26abr
Arquivado em: Música

I.

 

A partir dos 14 anos, passei por uma série de interrupções. Cada uma delas me afastou do que eu mais amava: a música. Fui fangirl. Dedicadíssima, incluindo com a MTV. Reconhecia todas que tocavam na rádio com facilidade. Era impensável não ter o CD dos artistas favoritos ou a revista em que estavam na capa.

 

Até onde me lembro desse entretempo: não havia nada além da música. E, claro, ser fangirl.

 

Cada álbum dos artistas que colecionei se tornou uma bolha ao redor da minha cabeça. Meu quarto, que era somente meu antes da minha irmã nascer e ganhar idade suficiente para dividir o mesmo espaço comigo, se tornou minha própria casa de show. Não tenho lembranças de ter faltado um só dia no meu compromisso de fechar a porta e dançar todas as músicas que possuíam um passinho decorado. Processo iniciado a partir do instante em que me tornei fã de Sandy e Junior, embora o ato de balançar o esqueleto existisse desde a era dos LPs. Na infância, Xuxa, as Paquitas e a Angélica já moviam a música dentro de mim como algo misterioso, divertido, leve e alegre. Isso deveria dizer muito para quem não sabia o que fazer da vida naquela época (e nem 2022).

 

Não diria que meu envolvimento com a música foi um hobby com aspiração de carreira, pois despertaria a atenção para algumas ditas camadas necessárias. Por exemplo: nunca toquei um instrumento na vida. Não foi por falta de querer e tenho duas memórias com relação a isso. A primeira é que meus pais não pagaram o curso de violão, que acontecia no colégio. A segunda é que eu não insistiria, pois cresci me acostumando a pedir nadinha.

 

Já era conformado de que eu não ganharia. A não ser os CDs de Sandy e Junior perto de todo Dia das Crianças.

 

Também nunca compus uma música. Por incrível que pareça, a escrita não era meu ponto forte naquela época.

 

Por outro lado, me tornei uma ótima ouvinte, especialmente de rádio. Ponto que continua interessante de observar quando reconheço alguma música das antigas na FM. Também me tornei uma ótima leitora, pois os encartes eram os únicos livros que lia. Fato de muita dedicação, pois comecei a traduzir as músicas e, assim, aprendi inglês. Enfim. Era um envolvimento fortíssimo e que, provavelmente, teria me feito uma resenhista de discos. Porém, isso nunca passou pela minha mente juvenil. Nem chegou perto, mesmo com a tecnologia em ascensão no início dos anos 2000.

 

Eu não tinha a menor ideia do que fazer quando crescesse e arrisquei de tudo. Como uma carreira de modelo, que nem sempre lembro, visto que a experiência foi um pouquinho devastadora. Até cheguei a mandar carta para entrar no elenco de Chiquititas. Talvez, era para eu ser artista, mas perdi o oxigênio cedo demais para batalhar. A partir dos 14 anos, minha mente se ocupou em armazenar as tragédias e produzir novos tipos de comportamento que me afastariam da música anos depois. E os objetivos seguintes, até hoje, parecem que não foram uma decisão minha, mas intoxicação externa.

 

Menos a escrita.

 

Ainda insisto em não afirmar a música como um hobby. Sempre me foi algo mais. Uma forma de exalar. Eu adorava sentir meu corpo em movimento. Eu adorava decorar todos os passos e as letras. Sentia satisfação por agir assim, um comportamento natural da fase. Embora eu veja agora como a música me ajudou a escapar das emoções confusas da época, como me sentir deslocada e rejeitada. Menos dentro do quarto. Lá, eu pertencia ao meu público imaginário e arrasava. Uma vez que eu apertasse o play, ninguém me atingia, pois eu sabia o que fazia entre quatro paredes.

 

Ou quase, pois sempre vinha alguém reclamar do volume do som.

 

A partir dos 14 anos, minha vida mudou abruptamente devido às interrupções que só me foram esclarecidas milhões de anos depois. A música não chegou a desvanecer totalmente nessa época. Foi um processo gradativo que pode ser confundido com uma súbita queda de interesse (até porque eu também amava assistir filmes). Por um tempo, todas as músicas ficaram presas no Outro. Como ver a batedeira rodopiando no mesmo ponto. Até trilharem rumo ao fade out.

 

De uma garota que poderia ter dito que não vivia sem música, ponto que corroboro de tamanho que era o envolvimento do meu eu daquela época, me tornei a garota que podia passar tranquilamente sem escutar um A.

 

Hoje, tenho várias leituras dessa mudança — que nunca percebera como uma mudança até 2020 acontecer. Uma parte dessa jornada musical se interrompeu quando meus pais se divorciaram. Um tempo, fragmentado. Minha mãe não tinha a mesma ligação com a música se comparado ao meu pai — e foi ele quem me deu bandas nacionais, como Skank, Paralamas do Sucesso e etc.. Do nada, esse espaço de entrada de CDs, de novidades musicais, sumiu.

 

Sem notar, acumulei as interrupções e as carreguei como tragédias. Algumas realmente foram tragédias e culminaram em traumas que comecei a resolver em 2018. Outras nem sei o que dizer, pois também podem ser consideradas reações da fase. Entretanto, tudo criou um cemitério mental, mas sem explicação, continuei dançando. Como se fosse a única coisa possível. Dessa vez, nas salas de diferentes apartamentos por serem os espaços maiores e eu poderia esticar a perna sem me arrebentar. Dos 14 fui para os 15. Dos 15 aos 16. Os 16 representam o declínio que se expandiria dos 17 aos 18. Em algum momento, deixou de ser interessante reprisar todos os lances da turnê As Quatro Estações.

