04abr
Arquivado em: Notas de Campo

Olá, tudo bem? Espero que sim! Senta aí, com uma bebida gostosa, pois o texto de hoje encapsula meus dois últimos anos. É um textão, na verdade, que trata sobre trauma, tristeza, ranço, vontade de sumir. Pode ser que, durante a leitura, alguns gatilhos acionem, especialmente sobre a vontade de sumir (que não pontuei com a palavra própria, suicídio) e comportamentos nocivos com álcool e comida.

 

Músicas que recomendo durante a leitura: 

Funeral da Phoebe Bridgers // Under the Water do The Pretty Reckless // Believe Me Natalie do The Killers.

 

 

Depois de publicar o texto sobre trauma vs. autocuidado, acreditei que retornaria com mais frequência ao Hey, Random Girl! para dividir informações sobre e como andava a minha jornada nesse quesito. A intenção era dividir um processo que nunca me dediquei com afinco em toda minha vida e senti um enorme #vemaí. Bom, não veio, mas até que veio. Não tanto da forma como imaginei e durou menos que o tempo de um story.

 

É quando percebo que nem tudo ainda está bem. Sempre tem um cantinho que desmorona, uma verdade que se revela, um estresse — e estresse é algo que domina meu corpo — e a revelação de que cabe outro evento horroroso mesmo depois de já ter acontecido algo verdadeiramente horroroso.  O que restou? Perdi o resto do meu cerne.

 

Assim, não há um só dia de paz desde 2020. Tudo bem que, atualmente, as coisas deram uma acalmada. Porém, sempre rola um ínfimo rompante de ansiedade sobre “as coisas estarem até que ok” vs. “as coisas estão ruins demais preciso sair da minha casa imediatamente mesmo sem poupança de emergência”. Não que minha vida fosse muito da pacífica antes, mas os caos eram banais (como achar o Imposto de Renda um monstro de sete cabeças). Cada tragédia, de 2020 até aqui, me deixou à mercê do dilema de que nada vale a pena. De que tem sempre algo à espreita. Se está tudo ferrado mesmo, por quais razões tentar? Se virá sempre algo para me ferrar, por quais motivos tenho que acreditar em alguma coisa? Para que me cuidar em um mundo que não tem olhado para mim?

 

Para que insistir quando parece que nunca conhecerei uma vida melhor a esta que vivo?

 

Quando o resultado parece sempre ser uma… Isso mesmo: tragédia?

 

Entendo que muitas dessas questões são vitimistas. Faz parte do combo desespero sobre deixar as tragédias o mais rápido possível e seguir adiante. Fora que ousei a me achar imune a mais tragédias. Isso, do ponto de vista de quem não conhece paz desde os 14 anos. Estou cansada, traumatizada e com senso de urgência entre o medo de respirar adequadamente. Afinal, todas as vezes que respiro com confiança, alguma intempérie se anuncia. Nem gosto de tratar dessa forma, parece uma praga sobre mim, mas é a única forma de ilustrar um pouco o que me impediu de estar de novo no blog. De engatar uma inédita rotina de autocuidado. Só houve desistência atrás de desistência.

 

A parte esquisita é que, em meio aos desdobramentos traumatizantes de 2020, que registraram mais violência no meu DNA, e não é minha história para contar, achei que estava bem. Fiz um monte de coisa legal. Só que, todas as vezes que retorno para esse ano em específico, me pergunto se não foi piloto automático. Poderia ser apenas escape. Ainda mais por ter sido o primeiro ano pandêmico com muita coisa para processar. Tanto pelo fato de ter começado uma pandemia (da qual não me informei) quanto por vivenciar outro tipo de enredo (a causa de eu não ter acompanhado a pandemia). No entanto, quando retorno para esse período, só houve uma felicidade: ter todo o tempo do mundo para realizar o que gosto de fazer e tive isso de sobra. No caso, escrever. Escrevi demais e ainda debutei como autorinha. Às vezes, creio que esses esforços foram para imprimir a normalidade que me faltava na época.

 

Na brecha de dias vazios, sem perturbações violentas, escrevi muito mais se comparado a 2018 e 2019. Quanto mais eu produzia, mais confiante me sentia. Mais me sentia de volta ao meu mundo. Sério, houve um senso forte de superação e isso se reflete em períodos de tratamento psicológico, pois parecia que eu dominava os aprendizados da análise para me recompor rapidamente. Apesar de ter sido ótimo, principalmente quando, hoje, vejo a escrita como parte da minha rotina de autocuidado, e coerente com a minha trajetória, eu aplicava cimento para manter o que sobrou de mim em pé. Isso deu a impressão de que, apesar das turbulências, eu estava inteira. Inclusive, bem.

 

Entre o caos da violência, havia essa linha tênue criativa norteando o caminho e foi nela que me equilibrei. Até não dar mais. Bastou eu pausar, considerando o tanto que escrevi de agosto a dezembro de 2020. Descanso se fez necessário e essa decisão movimentou o que, de certo modo, eu prendia bravamente. Uma música estalou as partes trincadas do meu existir e nem todo cimento em forma de palavras me sustentou por mais tempo.

 

Fins de 2020.

 

Midsommar é aqui!

 

2021.

 

cena do filme midsommar

2021 virou o calendário e desaguei pelas partes trincadas. Um sutil toque desmoronou minha existência e entrei em uma fase fúnebre. Acreditei que não duraria muito, pois, de tudo que sei sobre trauma, passar por essas fases também é parte do processo para limpar, elaborar, aceitar e, assim, seguir adiante. Os anos de análise me fizeram crer que essa passagem seria breve, pois, de novo, eu possuía as ferramentas para lidar. Ou ao menos acreditei que sim.

