (o que tratei no primeiro dia de análise) tem o mesmo impacto dos desdobramentos de 2020 (que ainda residem ao meu redor). Mas são traumas e imagino que a resolução vem no envolvimento com a melhora. Apesar de passar mais tempo me sabotando, sempre articulei métodos para me salvar nos ínterins da euforia. Mesmo que, muitas vezes, o sucesso fosse temporário. A análise me ajudou muito, embora vários conselhos recebidos só conquistaram compreensão agora. Conselhos de previsão e efeitos tardios.

 

Era o que eu verdadeiramente precisava naquele período do meu tempo. Principalmente porque, como contei neste textão, nunca fui capaz de lidar com tudo sozinha. Eu encontrei alguém para dividir minha bagagem pesadíssima, sem a parte do skincare. Mas me abri para uma chance de florescer. Para corrigir a forma como me habito e me tornar um espaço seguro e não de sofrimento.

 

Foi uma jornada e tanto, se querem saber. Dentre tantas descobertas que eu poderia enumerar é que sempre vivi presa dentro de mim, fazendo a manutenção da composição funerária pungente em meus nervos e sendo a coveira do meu cemitério mental. Contando pelas minhas mortes e sem investigar o que as acarretou. Apontamentos da minha analista, que esclareceu ao me dizer o quanto isso acabou sendo a principal influência, junto à série de sintomas do depois de traumas e eventos erráticos, do meu ponto de vista sobre o mundo. Um mundo de química alterada.

 

Logo, o único espaço que conheci. Sem ideia de que eu poderia ter outro. Além dos cantos internos.

 

Eu, o fantasma contra o fundo cinza, em suspenso. Foi quando notei que muito do antes das tragédias deixou de existir. Tornaram-se lacunas mentais e percebi isso em 2020. Sem essas provas de que vivi antes de tudo de ruim acontecer, me distanciei da reflexão real sobre cada morte vir com uma nova chance. Eu escolhi, mesmo que inconsciente, repetir a faixa de não querer viver, me esquecendo de observar o que todas as minhas versões compuseram para insistir em ficar aqui.

 

Mesmo com minha desaprovação em alguns aspectos.

 

Muitas dessas composições não foram sobre decisões geniais e muitas delas não tinham como controlar. Quando penso, me dá um aperto, porque muito me custou a mim mesma. O que torna toda essa jornada de recuperação mais agridoce, pois não tem como retornar ao passado para atenuar o caos que pairou e alterou toda química. Felizmente, tem como olhar o passado para retificar as infiltrações e recapturar os dias que vivi. Antes e durante — o período preso dentro da redoma — para assim seguir efetivamente adiante. A parte difícil, e que não se alterou muito, é me convencer de que ainda terá vida depois de todas as tragédias. A lição complexa, pois dizer isso parece que dou parabéns a todas as tragédias que me despertaram para a vida. É um argumento que não consigo lidar ainda, sério. Por isso, gosto de pensar que só 2018 importou nesse quesito e deve ser por conta do distanciamento entre o trauma e a resolução.

 

2020, bateu, literalmente, em casa. Afetando minha percepção sobre esses argumentos prontos. De vez em quando, sinto ser sobre isso. Feliz ou infelizmente. Notei em uma viagem recente, pois, de tanto que fui consumida nos últimos anos, perdendo a esperança e querendo desaparecer completamente, parecia surreal estar na praia. Fiquei meio impactada. E esses pequenos impactos gerados ao me (re)encontrar com a vida tem um jeito particular de me entristecer.

 

Apesar das minhas conjecturas otimistas, estar aqui cria rompantes desesperados, pois nada muda. Nada parece contribuir com os meus desejos ou a minha melhora. O que torna o seguir adiante mais difícil, pois como isso pode ser possível ao estar presa no que veio depois da redoma?

 

Os escombros que possuem a poeira sufocante e ajudam a prolongar os funerais. Criando o senso de que sou o mesmo tipo de história. De via única. O ponto trágico que uma hora se cansa e pede para sair dessa série que mais parece um looping ingrato. Eu preciso de outro tipo de desenvolvimento. Uma urgência que pode ter atraído a realização de que preciso começar a prestar atenção no que vivi. Uma lição menos complexa. Mais acessível e que diminui as barganhas.

 

Como disse, quanto mais eu esvaziava as gavetas de marcos trágicos, novos espaços se apresentaram. Um novo tipo de vazio me arrebatou e percorreu até o centro do meu peito. Eletrizando e pulsando acordes nunca sentidos. Ou que me esqueci de sentir. A gavetinha da sobrevida começou a vibrar e foi quando dei por mim dos desejos esquecidos.