 

Voltando aos 16, saí do colégio que estudei praticamente a vida toda e faltavam dois anos para a formatura. Meu mundo ruiu mais e até hoje isso nunca se apagou dentro de mim. Uma vez deslocada da normalidade que eu conhecia e com um senso ainda mais errático sobre mim, o tempo fechou e fui absorvida pelos meus próprios funerais. Tornei-me estrela de rock, como a Amy Lee, e abracei meu lado de cantora imaginária. Não havia coreografias. Apenas rodopios, chacoalhar o cabelo e ondas de angústia acarretadas por letras que entregavam minha súbita mudança de humor e de comportamento. O mesmo sobre as emoções que começaram a se avolumar. Tudo, sem brecha de entendimento e digestão. Ao menos, a música continuou a me entreter. Mesmo que fosse para chorar.

 

Conforme mais interrupções aconteciam, mais minha mente saía da realidade comum das pessoas ao meu redor. Ao menos, fui encontrada rapidamente no outro colégio graças ao meu novo escudo em ascensão: Harry Potter (meu fichário com o símbolo de Hogwarts me salvou demais!!). Meu primeiro e último universo paralelo, pois, quando penso em música, eu ainda estava no tempo de todo mundo até ser deslocada para uma redoma, cujo vidro engrossou com o passar dos anos. Lá dentro, veio a escrita, que se tornou algo mais só em 2005. Até isso acontecer, conheci variações do metal por meio da amiga nova, ao mesmo tempo que explorávamos o universo potteriano por intermédio da leitura e RPG.

 

CDs do Evanescence, Lacuna Coil e System of a Down

 

Iniciou-se a mudança musical. Minha história com Sandy e Junior acabou. A de outros artistas que amei na primeira fase em que tive consciência da minha vida, da minha presença e do que eu poderia realizar, especialmente no quesito corpo, como Britney Spears, também se foram. Bandas nacionais? Só se eu assistisse a MTV e continuei até onde foi possível — já que os VJs mudaram para falar com um novo público que consumia o canal e eu não gostei tanto assim. Um novo espaço se abriu, onde eu tive que criar um novo catálogo de música. E esse vazio foi preenchido com canções “barulhentas” e letras melancólicas ou enraivecidas. Assim que terminei o ensino médio, só me lembro de sair na rua trajada de luto.

 

Sei que foi aquele momento em que as músicas certas te encontram quando você precisa. Apesar da tristeza canalizada em My Immortal, tudo de mim se identificou com aquela dor específica. Era uma massagem que me fazia chorar antes de aprender a segurar o choro ou chorar sem fazer barulho. Ou então era um estalar interno, como cantar o Live in Texas do Linkin Park em plenos pulmões para liberar a raiva que começou a tomar forma. Várias emoções passaram a ter títulos de música, pois eu não sabia nomeá-las. A cereja foi parar com os diários e os rasguei. Porém, lembro de ter começado a me aventurar em “poemas góticos” quando conheci bandas nessa linha.

 

No que pareceu de um minuto a outro, eu tive que aprender a viver de outra maneira, já que não havia mais espaços conhecidos. Sobrou para mim, a pessoa que não tinha uma palavra para expressar emoção negativa, a não ser raiva. Nem para explicar o que aconteceu comigo antes do divórcio. Tudo se somatizou e me tornar a cantora imaginária, desejando o coturno preto da marca All Star (uma das maiores modas da época), foi o mesmo que me expressar em cada estrofe. Em vão, pois nada se elaborava e esvaía. Eu não possuía as ferramentas que tenho hoje para, ao menos, cavucar e refletir.

 

Ser adolescente é mesmo elevar tudo até a última potência e piora quando não se tem apoio psicológico e emocional. Inclusive, um adulto que possa ouvir suas dores sem causar mais traumas no processo de escuta. Eu engoli tudo junto com a raiva e nunca mais parei de me afogar. De me isolar no que se transformou em uma tristeza profunda que me desvia e aliena. O retorno para a superfície é lívido e confuso, pois o tempo segue curso sem você.

 

Pontos que me abriram para um processo recente de comparação entre esse período da adolescência com 2020. Pensando em música, claro, que sinaliza várias lacunas em minha história. Notei que, nesse período marcado pelo início do fim da minha adolescência, não dei mais atenção às letras. Do jeito que eu fazia: sentar com o encarte, o dicionário e traduzir linha por linha. Aos 16, eu já entendia o que era dito, sem precisar consultar tanto, e isso trouxe o comportamento sobre articular o significado da música para mim. Não é à toa que, quando escuto, penso mais no momento que vivo com a música em vez de me nortear pela inspiração do artista — justamente porque não procuro essa informação enquanto eu não tiro meu próprio significado do que foi composto.

 

Fora as recentes emoções de reviravolta, como ter em mim a memória de que o Evanescence se tornou absurdamente dolorido e Deus me free relembrar disso. Quando peguei a banda para ouvir em 2020, não era tão dolorido. É profundamente triste, pois Amy Lee liberta demônios internos para voltar a respirar adequadamente.

 

Ao contrário de Linkin Park que continua minha banda de expressão de raiva. E foi em 2020 também que entendi muitas das motivações do Chester em cada letra e isso só fez o favor de partir mais meu coração.

 

No passado, me faltou essa leitura com relação aos artistas desse gênero musical e isso ressignificou tanto meu envolvimento com essas bandas. De um jeito bom, pois, agora, leio muito mais beleza nas composições. Vejo expressar vulnerabilidade como coragem e o metal, especialmente o gótico, tem muito disso. Por isso se torna ainda mais importante quando essas bandas são lideradas por mulheres.

 

E sei que Evanescence nem é considerado gótico, mas é gótico em meu coração.

 

Minha falta de atenção com as inspirações dos artistas se deu também porque vivi em um período que a internet estava em formação. Tudo que eu sabia de behind the scenes vinha da MTV até eu parar de ver a MTV. Logo, todas aquelas novas músicas criaram a vida que decidi dar e marcaram essa fase conturbada da minha vida. Tornando-se símbolos de “estou no limite de algo”, embora eu tenha ressignificado ao decidir ouvi-las quando tenho vontade.

 

Às vezes, bate só o desejo de lembrar do vozeirão da Cristina Scabbia e do quanto as letras do Lacuna Coil são ótimas. O mesmo para quando retorno ao pop, uma experiência que ainda considero recente, já que as variações do metal que conheci afogaram os artistas desse gênero que amei na adolescência.