 

Para mais contexto: o primeiro dia que sentei no sofá da minha analista foi para conversar sobre outra violência, a minha história que posso contar. Então, imaginei que a parte do lidar não seria tão diferente após realizar tudo que aconteceu em 2020.

 

O impasse é que, daquela vez, o lidar, aparentemente, foi ao contrário. Começou pelo luto que parecia o menor dos problemas por ser algo já experienciado em 2018 quando reconheci o que me aconteceu na adolescência. Eu sabia da probabilidade de vir um rebaixamento mental e emocional, pois, ao contrário do esperado, não sinto euforia depois de resoluções. É anticlímax e chorei por tudo que aconteceu em 2020 pela primeira vez. E muitas outras vezes.

 

Porém, em nenhum momento escolhi lidar. No fundo da minha mente, morava essa certeza de que eu não precisava por ter visto tudo que aconteceu. Por saber o que aconteceu. Logo, já estava aderido. Algo diferente dos meus traumas da adolescência, visto que precisei nomeá-los para lidar em seguida. Foi aí que conheci o estado fúnebre. Tem mais, claro, como a resposta traumática de não querer reviver a história. Era medo de atraí-la de novo e, até então, esse sintoma não saiu de mim. Sem contar que o evento me desorganizou profundamente, como disse minha analista.

 

De qualquer maneira, eu afundei incontáveis vezes nos primeiros três meses de 2021 enquanto aguardava a sensação de vazio que me indicaria que o trauma diminuiu a pulsação. Por diminuir a pulsação é ter perdido a força, pois você descobriu a verdade e as artimanhas. Você entra nos termos com esse fato e o evento traumático começa a ter menos influência na sua vida. Você sai dessa bolha para lidar melhor com os sintomas do depois e esse processo costuma ser reconhecido como a transição da vítima para sobrevivente. E, assim, você segue.

 

No fundo, ter ferramentas e referências de 2018 foram uma enganação. Frustrante, pois nada se aplicou. Daí, vem a dura verdade: para cada caso, um modo de operação. Contudo, eu apliquei as regras anteriores. Forcei a barra.

 

Não me lembro de ter chorado o suficiente em 2020 para esvaziar, limpar e diminuir a inflamação interna. Porém, uma vez que colidi com 2020, não parei de desaguar. Virou rotina chorar até enquanto trabalhava. Do nada.

 

Meio de março. Quando os naufrágios pausaram. Veio a confiança de novo. Nem me lembro qual foi o ponto de partida, mas logo me vi interessada em me cuidar. 2020 foi um ano de completa autonegligência em função ao que acontecera. Sentia-me (ainda me sinto) uma grande feiosa, com o corte pandêmico crescendo errado (caso resolvido em 2021 mesmo, amém!). Assim que meu terceiro salário caiu, comprei uns produtinhos de skincare e meu primeiro óleo essencial. Iniciei as pesquisas sobre autocuidado e trauma. Retomei meu tratamento psicológico. Tornou-se urgente me dar mais atenção, pois eu queria reavivar meu espírito e retomar minha trajetória. Parar de afogar. Uma pena que, nesse caso, reputation da Taylor Swift não calhou. Entrei no mundinho Phoebe Bridgers e nunca mais saí!

 

O autocuidado soou como um plano adequado. Só que 2021… Nem sei como descrever de tão confuso, dramático e estressante que esse ano também foi! Eu sabia que teria que enfrentar as reminiscências do ocorrido em 2020, mas recusei até o limite. Já não havia equilíbrio e relar nessa ferida não parecia atraente. Sem contar que estava exausta o tempo todo e foi aí que senti a necessidade do mundo parar. Eu não conseguia acompanhar absolutamente nada direito.

 

A vida mundana adicionou mais colapsos ao meu sistema fragilizado por conta das responsabilidades. Veio a fase de só dormir para não lidar. Aumentando meu desejo por férias remuneradas (tem como alguém fazer isso acontecer?). Minha vida não parou um segundo sequer desde 2020 e eu poderia sentir certo orgulho disso. Mas era estado de calamidade. Vi-me em uma situação em que funcionar adequadamente e resgatar a normalidade se tornaram obrigação. Só que 2020 me tomou essas duas coisas e muito mais.

 

Naufrágios e naufrágios. Picos e mais picos. Desistências e mais desistências. Era só o 1º semestre.

 

Naufragar e afogar em curto espaço de tempo começou a me irritar. O erro no sistema. Eu estava seca por estabilidade. Normalidade. Ainda estou, pois nada mais insuportável que se ver afundar do lado de dentro o tempo inteiro. Perceber que roubaram mais de você, seu resto de controle, sua identidade e tudo mais. Ver que sua vida é extremamente atípica em comparação a qualquer outra. Bateu o estresse juvenil da minha casa nunca ter sido uma casa e agora é menos que isso. Não sei dizer com clareza como me senti nesses dias de 2021, mas o que lembro é da vontade de sumir.

 

Talvez, afundei na mesma quantidade que fui enganada sobre o agora vai, vou me cuidar, me recuperar, ser melhor, etc.. O começo de 2021 me deu essa certeza antes de Funeral tocar. Havia provas de que eu conseguiria, como ter publicado meu primeiro conto em 2020. O que não provava nada, pois acho que fiz isso para ter um marco importante em um ano horrível. Secretamente, começou a crescer uma sede tremenda em retomar meu espaço e todas as vezes que apareci online foi mais para buscar a certeza de que saí do tornado virulento parcialmente ilesa.

 

Parcialmente inteira. Inteira o suficiente para voltar a ser quem fui em 2019. A ter controle das minhas escolhas.