 

Desejos também impulsionam vida. Eu só deixei de desejar. Criou-se um falso comodismo, em parte porque envolve vários mecanismos de defesa, como um grande receio de sair à noite (algo que melhorou bastante nos últimos anos). Ou então ilusões, como esperar o lado profissional engatar para ter um relacionamento (sou falida nos dois casos).

 

A título de curiosidade, esse vazio em específico é comum entre pessoas que resolvem traumas. É quando se percebe a estranheza de uma possibilidade rara: criar uma nova existência. É algo que confunde, porque tudo de você, possivelmente, se construiu em função dos eventos traumáticos. Nesse acúmulo de capítulos indesejados que nunca moveram o tempo de verdade e que você nunca sentiu que amadurecia devido à paralisia entre os cantos internos. É um senso de limpeza e o seguir adiante é o passo seguinte. Passo que não é tão simples, pois, se você se identificou com este textão, e se sente como eu, há foco na vigília de não retornar ao espaço sombrio que essas tragédias criaram para dar um falso senso de vida e de quem você é. Ou o medo pungente de tudo acontecer de novo.

 

Não há, acho, uma forma de viver totalmente “sem isso”, porque determinados eventos não se esquecem. Contudo, aprendi que é possível atenuar e isso ocorre quando escrevo. Ou falo, mesmo que com as paredes ou, anteriormente, com a minha analista. Ou tento me cuidar melhor. Sugestões que não garantem um sucesso por dias consecutivos. Parte de mim ainda responde facilmente aos funerais, mas tenho aprendido a não me perder tanto ao contra-argumentá-los com os meus desejos. Ao dizer que estou triste e que não sou essa tristeza toda. Trabalho em processo.

 

Enquanto eu não tocasse nas tragédias, o resultado foi odiar viver até mesmo dentro do meu corpo. Ser eu em qualquer situação. Isso não mudou tanto assim, pois o impacto de todos os eventos traumáticos e erráticos rebateram também na minha saúde mental (e demorei a ter clareza disso pelo mesmo tempo que morri em silêncio). Os esclarecimentos vieram conforme me dediquei à análise. Ao autoconhecimento. Mesmo que eu não me aplauda, fui determinada. Fui realmente no dito longe demais para me regenerar, como acontece em Doctor Who. Com isso, ter uma nova reencarnação.

 

Sei que se regenerar tem ritmo lento e não começará com um marco na agenda — fato aprendido no início deste ano. Começa quando tem que ser e, aqui desse lado, não foi em 2018. Isso veio em outro sussurro do coração, avisando, no sábado recente de súbita claridade, que podia ser agora. Não houve confusão. Parecia, e ainda parece, assertivo. Especialmente quando acho que recebi um spoiler disso ao usar meu vestido estrelado favorito depois de 84 anos e ouvi pop no fundo da mente. Para quem escreve, isso se chama foreshadowing. O prenúncio. Ou, como digo, a previsão.

 

A palavra sobrevida veio no dia seguinte. No meio da fila do supermercado. Revelando todas as minhas intenções depois do tornado virulento. Veio a ínfima certeza de ser a hora de aprender a ancorar corretamente dentro de mim. Ativar os pontos que vivi, adormecidos no meio desse grande cemitério mental. Sempre com a gavetinha da sobrevida aberta, pois ela criará um novo mix de cores. Dourado com cinza… Lembro-me que senti um pouco de tristeza. Uma familiar com a que senti várias vezes em 2019 e imagino que seja um encerramento dado naturalmente. Um além de mim.

 

Até essas reviravoltas dispararem, uma em cima da outra, como se pedissem justiça pelos traumas e eventos erráticos que aconteceram um em cima do outro, a partir da adolescência, nunca estive pronta para iniciar o que hoje chamo de Outro Depois. O nome da sobrevida. Nunca cheguei perto. A razão é simples: eu não iniciara o trabalho interno. Por outro lado, sempre tive uma voz no fundo da mente que explana o que acho que é em dado momento e me retorna anos depois. A escrita de previsão. Como os versos de sobrevida em espasmos, que encapsularam o ínterim em que o tornado virulento dera pausa. Foi quando eu senti que deveria rumar para uma nova trajetória, sem lembrar de 2020, e escrever outra história. Um desejo que, a partir dessa linha do tempo, nunca se apagou. Na verdade, ganhou força.

 

Uma revelação retornante no mesmo sábado recente e influenciou a escrita deste texto. Naquele dia, veio essa verdade de que sempre dei atenção à morte, mas nunca à vida. Mesmo depois de ter sido influenciada pelos benefícios da análise. Lugar comum. Falso hábito. Logo, não dei atenção aos ínterins que me conectam com diferentes eventos positivos, diferentes pessoas que ainda se manifestam dentro de mim, músicas e aventuras.