 

(…)

 

Em algum momento as músicas atingiram o fade out. Percebi que, na última mudança de apartamento, após o divórcio dos meus pais, os CDs foram fragmentados. Meu pai levou os dele. Os meus ficaram distribuídos em várias caixas, pois não havia lugar para colocá-los. Só mantive os que mais escutava perto do aparelho de som — que nem sei o que aconteceu. Logo, a quantidade acessível diminuiu graças aos computadores, MP3 e afins. Foi quando me desconectei por completo e a escrita impulsionou esse desvio junto com Harry Potter. Assim, foi fácil esquecer da música uma vez espalhada em lugares imemoráveis. Estudiosos diriam que meu tempo dedicada chegara ao fim. Era tempo dos livros.

 

CDs das trilhas sonoras dos filmes Titanic, Segundas Intenções, Crepúsculo e The Vampire Diaries

 

A partir disso, a linha do tempo fica bastante confusa, visto que perdi minhas músicas e as músicas de outras pessoas que amei muito (e ainda amo com doses intensas de nostalgia). Cada reviravolta abrupta me tirou a própria sonoridade e a sonoridade de alguém. Com o passar dos anos, um pedaço machucado dentro de mim decidiu que não era uma boa ideia reviver essas playlists. Sei disso porque, até antes de 2020, Britney Spears machucava bastante. Fosse por ter tido amigas que curtiram essa fase comigo ou pelas memórias péssimas do transtorno alimentar. O mesmo para a Sandy, pois todas as garotas da época queriam ser como a Sandy — e tem mais por trás dessa perda e conto em outro momento.

 

O que me lembro claramente é do meu primeiro MP3, que me acompanhou nas jornadas de trabalho e da faculdade. Várias músicas não eram de própria escolha, pois passei a ser influenciada pelo que minha irmã escutava. Só assim para eu saber de Paramore e My Chemical Romance. O mesmo papel coube à comunidade online de Harry Potter.

 

Fora os CDs gravados. Gravei para salvar as músicas e ganhei vários que abriram mais para as variações do metal.

 

Não sei com precisão qual artista trouxe outra reviravolta no quesito musical. Talvez, foi Demi Lovato, que não me recordava da influência até reencontrar o ingresso do show. Nas memórias difusas, vejo The Killers como símbolo de passagem para um pouco mais de claridade. Tenho lembranças fortíssimas com Believe me, Natalie, Romeo and Juliet e Glamorous Indie Rock and Roll. Sinais de que a música não morreu totalmente, mas não grudava como antes. Com tantos gêneros disponíveis, em função do avanço da internet e das experiências no Orkut, eu não me encaixei e parecia caso de inseguranças juvenis. Só que, no fundo, eu ansiava a mesma linguagem de outra pessoa, embora eu tivesse Harry Potter. Restou criar um novo catálogo pessoal com as letras que me mostravam ou que eu encontrava na página de alguém.

 

Sei que a música não morreu totalmente devido às trilhas sonoras de filmes e séries. Dawson’s Creek e The O.C. são grandes exemplos, mas nada bateu forte como Titanic, One Tree Hill e Skins. Teve também o papel da minha irmã em continuar legados, como dar fôlego à coleção de CDs da Britney Spears. E esses dias me recordei da trilha sonora de Jogos Vorazes: Em Chamas, e como amei esse disquinho! É até cômico pensar que foi a primeira vez que ouvi The National na vida e detestei. Agora, é uma das bandas que amo e que vive no meu Spotify Wrapped.

 

De todo modo, é difícil catalogar o tempo da música entre o que me parece ser de 2006 a 2010. Contudo, sei que teve uma pessoa de influenciadora e lembrei dela esses dias enquanto, do nada, tirei Enation do limbo. Só assim para eu saber sobre The Killers. Tenho méritos, como ter me apaixonado fortemente por Snow Patrol em 2009. São memórias esparsas, mas latentes quando me alcançam. Gratidão pelos CDs e ingressos guardados e que me ajudam nessa recostura.

 

Toda vez que retorno para esses entretempos, que representam a confusão, vejo os outros vários assuntos que me consumiam. Era o início do fim da parte exaustiva e dolorosa do transtorno alimentar, que deixou de herança um trabalho tóxico, com um chefe verbalmente abusivo (uma delícia de primeiro emprego, não recomendo). A aparente crise de ter me apaixonado (embora eu conteste isso por ser o meu jeitinho), a faculdade, cobranças do início da vida jovem adulta, recaída do transtorno alimentar e muito mais. Parece que o “drama” nunca se interrompeu e isso me separou de muita coisa. Foi impossível não ter a lacuna musical, ainda mais quando não havia uma espécie de elo permanente para manter a chama acesa (e tinha). É quando vejo a potência de viver na própria cabeça. Ondulando e me afogando com as interrupções que mudaram minha composição. No entanto, não sentia a raiva.

 

A raiva se escondera em algum canto para despertar quando conveniente (2020). Se eu mesma pudesse me resenhar no ínterim 2006 e 2010, diria com tranquilidade que segui como uma ferida aberta sendo intoxicada pelo pior do mundo, das pessoas e de mim mesma. Creio que o tempo vivendo na minha cabeça, protegida pela redoma, me deixou letárgica o suficiente para caber só tristeza. Além de sintomas das tragédias, nuances juvenis e ausência.

 

O interessante é que uma hora coisa boa volta. Aproveitem, não é todo dia que estou otimista! Mas não tem como não pensar em música como algo bom, pois alivia. Ajuda a elaborar emoções. A botar o choro e a vida pra fora. A sentir.

 

Não que eu não sentisse antes, mas tenho comigo que nem sequer percebia o mundo ao redor. Eu não percebia a vida. De algum jeito, a música também se tornou marco de dor (e digo também porque não tem como contar minha história sem mencionar um tipo de trauma e juro que não foi o tempo todo assim). Ao menos, no que condiz ao passado e isso reflete demais na quantidade de vezes que tentei me reconstruir. Em tentar me encaixar em algo. Deu certo em alguns instantes, pois, felizmente, há marcos positivos que carrego até hoje e que me fazem sorrir. A recompensa agora percebida.