 

Li que é comum você querer ser como antes depois do trauma. Não tem como e aprendi isso no processo de ver o primeiro trauma que contei para minha analista, em 2018, perder a força. Vem uma tímida liberdade, visto que você começa a quebrar alguns pensamentos e comportamentos limitantes que não eram um traço de personalidade. Eram respostas traumáticas. Ponto que, no fundo, eu sabia, mas insisti em buscar a versão de 2019 e isso se tornou uma expectativa perigosa. Eu mudei mais em função do ocorrido em 2020 e aquela versão, provavelmente, ficou com Deus.

 

A prova disso estava no simples fato de que eu não sabia mais sobre o que escrever. Um absurdo, considerando que me conectei tanto com a escrita em 2020. Mas isso aconteceu em 2019, então, não era um espaço incomum. Fiquei que nem uma barata tonta a procura das novas pautas quando o que eu precisava era de tempo. Um tempo que só fui entender em 2022. Que coisa não?

 

Tenho registros de junho e julho que visaram meu retorno ao blog. Havia um compromisso fortalecido com meu autocuidado. Um interesse raro sobre meu futuro. Mas aí a Cassie, minha cachorrinha, faleceu subitamente em agosto de 2021.

 

Bem-vinda ao 2º semestre de 2021! Juro que até hoje dá vontade de tacar minha cabeça na parede.

 

As metas de junho e julho foram para o ralo. Os comportamentos nocivos, que eu já engajava em 2020, relampejaram.

 

Rebaixamento nível hard

 

cena do filme midsommar

Em algum momento, abandonei o autocuidado que nem sequer criou as primeiras raízes. Na real, essa rotina foi oscilante, porque dependia de como me sentia em determinado dia. Ou seja, a maioria meio merda.

 

Perder minha cachorrinha foi a gota! Bem-vinda crise de fé! O tempo fechou e abracei os comportamentos nocivos que nunca me foram novos:

 

1: Beber a qualquer hora e até durante o expediente (porque meio alcoolizada eu também suportaria o job). Não para ficar bêbada, mas para alterar meus sentidos deprimidos considerando que fico “alegre”. Comecei a beber sem responsabilidade em 2020 para dormir, já que meu cérebro mantinha uma luz de alerta acessa, e romantizando como sedativo para distrair meu recente bruxismo. Esse comportamento sempre me bota de volta em tempos onde a bebida se tornou atraente para sentir coisas diferentes (dou risada a troco de nada quando o álcool entra no meu organismo) e isso voltou a acontecer. Fora as doideiras de comprar relaxante muscular. A mistura nada boa.

 

2: O ilustre comportamento de comer motivada por emoções negativas. A punição é a emoção mais exata junto à necessidade de cobrir um vazio que representa ausência de afeto/cuidado/comunicação. Várias vezes, pensei que beirava de novo ao transtorno alimentar, pois começou bem assim. Eu comendo tudo e depois procurando atividade física para compensar — não foi o caso daquela vez, já que nem me importei com atividade física. Era comer e dormir.

 

Nos dois casos, atitude sempre resvala no fato de que quero desaparecer. Não querer mais estar aqui se tornou uma constante forte, pois me veio a realização de tentar, tentar e tentar, mas sem hora de saída.

 

Sem hora para as coisas ruins pararem de acontecer. Foi um baque atrás do outro. Sem a menor condição de processar tudo tão rápido. Parecia até que, quando eu intencionava isso, mais anormalidades aconteciam para estourar o que restava de saúde mental e emocional. Piorou por não ter espaço de evasão e isso fortaleceu por certo tempo meus comportamentos nocivos. Por várias vezes, o trabalho se tornou outro ponto de fuga também, porque perdi a esperança sobre meus projetos. Ao longo dos meses, parecia que esse seria meu cenário para sempre.

 

Em 2020, consegui me manter alerta diante desses comportamentos nocivos. 2021 foi nublando minha mente, um cinza de cada vez, e “lidei” de um jeito inapropriado quando eu poderia falar sobre (tudo). O silêncio que você se dá também é violência e retribuí fazendo péssimas escolhas. Até abandonei meu diário, o cantinho de desabafo. Apareci raríssimas vezes, porque não sentia que o atualizava. Era a repetição da mesma história.

 

Quando os dias da perda da Cassie passaram, percebi que precisava tirar alguma emoção de dentro de mim. Vi que, de certo modo, ainda me cimentava para não terminar de quebrar. Eu estava em estado de autopreservação, esperando que mente e corpo se regenerassem por conta. À espera de um milagre que não veio, mas veio o flerte com cadernos que comprei em 2020. Sempre tenho caderninhos que arrisco uns poemas. Foi aí que a coisa pegou, pois eu ignorava uma atração. Eu sabia que, uma vez que repousasse um lápis no papel, eu abriria essa ferida. E desaguaria.

 

Eu admitiria um fato e abriria para outro luto (um luto em cima do outro você quer @?). Demoraria o quanto fosse, mas o fim seria o mesmo: reagir para reconhecer a perda e me permitir quebrar um pouco mais para rumar ao encerramento. Eu só enxergaria e entenderia a necessidade desse ciclo com mais precisão em fins de 2021.

 

Até lá, relutei, claro, mas, depois disso, aconteceram experiências esquisitas. Como receber informações nostálgicas que me confortaram um pouco (e me fizeram chorar de saudade de muitos capítulos da vida, além da Cassie). Tudo em música, a minha terapia dos últimos dois anos, e foi irreal. Porém, fez sentido. Após a despedida apropriada da minha bebezinha, bateu a vontade de criar algo que envolvesse música e que me ajudasse a processar tudo que eu sentia. Veio lembranças da vida passada, como o I AM THAT GIRL. Veio até a lembrança do encerrado Contra as Feras, em conjunto com novos rabiscos de poesias perdidos na minha agenda. Era setembro.