 

As narrativas que nunca contei e quero contar.

 

Sinto a euforia no meio do receio de não conseguir nada disso. O medo irracional sobre querer providenciar uma vida melhor e não enxergar o que o segundo seguinte pode revelar. Ou destruir. Como em 2020. É horrível confiar enquanto se vigia a si mesma e o relógio. É um estado sensível, em que se perde a confiança rapidamente e não tem sido fácil cultivá-la. Justamente pelo medo do que mãos invisíveis, roteiristas dos conflitos, acionarão de surpresa na minha narrativa.

 

Por outro lado, o sábado recente me realinhou ao céu de brigadeiro que havia testemunhado em fins de 2019. Contraste que se perdeu de mim, de vista, enquanto tive que passar por esse looping de afoga e volta de 2021 pra cá. Aparentemente por um hábito e cheguei perto de aceitar que eu seria triste para sempre — e cheguei a me convencer de que era isso que eu precisaria aceitar a fim de parar de ter vontades que contribuem também para uma agonia particular.

 

Cheguei perto de me dar o silêncio de novo, pois, ao menos dessa vez, eu não sentiria nada.

 

Logo, encerraria essa ideia de estar na vida.

 

A cada retorno, a gavetinha da sobrevida ficou mais forte ou não estaria reorientada no ponto de partida determinado desde 2020. No fim, não era preciso uma nova trajetória para iniciar essa outra história. Meu eu do passado tomara essa providência. Na ideia de Novo Normal, atualizada para Outro Depois, que revela o passo seguinte: a sobrevida. E o segundo passo: me inteirar.

 

Sinto-me em um espaço fragilizado, cultivando certezas que me assustam e que me fazem oscilar. Mas, em um momento, decidi pular do abismo para conhecer a bifurcação que nunca percorri. Esse abismo é o meu passado e ele não se aniquila. Tampouco os funerais, mas, pelo menos, agir alivia a sinfonia do cemitério mental. Abre margem para eu desenvolver a potencialidade de capturar a vida, visto que sobre atividades que envolvem capturar as mortes sei de cor.

 

Mesmo que eu não admita, todo afogamento, de 2020 pra cá, foi um tipo de limpeza profunda. Constatação rápida até, pois, quando me sinto alinhada, consigo comparar todos os meus anos justamente. Nesse caso, em 2021 passei pelo mesmo que em 2018. Contudo, em 2018 foi um processo mais curto, já que eu lidava com algo mais específico e de via única. Por saber disso, vem a sensação de que eu poderia ter lidado melhor com a torrente de 2020 e 2021, especialmente porque passei por essa via de ir tão fundo nas feridas e retornar me sentindo pronta para algo inicialmente sem nome.

 

Eu preciso parar de me cobrar.

 

Havia relutância em todas as partes do meu ser e fiquei um tempo na nova redoma. A imitação da que irrompi em 2018. Ousei sair algumas vezes, pois, após afogamento que considero o mais drástico até o momento da minha existência, minha mente foi ficando estranhamente afiada. Logo, aberta para repaginar a rotina e capturar as sincronicidades. Isso me trouxe para a reviravolta que inspirou este textão. Um espasmo de despertar, sem aviso. A claridade dessa vez quase me cegou de tanto que doeu nos sentidos. Foi um baque inesperado e reescrever a história se tornou urgente.

 

Tudo de mim se adaptou perfeitamente a somar e contar sobre tragédias e estados funerários. Mas e quando vivi? Não sei ainda, porque morrer sempre me pareceu mais natural que viver. As histórias mais eficientes de contar por estarem embaixo da minha pele. Pareciam a minha verdade desde 1986, a essência e o destino.

 

No dia que decidi recontar, no meu aniversário de 2020, minha intenção foi pontuar o que vivi. São esses momentos que faltam na minha mente. As mencionadas lacunas. O antes bem antes das tragédias. Um antes que me sentia alguém. O mesmo para os ínterins em que senti que vivia em meio ao durante dentro da redoma e a pausa dos funerais. Que eu conseguia sentir que eu existia de verdade, consciente dos espasmos de vida contra minha pele. Sei que decidir pela sobrevida não apaga o resultado da morte. Como eu disse, os funerais não terão hora para acabar, pois, no fundo, traduzem mortes necessárias e mortes fora do meu controle que preciso elaborar e encerrar.

 

Incluindo uma saúde mental de péssima qualidade querendo sempre me calar.