 

Escrever sobre esse miolo da minha história, que transformou meu envolvimento com a música, me fez acessar mais ao que já acessara em 2020. Percebi que eu procurava músicas que seriam capazes de dizer algo além de mim. Lembrei que fui a pessoa da letra, como diria Peyton Sawyer, personagem de One Tree Hill, e isso sempre foi o suficiente para me acolher. E sei que essa narrativa sobre música pode ser familiar. Afinal, no que condiz a parte de sentir e perceber a vida, a experiência é universal. Especialmente para quem tem feridas profundas e paredes para conversar.

 

Não tem nada de especial, mas importa para mim. Eu poderia ir mais fundo para explorar como me sinto enquanto escuto música. Porém, creio que é tão privado, movimenta tantas coisas, que eu não conseguiria ser leal ao que sinto.

 

Em contrapartida, notei que dá para falar sobre recosturar esses e outros fragmentos. Fato que me fez resgatar as antigas playlists. Com as músicas que pairaram a ideia de composições insuportáveis demais para serem ouvidas novamente. E fazer a playlist de composições que me lembram de como sorrir de novo e que a vida não é só funerais.

 

II.

CDs da Taylor Swift, Snow Patrol, The National e Florence + The Machine

 

De 2010 em diante, sei que vieram shows e festivais. Outras sonoridades e experiências com a música. Por anos, parecia que eu tateava a procura de uma emoção específica, mas, por muito tempo, nenhum artista se encaixou. Não como a Britney, a Sandy, os Backstreet Boys. Até eu me considerar fã de praticamente todos que conseguia enfiar no então MP4.

 

De qualquer modo, essas lembranças são mais táteis em comparação à linha do tempo 2006-2010. O que pode ser questionado, já que os eventos de 2020 criaram um apagão tão grande ao ponto de esvaziar a minha mente. Nunca me senti tão distante de tudo. Porém, houve flashbacks que me fizeram pensar em música, em tantos assuntos da época adolescente. Como o lance de ter mudado do colégio da minha vida faltando dois anos para me formar.

 

Como perceber que eu procurava a música. Automaticamente, uma conexão profunda com pessoas, pois, ao longo dos anos, carreguei a impressão de que fui impossível de fazer amizades e incapaz de prolongá-las assim que o ambiente não era mais comum. No entanto, e ausente desses vereditos, que me alcançaram somente em 2020-2021, os sons e as lembranças ficaram de fundo enquanto se via inúmeras mudanças na forma de consumir música. Sem notar que eu até participava, mas estava presa por dentro. Não havia mais o gosto de dançar, logo, me deixar ser.

 

Mas sempre houve gosto por cantar e me tornei dedicada com as letras de novo. Ao menos, quando ia em shows.

 

Aí vem a parte triste, como os CDs encarecerem, as lojas desaparecerem. Uma tristeza que se relaciona com o fim das locadoras. Chega a ser lindo que a única conta de rede social que tenho viva a mais de dez anos é o Last.fm. É um lugar onde tenho meus registros musicais desde 2008 e não sei o que será de mim quando anunciarem o término (não ousem!).

 

Voltando ao MP4. Com tantos artistas, e nem todos tão aderidos em mim, essa história mudou profundamente em 2014. Ano em que o 1989 de Taylor Swift foi lançado. Não me lembro do caminho que percorri para alcançar a nova loirinha sagitariana do pop, visto que eu era mais uma que não a suportava (e contei mais nesse post Taylor Swift, eu e as linhas vermelhas (Parte I)). Aleatoriamente, eu estava empolgadíssima com o lançamento. Enquanto o álbum não saía, senti que voltei mil vezes ao instante de esperar o CD das Spice Girls chegar na loja e sair toda vez decepcionada!

 

Taylor mexeu na parte do meu cemitério mental em que o pop morreu em mim. Ela resgatou o fascínio que esse gênero musical costumava me provocar. Sem contar que tinha o nome do Max Martin, que bateu o sino de reconhecimento por ter trabalhado com Britney Spears e os Backstreet Boys. Lembro-me que nem precisou tocar tudo, mas já estava obcecada por Out of the Woods. E as polaroids. Quando ouvi o álbum na íntegra, me senti teletransportada para a época em que escutava rádio devido às faixas com influência do pop do final dos anos 80. A cada play, me senti em um espaço que trazia felicidade.

 

Quanto mais eu o escutava, mais nuances musicais da vida passada foram despertadas. Pensei que, ok, até sei do assunto. Sem contar que esse momento calhou de ser referência para eu me questionar sobre a possibilidade do meu relacionamento com a música ter se transformado em função de gosto (a resposta: eu estava distante de amadurecer gostos naquela época e sinto que esse processo começou ao tratar meus traumas e eventos erráticos).

 

Sem dúvidas, a música pop foi a que mais tocou aqui do meu lado e sempre me deixou contente. Sempre me deixou leve em meio a problemáticas e febres de paixonites. Não havia ninguém no mundo igual a Sandy, Britney Spears e os Backstreet Boys. Não havia nada como a MTV. A não ser o rádio, óbvio, que me acompanhou também ao longo do crescimento. Quando meu tempo fechou, o pop deixou de fazer sentido e me sinto esquisitíssima quando coloco para ouvir nos dias atuais. Do meu ponto de vista, o que era natural se tornou algo tão fora do personagem. Até mesmo dançar e aí preciso encontrar o botão desconexão para aproveitar. Depois, me questiono se não cansei de passar vergonha.

 

É quando vejo o quanto ainda me sinto internamente entravada.

 

Apesar de algumas resoluções sobre eventos traumáticos e erráticos, meu tempo nunca mais ficou no pico solar depois dos 14 anos. Há dias de Sol, mas não ausentes de melancolia. Hoje, os dias de Sol aprendem a se assentar com a melancolia. O mesmo para minhas preferências musicais, onde a letra triste se encontra no céu de brigadeiro.