 

Em seguida, apagamento. Não me lembro de muitas coisas passado setembro, a não ser as emoções atribuídas ao luto, como inconformismo. Foi inacreditável ainda haver tempo para acontecer mais essa. Tenho outras memórias por intermédio de fotografias, onde me vi abordada pela confiança de novo. Sem saber, eu transitava para um tempo de espera após ter feito o que eu precisaria repetir mais tarde: iniciar encerramentos. Como já dizia o duo Broods: deixe seu coração quebrar, dê uma oportunidade para esclarecer seus sentimentos. 

 

Não sei o que aconteceu, mas me despedir da Cassie e chorar tudo que eu tinha para chorar nos meses conseguintes (spoilers: ainda choro) foi como tirar uma das nuvens cinza da mente. Eu precisava ficar um tempo ali, pois, após a perda e a despedida, um silêncio interno fez morada. Nada se movia dentro de mim e essa foi a experiência mais marcante durante esse luto. Coordenado ao fato de que meu cérebro parecia ter tomado um murro e gerou, em doses, questionamentos sobre meus comportamentos, atitudes, situações, englobando 2020 até agosto de 2021.

 

Abriu-se para um período esquisito de articulação e deve ser por isso que não me lembro de muita coisa. Afinal, continuei presa na minha cabeça e distante do meu diário (depois de escrever sobre o ocorrido com a Cassie). Mais naufrágios, picos e vontade de desaparecer gerando estática em um cérebro que lembrou de buscar soluções. Conflito que foi perdendo a força, pois sumir parecia a única resposta. No entanto, nunca tive coragem. Nunca estive sedada o suficiente para tentar. Mas virou martírio estar dentro do meu próprio corpo, escutando minha própria mente. Às vezes, é excruciante ser eu.

 

Voltar a buscar soluções foi o mesmo que sair do silêncio interno. Outras ondulações emocionais. Ao mesmo tempo que me vinham revelações que, possivelmente, me colocariam nos trilhos de novo. Sobre mim. Meus comportamentos. O futuro. Reflexões regadas a mais álcool. Mais comida. Mais vontade de sumir. Perder a Cassie foi um evento que bateu dentro de mim de um jeito novo. Dos mesmos criadores do episódio já vivi traumas demais para acontecerem outros.

 

Nunca lidei com a morte, no sentido de perder alguém que realmente importasse na minha vida. Sempre me vi imune ao assunto e isso vem da infância. Mais precisamente, do dia que recebi a notícia do falecimento do meu avô por telefone. Lembro da preocupação da pessoa do outro lado da linha em dar a notícia e me pergunto até hoje se a mulher tinha noção de que soltava a bomba no colo de uma criança. Como eu não tinha elo algum com esse parente, a informação não me provocou nada. Assim, perder alguém passou a aparentar um momento administrável.

 

Isso cresceu na minha mente quando comecei a ser a rainha sem coração. A rancorosa. Logo, me tornei a valentona que nada sente. Acreditei, sendo que meu coração sempre foi frágil. Endureci e consegui ser um repelente eficaz. Porém, aprendi a chorar escondida e tampar minha boca para que não escapasse o que eu verdadeiramente sentia.

 

O silêncio sempre me apaga.

 

Passar por outro tipo de luto, um nunca experienciado, mexeu ainda mais com meu estado conturbado. Não sei se “lidei” bem ou não, mas iniciei o compromisso de escrever cartas para a Cassie. Todo dia 17.

 

Conforme o tempo passava, sem eu efetivamente participar, enxerguei pouco a pouco a barreira que me segurava. Uma fina antes dos comportamentos nocivos. O limite que não me permitia ir tão fundo ou me nortear pelo desejo latente de desaparecer. Isso não trouxe uma reviravolta rápida, mas novas mensagens começaram a chegar. A principal delas é que eu precisava parar e melhorar. Sair desse ciclo vicioso, porque nada disso traria a Cassie de volta e nem repararia 2020. Nada disso tornaria o mundo mais justo. Eu teria que engolir meus inconformismos e barganhas com farofa. E isso é demais para quem associou o endurecer com a atitude de nunca se deixar despencar.

 

Não é uma fórmula milagrosa, pois, às vezes, volto a ser inconformada e cheia das barganhas.

 

Para isso, somente encerramentos. O motivo do qual me lembro de setembro, pois foi lá que ocorreu meu primeiro encerramento seguido da tentativa de retomar minha jornada interrompida. Foi lá que toquei o lápis em um caderno para mover esse acontecimento e essa parte do processo nunca foi nova. Era o que eu fazia desde 2018 para elaborar meus lances após a sessão de análise. Onde esticava minhas impressões sobre novas descobertas. Foi a fase que tocou reputation. Eu estava enraivecida porque notava o que traumas e pessoas me furtaram. Algo semelhante ao decidir retornar para 2020 e realizar em fins de 2021: o que eu perdi, o que sobrou e o que pode vir depois.

 

Entre as sobras da minha embarcação, fucei minhas coisas de novo. Meu eu do passado deixou tudo pronto para o eu do futuro engatar assim que recuperasse parte da sanidade. E me surpreendi várias vezes, pois me esqueci. E me esqueci mais durante o período que declarei outro tipo de desistência. Uma que envolvia a exaustão de lutar o tempo todo. Estava farta de brigar para me manter. Estava farta de sempre perder, e me perder, em função de eventos trágicos.