 

A vida é uma resposta a algo enquanto a morte sempre quer dizer alguma coisa. As interrupções nos meus entretempos nunca foram sobre vida. Nem de confiança. Nem de flexibilidade. Nem de encontrar meu amor-próprio e ditar meus desejos. Cada célula de mim centralizou nas mortes e abracei todas com tanta força ao ponto de temer um evento parecido ao de 2019: querer voltar para os instantes que morri para provar que minha existência será só sobre isso.

 

Nessa necessidade de sobrevida, há também a necessidade de oposições: morte para vida, tristeza para a alegria. Os afogamentos são péssimos, mas a claridade seguinte tende a recompensar. Mesmo quando os picos do pós-morte revelam que algo mais se foi e isso acinzenta os dias. Ondulando em uma gentil melancolia.

 

Por querer escrever capítulos diferentes, que mesclam funerais, assuntos abandonados na gavetinha da sobrevida e a liberação de espaço das outras gavetas pendentes (e aumentaram em quantidade, que delícia!!), tudo que espero é claridades. Que eu possa alcançar o céu de brigadeiro de novo. Reunir meus fragmentos pela quantidade de vezes que renasci. Neste espaço, abre-se a oportunidade de entender que as melodias mudam assim que começo a viver.

 

 

Naquele sábado recente, em que reencontrei o fio da sobrevida, que também pode ser chamado de renascimento, resfoleguei de novo. Respirei fundo. Suguei o ar pela boca. Prendi-o. Contei até 7. Liberei. Despertei para o excesso de claridade. Senti o coração pulsar gradativamente. A mente desanuviar. O corpo reagir. As minhas versões se alinharem a procura das narrativas entre os ínterins do meu nascimento em diante. Cada uma que fui sentiu o impacto do tornado virulento e elas não deram boas-vindas para outra parte de mim que morreu em função disso.

 

Elas despertaram e emergiram em outros flashbacks. Criando a inspiração de registros sobre, finalmente, meu Outro Depois. Para não me esquecer da jornada. Para lembrar quando me desconecto da realidade ou no retorno à superfície para amenizar estados de confusão e pressa. É tempo de me despedir desse durante, do tempo de espera, pois quero caminhar e florescer. Mesmo que, por agora, entre os escombros remanescentes. Podem haver flashbacks das mortes, consciência das mortes e a apreensão do que mais pode morrer, coordenada à consciência das tragédias, mas há flashbacks em forma de sorrisos nostálgicos, shows, do Sol iluminando a chuva.

 

Contrastes entre os funerais. Ainda estou em alerta. Há o agridoce do desespero. Às vezes, me sinto cada vez mais dentro de mim. Em outros, tão distante e sei que é quando um funeral começará. Não é perfeito e nem será. Ao menos, sei que, desde 1986, as tragédias me tiraram a chance de (re)aprender a (re)viver. Eu mesma me tirei essas oportunidades também, sem saber. Agora quero essa chance, pois quem escreve é quem resistiu. O motivo de eu ter sobrevivido. A parte que pretende inteirar todo um corpo, um espírito, para que a vida após a morte não seja em vão.

 

Diante da seguinte promessa escrita em 2020:

 

Focar em preencher a bagagem com o que posso. Cuidar das novas cicatrizes. Endereçar as novas infiltrações. Dispensar o veneno das comportas para encerrar o colapso entre os tempos. Lidar com bancos vazios devido ao tempo dissociado de tudo. Retornar a ser de si…

… Consciente de que está tudo bem caso precise submergir, pois, após o tornado virulento, a vida deixa de ser a mesma. Tão quanto os sentidos e o senso do resto. O senso de si.

 

Todos esses anos, as histórias que me centralizei foram sobre a potência das tragédias em me desfazerem. Das mortes em nortear duros funerais. Anos depois, sobre contar perdas, melhorar, e ver tudo ruindo de novo.

 

Mas, agora, vejo o caminho de volta para mim e eu vou me encontrar. Esperando encontrar cada versão minha no percurso: a que dançava no quarto sozinha, a que odiava tirar fotos caracterizadas na escola, a que nunca foi escolhida por nenhum crush, a grande fã de Sandy e Junior, a primeira a morrer por intermédio de uma tragédia…

 

…. Aquela ….

 

 

Juro que tentarei ser breve no futuro (a verdade: ela não vai), mas tudo isso, e mais um pouco, me norteou para a intenção de 2022 e que anima pela chance de ultrapassar o Prólogo.

 

Este é um convite para vocês fazerem essa caminhada comigo. Afinal, na sobrevida também tem espaço para uma comunidade online interativa cheia de amor, confiança, segurança, alegria e recuperação mútua. E estou aqui, com a minha bagagem meio vazia. Vamos embarcar nessa?

 

Leia também:

Atlas: Novo Normal

34 e (re)contando…

Entre funerais e céus de brigadeiro

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Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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