 

Quanto mais revejo esse período, mais tenho essa visão de que eu não conseguia mais me relacionar com o que eu curtia antes das tragédias acontecerem. Nem me envolver com o que me acolheu enquanto o impacto das tragédias não passava. Percebi isso em 2021, quando nem Deus conseguiu me inspirar a ouvir Taylor Swift. Ela se anexou na memória de outro capítulo horroroso da minha vida e, juro, trabalhei ao máximo para que isso não acontecesse. Porém, foi só dar play no folklore ano passado e senti como a pessoa que implora para o DJ tirar a música associada a um tipo de ex. Pela primeira vez, notei um atípico desconforto interno, como se eu não me identificasse mais e precisasse evitar. Começou a crescer esse súbito ranço da Taylor, sem razão alguma. Era só ver uma foto dela que eu ficava enrijecida e irritada!

 

O que não fazia sentido, pois preservei ao máximo o primeiro play no folklore. Eu não queria maculá-lo, ou seja, torná-lo o álbum de escape. Eu queria ouvi-lo presente. Consciente. Sem tanta influência das emoções tortas. Senti que deu certo até 2021 chegar. Quando ousei no play de novo, cada música me trouxe as memórias atribuladas de 2020, enquanto eu, sozinha, atravessava por tudo internamente. Vendo e concluindo coisas doloridas.

 

Eu não queria ficar nesse súbito espaço desconfortável e procurei a substituta. Phoebe Bridgers disse presente e me encontrou. Funeral foi uma das primeiras músicas que escutei em 2021.

 

Quando volto a cena, a Phoebe veio para tapar o vazio que a Taylor deixou. E ocupou bem demais. Sendo que esse vazio não ficara realmente vazio. Eu sentia falta da Taylor e concluí que previa uma possível perda de quem gostava muito. Será que isso soa familiar com tudo que começou a acontecer a partir dos 14 anos? Minha analista ficaria orgulhosa! Foi rápido entender o que acontecia e evitar a loirinha explicou bastante sobre meu súbito afastamento de artistas que amei na adolescência (e até mesmo de pessoas).

 

O caminho abriu para eu questionar determinadas partidas. No caso da Taylor, não foi evolução de gosto. O mesmo para Sandy e Junior e esses dois me deram o argumento de percepção final sobre a autodúvida relacionada a essa questão. Em suma, pelos olhos das músicas perdidas no passado se demarcam o território onde as tragédias aconteceram. Como comentei, as músicas se tornaram mais potência de memórias doloridas. E, aos poucos, notei que nunca lamentei por esses períodos ou descolei o esparadrapo de certas feridas ou me despedi apropriadamente.

 

Diante de mim, uma nova série de assuntos que precisavam/precisam de encerramento. E as músicas encontradas em um durante, onde ainda não tinha noção de tanta coisa que de certo melhoria minha vida, pareciam não grudar em mim. Provavelmente, eu não queria criar novos marcos com outras pessoas (e esses marcos se criaram mesmo assim). Ponto que pode justificar os motivos de eu ter uma dificuldade tremenda em compartilhar música.

 

É como se fosse uma proteção em que ninguém me conhecerá de verdade.

 

Antes, eu achava que era aquela besteira de evitar posers.

 

Mesmo que inconsciente, abandonar tudo que gostei e esperar/procurar substitutos foi a defesa para não acessar essas experiências de novo. Basicamente, Harry Potter assumiu o espaço da música. Independentemente de eu ter conhecido vários artistas no processo, a saga nunca me machucou. É onde tenho as memórias mais felizes.

 

Por Harry Potter ocupar esse espaço, considerei um processo de amadurecimento comum. Como a mudança de gosto, mas nunca carreguei melodias dos tempos antigos. A não ser as pastas com revistas e afins dos artistas, que joguei fora em 2018. Sempre tive a impressão de que não carreguei nada, pois as canções do passado se tornaram espinhos que me atingiam em espasmos esporádicos. Como ligar o rádio e, de repente, toca a música que você dançou na festa junina do ano X. Mas eu carreguei tudo comigo. Os CDs permaneceram nas caixas. Aguardando.

 

De fato, alguns processos meus foram de amadurecimento comuns. Porém, a maior parte foi transtorno mental, assuntos não resolvidos e comportamentos responsivos formatados pelos impactos das tragédias. Hoje, felizmente, consigo separar o que se foi musicalmente por questão de gosto dos falsos avanços da minha personalidade.

 

A magia que eu sentia com a música pop no geral foi com Deus. A principal mudança sobre mim e escuto somente para malhar ou quando dá saudade. Por outro lado, 2020 me deu a oportunidade de me reconectar com essa parte de um jeito mais intuitivo. Sem medo das memórias. Houve até um instante que me peguei chorando do nada e ri em seguida. Porque é sobre isso: espaços de felicidade. Antes de toda tragédia, havia um eu contente de ter esses CDs, de manchar o encarte com dedos engordurados, que amou demais cada artista e as pessoas com quem compartilhara as músicas (mesmo quando eu expressava comportamentos imbecis da juventude e isso eu tomo responsabilidade).

 

Nisso, me veio a ideia de iniciar um projeto chamado Revisitando o Disquinho e comecei com Britney Spears. Não foi adiante, mas sinto ainda essa necessidade de reencontrar e reexperienciar essas canções para não ter mais fantasmas dentro de mim. É uma reconciliação que ganhou reforço em fins de 2020, no dia que publiquei meu conto, Sintomas do Depois. Às vezes, a vida dá umas reviravoltas inacreditáveis.

 

Era dezembro e participei de um projeto assinado por quem foi uma das minhas melhores amigas do colégio (sim, aquele que fui embora). O assunto não importa, mas foi aquele instante em que nos reencontramos depois de anos para falar das dores silentes. Que ninguém compreenderia com a mesma abertura que mais ou menos existe nos tempos atuais. Um assunto que mudou nossas vidas, de jeitos diferentes, e convivemos dentro daquilo, sem que ninguém soubesse.