 

Eu precisava me acalmar. Eu precisava me recompor. Minha mente nunca parou, mas sempre costuma pender para o negativo. O silêncio da minha boca nunca cala minha mente. Só deixa tudo estático até eu receber informação útil.

 

Entre uma faxina, me veio a lembrança da intenção de 2020: viver o novo normal que nunca vivi de maneira consciente (e que hoje chamo de outro depois). Trocou-se meu pensamento de começar pela milésima vez e essa era outra ideia da qual estava farta. Começar seria reiniciar a briga para me manter. Em contrapartida, a proposta de que, talvez, eu devesse retornar o caminho para parar onde a minha história se interrompeu soou mais atraente. Mais leve, porque era um fato decidido. Eu não precisaria recalcular a rota, visto que a meta de não me manter por mais tempo nas bifurcações mentais que o passado acarretou já estava escrita.

 

Seria o início do fim dessa era Midsommar, porque, depois do conflito água e fogo, eu voltei à essência da intenção de 2020: pegar a bagagem vazia e preenchê-la com o que importa. Após desaguar pelas partes trincadas, vários vazios se apresentaram. Desnorteando o processo de saber quem sou agora e ainda não sei. Mas posso saber ao iniciar meu outro depois. A diferença é que eu empacotaria o que sobrou para ter âncoras de sustentação.

 

Em algum instante, vi que retroceder seria o mal necessário. Era algo que ecoava no fundo da minha mente assim que li sobre encerramentos. Eu precisava rever as reminiscências dos últimos dois anos para enterrá-las para sempre. Assim, transitar da vítima para sobrevivente, embora eu não queira mais ser sobrevivente.

 

Mas essa é outra história.

 

Encerramentos

 

cena do filme midsommar

Se há algo que acredito, embora tenha passado pela crise de fé (e ainda acho que vivo nela), é em energia. Do mesmo tanto que o poder de determinadas informações chegarem até você do nada e acenderem uma luz mental.

 

No caso, dar encerramentos veio até mim e se adequou facilmente. Vibrou no cérebro junto com closure de Taylor Swift. Eu guardava muitas informações dentro de mim. Nenhuma processada adequadamente. Nenhuma esvaziada. Com quem converso deixou de ser o suficiente, pois chega uma hora que você se acha uma perturbação e se policia para não soar como um papagaio repetindo a mesma história. É resposta do trauma, mas fazer o quê?

 

Eu tentei adiar esse lance de encerramentos, mas tenho uma regra: se continuo pensando sobre é porque tem algo no background. Quanto mais 2021 chegava ao fim, mais próximo o instante de sentar com os últimos dois anos. Colocar no papel tudo que eu sentia e pensava. A facilidade existia, pois havia consciência de cada ponto que me desestruturava (por vezes ainda desestrutura) e isso abriu para vários outros assuntos. Inclusive não planejados, como reconhecer feridas maternas e paternas acarretadas na infância (muitos dos meus comportamentos defensivos e que agora acho toscos foram desenvolvidos nessa linha do tempo). Achei que não terminaria de escrever. Havia tanta coisa entalada.

 

Da articulação veio a elaboração. Algo que não fiz, em nenhum instante, entre 2020 e 2021.

 

Quando decidi pelos encerramentos, meu foco era entrar 2022 com tudo discutido. Sem pendências. E, como sempre, veio a voz da minha analista, dizendo na única sessão que aconteceu em 2020: eu podia me separar. No caso, de 2020 para criar meu espaço seguro enquanto me mantenho no ambiente onde tudo aconteceu. Tirando a perda da Cassie, 2021 foi muito um chamado para eu tratar esses e outros assuntos que se manifestaram no caminho.

 

Dar encerramentos foi um ponto de partida importantíssimo para abrir espaço. Senti que voltei ao eixo que minha história se interrompeu, mas 2022 mostraria que eu estava um pouco longe ainda. Hoje, entendo que era necessário fazer esse retorno. E, agora, vejo que se tornará uma espécie de hábito. Há coisas que são impossíveis de carregar no silêncio.

 

Escrever sempre me ajudou. Falar nem tanto, embora entendi que, uma vez dentro de uma sessão de análise, é a chance de você realmente se ouvir. Dar atenção a cada palavra dita. Na sala da minha analista, notei repetições por conhecer uma mesma linha de enredo. Os diários me revelaram a mesma coisa. O que já vivia por dentro inflamou em função dos eventos de 2020 e 2021. Um maremoto e decidi que eu não queria mais me ver de tal maneira.

 

Porque, depois disso, vem o dobro do esforço para se colocar na rota de novo.

 

Ao longo da escrita dos encerramentos, notei que eu não estava pronta para olhar e estudar os escombros das tragédias. No entanto, pensei que, talvez, eu tinha mesmo que me afogar incontáveis vezes para atingir o mais fundo das minhas feridas e ter uma espécie de revés. Até decidir por claridades e, assim, emergir para viver um novo tempo de espera.

 

Parece bonito dizendo assim, mas, infelizmente, não é. Cheguei perto de acreditar que eu não tinha mais jeito. De que eu tinha que me conformar que minha vida seria só isso: tristeza, tragédia, naufrágio, desistência, submersão, repete. Pontos que chegaram a ser verídicos demais quando revisitei meus diários para saber como eu estava em ano tal. Nada me deixou mais arrasada que ler o eu de 2019 dizendo que tinha medo de perder as coisas boas que se manifestavam e eu: tadinha, mal sabia! Deu vontade de desistir dos diários para não me revisitar, pois reconheci um medo que ainda persiste — a alegria não ser cancelada para ser cancelada no menor sinal de alegria.

 

Sempre quis escrever outra história para mim e isso me retorna a 2020, quando mandei a última newsletter. Eu maratonava Doctor Who na época e me esqueci de uma das frases mais bonitas dessa série: o tempo pode ser reescrito. Quando terminei os encerramentos, veio um novo silêncio que reforçou a verdade de que eu queria, e quero, um novo enredo. Sendo, enfim, a protagonista e totalmente consciente de que tenho muito para resolver dentro de mim.

 

O dilema é que, depois dos encerramentos, nasceu as sementes da urgência. A impaciência para que as coisas melhorem logo. Para que eu saia de onde moro. Ponto que convivo e já vi se transformar em desespero.

 

Em suma, foi uma experiência funerária. Vários funerais por minuto. Folhas e mais folhas. Choradeira sem fim. Parecia realmente que alguém tinha morrido. Algo que não deixa de ser verdade. Além das outras mortes, morri várias vezes.

 

Eu não sabia que precisava escrever sobre 2020, incluindo 2021, até sentar e fazer. Como deu para notar, relutei o tempo inteiro até chegar no meu limite e preciso parar com isso. Sei que posso resolver minhas angústias o mais breve possível, sem deixar escalar tanto e me consumir até eu querer desaparecer. Coisas que tento aprender atualmente, pois algo em mim ainda é viciado em segurar firme. Em se manter estruturado. Em ordem.

 

No fim, não quer dizer que voltei à tona purificada. Plena, curada e pronta para reiniciar uma jornada que me propus em 2020. Por outro lado, escrever sobre os últimos dois anos libertou o que precisava ser libertado. Entendi várias coisas que eu não entenderia estando alcoolizada e estufada de comida. Ou em silêncio. Depois desse processo, que sequer imaginei que me traria algum bem, veio um breve estado de leveza. Minha analista sempre diz que chorar limpa e a escrita é meu processo de expiação. Passado isso, me restou esperar. Como espero desde então.

 

Mas veio a realização atual: 2022 precisa ter como principal aprendizado eu estar por mim, cultivar a autoconfiança, parar com esse lance de me entregar e ir tão fundo no naufrágio ao ponto de querer me aniquilar.

 

A única forma possível, e que não me cobraria um absurdo de dinheiro, seria o autocuidado. Algo que nunca aprendi a me dar, pois os traumas e fatores externos me consumiram. Nos entretempos, do jeito que eu estava, derrotada, parecia sempre bom. Afinal, eu possuía um olhar de 3ª Pessoa. A personagem que só existia em função de uma 3ª pessoa. Como o trabalho. Os olhos de alguém. Tornando fácil eu soltar minha mão e isso tem que parar também. Para meu próprio bem.

 

Como disse minha analista: sempre me entrego e me afogo. Só que eu nunca soube como interromper esse processo, especialmente porque minhas referências sempre foram ocupar espaços desconfortáveis e chorar até voltar a ser falsamente plena. Fico presa na minha cabeça, absorta no meu sofrimento e agora reconheço como isso me torna autocentrada. E ela sempre me indicava dar uma volta, ir tomar um café, trabalhar em outro lugar. E eu sempre acenava e sorria e não realizava nada. É uma dificuldade tem horas de aplicar os conselhos imediatamente.

 

Mas, assim como a intenção de 2020, várias falas da minha analista começaram a fazer sentido anos depois. A rotina sempre foi importante para mim, especialmente para realizar tarefas diferentes. A novidade seria o autocuidado, a ferramenta mais interessante no momento para me ajudar. Eu, sozinha, passando pela rotatória a fim de encontrar o caminho de volta para mim. Já dizia o The National: eu sou fácil de encontrar. E isso se tornou o meu mote.

 

Reinícios e aprendizados

 

cena do filme midsommar

2022. Nasceu o terror interno sobre não conseguir me erguer e me manter erguida por bastante tempo. Comecei a sentir uma singela ansiedade sobre isso em fins de domingo e isso se esclarece na preocupação sobre será que conseguirei acordar cedo para me dar um pouco de atenção por cinco dias consecutivos antes do job ou escolherei dormir? Por muitos dias, escolhi dormir e minha mente pronunciava palavras nada amigáveis para mim. Era algo que eu sabia querer muito, mas, de início, não parecia o suficiente.

 

É complexo largar o único tratamento que você conheceu a vida toda. O péssimo e o estimulado por sintomas de traumas e o ambiente que você cresceu. Incluindo, a conversa mental tóxica. E aqui temos a urgência agindo de novo. Afinal, voltei ao status de querer melhorar logo, de ficar bem e assumir o meu posto na jornada.

 

Consegui engatar uma nova rotina, embora espionasse 2021. Parecia o mesmo comportamento padrão, lá vai ela acreditando até cair. Isso soou como uma confirmação quando, já em fins de janeiro deste ano, naufraguei de novo. Soou realmente como caso de morte. Eu não queria mais acordar para me ver tentando à toa. Eu não queria mais me ver reagindo para no minuto seguinte paralisar. De novo, me vi farta, mas agora dessa autoconfiança que treme ao menor sussurro de autodúvida. Unida ao desejo de que quero viver imediatamente e não mais ser só a sobrevivente.

 

Como minha analista viveu de dizer: eu tenho uma mãe insuportável na minha mente. Reflexo de uma mãe que inseriu no meu DNA adolescente essa preocupação irracional de sempre fazer e nunca parecer bom o suficiente, porque sempre tem um defeito. Ditas verdades sagradas. Outro ponto que preciso derreter e reescrever em cima, pois o problema não está comigo. Se estou satisfeita, isso basta. O defeito já é problema da outra pessoa.