 

Nem mesmo uma à outra.

 

Como parte de conclusão do meu relato, eu tive que levar algo que me ajudara a ultrapassar essa dor silente. Passei dias refletindo sobre, porque nem tinha lembranças de um ursinho de pelúcia. Harry Potter estava adiante do que eu levei para falar nesse projeto. Então, me lembrei dos CDs fragmentados em várias partes da casa.

 

Por alguns instantes, cheguei a sentir que era uma resposta falsa em reflexo da minha desconexão com a música. Independentemente de ter resgatado tantas ao longo de 2020. Mas escolher meus CDs como âncoras clareou essa parte da minha vida em que acreditei piamente de que não houvera nada. Apenas eu, dentro do quarto, quebrando. Sentindo falta de algo, de coisas inomináveis, me sentindo culpada por coisas fora do meu controle e devido a vários comportamentos meus que hoje vejo como erráticos. Não importava o momento, a música persistiu e continuou como uma bolha ao redor da minha cabeça.

 

Esticou-se nos anos em que descobri a escrita. Como costumava ser antes das tragédias, já que música acompanhava minha atitude juvenil de escrever em diários — até não haver mais diários. A música nunca se foi quando transformei os diários em uma página do Word. Música encontrava a escrita frequentemente. Sempre de fundo. Mesmo sem CDs.

 

Mesmo sem eu estar emocionalmente envolvida com os artistas — ou ao menos supus que não estava. Afinal, comecei a abrir morada dentro da minha cabeça tal qual a Alice. Explorar a imaginação se tornou a maior das minhas âncoras e chega a me surpreender sempre, pois nunca me vi escrevendo. Nunca disse que seria escritora. Por outro lado, sempre me vi amando música e, em todas as linhas do tempo, sempre houve um artista que guardei como algo sagrado.

 

Um diminuto sinal vital que, uma vez sobreposto na realidade, sinto que existo.

 

O mesmo quando as canções chegam pelos fones de outras pessoas.

 

 

Também nunca disse que seguiria carreira na música. Eu só queria saber dos meus shows imaginários e estudiosos diriam que fui a criança artística. Bom, não contra-argumentarei essa hipótese. Ainda mais quando, em uma sessão de análise, recebi a missão de revisitar a minha infância. Vi-me fantasiada e dançarina e etc.. Sorri e fiquei triste.

 

De qualquer forma, eu entendi que a música desaparecera. Porém, um período de psicanálise tem a habilidade de te dar ferramentas para olhar para cantos aparentemente resolvidos na tentativa de reverter o que se inscreveu na própria mente. Percebi, entre raciocínios recentes, que, conforme episódios traumáticos ou perdas desavisadas aconteciam, uma música ia embora. Quando meus pais se divorciaram, as músicas que afirmavam a normalidade pararam de tocar. Toda a rotina de ter CDs se esvaziara e notei isso depois do show do Skank — a experiência em um espaço de felicidade.

 

Por só enxergar as interrupções, não enxerguei as contrapartidas. Ao mesmo tempo que perdi pessoas, ganhei pessoas também. Lá, com meu fichário com o símbolo de Hogwarts, fui encontrada por quem se tornaria uma grande amiga. Ela quem me apresentou System of a Down e, de início, achei esquisito. Depois, me acostumei a Aerials. Um prelúdio de outros amores futuros, como A Perfect Circle, Adema, Within Temptation, que vieram até mim por intermédio de outro grupo (o de Harry Potter). Lembranças conectadas à música, literalmente, terminaram em caixas.

 

Em 2020, me ver consumida também por emoções nostálgicas, despertadas quando eu me via perdida em música ou recebia uma informação esquecida no meu cérebro em períodos de inércia, me fez notar como minha vida se rompeu em vários fragmentos entre os tempos. Fosse por razões acima do meu controle. Fosse pelas minhas próprias mãos. Largando espaços vazios que nunca me dera conta. O tempo continuou adiante, a se romper conforme outras interrupções aconteciam. Fosse em 2003 ou 2010, levando um pedaço de mim. Conforme eu seguia, ou achava que seguia, pela vida. Encurtando as canções que, desaparecidas, apagaram o tempo anterior. Deixando-me com a sensação de que nunca tive experiências que não envolvessem apenas funerais.

 

Fato que não se centra só na música, mas, quanto mais me aprofundo, mais faz sentido. Antes dos livros, o que me compusera, tornando-se minha identidade, foi a música. Conforme cada uma desapareceu, eu perdi um pedaço de mim também. É como uma pessoa perder todos os livros e despertar em uma realidade que eles não existem.

 

É o famoso quem é você sem isso?

 

Fui deslocada para outros tipos de pontos de partida. Aqueles que você não escolhe, mas norteiam pela falta de opção. Segui sedenta pela música de outras pessoas. Querendo me dividir sem saber como. Ou me privando por medos que ainda me são incompreensíveis. No entanto, cada passo dado foi percurso mais longe de quem eu costumava ser e amar. Ou de quem eu poderia ser, o que revela essa dúvida constante sobre nunca ter decidido quem eu seria quando crescesse. Se não fossem as fotografias… Por meio delas me lembrei que amava dançar. Performar. De estar no colégio. Lembranças que são boas, embora eu sinta os espinhos. Principalmente quando penso que não tem como voltar ao tempo e reparar algumas coisas. Como algumas brigas indecentes.

 

Mas não é essa parte que importa. Diante dessas imagens, fui desmentida pela hipótese que se transformou a mais afirmativa da minha existência: de que nunca experienciei algo incrível. Quando estar ao redor da música sempre me deixou feliz. Rendeu vários instantes icônicos, como ir ao show dos Backstreet Boys. O primeiro show da vida!

 

A parte boa é que os CDs são minhas fotografias sobre eu ter sido fã de música. Sobre eu ter participado. Sobre cada artista ter se tornado um símbolo da minha identidade. Por isso me perdi com o MP3 e continuo a me perder no meio do Spotify, pois penso: o que vai ser quando isso acabar? Onde enfiarão as músicas? Como vou me lembrar?