 

Foi outro estado de calamidade e só caí em mim quando passei muito, muito, dos limites. Contei mais sobre isso neste post: Outro ano — mesmos meses. Honestamente, achei que não conseguiria mais retornar. A decisão foi largar de mão. O que tiver que ser será, pois minha decisão resoluta de desaparecer parecia inquebrável. Veio o desinteresse que esvaziou minha mente, meus sentidos. Só levantava por conta do trabalho.

 

Depois do baque, soluções nunca experimentadas antes iluminaram minha mente. Veio a ideia de fazer perguntas. Como: você quer acordar agora? Isso gerou uma reviravolta no meu cérebro, porque é o mesmo que explorar meus desejos. É o mesmo que, finalmente, começar a dar vida a uma voz amiga, que se preocupa e não me força a fazer o que não quero. Aos poucos, a breve ansiedade de domingo começou a se dissolver. De certo modo, me senti no controle, mas não de um jeito tóxico. Comecei a dar chance de me ouvir primeiro antes de agir.

 

Tchau, tchau cronogramas!

 

Nessa de escutar meus desejos, abri mão da rotina como era antes. Algo que tentei me enfiar incontáveis vezes. Funcionava em 2018, 2019, mas, depois de 2020, não fazia mais sentido. O sentido agora é olhar um campo vazio e decidir se sento ou pratico esporte. Nada marcado no papel. Nem na agenda. Apenas, compreendendo que 24hrs tem dia, tarde e noite. Isso me acalmou.

 

Como disse neste post, acredito nas coisas que chegam de surpresa na minha direção e me lembro que li sobre a importância de ouvir os próprios desejos. Foi quando dei por mim que nunca prestei atenção nisso. A maioria das minhas escolhas foram uma composição contaminada de expectativas de terceiros. Automaticamente, essa falta de conexão com meus próprios desejos revela que nunca passei a chave para tornar o que é meu mais relevante.

 

Noção que veio depois da queda de fins de janeiro, início de fevereiro. A catapulta que, surpreendentemente, me ajuda desde então. É preciso de calma na urgência, embora eu brigue com esses dois estados. Porém, tem liberdade, uma palavra que reside entre meus maiores desejos. Eu mesma não me dava isso. Havia um controle invisível, na forma de hábito em fragmentar o tempo em horas. Sem dar margem para escolher. Entre cronogramas, sempre reconheci a problemática de tudo ser robotizado, pontuado, mas parecia o correto. Até não mais ser.

 

Pelo reconhecimento de que tenho desejos, que começaram a estalar em 2018 e ganharam uma força brutal de 2021 pra cá, reencontrei o ponto de partida de 2020 e o instante de 2021 que resolvi comprar os produtinhos de skincare. Esse foi o único “comecei” indolor, porque, de fato, não tinha nem começado o outro depois e o autocuidado. Agora, tudo entra de acordo ao que quero no momento.

 

E se for dormir, tudo bem. Desde que seja por cansaço e não por autossabotagem. Raciocínio que apliquei à bebida e à comida. Como só tenho a mim para policiar, perguntas precisaram ser impostas: você quer beber/comer isso por quê? Fazia muito tempo que eu não bebia um vinho só por querer beber. Ou comer um doce por mero deleite. Soa fácil como digo, mas sempre estive consciente em meio aos meus comportamentos nocivos. Tive que tomar responsabilidade deles.

 

Como tomar responsabilidade pelo meu próprio cuidado. Ninguém fará isso por mim.

 

O que não significa que tudo segue bem, nos conformes. Ainda há os picos e as beiras de um novo naufrágio. Comer por crises emocionais que se confundem entre gatilhos e TPM. Nem sempre a atitude de escolher o que quero funciona, pois não há nada que me desvie mais de mim que a tristeza.

 

É real que o processo de recuperação, que chamo de regeneração, não tem data para começar. Durante 2021, forcei várias vezes quando acontece na hora que tem que acontecer. Lá no fundo, eu sabia disso, mas quis passar por cima pela urgência de querer melhorar logo. Sendo que o tempo parece mais longo no pós-trauma. As coisas são confusas. Você se sente fora da realidade comum. Há muitas emoções ao mesmo tempo. Se você tem algum transtorno mental aí que complica mais. Fora o sumiço de entendimento de quem você é depois de tudo e é normal querer que o mundo se interrompa. Ano passado, eu quis muito que o mundo parasse, pois não conseguia acompanhar.

 

No fim, concluí que eu deveria ir junto com as minhas ondas.

 

Até o momento, a solução para não cair tanto foi me alinhar aos meus desejos. Hoje, entendo de onde isso veio e os motivos de dar certo para mim. Meu direito de escolha foi tomado incontáveis vezes ao longo da vida e 2020 foi o ápice. 2020 me deu um duro silêncio, onde não havia limites e nem desejos. Tive que irromper para ter minha voz de volta (de novo), no tempo que tinha que ser. Tem sido bom, mas, pela expectativa da ordem, às vezes, me sinto confusa. Como nunca tive uma rotina decente e com mais liberdade, ainda soa como fracasso em vários aspectos.

 

É a famosa batalha diária, pois um evento traumatizante consome e não se sabe o que vem depois. Você se esquece do tempo, de como você se movia em um mundo que deixou de ser o mesmo abruptamente. Você se esquece de quem foi antes ao mesmo tempo que descobre que aquela pessoa não era totalmente você. Foi fácil reconhecer esses pontos, pois passei pela mesma realização em 2019 e alguns dias de 2020 (antes da nova tragédia acontecer).

 

A única certeza é se mover com o tempo enquanto se espera.

 

O trauma apaga, causa um intenso nublado e é exaustivo quando se pensa putz, preciso sair disso de novo! O que traz o que eu também já disse: parece que essa é sua única história e rola um constrangimento interno toda vez que vem a oportunidade de falar com alguém. Um assunto que pretendo articular depois, com carinho e calma.

 

Chega a ser injuriante reconhecer entre os escombros algumas ideias úteis. Não parece muito certo. Parece que caio no dilema: vamos tirar coisas boas dessas tragédias. Está aí algo que não acredito mais e nem ouso dizer. Parece que ao dizer isso ainda se romantiza a tragédia. Como se você merecesse para evoluir.

 

A verdade é que eu sempre procurei formas de tentar me salvar. Isso eu posso chamar de traço de personalidade, porque, quando me sinto corajosa, sou determinada. Em 2016, comecei diários, porque eu não tinha grana para terapia. 2017, criei um projetinho que chamei de Timshel – a música do Mumford & Sons. Teve o desativado Contra as Feras que nasceu em 2015 e me deu mais esclarecimentos sobre as minhas vivências. Ainda há uma força vital em mim que resiste e essa força vital está em meu coração. Uma parte de mim que precisa de mais atenção por ter sido negligenciada e oprimida.

 

É essa parte de mim que me tornará livre para ser e viver. É onde vive todos os desejos que, quem sabe, me salvarão. É o que quero acreditar por ser justamente o que me resta. O famoso confia!

 

E o que vem depois?

 

cena do filme midsommar

Nessa incessante busca por soluções, o autocuidado surgiu como o mais essencial do momento. Além disso, tornei determinadas tarefas parte desse processo. Como voltar a blogar e a manter minha escrita em dia. Tive que realmente praticar o que minha analista vive a dizer sobre ressignificar para que tudo se torne o mais leve possível.

 

Pode ser um autocuidado minimalista, mas está mais associado ao que desejo e tenho vontade. O mesmo para a repartição dos dias, que possui manhã, tarde e noite. Não um bloco de horas para completar.

 

É um espaço novo que nunca me dediquei e não entendo. Por isso é importante ir devagar para saber no caminho o que funciona. Posso dizer que, por enquanto, essa liberdade traz escolhas mais intencionais até sobre as atividades físicas. É meio que voltar a ser criança, onde existe aquele sentimento de optar pelo que bem entender e realizar o que faz realmente sentido.

 

Nessa de sentido, vem a voz da minha analista de novo. Quando ela me via nessas situações de dificuldade para manter meus processos, principalmente os de escrita, as palavras seguintes sempre eram: faça o que faz sentido para você. Outro conselho que demorou a ser lido no meu sistema, pois eu estava tão viciada em cronogramas, em manter o que eu conhecia, não me dando oportunidade de agir de outras formas. Isso me deixa confusa tem horas também, porque meus processos nunca contaram com tanta liberdade. Sempre foi tudo na ponta do papel.

 

Esse reinício de jornada também é sobre curar comportamentos e pensamentos limitantes que se revelaram durante a tarefa de encerramentos. Dentre tantas conclusões, a mais dura de todas é que perdi tudo. E nem é meme. Perdi noção de família, casa, amizades e de mim. Tem muito o que trabalhar, viu? A parte bacana é que, enquanto afogava, muita coisa tive que deixar queimar.

 

O que ainda não queimou é minha raiva. Sinalizando que tem mais coisa a ser resolvida. Mas essa constante de funeral revelou o que é clichê: só eu mesma por mim no fim de tudo. Só eu mesma para me colocar de pé todo santo dia. Literalmente, minha mente rebobinou para o eu, sozinha, porque sempre foi assim de certo modo. Mas há a diferença entre estar só e isolamento.

 

2020 foi um exílio. 2021 foi um isolamento. 2022 eu não sei, mas espero que seja melhor. Todo dia. Ao menos, tenho a consciência de que só saberei a partir do momento que faço algo por mim. E o algo de agora é aprender a me cuidar. Não soltar a minha mão. Ser mais compreensiva, visto que tudo que vivi não é de fácil digestão. Entender que o tempo me foi dado não para reclamar que não passa rápido, mas sim porque preciso dele para me alinhar melhor ao que quero. A regeneração é para ser segura e não outra fonte de dor.

 

E eu sentia muita angústia. Principalmente por me cobrar vários milagres.

 

O saldo até então é um diário de autocuidado, caderno da gratidão (pode rir de mim, mas tem explicação), voltar ao meu diário, praticar atividades físicas, manter o skincare e o óleo essencial. Falta retomar a análise, mas, por enquanto, escolhi esperar. A hora de retornar uma hora vem e não é agora.

 

E cá estamos. Depois do que chamo de meu Midsommar. Um filme deveras representativo para mim e que assisti em 2020. Passaram-se dois anos traumáticos de muita dor, angústia, sofrimento, silêncio, desamparo e tudo mais. Estar tão conectada aos traumas e aos sintomas do depois é simplesmente devastador. Anos profundamente solitários, que não quero nem falar sobre, mas me revelaram que preciso tomar atitudes por mim ou, realmente, desaparecerei sem perceber. O esquema é ocupar meu espaço pouco a pouco. Narrar minha história a partir de agora.

 

Posso ter nascido em maio, mas estou longe de ser coroada como rainha de maio. Não sei o que dará certo, mas preciso lembrar que esse não é o foco. O foco é escalar o fundo do poço, sair e viver. Como na época do I AM THAT GIRL, nada me dá mais prazer do que compartilhar jornadas por aqui. O grande lance é que são várias jornadas. Mas vai dar certo!

 

Quero acreditar que, agora, realmente #vemaí!

 

Fica bem, tá?

 

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Outro prólogo floresce entre os escombros

Quando se tem traumas que dificultam o autocuidado

 

Imagem em destaque: Sixteen Miles Out via Unsplash

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Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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