 

Dramas da vida moderna. Resta praticar o exercício de anotar.

 

Ao reunir os CDs para atender ao projeto da minha antiga melhor amiga do colégio, em busca daqueles que realmente me ancoraram, as memórias desbloqueadas vieram tingidas de saudosismo. Sobre pastas com pôsteres e fotos, CDs até R$20 e a MTV disponível a hora que eu quisesse. Outros desaparecimentos que impulsionam o esquecimento. Em parte, eram escapes, mas também eram pontos onde eu me sentia como uma pessoa. Era onde eu me encontrava e me identificava. Cantos dentro de mim. Contrastes. Perdidos naturalmente, abruptamente e por motivos diferentes.

 

Ao escrever tudo isso, eu não sabia que me sentia dessa maneira ao longo da vida e imagino que tenha sido em função da enorme falta das músicas anteriores. As músicas que ficaram no colégio, onde se viveu uma parte maior da minha existência. As músicas que ficaram no apartamento marcado pelo divórcio dos meus pais. São tantas coisas que machucam e não temos a menor ideia, pois se escuta sempre que é um fato de milhões de brasileiros ou drama adolescente.

 

Mas isso tudo machuca. É um ponto dolorido, especialmente quando penso que não me despedi. Quando toca hope ur ok da Olivia Rodrigo, a gata aqui chora como se tivesse 16 anos de novo.

 

Honestamente, não sei o que aconteceria se eu não tivesse descoberto a escrita no meio desse rebuliço. A escrita também me faz sentir como uma pessoa, pois me dou voz e existência. Um canto inesperado na minha história, pois, como eu disse, nunca fui aquela que queria ser escritora e que ama livros. O máximo que li no colégio foi A Droga da Obediência, Droga de Americana e Droga do Amor, e isso significou histórias divertidas, que amei e virei fã. Mas as letras se conjuraram para dentro do novo quarto e serviram de novo escape do que doía — já que nada se esvaziava. Poemas góticos. Fanfics. Histórias inspiradas em música. Blogs e blogs que eram nada mais que RPG.

 

Depois de eventos traumáticos, você perde noções e o desejo de se fazer entender de novo pode ser buscado de maneiras erráticas. Pais dos anos 2000 diriam que eu me preenchia com músicas erradas, mas eram aquelas músicas que me davam as palavras de tristeza, raiva, e tudo mais, que não estavam no meu vocabulário. Todas se transcreveram no meu cérebro para refletir em comportamentos que, agora, vejo que não eram todos meus.

 

Uma parte vinha de algo além. Fantasmas de assuntos não resolvidos pulsando em todas as partes de mim. Criando um sistema de sobrevivência reforçado por uma péssima saúde mental (que só fui tratar em 2018). Sentir-me melancólica é um ponto constante. Na mesma intensidade que ter várias lacunas sobre quem fui no passado.

 

Essa sensação de apagamento no tempo me abordou em 2020 também e escrevi sobre meses depois do meu aniversário. Foi quando notei essa questão de eventos traumáticos absorverem tudo. Você, a realidade, pois há um período de concentração. Seja para entender o que houve. Ou para sair das emoções desconexas. Em algum momento, percebi que me esquecera de várias coisas antes de outra tragédia acontecer. Piorou porque eu não acompanhava a pandemia, ou seja, estava sem localização no presente de tão absorvida que fui pelo que desmoronava.

 

Bateu fortíssimo dentro de mim a verdade de estar em um universo paralelo, como em boa parte da minha vida. Vendo tudo transcorrer dentro de uma redoma enquanto as pessoas celebravam bolos e pães. Apontando direções que gostariam de estar e isso me deixou com senso forte de deslocamento. Meu mundo se acabava de outro jeito.

 

Um jeito que me botou de volta nos braços de Linkin Park e de Evanescence. Parecia que meu eu dos anos 2002/2003 voltara e queria me usurpar. Porém, foi o primeiro sinal no percurso sobre a música me querer de volta.

 

Apontando para feridas internas que eu ainda precisava tratar.

 

III.

 

Composição formada pelos CDs de Sandy e Junior, Britney Spears e Backstreet Boys

 

O tempo passou. Cheguei em 2018. Enquanto escrevia um romance/drama sobre uma personagem traumatizada que também perdeu as músicas da vida, uma pergunta nunca pensada e tampouco respondida me abordou. Por nunca pensada e tampouco respondida é porque não tem como eu voltar no tempo e sentar com aquelas minhas versões que encontraram tudo na música para questioná-las. Contudo, eu bem queria a chance de saber o que qualquer uma delas teria feito se tivesse levado todos os CDs a sério. Isso, considerando que a pauta faculdade não era um assunto comum entre minha família e, como contei, não fui a pessoa que sabia o que queria ser quando crescesse.

 

Tentei responder esse questionamento por conta própria e não acertei ainda. O que revela o real motivo deste outro textão (eu disse que não cumpriria a missão de textos menores).

 

Na época de Harry Potter, entrei no mundinho dos blogs e nunca mais saí. Ponto que gera a pergunta se eu teria feito um blog para falar de música se tivesse me mantido altamente conectada com o assunto. Contudo, sei que isso não aconteceria, porque eu não tinha habilidade alguma de escrita — a maior lorota que eu poderia dizer, já que comecei a escrever fics sem pestanejar. Eu poderia ter o conhecimento, dado por vários VJs empenhadíssimos, mas sempre fui melhor escrevendo sobre a minha vida. Em diários até perderem o charme (e voltou a ter charme em 2016).

 

Então, poderia ser um diário de música. Falar de música também é falar sobre a vida. É onde reside um scrapbook onde se cola os ingressos, tira fotografias e se guarda as playlists para nunca mais esquecer.

 

E decidi colocá-lo bem aqui. Ao vivo. Para vocês lerem!

 

 

O diário de música tem inspiração: da personagem que ocupa todos meus pensamentos atualmente.

 

O nome dela é Alice e ela foi mencionada nas redondezas deste site em vários momentos.

 

Normalmente, meus personagens apontam para irregularidades, desejos suprimidos ou representam quem eu gostaria de ser. Por essas e outras que resolvi olhar mais de perto e transitei a editoria Música de subcategoria para uma categoria. Foi a melhor solução para quem adora fragmentar projetos e já pensava em outro blog.

 

Eu só precisava de um espaço para falar despretensiosamente e colocar uma ordem nessa parte da minha história.

 

(…)

 

Os CDs em partes diferentes da casa. Eles precisavam se reencontrar e foi como encaixar uma peça do quebra-cabeça que sou. Um clique, onde aqueles tempos vibraram para a chance de redescoberta. Foi natural eu me perguntar como aqueles artistas desvaneceram de dentro de mim e como não dar tanta atenção à música me pareceu o suficiente. Perder a forma como a música regia dentro de mim foi como perder um enorme pedaço de quem sou.

 

Tenho uma caixa de plástico que, intencionalmente, guardei dentro do quarto que durmo. Tirá-la do armário foi como abrir um portal dentro de mim. Um lugar que era sagrado e acabou no meu cemitério mental. Em um espaço que sempre pareceu desocupado, sem luz, me fazendo acreditar que escrever sempre foi meu primeiro amor. Digo hoje que a música foi meu primeiro amor, mas música e escrita vieram em conjunto. Fui a adolescente que teve os famigerados diários, no final das contas. Além de viver de reproduzir a tradução das letras.

 

É quando reflito muito sobre processos naturais de amadurecimento, porque muito do meu foi longe do natural. É quando divago no que poderia ser barganha ou vitimismo, pensando que muito da vida deveria ser um processo sossegado, mas parece um experimento em que há um grupo exclusivo com essa oportunidade enquanto outro fica em redomas particulares. Às vezes, sem saber como sair. Quando se sai, ao menos, se vivencia o luto apropriadamente e vejo que há tanta coisa para eu ver, analisar de novo e me dar o direito perdido de lamentar.

 

Ao menos, em 2020 consegui lamentar pela inocência, mas essa passagem se abriu para tantas outras coisas. Fora do ciclo de traumas, há outros assuntos menores que me impactaram profundamente também. Como o já mencionado lance de ter saído do colégio. Vi essas amizades desaparecerem de mim, sem eu pedir. Foquei na dor disso, nunca na alegria de ter vivenciado anos tão excepcionais ao lado de pessoas que realmente espero que estejam bem.

 

Amadurecer não deveria ser tão complicado e digo isso de um espaço machucado. Por vezes, cheio das barganhas. A história de cada um deveria ter um curso natural, justamente para não nascer essa constante romantização de que as tragédias acontecem para seu próprio bem. Penso que quem diz isso não sabe da dificuldade que é sair do espaço de trauma. Ou o quanto de tempo nesse espaço é levado. É como tentar lutar, sempre, pelo estado de sobriedade.

 

O trauma age de tantas formas bizarras no cérebro. Consome tanto tempo. Tinge a vida com processos naturais que não são verdadeiros. Quando você desperta disso é outro processo de querer manifestar uma existência melhor.

 

Pontos que capturei, pois o bom de um tratamento psicológico é que você aprende a questionar e questionar também dói. Porque revela o omisso. O confuso. O fantasmagórico. É difícil ter uma resposta sobre como algo tão intrínseco ao coração sumiu. Sem mais, nem menos. Algo que você foi lá, escolheu amar e todo seu universo girou em torno. Isso, de um ponto de vista juvenil, pois bate diferente. É como encontrar o único brinquedo da vida sobrando na loja.

 

Agora, é como se eu tivesse que visitar uma nova categoria de túmulos que nunca me dera conta. Sandy e Junior têm que ser os primeiros. Já larguei a pá para enterrar Taylor Swift, porque ela conseguiu sobreviver em meio às crises.

 

Sei que alguns artistas tomaram rumo para fora da minha vida. O percurso natural, que tem a ver com gosto e amadurecimento (acredito que posso inserir amadurecimento normal aqui). A fase, algo que associo a minha era de metaleira com uma pitada de emo. Era o que eu precisava naquele momento da minha vida, especialmente pela necessidade de ter companhia, mas não quer dizer que parei de visitá-los. Costumo, quase sempre que me sinto para baixo, só que tenho conquistado novas nuances. A nostalgia sabe aliviar aparentes memórias desastrosas.

 

Uma nostalgia positiva que tem seu poder regenerador.

 

Hoje, eu gostaria de recuperar essa história e seria impossível começar este diário de música sem dar essa breve volta no tempo. Digo breve, pois mais memórias me abordaram e segurei os dedos nervosos. É uma honesta ideia de falar mais sobre o que escuto ao mesmo tempo que aprendo a me mostrar. A permitir que conheçam minha sonoridade.

 

Este post estava escrito desde 2020, com foco total em Sandy e Junior, mas rolou essa longa alteração. Porém, Sandy e Junior terminaram de acender as luzes que um dia a Taylor instigou. Todas as músicas em mim. Há algo a ser lido nessas letras perdidas coordenadas com as letras encontradas ao longo do trajeto da sobrevida. Talvez, para me aproximar mais de mim. Para reencontrar a versão de mim que só faltava se tacar no chão para ter um CD.

 

E continuo a me perguntar: o que meu eu em sã consciência teria feito com todas aquelas músicas? Com todo seu conhecimento? Não queríamos dispensar os CDs, fato que já diz bastante. Por enquanto, sei que me envolver com a música de novo é o mesmo que reivindicar quem fui antes das tragédias acontecerem.

 

Revelar o caminho para que as músicas saiam dessas caixas esquecidas nos armários e voltem para casa.

 

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Escritora dividida entre o tempo e o espaço. Colecionadora de achados e perdidos. Ex-líder de um Capítulo Local do movimento internacional chamado I AM THAT GIRL. Não poupa no textão e nem nas doses diárias de café. Além disso, acredita piamente que você pode ser sua própria heroína.
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